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Akercocke “Renaissance in Extremis” [Nota: 10/10]

João Correia

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Akercocke-RenaissanceCDEditora: Peaceville Records
Data de lançamento: 25 Agosto 2017
Género: black/death metal progressivo

Ainda frescos na memória dos milhares de festivaleiros que os viram em Abril no XX SWR Barroselas Metal Fest, os Akercocke regressam aos discos depois de uma ausência de 10 anos, ausência essa que deixou os fãs mais exigentes de metal a carpir por uma das poucas bandas realmente relevantes da primeira década de 2000. Para trás ficaram os fatos e as gravatas, mas tudo indica que a disciplina musical e pessoal dos Akercocke foi criogenizada em 2007 para poder ser utilizada na altura certa: hoje. Os Akercocke sempre trilharam o seu próprio caminho e não existe uma banda remotamente parecida, até porque, intelectualmente, é impossível de copiar uma banda cujos próximos passos são uma incógnita. “Renaissance in Extremis” é isso mesmo, um exercício de imprevisibilidade que nos assalta vindo de lado nenhum e de todos os lados em simultâneo e que não encontra um par minimamente similar dentro do universo do metal.

Se “Antichrist” foi, à época, um marco na música pesada experimental, o que o novo registo dos britânicos nos transmite é a sensação de grandeza que Pedro Álvares Cabral deve ter sentido ao desembarcar no Brasil, a que Edward Jenner deve ter sentido ao inventar a vacina ou, mais recentemente, a que Tim Berners Lee deve ter sentido ao inventar a World Wide Web. Não se trata de um exercício comparativo, até porque seria ridículo observar o álbum por esse prisma, mas a forma como “Renaissance in Extremis” nos atinge é esmagadora. “Disappear”, a faixa inicial, apresenta uma banda que quase que deixou órfão o seu black metal muito peculiar para trilhar um híbrido de metal progressivo e ambiental e apostar uns bons 70% de todo o registo em duelos épicos de guitarras – na verdade, estas são o marco maior do registo e fazem lembrar aos ouvintes mais experientes os anos dourados do metal mais pesado, tal é a megalomania conjunta do trabalho de Scanlan e Mendonça.

Ainda assim, é tudo entregue numa bandeja de prata com uma noção de contemporaneidade sonora que nos faz crer que a banda não esteve adormecida um dia que fosse durante a década passada. Tudo se complica com os temas seguintes. Em “Unbound By Sin”, mais solos magistrais, bem como uma multiplicidade de gamas vocais e de ritmos díspares (do death metal ao post-rock experimental/ambiental). “Insentience”, por seu lado, volta a misturar passagens ambientais com uma jazida discreta de black metal e a mesma dose de guitarras e gama vocal competentíssimas, mas é com “First To Leave the Funeral” que nos rendemos à genialidade dos Akercocke, que misturam thrash, black, death metal, ambiental e música épica sinfónica. “Familiar Ghosts” arranca com uma intro de dois minutos e trinta e quatro segundos, e é nesta altura que o álbum parece atingir um pico de estupefacção ao deixar de parecer Akercocke para passar a soar a uma fusão de Dream Theater, Liquid Tension Experiment e Strapping Young Lad.

Mas “Inner Sanctum”, a música seguinte, prega uma partida ainda maior. Nela, Mendonça brilha principalmente como vocalista e revela a sua faceta mais humana e intimista, visto que se trata nitidamente de uma música com um tremendo significado pessoal. Quem jurar a pés juntos que consegue ouvir e sentir os prantos dos The Smiths ou dos Joy Division aqui e ali não precisa de se preocupar com a sua sanidade mental – estão lá e são palpáveis. “A Particularly Cold September”, a música que encerra esta extravagância musical de nove actos, é a continuação perfeita de “Inner Sanctum”, com passagens ambientais ricamente complementadas por um curto, mas impecável solo de trompete e onde os Mr. Bung… Perdão, os Akercocke dão asas a toda a genialidade reprimida durante uma década com vigorosas estocadas em tímpanos e um solo de guitarra final de dois minutos e dezassete segundos (!!!).

