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[Entrevista] Acherontas: Marchando incessantemente pelo Tártaro

João Correia

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«O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, é principalmente uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras.»

«Acho que está mais frio lá dentro do que cá fora!», diz Indra, guitarrista dos Acherontas. O ar gelado do Inverno já se fazia sentir e a ausência prolongada de chuva só enfatizou a descida de temperatura. Já se esperava um longo e impiedoso Inverno, mas “Amarta अमर्त (Formulas of Reptilian Unification Part II)”, lançado em Maio, só veio acrescentar mais gelo a 2017. Associar a ideia de frio a uma banda de black metal é um cliché com décadas, mas, antes de mais, os Acherontas são um colectivo de pessoas distintas com tudo o que isso acarreta: nacionalidades, personalidades, gostos pessoais, formas de estar… Claro que, juntos, os integrantes formam os Acherontas, mas é o facto de utilizar uma banda como elemento de comunhão entre cinco indivíduos que muda o paradigma a que já estamos habituados.

Esta tendência invulgar influencia claramente o produto final citado acima. «Definitivamente, sim: influencia o som e a música, mas também tudo o resto», começa por dizer Indra. «O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, uma colaboração de pessoas que se junta para compor música, mas é, principalmente, uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras e a tradição mágica de onde obtemos a nossa inspiração, juntamente com o nosso empirismo e que serve para participar nessa comunhão de que falaste. Não se trata de compor música apenas com esse objectivo, não se trata apenas de expressão artística, é muito mais profundo do que isso. Neste caso, a música e a arte são o recipiente com o qual dás forma a energias e forças que observas na tua procura pessoal. Isso influencia a forma como soamos e executamos a nossa arte, quer seja ao vivo ou no estúdio.»

De repente, entramos no campo do espiritual. «Sim, estou a falar de espiritualidade e não de construir uma imagem ou escrever letras interessantes. Preferimos aproximar-nos do lado da nossa experiência pessoal em relação às letras que escrevemos em detrimento de pesquisar para as escrever. Praticamos magia, claro.» Hierophant, guitarrista e calado (mas atento) até então, intervém, explicando que «não se trata apenas de algo que deve ser dito – tem que ser algo que saia do interior para o exterior.» Indra resume: «A nossa arte é uma expressão da nossa busca e prática espiritual. Ambas têm de coexistir em simultâneo.» A música e o misticismo sempre estiveram interligados – na verdade, música e misticismo apresentam faces diferentes da mesma moeda. Isto leva a questionar se não estará tudo interligado, se a ordem e o caos não andam às piruetas pelo Universo de forma aparentemente (mas erradamente) aleatória. Indra tem uma visão muito particular das ligações entre magia, música e tudo o resto que lhes possa assistir. «Existe uma intersecção de tudo em determinados pontos. No caso da nossa aliança, criamos a arte como um ponto de intersecção de todas as coisas, ponto esse em que a tradição, o empirismo e as artes negras se cruzam e se materializam neste mundo sob a forma de música e arte em geral. Outra vez: não se trata simplesmente de uma expressão pessoal, mas algo que a transcende enormemente. Enquanto aliança, servimos a tradição mágica do uno, do indivisível. Todos os aspectos das coisas que referiste encontram-se dentro dessa tradição.»

É fácil de perceber que a banda é versada em tradição – 20 anos passados sobre a criação dos Acherontas, verificamos que existe um seguimento lógico e ordenado de disco para disco. Parece, até, que cada álbum lançado marca a celebração de um ritual, como se cada trabalho fosse um ponto de viragem, de avanço, sem “palha” pelo meio. Hierophant percebe a alegoria e responde rapidamente: «Sim, desde o início que todos os nossos lançamentos apontam para o que dizes – não se trata apenas dos últimos três trabalhos, mas sim desde o primeiro de todos e, a cada novo disco, damos um passo em frente, evoluímos.» Indra desenvolve as parcas palavras do seu colega: «Nunca gravaremos um álbum só porque sim, mas apenas quando tivermos algo a declarar ou a representar com esse álbum. Não temos qualquer interesse em gravar um álbum por ano ou de nos inserirmos no espectro comercial. A base da criação é proporcional à nossa inspiração. Vamos gravar o nosso próximo disco em Janeiro. Esse disco encerrará a trilogia “Ma-Ion”.» Os conceitos dos Acherontas são ocultos, muito ocultos, e por vezes é necessário decifrar o que os elementos da banda querem dizer. Recentemente, a banda expressou um conceito determinado de “ensinamento das elites”. A monarquia e o clero reservaram o ensinamento apenas aos nobres e aos monges, uma jogada que lhes logrou controlar o povo durante mais de mil anos. O conhecimento equivale a poder, mas não será isto retrocesso e não progresso? Indra explica e descomplica: «Estávamos a referir-nos à elite espiritual, não às elites social, económica ou política. Não temos qualquer interesse nessas outras elites para a nossa arte, apenas nos interessa a elite espiritual. Para fazer parte dela é preciso percorrer uma longa e dura travessia pessoal em direcção à ascensão pessoal. Cada homem ou mulher pode escolher percorrer esse caminho pessoal ou esperar que esse caminho o/a encontre e o/a faça percorrê-lo.»

