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Aborted: Entrevista com Sven de Caluwé

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“Podíamos ficar mais técnicos, mais groovy ou mais negros, com mais dinâmica e melodias. No final acabámos por decidir fazer todas as três coisas.”

Os Aborted são uma das mais competentes armas de destruição maciça do death metal europeu e, ao dobrarem duas décadas de carreira, estão no ponto de equilíbrio perfeito entre níveis ridículos de brutalidade, abordagem técnica irrepreensível e passagens obscuras de atmosfera doentia. “Retrogore” é o nome da nova proposta e foi sobre ela que falámos com Sven de Caluwé, vocalista desta instituição belga.

Existia algum objectivo definido, algo que tivessem conversado no seio da banda antes da fase de escrita deste novo álbum?
Levar a banda ao próximo nível. Já nos tínhamos superado nos dois últimos discos, por isso o desafio agora era ver como poderíamos melhorar e, ao mesmo tempo, manter as coisas interessantes. Tínhamos várias direcções diferentes por onde escolher: podíamos ficar mais técnicos, mais groovy ou mais negros, com mais dinâmica e melodias. No final acabámos por decidir fazer todas as três coisas.

Foi um passo arriscado, não achas?
Sim. Acho que sim. [risos]

Nunca recearam estarem a optar por demasiadas direcções diferentes ao mesmo tempo?
Como podes ouvir, o disco continua a soar a Aborted. Por isso não creio que nos tenhamos afastado muito do nosso estilo habitual. Algumas pessoas vão achar que é a mesma merda porque é death metal, mas escrevemos aquilo que nos pareceu melhor.

É a mesma merda porque é death metal” parece o tipo de frase dita por alguém que não ouve death metal.
Sim. Por outro lado, há algumas pessoas que só procuram alguma coisa para se queixarem. Em primeiro lugar escrevemos música para nós próprios e em segundo lugar fazemos música para os fãs. O que é óbvio, porque são eles que apoiam a banda. Nos discos fazemos o nosso melhor para escrever material que nos satisfaça plenamente. E este disco não é excepção. Estamos muito contentes. [risos]

Têm um novo guitarrista, o Ian Jekelis. Ele mudou alguma coisa na forma como os Aborted escrevem música?
Nem por isso, mas acabou por contribuir muito para o trabalho. Acho que pelo menos quatro canções têm solos escritos por ele. Ele passou um mês na minha casa, juntamente com o Ken [Bedene, baterista], em que compúnhamos todos os dias. Deu para ver que ele trabalha no duro e é suficientemente talentoso para colocar os seus dois cêntimos na música. Mesmo nas músicas que ele não escreveu, dava sempre a sua opinião e ideias.

Depois de mais de duas décadas de carreira, estas injecções de sangue novo são importantes para manter a motivação em alta no seio da banda?
Não creio que seja necessário; estamos sempre motivados. Temos cinco pessoas muito criativas na banda, por isso existe sempre entusiasmo a chegar de todas as partes. Esta mudança teve de acontecer, porque o Danny [Tunker, anterior guitarrista] deixou a banda o ano passado, uma vez que tinha outras prioridades. Ele tem família e um emprego e a banda retirava-lhe demasiado tempo. Ele fez a escolha dele e, em última análise, acho que foi a escolha certa para ambos os lados. Tenho a certeza que ele está mais feliz agora e para nós as coisas resultaram muito bem. Toda a gente ganhou.

A banda tem tido uma boa dose de alterações de formação ao longo da carreira e tu és o único elemento original que sobra. Sentes-te de alguma forma o guardião da sonoridade dos Aborted? Tens algum tipo de voto de qualidade quando há dúvidas se uma determinada parte deve ou não fazer parte de uma música?
Sou um pouco mais crítico em relação ao que pode “passar” para a sonoridade de Aborted e o que não pode, mas no final das contas isto é uma democracia e toda a gente tem direito à sua opinião. O Mendel [bij de Leij, guitarrista] está na banda desde 2012, o Ken está connosco desde 2010, o JB [van der Wal, baixista] está na formação desde 2008 e todos eles têm sido partes importantes da composição desde que entraram. Se alguém tem alguma coisa a dizer, os outros ouvem. De vez em quando lá aparece alguma coisa diferente, mas neste ponto toda a gente já sabe mais ou menos o que é bom para a banda. Não existem vetos nem ando a dizer “Tem de ser assim”. Todos fazemos o que acreditamos que é melhor para o projecto.

