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[Entrevista] Acherontas: Marchando incessantemente pelo Tártaro

João Correia

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«O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, é principalmente uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras.»

«Acho que está mais frio lá dentro do que cá fora!», diz Indra, guitarrista dos Acherontas. O ar gelado do Inverno já se fazia sentir e a ausência prolongada de chuva só enfatizou a descida de temperatura. Já se esperava um longo e impiedoso Inverno, mas “Amarta अमर्त (Formulas of Reptilian Unification Part II)”, lançado em Maio, só veio acrescentar mais gelo a 2017. Associar a ideia de frio a uma banda de black metal é um cliché com décadas, mas, antes de mais, os Acherontas são um colectivo de pessoas distintas com tudo o que isso acarreta: nacionalidades, personalidades, gostos pessoais, formas de estar… Claro que, juntos, os integrantes formam os Acherontas, mas é o facto de utilizar uma banda como elemento de comunhão entre cinco indivíduos que muda o paradigma a que já estamos habituados.

Esta tendência invulgar influencia claramente o produto final citado acima. «Definitivamente, sim: influencia o som e a música, mas também tudo o resto», começa por dizer Indra. «O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, uma colaboração de pessoas que se junta para compor música, mas é, principalmente, uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras e a tradição mágica de onde obtemos a nossa inspiração, juntamente com o nosso empirismo e que serve para participar nessa comunhão de que falaste. Não se trata de compor música apenas com esse objectivo, não se trata apenas de expressão artística, é muito mais profundo do que isso. Neste caso, a música e a arte são o recipiente com o qual dás forma a energias e forças que observas na tua procura pessoal. Isso influencia a forma como soamos e executamos a nossa arte, quer seja ao vivo ou no estúdio.»

De repente, entramos no campo do espiritual. «Sim, estou a falar de espiritualidade e não de construir uma imagem ou escrever letras interessantes. Preferimos aproximar-nos do lado da nossa experiência pessoal em relação às letras que escrevemos em detrimento de pesquisar para as escrever. Praticamos magia, claro.» Hierophant, guitarrista e calado (mas atento) até então, intervém, explicando que «não se trata apenas de algo que deve ser dito – tem que ser algo que saia do interior para o exterior.» Indra resume: «A nossa arte é uma expressão da nossa busca e prática espiritual. Ambas têm de coexistir em simultâneo.» A música e o misticismo sempre estiveram interligados – na verdade, música e misticismo apresentam faces diferentes da mesma moeda. Isto leva a questionar se não estará tudo interligado, se a ordem e o caos não andam às piruetas pelo Universo de forma aparentemente (mas erradamente) aleatória. Indra tem uma visão muito particular das ligações entre magia, música e tudo o resto que lhes possa assistir. «Existe uma intersecção de tudo em determinados pontos. No caso da nossa aliança, criamos a arte como um ponto de intersecção de todas as coisas, ponto esse em que a tradição, o empirismo e as artes negras se cruzam e se materializam neste mundo sob a forma de música e arte em geral. Outra vez: não se trata simplesmente de uma expressão pessoal, mas algo que a transcende enormemente. Enquanto aliança, servimos a tradição mágica do uno, do indivisível. Todos os aspectos das coisas que referiste encontram-se dentro dessa tradição.»

É fácil de perceber que a banda é versada em tradição – 20 anos passados sobre a criação dos Acherontas, verificamos que existe um seguimento lógico e ordenado de disco para disco. Parece, até, que cada álbum lançado marca a celebração de um ritual, como se cada trabalho fosse um ponto de viragem, de avanço, sem “palha” pelo meio. Hierophant percebe a alegoria e responde rapidamente: «Sim, desde o início que todos os nossos lançamentos apontam para o que dizes – não se trata apenas dos últimos três trabalhos, mas sim desde o primeiro de todos e, a cada novo disco, damos um passo em frente, evoluímos.» Indra desenvolve as parcas palavras do seu colega: «Nunca gravaremos um álbum só porque sim, mas apenas quando tivermos algo a declarar ou a representar com esse álbum. Não temos qualquer interesse em gravar um álbum por ano ou de nos inserirmos no espectro comercial. A base da criação é proporcional à nossa inspiração. Vamos gravar o nosso próximo disco em Janeiro. Esse disco encerrará a trilogia “Ma-Ion”.» Os conceitos dos Acherontas são ocultos, muito ocultos, e por vezes é necessário decifrar o que os elementos da banda querem dizer. Recentemente, a banda expressou um conceito determinado de “ensinamento das elites”. A monarquia e o clero reservaram o ensinamento apenas aos nobres e aos monges, uma jogada que lhes logrou controlar o povo durante mais de mil anos. O conhecimento equivale a poder, mas não será isto retrocesso e não progresso? Indra explica e descomplica: «Estávamos a referir-nos à elite espiritual, não às elites social, económica ou política. Não temos qualquer interesse nessas outras elites para a nossa arte, apenas nos interessa a elite espiritual. Para fazer parte dela é preciso percorrer uma longa e dura travessia pessoal em direcção à ascensão pessoal. Cada homem ou mulher pode escolher percorrer esse caminho pessoal ou esperar que esse caminho o/a encontre e o/a faça percorrê-lo.»

