[Entrevista] Akercocke: o Diabo que os carregue | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Akercocke: o Diabo que os carregue

rsz_img_2822Jason Mendonça (Akercocke) @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: Pedro Félix)

«Há festivais muito bons por todo o mundo, mas o Barroselas… É outra coisa, é sempre especial.»

Mal entro no camarim, Jason mostra quem de facto é. «Queres arroz-doce? É caseiro, está bom.» Agradeço, mas recuso. Adoro arroz-doce, é a minha sobremesa preferida, mas nunca aceito nada das bandas que não seja água ou material promocional. O arroz-doce foi uma das exigências de Jason Mendonça, filho de pai português, originário de Cascais. «Cascais!», exclama David. «Já lá estive, aquilo é fantástico!» Sentem-se em casa, não fosse esta a quarta vez que tocam no Barroselas. «É o meu festival preferido», indica Mendonça. «Há festivais muito bons por todo o mundo, mas o Barroselas… E a resposta dos fãs… É outra coisa, é sempre especial.» O abraço caloroso que dá a Ricardo Veiga, um dos organizadores do festival, confirma bem o que diz.

As reacções ao concerto na vigésima edição do SWR não deixam margens para dúvidas: ouvi de tudo de passagem, desde “concerto do ano” a “só podia vir um dia, tinha que ser este por causa de Akercocke”. Sente-se uma cumplicidade enorme entre festival e banda, e ambos comungam dessa mesma simbiose. Quando a banda adora o festival e vice-versa, o que poderia correr mal? «Sim, a resposta a este concerto foi inédita mesmo para nós, que já conhecemos o fest», diz Mendonça enquanto inala uma baforada do seu vaporizador. Alguém diz algo, e então ri-se como só Mendonça se ri: de forma estridente, alta, quase parece uma gargalhada falsa. «Não queres levá-lo?», pergunta-me David a rir. «Os outros elementos da banda são normais, este é que… Pronto…» [risos]

Passaram 10 anos desde “Antichrist”, o último registo dos Akercocke. Considerados um dos pontífices máximos do death/black metal, os recentes concertos e a notícia sobre o lançamento de “Renaissance in Extremis” tomou de assalto as redes sociais, onde milhões de fãs esperam por notícias sobre o novo álbum. Também a imprensa acompanha ao minuto qualquer novidade sobre o novo álbum com lançamento previsto para 2017, e a demora e a espera começam a tornar-se em desespero.

«Como assim, demora?», dispara Scanlan defensivamente, até agora aparentemente (mas apenas aparentemente) alheado da entrevista. Mendonça apercebe-se da reacção de Scanlan, solta uma gargalhada como só ele sabe e intervém: «Quisemos fazer as coisas como deve ser; não faria sentido apressarmos tudo e sair algo de qualidade duvidosa. Acho que fizemos um bom trabalho, e prová-lo-emos quando as pessoas o ouvirem; neste momento, encontra-se em fase de mistura e está a ser masterizado em Nova Iorque, e espero ouvi-lo pela primeira vez na totalidade ainda esta semana.»

rsz_img_2874Paul Scanlan (Akercocke) @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: Pedro Félix)

Quem conhece Akercocke sabe bem que a banda é o antónimo de convencional. Embora eu já tenha ouvido metais em outros trabalhos, não estou à espera da nova Glenn Miller Orchestra, mas as primeiras imagens são sugestivas de algo grandioso. Mendonça manda mais uma gargalhada “das dele” quando ouve “Glenn Miller Orchestra”; nunca sei se o homem ri mesmo assim ou se está a gozar comigo. «De todo. Sempre tentámos fazer um novo álbum diferente do anterior, e aquilo que faz com que continuemos a achar isto interessante é criar música que nós queremos ouvir, e se isso exigir diferentes texturas e instrumentos para o atingir, porque não? Não nos limitamos a um tipo de som específico.» David elabora: «Preferimos tocar os próprios instrumentos a pegar em samples ou a utilizar teclados que mimem os sons desses instrumentos. Logo, se pudermos utilizar os instrumentos originais para manter as coisas mais orgânicas, é isso que faremos.»

Ainda sobre os 10 anos desde a edição de “Antichrist”, a banda não só não lançou um novo álbum de lá para cá como ainda acabou em 2012 para se reformar em 2016. A legião de fãs ficou sempre na dúvida sobre o que aconteceu: motivos profissionais, pessoais ou ambos? «O que aconteceu foi a vida», começa Mendonça. «Quando estás numa banda como esta, tens de trabalhar muito afincadamente para vingar, não podes dar menos que 110%, não resulta de outra forma. Assim, acho que a ausência se resume a não termos o tempo necessário exigido pela banda, e então tivemos que manter a banda em criogenia durante algum tempo.»

É uma eternidade, se pensarmos que bandas há que lançam três ou mais trabalhos nesse período de tempo, mas isto não é uma banda qualquer, isto é Akercocke. Com este regresso, porém, e tendo em conta a presença no mítico Maryland Deathfest, resta saber os planos da banda em termos de prestações ao vivo. Mendonça não parece ter a certeza absoluta sobre todos os convites da banda quando indica que «é mais fácil se os fãs verificarem na nossa página do Facebook, pois está sempre em actualização. Temos alguns compromissos internacionais para o Verão, estaremos presentes em territórios onde nunca fomos, bem como em outros onde já actuámos, e depois lançaremos o álbum aquando da nossa digressão pelo Reino Unido».

Novas ofertas de arroz-doce e álcool, graciosamente recusadas e respondidas com a expressão facial “Tu é que perdes, pá”. Durante a entrevista, diz-me: «Jason dos Santos Mendonça, é o meu nome completo.» Digo-lhe que, excepção feita ao primeiro nome, é tipicamente português, o que leva David a gozar com ele: «Só este gajo…» Ao sair do camarim, ocorreu-me que é raro encontrar gente genuína, desde a atitude defensiva de Paul Scanlan à amigabilidade de Mendonça, bem como ao humor tipicamente inglês de David Gray. A julgar por isto, poderia esperar mais 10 anos sem espinhas.

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