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Adamantine: A história de “Grudge”

Joel Costa

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«É uma das canções mais completas que já escrevi até hoje.»

Cinco anos separaram “Chaos Genesis” de “Heroes & Villains”, sendo este último trabalho aquele que assinalou o regresso dos lisboetas Adamantine aos discos. A inaugurar este novo espaço, o guitarrista e vocalista André Bettencourt dá-nos conta da história do tema “Grudge” e do impacto que esta faixa teve na composição do disco.

Composição do tema: «”Grudge” foi o primeiro tema que escrevi para o novo disco “Heroes & Villains”. Tinham passado já dois anos [desde a nossa pausa] e depois de muitas adversidades, esse foi o primeiro tema que surgiu. Andava a ouvir coisas mais progressivas na altura e acabei por adicionar alguns desses elementos à nossa fórmula thrash/death melódico.»

Título: «O título surgiu através de uma conversa com um ex-membro da banda. Falávamos sobre ódios de estimação, como eram uma cena prejudicial à saúde e que não havia tempo a perder com isso. As pessoas devem aprender a seguir em frente e perceber quando já não há volta atrás. “Grudge” é uma expressão sem tradução literal mas assemelha-se a rancor.»

Se funciona melhor ao vivo ou em estúdio: «Acho que é um dos temas que me deixa mais satisfeito tanto em disco como ao vivo. Funciona bastante bem das duas formas. É de momento a malha que mais gosto de tocar ao vivo. Soa a fresco, tem ideias modernas incorporadas com o thrash e o death que fazemos e acho que é uma das canções mais completas que já escrevi até hoje.»

Temática da música: «O tema fala sobre deixar para trás certos ódios, rancores, etc. Coisas negativas na tua vida que te puxam para baixo, que atrasam a tua evolução como indivíduo e que te impossibilitam de ser uma pessoa melhor. Acho que é uma malha que fala sobretudo sobre reflexão, a capacidade de fazer reset na tua vida, reorganizar ideias e focar naquilo que realmente importa.»

Impacto na composição dos restantes temas: «Este primeiro tema estabeleceu o mood para o resto do disco. Marcou o início de um processo de renovação pelo qual passei e que se reflectiu liricamente em todo o álbum. É um disco bastante pessoal e quem o ouvir com atenção poderá também rever-se um pouco nas letras e nesse processo de introspecção pelo qual todos passamos a certa altura das nossas vidas.»

Significado da música para a banda: «Foi o início de uma nova era. O desprender do passado recente e o reboot necessário para recomeçar do zero, numa nova fase mais focada. Acho que a faixa, não só a nível musical como lírico, é bastante especial e com o tempo poderá ser visto como um marco do ponto de viragem na discografia. O tempo o dirá. Neste momento é uma malha indiscutível no set de Adamantine ao vivo.»

O álbum “Heroes & Villains” pode ser adquirido através do Bandcamp dos Adamantine.

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[Reportagem] Beyond Creation + Gorod + Entheos + Brought By Pain (15.11.2018 – Porto)

Pedro Felix

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Beyond Creation (Foto: Pedro Félix)

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Beyond Creation + Gorod + Entheos + Brought By Pain
15.11.2018 – Hard Club, Porto

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Numa noite de quinta-feira, ali pela baixa do Porto, a técnica saiu à rua. Temperatura amena para o mês de Novembro, céu limpo e pouco movimento na cidade convidavam ao passeio até ao Hard Club. Foi lá que um considerável grupo de pessoas se encontrou.

Numa prestação bem-disposta, os canadianos Brought By Pain – ainda a promover o EP “Crafted By Society”, de 2016, que sucedeu ao álbum de estreia “The Dreamer’s Will” -apresentaram um death metal técnico muito sólido que definia o ponto de partida do padrão crescente de qualidade da noite.

Enquanto os Brought By Pain se mantinham de forma bem definida dentro do estilo que tocavam, os Entheos, que se lhes seguiram, estavam constantemente a saltar fora da caixa. Com um estilo irreverente, muito patente na prestação enérgica e explosiva da vocalista Chaney Crabb, estes norte-americanos tanto nos presenteavam riffs poderosos de um death metal simples e directo como floreavam a música com demonstrações de apurada técnica. Pelo meio, contribuições do foro electrónico e distorções de voz completavam um conjunto de temas, quase todos extraídos do mais recente álbum “Dark Future”, que tinham tanto de tradicional como de inesperado.

Regressando ao nosso lado do Atlântico, a técnica manteve-se presente e em alta com a chegada das sonoridades poderosas dos Gorod. Com uma carreira que já deixou a década uns anos para trás, estes franceses que, contrariamente aos Etheos, já tinham passado pelo nosso país, regressavam trazendo na bagagem o novíssimo álbum “Æthra”. Apesar do estilo actual da banda estar algo distante das raízes do seu começo, os Gorod não se inibiram de saltar entre os trabalhos do passado e do presente e oferecer a todos quantos se haviam deslocado ao Hard Club uma saudável dose de técnica nuns temas e pura força de death metal clássico noutros.