Ao longo de todo o trabalho, a furiosa bateria de David Gray e (principalmente) o baixo de Nathanael Underwood – discreto, elegante e sempre omnipresente e líquido –, emolduram em talha dourada o trabalho dos dois guitarristas. A produção quase que se materializa num sexto membro, tal é a nitidez e a atenção prestada a todo o registo, com especial destaque para os arranjos orquestrais e o baixo. Porque uma crítica deve assentar nos alicerces da honestidade e da isenção, sou forçado a quebrar uma regra fundamental e passar a falar na primeira pessoa: vinte anos passados sobre “La Masquerade Infernale”, de Arcturus, deparo-me finalmente com outro álbum totalmente merecedor de uma nota que, se lhe tirasse meio valor, seria injusto para com a banda e para com os leitores. “Renaissance in Extremis” é um trabalho que representa para a música pesada o que “Carmen” representa para a ópera: polémico, revolucionário e merecedor de uma longa ovação em pé.

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Mantar “The Modern Art of Setting Ablaze”

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Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 24 Agosto 2018
Género: sludge metal

Poucas bandas conseguem escapar-se de receber um rótulo no que toca à sua sonoridade, algumas podem até aceitá-los de bom grado e há outras, como é o caso de Mantar, que tornam este processo uma das tarefas mais difíceis que já tivemos. Foi sem grandes complicações ou pretensiosismos que este duo germânico conseguiu, desde o lançamento do seu primeiro álbum, enquadrar o punk e o black metal nos meandros do sludge.

Em apenas seis anos de carreira, e sobretudo desde o lançamento de “Ode To The Flame”, provou-se que esta assinatura sonora, tanto em palco como fora dele, lhes valeu um grande e merecido reconhecimento. É então através da Nuclear Blast que nos fazem chegar “The Modern Art of Setting Ablaze.” Este é o seu terceiro álbum de estúdio e volta a apontar holofotes na direcção de Hanno e Erinc, sem nunca se afastar da fórmula original, onde dois bastam para fazer o estrago de cinco ou mais.

“The Knowing” é a faixa introdutória, que rapidamente descontrai e prepara os ouvidos dos mais atentos para um dos momentos mais catchy deste trabalho: o riff inicial de “Age of the Absurd.” Os temas “Seek + Forget” e “Taurus” abrandam ligeiramente o ritmo, mas nem por isso desfalcam a descarga massiva de riffs memoráveis, que ficam alojados naquele sítio mais escondido e obscuro da nossa cabeça. Sempre sob a máxima ‘dois é bom, três é demais’, o ritmo galopante de Erinc nunca esmorece, juntando-se à voz e guitarra animalescas de Hanno, numa feroz contribuição para o build-up que sentimos ao longo destes doze temas.

A meio do álbum, o tema “Dynasty of Nails” chega acelerado e relembra que grande parte das raízes deste duo assenta efetivamente no punk. Mesmo com algumas oscilações de ritmo, o compasso abrasivo mantém-se e é apenas nos últimos “Teeth of the Sea” e “The Funeral” que podemos reconhecer um tom mais melancólico, onde a vertente mais doom da banda volta a merecer algum destaque.

Uma produção mais cuidada revela-se talvez uma novidade não tão bem-vinda neste terceiro trabalho. O registo mais limpo facilita a coesão entre faixas, mas descarta aquele som pantanoso, repleto de pormenores ásperos, a que já nos tínhamos habituado. Ainda assim, na maior parte do tempo, as letras dos temas compensam este ponto com linhas como “since you are born, you are waiting for death.”

Um álbum coeso e straightforward, com mais uma pitadinha de in-your-face do que lançamentos anteriores. Aqui não há direito a pausas para descanso.

