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Angelus Apatrida: na ponta da lâmina (entrevista c/ Guillermo Izquierdo)

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«Será que este é o nosso “Load”? É claro que não. É o nosso sexto álbum, sim senhor, mas não é nada diferente em relação ao que fizemos antes. Ainda estamos na cena e continuamos a procurar coisas novas para introduzir na nossa música.» Guillermo Izquierdo “Polako” mantém-se impassível, mesmo apesar de o provocarmos com uma pergunta inicial que liga “Cabaret de la Guillotine”, o sexto álbum dos seus Angelus Apatrida, com sextos álbuns dos Big Four do thrash: “Youthanasia” dos Megadeth, “Divine Intervention” dos Slayer, “Sound Of The White Noise” dos Anthrax e, claro, o infame “Load” dos Metallica. O guitarrista e vocalista vai mais longe: «Gostei de uma coisa que um jornalista espanhol me disse hoje noutra entrevista: este disco é como quando os Metallica lançaram o “…And Justice For All” depois do “Master Of Puppets”. Até porque esses são os meus dois discos de Metallica preferidos. Não acredito que este seja o nosso álbum “Load” ou o “Youthanasia”, que por acaso adoro. Na minha opinião estamos numa evolução constante e, por isso, continuamos a subir. É a minha opinião e, na próxima entrevista que me fizeres, se me colocares uma questão semelhante, acho que vou responder de forma igual em relação ao próximo disco.»

«Políticas extremas estão a chegar ao poder… O fascismo e o nepotismo estão a marchar sem oposição e vivemos numa era completamente louca.»

É claro que “Cabaret de la Guillotine” não é um “Load”. A nossa pequena  provocação foi tão mais maldosa quanto o novo álbum do quarteto de Albacete continua a respirar força, vitalidade e aquele poder cru que apenas o thrash pode dar ao metal. E inclui uma boa dose de melodia na abordagem violenta, quase zangada, que a banda tinha nas propostas anteriores. «Existe uma grande confiança dentro da banda, o que não impede que, sempre que gravamos um álbum, sabermos exactamente o que temos de corrigir e melhorar. Depois disso podemos ir em digressão e defender ao vivo o disco que gravámos. Mas ao mesmo tempo temos de ser humildes e honestos connosco próprios para perceber, também aí, o que podemos melhorar. São ciclos», diz-nos o músico. E, logo a seguir, a conversa muda para as influências musicais da actuais da banda e é a vez de Guillermo devolver a provocação: «No último ano tenho ouvido todo o tipo de música, não apenas metal. Percebi que gosto, por exemplo, do Bruno Mars. [risos] E não tenho medo de reconhecê-lo. Gosto mesmo muito de Bruno Mars. Era um fã enorme de Michael Jackson quando era miúdo e agora descobri o Bruno Mars. É claro que não vou tocar aquele estilo de música funky mas, de alguma forma, por vezes podemos ser influenciados por pequenas partes, como ritmos ou mesmo a forma de cantar. Não tenho qualquer problema em pegar nesse tipo de coisas, torná-las nossas e gravá-las. Também sou um grande fã de hip-hop… Não encontro uma ligação óbvia entre a minha música e a música que ando a escutar agora, mas por vezes posso ser influenciado por letras, pelo modo como eles cantam as palavras, não sei. Por vezes não se trata apenas da música; é todo o conceito.»

É difícil imaginar que músicas como “Downfall Of Nation” podem ter sequer um resquício de Bruno Mars e hip-hop na sua concepção. É difícil pensar num tema mais representativo do que a nova geração é capaz de fazer, ainda por cima com uma temática de letras que, não há como negar, olha para a realidade sociopolítica espanhola como inspiração. «Sim, cerca de 75% do disco fala de Espanha, mas também fala do resto do mundo», confirma o nosso interlocutor. «Políticas extremas estão a chegar ao poder… O fascismo e o nepotismo estão a marchar sem oposição e vivemos numa era completamente louca. Em 2018 é bastante surrealista o que se está a passar nos governos em todo o mundo, tornando muitos locais do mundo extremamente perigosos. Basta olhar para a situação dos imigrantes, por exemplo. É um mundo muito duro, louco por vezes. O mais estranho é que noutro dia vi um documentário na TV sobre a Segunda Guerra Mundial e pensei ‘caraças, devíamos ter aprendido com o que fizemos e com o resultado que obtivemos’. Agora olhamos para o mundo e para o modo como as nações facilmente ameaçam chegar ao mesmo ponto, e é de doidos. E claro, essa situação inclui a Espanha também.» A questão seguinte é inevitável: será que nunca aprendemos com os erros que a História nos ensina? «Ainda noutro dia um amigo meu me falou nisso. Tudo na vida anda em ciclos e a História repete-se. Isto é muito perigoso e interessante ao mesmo tempo, porque tanto somos capazes de aprender com a História e com os erros cometidos, como somos capazes de fazer ainda pior. Mas sabes o que é mais assustador? É que acho que isto é apenas o início. Talvez o pior esteja ainda para vir. É realmente muito assustador.»