“[Os filmes de terror dos anos 80] tinham frases curtas e muita merda azeiteira, mas por algum motivo havia muito encanto nesses filmes.”

O título do álbum refere-se aos filmes de terror dos anos 80. O que achas que esses filmes tinham na altura que o terror de agora não tem?
Encanto. Encanto e pior representação. [risos] Tinham frases curtas, tinham muita merda azeiteira, mas por algum motivo havia muito encanto nesses filmes. Havia mais preocupação em contar uma história do que existe actualmente, em que é tudo muito baseado em efeitos especiais. Muitas das histórias eram mais originais. Obviamente, hoje em dia é mais complicado inventar coisas novas porque já tanto foi feito. Mas nessa altura as personagens eram icónicas e duravam anos a fio. Não se encontra nada disso hoje em dia, em que os filmes são mais ou menos todos baseados em fantasmas. Não há um novo Leatherface, não há um novo Pinhead, não há novos Freddy Krueger ou Jason Vorhees. Essas personagens eram ícones que ainda hoje são fenómenos culturais. E já não se faz nada disso.

Achas que tem tudo a ver com a qualidade ou o cinema de hoje não possui o mesmo poder mediático e de aglutinação que tinha na década de 80?
Não falaria em qualidade, porque a representação melhorou imenso, em geral, nos últimos anos. Existe muita qualidade, mesmo nas séries de televisão. Não sei, talvez com esta melhoria na representação algum do encanto tenha desaparecido. É complicado dizer o que mudou. Na generalidade dos filmes actualmente não há um tipo mau que se destaque, excepto provavelmente o The Collector, mas fizeram três filmes e acabaram com ele. Nos últimos anos a única personagem icónica que realmente se destacou foi o Jigsaw, do Saw.

Existe também uma boa camada de realidade escondida por detrás das letras de terror do disco, certo?
Sim, há um par de canções sobre assuntos muito reais. Há uma que fala de “guerreiros” da internet, pessoas que não têm realmente uma opinião sustentada. Quando as ouves, parece que têm uma mensagem muito forte para espalhar na internet. E depois vais ver e nada daquilo é sustentado na realidade ou provado. As pessoas lêm qualquer coisa e acham-se logo donas da verdade, começam a espalhar a mensagem e tornam-se activistas de uma causa. Toda a gente acha que tem algo importante a dizer: são coisas religiosas, são direitos humanos, é política, tudo. Outra das coisas que abordo neste novo disco é como tudo é tratado como fast food actualmente. O modo como as pessoas ouvem música, como vêm cinema ou mesmo como interagem umas com as outras. As relações e o comportamento humano em geral… Tudo se tornou fast food.

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É algo que surgiu com o rápido desenvolvimento da tecnologia.
Sim, definitivamente. As pessoas estão habituadas a dizer online tudo o que lhes vem à cabeça porque não existe qualquer tipo de repercussão e não lhes acontece nada. E depois vemos essas pessoas a interagirem com pessoas reais e a coisa não corre assim tão bem. [risos] É muito diferente de antes de aparecer a internet.

Usaram um estúdio diferente na produção do «Retrogore» e do EP anterior «Termination Redux». Desta vez realizaram a gravação no Kohlekeller Studio. Tentaram conscientemente sair da vossa zona de conforto para ver o que conseguiriam fazer ou procuravam alguma coisa específica neste estúdio?
Inicialmente aconteceu porque o estúdio com que trabalhávamos antes estava marcado durante três meses na altura em que era suposto gravarmos o álbum. Por isso tivemos de arranjar outra solução, alguém com quem pudéssemos produzir. O Kai Kohlekeller fazia parte de uma lista reduzida de produtores com quem queríamos trabalhar e gostámos muito do que ele fez nos dois últimos discos dos Benighted. Decidimos experimentar e acabou por resultar muito bem no EP, por isso voltámos lá para o álbum. E ele fez um excelente trabalho.