Nota Final

 

 

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King Dude “Music To Make War To”

Diogo Ferreira

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Editora: Ván Records
Data de lançamento: 24 Agosto 2018
Género: blues / country / rock

King Dude não é um artista de massas, mas tem fãs leais por todo o mundo e ao fim de quase 10 anos é evidente que ajudou a modificar, para melhor, a cultura musical norte-americana. Se os primeiros discos eram direccionados às guitarras acústicas e já com muita atmosfera, em “Fear” (2014) introduziu a guitarra eléctrica, em “Songs Of Flessh & Blood – In The Key Of Light” (2015) surgiu com piano e em “Sex” revelou a sua faceta punk. Agora, com “Music To Make War To”, o músico adorado por tantas e tantos junta um pouco de tudo o que já fez.

Com a loucura de guerra como fundo, King Dude oferece uma mescla de country, blues, americana e rock, sempre, claro, com o seu cunho tão pessoal. Se a guerra provoca náuseas, desorientação e doença, a música de King Dude tenta curar tudo isso sem nunca omitir a negritude da base conceptual. A inaugural “Times To Go To War” apresenta uma faceta obscura e extremamente atmosférica, “Velvet Rope” atira-nos para campos sonoros relacionados ao rock, “I Don’t Write Love Songs Anymore” recorda-nos o post-punk de Inglaterra, “Dead On The Chorus” expõe mais uma vez uma inclinação punk, “In The Garden” apresenta uma paisagem sonora meia electrónica com loops cativantes, “Let It Burn” evoca uma espécie de cenário western e “Good And Bad” põe-nos à mesa de uma boîte envolta em fumo de cigarros onde, no palco, poderá estar uma cantora de vestido vermelho que chora ao lado de um saxofone.

Ao fim de sete álbuns, este “Music To Make War To” prova que parar e ficar numa zona de conforto não é o trato de King Dude. Relevando novamente que TJ Cowgill é parte importante da transformação da música underground norte-americana, este disco prova também que nunca sabemos ao certo o que acontecerá a cada álbum que é lançado. E isso é bom! Aliás, tem sido bom. Qualquer trabalho de King Dude é um must-have.

Nota Final

 

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Helion Prime “Terror Of The Cybernetic Space Monster”

Diogo Ferreira

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Editora: AFM Records
Data de lançamento: 31 Agosto 2018
Género: heavy/power metal

Desde a sólida estreia com o álbum de título homónimo, datado de 2016, algumas coisas mudaram em Helion Prime, principalmente devido à adição de uma voz masculina pela primeira vez. Depois de Heather Michele Smith (Graveshadow) e Kayla Dixon (Witch Mountain), os californianos chamaram a si Sozos Michael, que se apresenta um vocalista com uma voz aberta e poderosa, por vezes até com laivos de Hansi Kürsch (Blind Guardian).

Focados em analisar a natureza humana e a luta interna entre bem e mal, os Helion Prime, e a sua mascote Saibot, não deixam de parte um teor cósmico que aparece principalmente na intro “Failed Hypothesis” para, seguidamente, enveredarem por um heavy/power metal que não recorre a floreados orquestrais, tirando um ou outro breve segmento de piano. Para além da voz cativante e profissional de Sozos Michael, é a execução das guitarras, por Jason Ashcraft e Chad Anderson, que mais salta à nossa atenção devido principalmente à orientação thrashy que dá uma energia imparável e imperativa a este álbum, culminando numa epopeia de 17 minutos na nona, e última, “Terror Of The Cybernetic Space Monster”.

Se Jason Ashcraft não tinha bem a certeza daquilo que faria e como seria o resultado final do segundo álbum da banda que fundou, então todas as dúvidas estão dissipadas neste “Terror of the Cybernetic Space Monster”. É indicado para fãs de Blind Guardian e para os adeptos da ala mais agressiva do heavy/power metal.

Nota Final

 

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