Para terminar a noite e completar o círculo, regressamos a Montreal, cidade natal da banda de abertura e da de fecho, com os incontestados mestres do death metal técnico Beyond Creation. Em promoção ao novíssimo trabalho “Algorythm”, a banda tomou essa directriz de forma literal e tocaram o álbum de ponta a ponta. A qualidade do som que se sentia em todos os cantos da sala do Hard Club – fosse junto ao palco, nas laterais ou encostado à parede do fundo – era de elevada qualidade e dava poder e definição em excelente equilíbrio para se poder apreciar a genialidade do som desta banda. No final não faltou o grande clássico “Earthborn Evolution”, em que o baixo teve a oportunidade de explodir com todo o seu fulgor. Após o fecho do set, a banda regressou para se despedir do público do Porto com “Fundamental Process”.

Ainda a noite era uma criança quando a técnica saiu do Hard Club com a sensação de missão cumprida, principalmente depois de ter sido tão bem tratada por quatro bandas de excelência que, tirando a que o fora, poderiam ser cabeças-de-cartaz em qualquer concerto do género.

Texto e fotos: Pedro Félix

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[Reportagem] Haggard + Sound Storm + Eternal Silence: na caverna dos bardos (31.10.2018 – Graz, Áustria)

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Haggard (Foto: Ágata Serralva)

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Haggard + Sound Storm + Eternal Silence
31.10.2018 – DomImBerg, Graz (Áustria)

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Subimos pelo interior da montanha em busca dos bardos. Literalmente.

Percorremos um trilho de túneis perfurados durante a Segunda Guerra Mundial, para abrigo da população. Enquanto avançamos lado-a-lado com pequenas galerias de abrigo, a temperatura arrefece ao longo dos 17000 m2, prontos para resguardar 50.000 pessoas de raides aéreos. Só pela envergadura desta obra, já vale o esforço da caminhada íngreme para o DomimBerg, a Catedral na Montanha.

É nesta caverna feita catedral que nos preparamos para assistir aos bardos Haggard e aos seus convidados pontuais desta tertúlia de Outono: os italianos Eternal Silence e Sound Storm.

Eternal Silence (Foto: Ágata Serralva)

Ainda com a caverna mais repleta de sombras que corpos, os Eternal Silence iniciaram às 20h em ponto, com o seu metal gótico/sinfónico cheio de energia e descomplexado.

Com um set curto, pelas vozes de Marika Vanni e Alberto Cassina, saltaram e pediram palmas, debitando uma secção rítmica festiva e arranjos vocais criativos, como é apanágio das bandas italianas deste género.

Temas como “Dreambook”, “Unbreakable Wil”l e “Hell on Earth”, do álbum “Chasing Chimer”, ou “Lucifer´s Lair” e “Fighter”, do álbum “Mastermind Tyranny”, mostraram uma alegria trovadoresca de uma banda que é a primeira a chegar, mas também é a última a ir embora da festa.

Sound Storm (Foto: Ágata Serralva)

Os Sound Storm tocaram de seguida e interpretaram o bardo engatatão, meloso, com algum excesso de teatralidade, que canta as ladainhas comuns do power metal sinfónico.

Com dois vocalistas novos no projecto, demonstraram falta de naturalidade em palco, mas com alguns momentos vocais surpreendentes: se a vocalista feminina Chiara Tricario é inconsistente no seu modo operático, Andrea Racco tem um registo agudo inesperado de grande força. Mas é o gutural death metal de Chiara que nos faz erguer o sobrolho e perceber que devia inverter os papéis com o vocalista masculino.

Assentando o setlist no seu álbum “Vertigo”, de 2016, e introduzindo temas de “Immortalia”, foram uma cópia de Epica sem capacidade de composição – embora a solidez da banda surgisse quando a teclista Elena Crolle tomava conta dos arranjos.

O concerto arrancou para o seu final com “To The Stars”, o single de apresentação dos novos membros, e desfilou com “Torquemada” e “The Portrait” até à chuva de palmas… quando chamaram por Haggard.

Haggard (Foto: Ágata Serralva)

Com o último álbum lançado em 2008, vários membros e formatos de banda passados, a curiosidade sobre Haggard era muita. Apresentaram-se com dez membros em palco, com recurso a violino, viola de arco, violoncelo, órgão e flauta transversal, a par da formação metal habitual.

Conduzidos por Asis Nasseri, maestro metódico e minucioso que abriu o concerto com “Midnight Gathering”, a mini-orquestra tocou contos death metal com registo medieval: “Prophecy Fulfilled”, “Tales of Ithiria” ou “Eppur Si Muove” foram interpretados com entusiasmo, onde a força e o balanço vieram das cordas, e a delicadeza do órgão feito cravo e da voz soberba da soprano Janika Gross, sempre acompanhada de forma cristalina pela flauta transversal. A interpretação da vocalista germânica foi tremenda, repleta de confiança e afinação.

Nasseri foi um comunicador erudito e consciencioso do lugar de Haggard no metal, pautando o concerto de momentos mais intimistas de conversa com o público com outros mais inspirados e proféticos.

