Anomalie: monólito de visões (entrevista c/ Marrok) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Anomalie: monólito de visões (entrevista c/ Marrok)

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«Actualmente estou a meio de uma espiral de pura criatividade!»

O terceiro disco do projecto austríaco Anomalie intitula-se “Visions” e descreve sete visões obtidas em sonhos e experiências, em vida e morte. Marrok, de 25 anos, é o mentor e conta-nos que durante estes últimos 2-3 anos teve que «lidar com algumas grandes mudanças» na sua vida e, «embora tenha descoberto força para tomar algumas decisões dolorosas», esse período foi o mais inspirador da sua carreira enquanto músico. E continua: «Uma vez focado 100% em mim ao invés de me queixar de coisas que não posso mudar, tornou-se muito mais fácil passar os dias com actividades produtivas que têm uma influência extensiva naquilo que me rodeia. Descobri pessoas muito inspiradoras e todos nos ajudamos até ao próximo nível, portanto diria que actualmente estou a meio de uma espiral de pura criatividade!»

Olhando para o conceito do álbum pode sentir-se que a mensagem é agora diferente em relação aos dois primeiros trabalhos, até porque uma das grandes transformações na vida de Marrok deve-se à morte de Walter Brauch, um tio chegado: «É importante mencionar que penso na sua morte como algo positivo dentro daquilo que este acontecimento pode ser. Partiu sem dor e antes que a sua doença o transformasse num ser miserável à espera do fim!» E chega mesmo a confidenciar: «A minha família pediu para tocar uma das minhas canções no funeral do Walter, [e] foi um momento muito comovente esse de ter a oportunidade de lhe dizer adeus dessa forma, e para minha surpresa todas aquelas pessoas à volta do caixão ficaram muito tocadas com a canção! Até a minha avó veio ter comigo depois do enterro, porque queria esta canção no seu próprio funeral… Embora seja uma grande honra, continua a ser um bocado surreal pensar nisso.» Voltando à tal mensagem de “Visions”, o artista aceita que é diferente de antes, «mas [que] é difícil dizer se é mais pessoal». «“Visions” pode dar a impressão de ser mais profundo do que os discos anteriores, porque aprendi muito como me exprimir desde o início de Anomalie e estou certo que o intercâmbio espiritual com pessoas altamente valiosas permitiu-me que crescesse pessoalmente, o que torna mais fácil encontrar as palavras certas.»

Tudo isto se confronta, e ouvindo o álbum integralmente percebe-se bem porquê: “Visions” pode ser melódico, mas é sempre muito negro mesmo durante esses momentos, fazendo com que se pense que Marrok tenta encontrar aconchego dentro da condenação. «Não há luz sem escuridão, não há fogo sem gelo, não há amor sem ódio… As composições são o meu canal intuitivo a reflectir muitos aspectos diferentes de vida e morte, significando que todos esses antagonismos encontram naturalmente o seu caminho até à minha música.» Poeticamente sabe que «temos de passar pelo inferno antes de sermos capazes de sentir pura alegria e iluminação», achando seguidamente que «é um grande desafio criar canções que mostrem essa extrema quantidade de contrastes». Todavia vê-se a si próprio como «uma alma bastante positiva», mesmo que continue «viciado na escuridão onde se consegue descobrir beleza que por vezes leva às lágrimas».

Perto da conclusão da conversa aguardava-nos ainda a discussão sobre o que é ou não black metal, e o austríaco, apesar de clarificar a sua perspectiva, pensa nisso como «uma perda de tempo». «Para mim, black metal não tem um som específico, já que é mais sobre a mensagem por detrás do artista, a liberdade de quebrar barreiras em vez de fazer a mesma merda que algumas veneráveis bandas fizeram há 20 ou 30 anos.» Sublinha veementemente que black metal «é sobre atitude» e «não aquele tipo de comportamento superficial dalguns infantis ‘adoradores do diabo’, mas uma verdadeira maturidade e vontade sem fronteiras de seguir o próprio caminho, venha o que vier!». Seguindo a sua própria definição, remata: «“Visions” tem uma ligação mais forte ao black metal do que algumas bandas que gostariam de me ‘matar’ por causa desta tese, mas que se lixe.» Depois dum momento mais fervoroso, Marrok deixa ainda no ar o que aí vem: «Estou a trabalhar num outro lançamento que contém muitas canções bastante dissonantes, mas algumas mais pesadas do que as de “Visions” não vão mudar nada sobre que black metal somos, pois não?» Contamos que não.

 

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