[Entrevista] Acherontas: Marchando incessantemente pelo Tártaro | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Acherontas: Marchando incessantemente pelo Tártaro

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«O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, é principalmente uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras.»

«Acho que está mais frio lá dentro do que cá fora!», diz Indra, guitarrista dos Acherontas. O ar gelado do Inverno já se fazia sentir e a ausência prolongada de chuva só enfatizou a descida de temperatura. Já se esperava um longo e impiedoso Inverno, mas “Amarta अमर्त (Formulas of Reptilian Unification Part II)”, lançado em Maio, só veio acrescentar mais gelo a 2017. Associar a ideia de frio a uma banda de black metal é um cliché com décadas, mas, antes de mais, os Acherontas são um colectivo de pessoas distintas com tudo o que isso acarreta: nacionalidades, personalidades, gostos pessoais, formas de estar… Claro que, juntos, os integrantes formam os Acherontas, mas é o facto de utilizar uma banda como elemento de comunhão entre cinco indivíduos que muda o paradigma a que já estamos habituados.

Esta tendência invulgar influencia claramente o produto final citado acima. «Definitivamente, sim: influencia o som e a música, mas também tudo o resto», começa por dizer Indra. «O conceito por detrás dos Acherontas não passa apenas por ser uma banda, uma colaboração de pessoas que se junta para compor música, mas é, principalmente, uma aliança, uma aliança mágica que serve as artes negras e a tradição mágica de onde obtemos a nossa inspiração, juntamente com o nosso empirismo e que serve para participar nessa comunhão de que falaste. Não se trata de compor música apenas com esse objectivo, não se trata apenas de expressão artística, é muito mais profundo do que isso. Neste caso, a música e a arte são o recipiente com o qual dás forma a energias e forças que observas na tua procura pessoal. Isso influencia a forma como soamos e executamos a nossa arte, quer seja ao vivo ou no estúdio.»

De repente, entramos no campo do espiritual. «Sim, estou a falar de espiritualidade e não de construir uma imagem ou escrever letras interessantes. Preferimos aproximar-nos do lado da nossa experiência pessoal em relação às letras que escrevemos em detrimento de pesquisar para as escrever. Praticamos magia, claro.» Hierophant, guitarrista e calado (mas atento) até então, intervém, explicando que «não se trata apenas de algo que deve ser dito – tem que ser algo que saia do interior para o exterior.» Indra resume: «A nossa arte é uma expressão da nossa busca e prática espiritual. Ambas têm de coexistir em simultâneo.» A música e o misticismo sempre estiveram interligados – na verdade, música e misticismo apresentam faces diferentes da mesma moeda. Isto leva a questionar se não estará tudo interligado, se a ordem e o caos não andam às piruetas pelo Universo de forma aparentemente (mas erradamente) aleatória. Indra tem uma visão muito particular das ligações entre magia, música e tudo o resto que lhes possa assistir. «Existe uma intersecção de tudo em determinados pontos. No caso da nossa aliança, criamos a arte como um ponto de intersecção de todas as coisas, ponto esse em que a tradição, o empirismo e as artes negras se cruzam e se materializam neste mundo sob a forma de música e arte em geral. Outra vez: não se trata simplesmente de uma expressão pessoal, mas algo que a transcende enormemente. Enquanto aliança, servimos a tradição mágica do uno, do indivisível. Todos os aspectos das coisas que referiste encontram-se dentro dessa tradição.»

É fácil de perceber que a banda é versada em tradição – 20 anos passados sobre a criação dos Acherontas, verificamos que existe um seguimento lógico e ordenado de disco para disco. Parece, até, que cada álbum lançado marca a celebração de um ritual, como se cada trabalho fosse um ponto de viragem, de avanço, sem “palha” pelo meio. Hierophant percebe a alegoria e responde rapidamente: «Sim, desde o início que todos os nossos lançamentos apontam para o que dizes – não se trata apenas dos últimos três trabalhos, mas sim desde o primeiro de todos e, a cada novo disco, damos um passo em frente, evoluímos.» Indra desenvolve as parcas palavras do seu colega: «Nunca gravaremos um álbum só porque sim, mas apenas quando tivermos algo a declarar ou a representar com esse álbum. Não temos qualquer interesse em gravar um álbum por ano ou de nos inserirmos no espectro comercial. A base da criação é proporcional à nossa inspiração. Vamos gravar o nosso próximo disco em Janeiro. Esse disco encerrará a trilogia “Ma-Ion”.» Os conceitos dos Acherontas são ocultos, muito ocultos, e por vezes é necessário decifrar o que os elementos da banda querem dizer. Recentemente, a banda expressou um conceito determinado de “ensinamento das elites”. A monarquia e o clero reservaram o ensinamento apenas aos nobres e aos monges, uma jogada que lhes logrou controlar o povo durante mais de mil anos. O conhecimento equivale a poder, mas não será isto retrocesso e não progresso? Indra explica e descomplica: «Estávamos a referir-nos à elite espiritual, não às elites social, económica ou política. Não temos qualquer interesse nessas outras elites para a nossa arte, apenas nos interessa a elite espiritual. Para fazer parte dela é preciso percorrer uma longa e dura travessia pessoal em direcção à ascensão pessoal. Cada homem ou mulher pode escolher percorrer esse caminho pessoal ou esperar que esse caminho o/a encontre e o/a faça percorrê-lo.»