rsz_213(Acherontas @ Under The Doom – Foto: João Correia)

Toda esta questão do espiritual verificava-se nos princípios do black metal – em detrimento do número de discos vendidos, as bandas optavam por manifestar o lado mais negro da humanidade centrando-se em questões como o satanismo ou o paganismo, a natureza ou aquilo que nos transcende, seja a morte ou o inexplicável/sobrenatural. Nas vagas seguintes do black metal, a capitalização do tema e o choque gratuito serviram mais para atrair curiosos e dar uma ideia errada do verdadeiro significado do género. Certamente que existem bandas fiéis à essência do estilo, mas não se terá o black metal convertido numa forma simples de ganhar dinheiro ou de alarmar pais e autoridades? Ou seja, em mais uma moda passageira? Indra desvaloriza essa situação. «Não me parece que o black metal se tenha tornado num hype recentemente – na verdade, acho que é um hype há 15 ou 20 anos. Quando me inseri na cena em 1993, havia muita gente mais velha que eu que já seguia a cena underground desde entre 1986-89, e nessa altura a cena já era um hype. No final dos anos 90, apercebi-me de que a cena era um hype. [pausa longa] Quanto ao valor do choque que referiste, nunca encontrei nada de subtil no black metal. Além disso, não me choco com facilidade. Se choca ou não o público, isso não importa – o black metal nunca se tratou do público, nunca teve intenção de apelar às massas. É um estilo direccionado a um determinado grupo de indivíduos que poderão ou não ter algo em comum. Nesse sentido, as bandas têm abordagens muito distintas: enquanto algumas são teatrais, outras são muito sérias em relação ao tema, como verificámos todos com os actos extremistas dos anos 90. As abordagens são distintas, mas a essência é a mesma. Não há nada que não possa ser uma moda. Não importa se tomas uma postura de seriedade ou se vais pela onda da imagem: tudo se pode tornar moda, porque as modas não são criadas pelas bandas, mas sim pelas grandes indústrias discográficas, cujo único interesse é capitalizar. Da nossa parte, digo-te que não temos rigorosamente nada a ver com isso, com essas modas contemporâneas ou mesmo mais antigas. Seguimos o nosso caminho, fazemos as coisas à nossa maneira e continuamos com o nosso processo criativo, a nossa arte, da mesma forma que sempre fizemos.»

«Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Hierophant complementa, indicando até que as modas têm vantagens. «O tempo sempre foi um excelente divisor do trigo e do joio. Muita gente sai da cena ao fim de alguns anos; logo, as modas têm a vantagem de revelar quem está nisto a sério ou não. Se saem ao fim de algum tempo, é sinal de que nunca estiveram nisto a sério. Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Princípios esses que se reflectem não só no campo espiritual como também na gestão da banda. Os Acherontas não são particularmente conhecidos por andarem sempre na estrada em tour, o que leva a pensar se isso se deve a situações pessoais, como familiares ou profissionais. Indra fala pela banda quando indica que «reservamos o direito de tocarmos onde queremos por acharmos que cada ocasião deve ser encarada como um ritual. Terá que existir o ambiente certo para podermos transmitir a energia que desejamos. Não estamos inclinados para o comercial – quando encontrarmos uma tour que nos pareça ser certa para nos inserirmos, com as bandas e as pessoas certas, então iremos nessa tour. Viemos ao Under The Doom porque achámos que é o género de festival que engloba tudo aquilo de que necessitamos para transmitir o nosso manifesto.»

As distintas nacionalidades dos membros da banda levantam várias questões pertinentes, sendo a mais importante a orientação do som da banda quando executado por músicos de diferentes nações, formas de estar e, até, dos trejeitos culturais que cada um certamente terá. Em suma, será que o melting pot cultural presente nos Acherontas influenciou de alguma forma o som original que a banda apresenta? «Parece-me que tem mais a ver com o colectivo, com a aliança mágica e musical que formámos, do que com uma questão cultural», retoma Indra. «Seguimos o nosso caminho pessoal que referi anteriormente. Os ensaios não têm que ser iguais para todos, cada um de nós ensaia de forma diferente, mesmo os músicos ao vivo. Assim, não acho que seja uma questão cultural, mas sim uma questão de propósito e de podermos manifestar a nossa arte com os nossos semelhantes, com pessoas que partilham a nossa forma de estar.»

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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