Uma das críticas recorrentes ao vosso último trabalho era que as guitarras não estavam suficientemente altas. Desta vez certificaram-se que isso não acontecia?
Sim. Acho que também tem a ver com o modo como o Kohlekeller mistura. Ele gosta de sons de guitarra e baixo bastante espessos e altos, por isso o som acabou por sair mais directo do que no álbum anterior, que era bastante pesado nas partes de bateria. Desta vez está tudo mais ou menos ao mesmo nível, o que julgo que, pelo menos para a música mais técnica como a que temos no disco, funciona melhor. Está tudo mais on your face.

A capa do álbum foi desenhada pelo Christopher Lovell. Achas que, por seres um designer gráfico tu próprio, és mais esquisito e exigente com as pessoas que escolhes para desenharem as capas de discos dos Aborted?
Claro. [risos] Sou esquisito quando se trata de atribuir trabalho para a banda. Mas desta vez não tive qualquer preocupação porque o Christopher é um artista espantoso, eu estava muito familiarizado com o trabalho dele e tinha a certeza que ia ser uma cena boa. Por isso disse-lhe “Faz o que te der na cabeça”. E foi o que ele fez. Acho que fez um excelente trabalho, porque as coisas de que ele gosta encaixam na banda a 100 por cento, por isso ficámos muito felizes com o que ele nos apresentou.

És portanto uma espécie de mistura entre um cliente chato e um fanboy.
Sim, basicamente. [risos]

“Toda a gente diz que a indústria musical está a recuperar, mas pelo que vejo, ninguém está a recuperar. É a recessão para toda a gente.”

Agora na Century Media e numa era em que as bandas têm de estar sempre em digressões se se querem manter relevantes, como gerem as vossas vidas pessoais com a pressão de estarem numa banda com o estatuto dos Aborted?
Exige muitos sacrifícios. Fizemos tantas digressões há um par de anos que desta vez vamos levar as coisas com um pouco mais de calma. Não vamos tocar tanto ao vivo para não cansarmos as pessoas. Fizemos há pouco tempo uma digressão de 44 datas em 46 dias com Kataklysm e Septicflesh, por isso para este álbum vamos fazer o circuito de festivais e ter algumas folgas em vez de embarcar em grandes digressões. Pelo menos até ao final do Verão. Mas voltando à tua questão, não é mesmo nada fácil combinar as duas coisas.

Achas que a saturação da cena de concertos pode levar a que entre em declínio, tal como aconteceu com a indústria discográfica?
Claro, absolutamente. Existiram grandes mudanças em toda a indústria musical nos últimos anos e as editoras andam a tentar encontrar novas formas de fazer algum dinheiro, o que se tem tornado cada vez mais difícil. Toda a gente diz que a indústria musical está a recuperar, mas pelo que vejo, ninguém está a recuperar. É a recessão para toda a gente. As coisas são mais caras e as pessoas são mais cuidadosas com as coisas em que gastam dinheiro. É uma coisa normal e por isso é natural que as pessoas na indústria procurem novas formas de fazer algum dinheiro.

Achas que se os Metallica ou os Morbid Angel aparecessem hoje em dia, como bandas a lançar o seu primeiro EP, teriam algum tipo de hipótese de se tornarem tão grandes como são?
Provavelmente não. Eles são de uma era completamente diferente em que havia muito menos concorrência, havia muito menos disponibilidade… A internet teve os seus custos. As novas bandas têm uma maior facilidade em fazer com que as pessoas conheçam a sua música porque há mais possibilidades de fazê-lo, mas naqueles tempos quem não tinha um contrato discográfico, não chegava lá sozinho. As coisas mudaram muito. Não digo que os Metallica ou os Morbid Angel não tenham qualidades para se tornarem grandes bandas, porque obviamente o são, mas existe tanta coisa em jogo que é completamente imprevisível se uma banda que comece a sua carreira hoje alguma vez vai chegar onde eles chegaram.

Consideras que chegámos a um ponto em que as estratégias de marketing são mais importantes do que a qualidade musical?
Acho que depende da banda. É claro que o marketing é cada vez mais importante porque existe imensa competição. Mas também depende da banda, porque se o marketing é bom e a banda também é boa, é uma situação win/win. Quando o marketing é bom mas a banda é fraquinha, acho que as pessoas conseguem perceber.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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