rsz_213(Acherontas @ Under The Doom – Foto: João Correia)

Toda esta questão do espiritual verificava-se nos princípios do black metal – em detrimento do número de discos vendidos, as bandas optavam por manifestar o lado mais negro da humanidade centrando-se em questões como o satanismo ou o paganismo, a natureza ou aquilo que nos transcende, seja a morte ou o inexplicável/sobrenatural. Nas vagas seguintes do black metal, a capitalização do tema e o choque gratuito serviram mais para atrair curiosos e dar uma ideia errada do verdadeiro significado do género. Certamente que existem bandas fiéis à essência do estilo, mas não se terá o black metal convertido numa forma simples de ganhar dinheiro ou de alarmar pais e autoridades? Ou seja, em mais uma moda passageira? Indra desvaloriza essa situação. «Não me parece que o black metal se tenha tornado num hype recentemente – na verdade, acho que é um hype há 15 ou 20 anos. Quando me inseri na cena em 1993, havia muita gente mais velha que eu que já seguia a cena underground desde entre 1986-89, e nessa altura a cena já era um hype. No final dos anos 90, apercebi-me de que a cena era um hype. [pausa longa] Quanto ao valor do choque que referiste, nunca encontrei nada de subtil no black metal. Além disso, não me choco com facilidade. Se choca ou não o público, isso não importa – o black metal nunca se tratou do público, nunca teve intenção de apelar às massas. É um estilo direccionado a um determinado grupo de indivíduos que poderão ou não ter algo em comum. Nesse sentido, as bandas têm abordagens muito distintas: enquanto algumas são teatrais, outras são muito sérias em relação ao tema, como verificámos todos com os actos extremistas dos anos 90. As abordagens são distintas, mas a essência é a mesma. Não há nada que não possa ser uma moda. Não importa se tomas uma postura de seriedade ou se vais pela onda da imagem: tudo se pode tornar moda, porque as modas não são criadas pelas bandas, mas sim pelas grandes indústrias discográficas, cujo único interesse é capitalizar. Da nossa parte, digo-te que não temos rigorosamente nada a ver com isso, com essas modas contemporâneas ou mesmo mais antigas. Seguimos o nosso caminho, fazemos as coisas à nossa maneira e continuamos com o nosso processo criativo, a nossa arte, da mesma forma que sempre fizemos.»

«Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Hierophant complementa, indicando até que as modas têm vantagens. «O tempo sempre foi um excelente divisor do trigo e do joio. Muita gente sai da cena ao fim de alguns anos; logo, as modas têm a vantagem de revelar quem está nisto a sério ou não. Se saem ao fim de algum tempo, é sinal de que nunca estiveram nisto a sério. Andamos nisto há duas décadas e sempre nos mantivemos fiéis aos princípios pelos quais nos regemos.»

Princípios esses que se reflectem não só no campo espiritual como também na gestão da banda. Os Acherontas não são particularmente conhecidos por andarem sempre na estrada em tour, o que leva a pensar se isso se deve a situações pessoais, como familiares ou profissionais. Indra fala pela banda quando indica que «reservamos o direito de tocarmos onde queremos por acharmos que cada ocasião deve ser encarada como um ritual. Terá que existir o ambiente certo para podermos transmitir a energia que desejamos. Não estamos inclinados para o comercial – quando encontrarmos uma tour que nos pareça ser certa para nos inserirmos, com as bandas e as pessoas certas, então iremos nessa tour. Viemos ao Under The Doom porque achámos que é o género de festival que engloba tudo aquilo de que necessitamos para transmitir o nosso manifesto.»

As distintas nacionalidades dos membros da banda levantam várias questões pertinentes, sendo a mais importante a orientação do som da banda quando executado por músicos de diferentes nações, formas de estar e, até, dos trejeitos culturais que cada um certamente terá. Em suma, será que o melting pot cultural presente nos Acherontas influenciou de alguma forma o som original que a banda apresenta? «Parece-me que tem mais a ver com o colectivo, com a aliança mágica e musical que formámos, do que com uma questão cultural», retoma Indra. «Seguimos o nosso caminho pessoal que referi anteriormente. Os ensaios não têm que ser iguais para todos, cada um de nós ensaia de forma diferente, mesmo os músicos ao vivo. Assim, não acho que seja uma questão cultural, mas sim uma questão de propósito e de podermos manifestar a nossa arte com os nossos semelhantes, com pessoas que partilham a nossa forma de estar.»

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