rsz_213(Acherontas @ Under The Doom – Foto: João Correia)

Toda esta questão do espiritual verificava-se nos princípios do black metal – em detrimento do número de discos vendidos, as bandas optavam por manifestar o lado mais negro da humanidade centrando-se em questões como o satanismo ou o paganismo, a natureza ou aquilo que nos transcende, seja a morte ou o inexplicável/sobrenatural. Nas vagas seguintes do black metal, a capitalização do tema e o choque gratuito serviram mais para atrair curiosos e dar uma ideia errada do verdadeiro significado do género. Certamente que existem bandas fiéis à essência do estilo, mas não se terá o black metal convertido numa forma simples de ganhar dinheiro ou de alarmar pais e autoridades? Ou seja, em mais uma moda passageira? Indra desvaloriza essa situação. «Não me parece que o black metal se tenha tornado num hype recentemente – na verdade, acho que é um hype há 15 ou 20 anos. Quando me inseri na cena em 1993, havia muita gente mais velha que eu que já seguia a cena underground desde entre 1986-89, e nessa altura a cena já era um hype. No final dos anos 90, apercebi-me de que a cena era um hype. [pausa longa] Quanto ao valor do choque que referiste, nunca encontrei nada de subtil no black metal. Além disso, não me choco com facilidade. Se choca ou não o público, isso não importa – o black metal nunca se tratou do público, nunca teve intenção de apelar às massas. É um estilo direccionado a um determinado grupo de indivíduos que poderão ou não ter algo em comum. Nesse sentido, as bandas têm abordagens muito distintas: enquanto algumas são teatrais, outras são muito sérias em relação ao tema, como verificámos todos com os actos extremistas dos anos 90. As abordagens são distintas, mas a essência é a mesma. Não há nada que não possa ser uma moda. Não importa se tomas uma postura de seriedade ou se vais pela onda da imagem: tudo se pode tornar moda, porque as modas não são criadas pelas bandas, mas sim pelas grandes indústrias discográficas, cujo único interesse é capitalizar. Da nossa parte, digo-te que não temos rigorosamente nada a ver com isso, com essas modas contemporâneas ou mesmo mais antigas. Seguimos o nosso caminho, fazemos as coisas à nossa maneira e continuamos com o nosso processo criativo, a nossa arte, da mesma forma que sempre fizemos.»

«Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Hierophant complementa, indicando até que as modas têm vantagens. «O tempo sempre foi um excelente divisor do trigo e do joio. Muita gente sai da cena ao fim de alguns anos; logo, as modas têm a vantagem de revelar quem está nisto a sério ou não. Se saem ao fim de algum tempo, é sinal de que nunca estiveram nisto a sério. Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Princípios esses que se reflectem não só no campo espiritual como também na gestão da banda. Os Acherontas não são particularmente conhecidos por andarem sempre na estrada em tour, o que leva a pensar se isso se deve a situações pessoais, como familiares ou profissionais. Indra fala pela banda quando indica que «reservamos o direito de tocarmos onde queremos por acharmos que cada ocasião deve ser encarada como um ritual. Terá que existir o ambiente certo para podermos transmitir a energia que desejamos. Não estamos inclinados para o comercial – quando encontrarmos uma tour que nos pareça ser certa para nos inserirmos, com as bandas e as pessoas certas, então iremos nessa tour. Viemos ao Under The Doom porque achámos que é o género de festival que engloba tudo aquilo de que necessitamos para transmitir o nosso manifesto.»

As distintas nacionalidades dos membros da banda levantam várias questões pertinentes, sendo a mais importante a orientação do som da banda quando executado por músicos de diferentes nações, formas de estar e, até, dos trejeitos culturais que cada um certamente terá. Em suma, será que o melting pot cultural presente nos Acherontas influenciou de alguma forma o som original que a banda apresenta? «Parece-me que tem mais a ver com o colectivo, com a aliança mágica e musical que formámos, do que com uma questão cultural», retoma Indra. «Seguimos o nosso caminho pessoal que referi anteriormente. Os ensaios não têm que ser iguais para todos, cada um de nós ensaia de forma diferente, mesmo os músicos ao vivo. Assim, não acho que seja uma questão cultural, mas sim uma questão de propósito e de podermos manifestar a nossa arte com os nossos semelhantes, com pessoas que partilham a nossa forma de estar.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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