Com o tríptico “In a Pale Moon´s Shadow”, “Per Aspera Ad Astra” e “Seven From Afar”, o bardo alemão preparou o encore de “Awaking the Centuries”, despedindo-se, ecoando pelas cavernas a sinfonia do seu metal.

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Texto: Daniel Antero
Fotos: Ágata Serralva

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[Reportagem] Moonspell: depois da tempestade não vem a bonança (27.10.2018 – Figueira da Foz)

João Correia

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Foto: João Correia

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Moonspell
27.10.2018 – CAE, Figueira da Foz

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Cinco bilhetes. Faltaram vender cinco bilhetes para que o CAE da Figueira da Foz tivesse a lotação esgotada neste espectáculo da digressão dos Moonspell. A determinada altura do evento, Fernando Ribeiro chegou mesmo a dizer: «À medida que nos iam informando na Califórnia que cada vez se estavam a vender mais bilhetes para este concerto, ficámos surpreendidos». Ironicamente, poucas semanas após a tempestade Leslie quase ter dizimado a Figueira da Foz, com notícias de gruas dobradas ao meio, árvores adultas arrancadas pelas raízes e milhões de euros em prejuízos, os brandoenses fizeram uma prece pelas 795 almas presentes com a sua interpretação do maior evento cataclísmico alguma vez registado em Portugal – o grande terramoto de Lisboa, tão bem representado em “1755”.

Aos instantes iniciais de “Em Nome do Medo”, a banda recebeu uma enorme ovação dos sentados e levantados. “Sou sangue de teu sangue, sou luz que se expande”, gritou Ribeiro, vestido de homem da lanterna do Barroco, e que foi replicado em uníssono num auditório rendido às evidências em poucos instantes. “1755” logra ser o trabalho mais ambicioso, complexo e arrojado de toda a carreira dos Moonspell, bem como um dos mais bem cotados pela imprensa especializada um pouco por todo o mundo. Os segredos para isso são simples: apoiaram-se no drama natural e real mais profundo do nosso país, apostaram em elementos sinfónicos que visaram mimetizar o caos, medo, desespero e mortandade que as populações de Lisboa sofreram com um evento que demorou na sua totalidade menos de uma hora e, novidade das novidades, compuseram um disco integralmente em língua portuguesa. Este último pormenor faz toda a diferença junto do público e fãs, que não só entendem perfeitamente as letras, como as repetem com muito mais facilidade – assim foi com o tema seguinte, “1755”, com o seu “Não, não deixarás pedra sobre pedra” e com o que veio a seguir, “In Tremor Dei”, em que os fãs ecoaram “Lisboa em chamas, caída”. Por esta altura, poucas eram as pessoas sentadas e ainda menos eram as desinteressadas.

De seguida, os Moonspell passaram da catástrofe divina actual para as avenidas do passado com um set que incluiu as obrigatórias “Opium” e “Awake”. Feito isto, entrelaçaram “Ruínas” e “Evento”, ambas de “1755”, com os clássicos “Vampiria” e “Herr Spiegelman”, dando término à primeira parte da actuação com uma versão de “Lanterna dos Afogados”, também esta presente no último longa-duração. Durante todo o evento foi notória a aposta em mais truques de luzes como lasers verdes emanados das mãos de Fernando Ribeiro ou uma cruz que emitiu lasers vermelhos e que o mesmo empunhou, aliando à faceta sonora efeitos visuais cujas metáforas ficam abertas à interpretação. Finda a primeira parte, a sensação geral foi a de que o tempo passou a voar, prova nítida de que um concerto bem-conseguido não é apenas uma demonstração musical, mas, principalmente, um acto de entretenimento, que convenceu desde as crianças mais tenras coladas ao palco, aos idosos que, movidos pela curiosidade e pela parca oferta de cultura nesta cidade balnear, compareceram e abanaram o capacete, ainda que (presumivelmente) alheios à banda.

Para o final, “Todos Os Santos” (em que, uma vez mais, a repetição da frase chave “Faz dia em Portugal” abalou a estrutura arquitectónica do CAE), a imprescindível “Alma Mater”, cujo refrão em português também foi repetido amiúde e, em jeito de despedida, mas também do chamado dos lobos, “Fullmoon Madness”, na qual o macho alfa uivou aos betas e aos ómegas, reunindo a cada vez maior alcateia e firmando a supremacia da espécie na sua zona de origem. A cada concerto, do Japão ao México, cada vez menos falta cumprir-se Portugal. Para não variar, a matilha fez questão de dar autógrafos, conviver com fãs e tirar fotos com quem assim quisesse, passando quase tanto tempo dedicada a esta actividade como o fez a tocar – é uma coisa muito metaleira, uma coisa muito nossa. A jogar em casa, os Moonspell vão somando pontos e conquistando igualmente gerações mais recentes e da velha-guarda, tudo fruto da seriedade com que encaram o seu trabalho, de um talento inquestionável e de um esforço e de uma crença inauditos na nossa praça. Entre mortos e feridos, os Moonspell saem sempre incólumes. Dizer o contrário seria uma “infâmia, infâmia”.

Texto e fotos: João Correia

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