As mentes brilhantes da nossa música – Isto não é sobre heavy metal (por Diogo Ferreira) – Ultraje – Metal & Rock Online
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As mentes brilhantes da nossa música – Isto não é sobre heavy metal (por Diogo Ferreira)

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Nasci em 1987 e desde cedo tive contacto com a música: os fados de Coimbra e da Amália que os meus avós maternos ouviam no carro quando estacionavam à beira-mar (o meu avô fazia palavras-cruzadas, a minha avó fazia renda), os Pink Floyd ou o Michael Jackson que um dos meus tios ouvia frequentemente, o Rão Kyao ou o Zeca Afonso que os meus pais me incutiam. Até que, na pré-adolescência, fiz o meu caminho quando encontrei o nu-metal – como foi escrito num outro artigo – e escalei até todos os subgéneros do heavy metal, sem esquecer os meus amados synth-pop, darkwave e neofolk.

Contudo, há personagens da História musical em Portugal que me fazem sentir um amor descomunal pela arte sonora e que, ao fim e ao cabo, podem vir a ser ostracizados pela passagem do tempo: António Variações, Adolfo Luxúria Canibal, João Aguardela e Pedro Ayres Magalhães (propositadamente o último deste rol).

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António Ribeiro, cabeleireiro nascido no Minho, viria a ser um ícone de moda e música em Portugal. Numa altura em que também os Heróis do Mar chocavam – mas já lá vamos –, António, o Variações, mostrava-se um artista à frente do seu tempo. As roupas intrigavam e, de facto, não conjugavam com a sociedade vigente – que não vivi, mas que leio sobre ela. No meio disto tudo, aparecia uma voz masculina que, com trejeitos de fado, se misturava com um fundo musical pop e letras intemporais que ainda hoje são cantadas e recantadas, seja por meros transeuntes ou por músicos consagrados que lhe prestam homenagem.

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Adolfo Luxúria Canibal é outro minhoto ímpar – ainda que tenha nascido em Luanda. Os Mão Morta arrasaram no mítico Rock Rendez-Vous, em Lisboa, nos anos 80 e desde daí foi sempre a subir. Apareceram várias vezes na televisão, mas acabaram por criar uma carreira especialmente apoiada em concertos próprios ao invés da promoção visual. Com o seu estilo spoken-word e voz rouca, Adolfo Luxúria Canibal é, sem contestação, um dos melhores letristas que alguma vez se conheceram em Portugal – poesia livre, metáforas inteligentes e críticas sociais sempre actuais. Quem não viu o vídeo de “Horas de Matar”? Um amostragem crua e sem rodeios que há décadas atrás iria criar conturbação em larga escala – mas hoje em dia está tudo à distância de um clique, a Internet é descartável e acho que uma boa parte da malta se está a cagar para tudo, ou para quase tudo. O último álbum da banda, “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” (2014), é puramente interventivo e até de ideologia esquerdista – basta ler as letras ou relembrar a formação de caras revolucionárias marxistas nos concertos de promoção desse disco.

luxuria-canibalFoto: Paulo Segadães

João Aguardela foi dos bons que morreu cedo (1969-2009). Numa mistura entre rock e algum folk sempre dançante, os Sitiados ofereceram um dos temas que mais se cantou em Portugal: “Vida de Marinheiro”. Este êxito foi daqueles que tanto era cantado pelos putos no autocarro que os ia buscar à escola como pelos recém-adultos nas discotecas e bares. No entanto, confesso que, para mim, o epíteto de Aguardela está em A Naifa, grupo que criou com Luís Varatojo (Peste & Sida, Despe & Siga). Sempre muito preocupado com as raízes da música portuguesa, Aguardela e Varatojo conseguiram – ao estilo de Variações – unir o fado através da voz de Maria Antónia e a guitarra portuguesa de Varatojo com elementos pop. Um dos rasgos de talento de Aguardela passa pela escrita de letras assinadas por mulheres, mas que, na verdade, eram escritas pelo próprio (revelação póstuma).

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Pedro Ayres Magalhães é, pessoalmente, dos nomes mais queridos na evolução da música feita em Portugal. Fez parte dos Faíscas – para muitos, a primeira banda punk portuguesa –, trouxe a new wave com o Corpo Diplomático, rebentou com os Heróis do Mar e correu – ainda corre – o mundo com Madredeus. Heróis do Mar é um paradoxo em si: tanto tem de sucesso com a introdução do pop-rock dançante como de ultrajante devido à teatralidade patriótica que não era nada bem vista naqueles anos ainda muito sensíveis após o 25 de Abril. De reaccionários a fascistas, foram chamados de tudo. Trinta anos depois parece estar tudo sanado – ou, pelo menos, quanto às mentes mais pensantes e sedentas por absorver a História da nossa música. Mas o expoente máximo da sua genialidade está inequivocamente ligado a Madredeus, ensemble que formou com Rodrigo Leão (Sétima Legião). Muitas vezes confundidos com fado, sempre se consideraram um grupo de música erudita com lances tradicionalistas que, com Teresa Salgueiro, roçavam, aí sim, o imaginário do fado – fado, sempre ligado a tudo. Pedro Ayres Magalhães é o génio que se esconde no baixo (era conhecido por Dedos Aires no Corpo Diplomático) e na guitarra clássica (a razão pela qual formou os Madredeus; para tocar o instrumento que estudou em adolescente). “O Pastor” ou “A Vaca de Fogo” ecoarão para todo o sempre em centenas de salas por este planeta fora.

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Considero-me alguém que escarafuncha a História da música a nível mundial, mas aqui se cai num grande problema tão português: a dificuldade de descobrirmos o nosso próprio país. A revelação do nosso pop e do nosso rock deve-se, e muito, à RTP que, nos últimos anos, tem feito um trabalho brilhante nesse campo. Mas o serviço público é fraco e não serve para nada – é o que mais se ouve. Se hoje, no Séc. XXI, sabemos mais sobre o nosso rock é devido a documentários e séries públicas como aquele sobre o Rock Rendez-Vous, “A Arte Eléctrica em Portugal” ou os episódios documentais “Estranha Forma de Vida” – está tudo na Internet. Como prenda final, deixamos-vos dois documentários independentes que, por certo, vão satisfazer os ávidos do som: “Meio Metro de Pedra” e “Música em Pó”.

 

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