«Amo a Espanha, amo Portugal, amo o sol, a praia, a comida e as pessoas.»

Com 18 anos de carreira e o proverbial sexto álbum de originais já despachado, um dos maiores perigos de uma banda que até há bem pouco tempo era vendida com a etiqueta da “irreverência da juventude” colada pode ser a perda da motivação e “fome” dos primeiros tempos. Polako diz que isso não é para os Angelus Apatrida. «Sentimos precisamente o contrário», afirma. «Já tocamos juntos há 18 anos, porque começámos quando ainda éramos miúdos, e somos amigos desde aí. Somos como um casal que se uniu para a vida toda. Por isso, tudo se torna mais interessante a cada ano que passa. Sempre que estamos prestes a gravar um novo álbum e sempre que vamos em digressão sentimo-nos mais motivados. É claro que não ensaiamos com a mesma frequência com que o fazíamos há dez anos, porque não é necessário; todos sabemos o que fazer e temos bastante mais prática. Basta-nos ensaiar duas ou três vezes antes de irmos em digressão. No resto do ano não ensaiamos, porque tocamos tantas vezes em concerto, que tocar ao vivo é o nosso ensaio. É a nossa forma de vida, é o nosso emprego principal neste momento e é muito interessante estar numa banda com estes tipos. Somos amigos para a vida e somos irmãos. E é claro que espero estar mais 18 anos ou mais ao lado deles a fazer isto.» Por outro lado, o espectro da emigração, sempre presente nos países do sul, para paragens onde o mercado musical “metálico” seja mais forte e apetecível, nunca passou pela cabeça do quarteto. «Na verdade, acho que a indústria musical aqui em Espanha é bastante boa para nós. Somos muito afortunados e temos uma posição muito boa na cena heavy metal aqui. E não é só por causa disso que eu nunca pensaria em mudar de país… Ando em digressão pelo mundo todo e consigo ver que a cena espanhola é uma das melhores que há. Posso apenas compará-la com a cena da América Latina, que tem um público extremamente poderoso. Também posso compará-la com Portugal, claro, mas Portugal é como Espanha, porque somos irmãos. Portugal, Espanha e a América Latina têm o melhor público do mundo, por isso nunca me mudaria. Amo a Espanha, amo Portugal, amo o sol, a praia, a comida e as pessoas. Prefiro ir à Alemanha e ao Reino Unido para visitar e trabalhar, mas quero viver aqui.»

«O Daniel [Cardoso] é um bom amigo nosso e sempre nos ajudou em tudo.»

“Cabaret de la Guillotine” tem uma diferença considerável quando comparado com os seus antecessores: não contou com produção feita nos Ultrasound Studios, de Daniel Cardoso. Os Angelus Apatrida decidiram gravar “em casa”, mas não dispensaram os serviços do português na mistura e masterização. «Decidimos produzir o álbum sozinhos também porque tivemos dicas muito valiosas do todo-poderoso Daniel Cardoso. Consideramo-lo mais do que um amigo e ajudou-nos bastante. Apenas fizemos as captações sozinhos no nosso próprio estúdio, mas depois, claro, tivemos o Daniel a dar-nos montes de dicas, conselhos e opiniões por telefone e e-mail. Foi o método que utilizámos desta vez. E foi muito engraçado… Foi duro gravarmos sozinhos, mas soube muito bem termos o nosso próprio local na nossa cidade, não estarmos longe de casa pressionados com o tempo e com o dinheiro. Porque cada dia que passamos num estúdio profissional tem de ser pago, assim como as pessoas que lá trabalham. Por isso foi muito confortável trabalhar em casa. E depois o Daniel fez um trabalho fantástico e espantoso na mistura e masterização, e o resultado é mais que óptimo. Devo dizer que o Daniel nos confidenciou que este era o álbum com que estava mais feliz, de todos os que tinha feito.» Apesar desta decisão, a relação de amizade e aliança ibérica entre o produtor e a banda não saiu minimamente beliscada. «Sim, claro. Já nos conhecemos todos há muito tempo», confirmou-nos Guillermo. «Como foi dito, o Daniel é um bom amigo nosso e sempre nos ajudou em tudo. Ao início disse ‘OK malta, não sei se vocês vão querer misturar o álbum comigo, mas vou ajudar-vos de qualquer modo’. Tinha-lhe ligado a dizer como íamos fazer as coisas desta vez e na altura não sabíamos se ia ser ele a misturar o trabalho. E perguntei-lhe se nos podia ajudar. E ele respondeu: ‘Foda-se, sim! Claro. És meu amigo e vou dar-vos montes de conselhos e dicas para gravarem o álbum sozinhos. Se quiserem que eu misture o álbum faço-o obviamente com todo o gosto, e até tenho montes de material novo e equipamento que quero experimentar com o vosso som.’ Por isso sabíamos que estaríamos bem com ele. Mas mesmo no início do processo não sabíamos bem o que fazer e ele demonstrou sempre uma vontade enorme de ajudar-nos. Temos muita sorte em tê-lo ao nosso lado.»

 

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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