Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça)

31740019_10209930993906221_3763990938850951168_nLucifer’s Ensemble

No dia 19 de Maio, o Espaço GrETUA (Aveiro) recebe a 7ª edição de um evento mutante que insiste em destacar-se tanto pela diferença como pela dinâmica na programação – um festival de um só dia, ou de uma só noite, como quiserem.  É o Aveiroshima2027, o primeiro de 2018. Sem mais delongas, até porque o cerne está nas respostas e não nas perguntas ou nesta introdução, João Peça (um dos membros da organização) concedeu-nos uns momentos para nos/vos ajudar a perceber o que é, afinal, Aveiroshima e todo o seu universo.

«A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço.»

AVEIROSHIMA2027. O nome do festival é composto pelo nome de Aveiro e por uma terminação que nos remete imediatamente para Hiroshima, uma das cidades japonesas vítimas da bomba atómica em 1945. Isto requer uma séria explicação.
Séria ou não, existe uma só explicação. Aveiroshima foi o nome de baptismo atribuído à cidade de Aveiro pelo Filho Do Demo (aka Flávio Moura), um street-artist / ilustrador do Porto que cá residiu uns tempos. Passo a citar: “(…nesta Aveiroshima que tão bem me recebeu.)” É assim que termina a sua nota de agradecimento na sinopse de apresentação da exposição que apresentou no Café, Galeria & Livraria Má Ideia, actualmente mais conhecido por Má Ideia – Craft Beer & Coffee. O nome ficou-me sempre na cabeça e não foi difícil adoptá-lo quando surgiu a necessidade de atribuir um título ao evento. Foi uma questão de fazer um telefonema, perguntar se o poderíamos utilizar e a resposta foi como se esperava, positiva. No início de 2016, a CM de Aveiro anuncia publicamente que se vai candidatar a Capital Europeia da Cultura para o ano de 2027. A notícia era tão séria quanto ridícula. Por um lado, este novo executivo não demonstrava qualquer interesse genuíno em investir na cidade a nível cultural – a deterioração da esperança num futuro mais cultural foi mais do que evidente após a sua entrada, embora o problema já viesse de trás. Por outro lado a candidatura parecia ser o seu único motivo de interesse e contributo nesse sentido. Ora, não nos interessava a candidatura em 2016, queríamos resultados naquele momento. No fundo, o 2027 acaba por ser o lado profético do nome do evento.

31747902_10209931027987073_3694520761961152512_nHHY & The Macumbas

O manifesto deste evento dá pano para mangas. Parece que Aveiroshima em 2027 é um local engarrafado pelo vazio, mas lá no centro há um subúrbio doente e desnutrido que resiste. No entanto voltamos ao presente – a Aveiro de 2016-2018 – e há um exército de entusiastas que teima em não perder para as massas, para o turismo desmesurado, para o capitalismo sem quartel que está por todo o lado. Queres dar-nos a tua visão real e sem metáforas do que se está a passar?
Com esta é que me fodeste. Posso tentar. A principal diferença entre 2016 e 2018 está no número de promotores, no tipo de promotores e no número de locais interessados em acolher os eventos, existem em mais número em regra geral, tem uma especial tendência e à-vontade para a mútua colaboração e isso traz frutos, obviamente. Antes, a programação cultural era prevista em apenas dois ou três espaços, sendo que apenas um mantinha a regularidade em termos quantitativos e qualitativos. No entanto, acabava por ser uma oferta algo limitada, um local por si só não é suficiente para transformar uma cidade inteira, pelo menos nos dias de hoje, e com este tipo de colaboração criam-se laços que tornam possível com que espectadores que procuram apenas um certo tipo de eventos marquem presença em diversos tipos de eventos, quanto mais não seja pela proximidade à casa onde este decorre. Embora dentro desta teia, o AVEIROSHIMA2027 continua a ser um filho bastardo por opção, o que não invalida o facto de poder usufruir (nem deve) desta nova abordagem colaborativa entre espaços. Embora opte por uma programação mais desviante, completamente afastada de qualquer circuito nacional, continua a ser um nome de referência pela diferenciação positiva no que toca a escolhas de cartaz. Para além disso, conceptualmente é um mutante – ainda não houve, nem deverá haver, uma edição similar à anterior e a próxima vem responder bem a isto. Para que não haja dúvidas, são três as edições propostas para este ano no GrETUA e estão todas fechadas.

31886594_10209931034427234_735867213658980352_nJorge Barco

Há ainda um outro texto que se vira para a falta de civismo e para a cegueira religiosa. Há nisso algum ponto de partida para um conceito específico em relação a este Aveiroshima 2027?
Penso que terão sido apenas metáforas e figuras de estilo escolhidas pelo autor do texto de apresentação desta edição que, por sua vez, é também autor do manifesto inicial. Não existe um conceito específico neste evento, até porque sou a favor de voltar a explorar ideias que ficaram perdidas no tempo ou que ficaram por terra por muitas curtas tentativas que possam ter tido. O old-school tem tanto ou mais peso nos nossos critérios do que por exemplo o avant-garde ou o experimental. Não nos podemos esquecer da panóplia de bandas e projectos conjuntos ou a solo que marcaram os anos transactos, tanto nacional como internacionalmente. De resto não existem segredos, acho que a mais-valia a par das escolhas de cartaz é mesmo o próprio local que nos permite basicamente brincar com o espaço, concertos no palco, fora do palco, junto ao bar, na bancada, etc.. A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço, e o espaço do GrETUA agrupa todas essas possibilidades. Não há nada de inovador neste conceito, só nos resta que o público sinta algum interesse e simpatia pela dinâmica geral e que isso o faça voltar de edição para edição.

31764700_10209931039787368_8098735516117106688_nAntippode

Todavia, acabam por olhar para a palavra ritual como algo que pode ser positivo – algo que pode mesmo ser transcendental para toda a gente que visitar o evento. O que é que o Aveiroshima 2027 tem para oferecer a nível artístico e de comunidade?
Em Aveiro não existe um evento que seja pensado da forma como este é. Apesar de inicialmente termos apostado na dicotomia Concerto – Festa/DJs, o futuro dita que nos afastemos cada vez mais desse modelo e apostemos mais em vertentes ligadas à performance, à instalação, ao video e ao live-act sem colocar de lado o dancefloor, é importante que no meio de tanta informação e absorção haja espaço para a descompressão e o entretenimento – existem é várias formas de o fazer e o DJ não é a única opção com capacidade de produzir esse efeito. Para a próxima edição apostámos em espectáculos muito específicos e de rotulagem difícil, muito fortes a nível coreográfico e no mínimo intrigantes se vistos da abordagem musical e que, por obra do acaso ou não, partilham características subjacentes à temática que inicialmente nos levou a pensar este evento em particular. Para ser sincero, nunca esperei ver juntos na mesma noite e no mesmo local o colectivo Lucifer’s Ensemble e HHY & The Macumbas no espaço de três horas. Vai ser necessário algum fôlego da parte de todos e estaria a mentir se não dissesse que existe um certo receio e curiosidade em relação à reacção final do público. Aqui estamos certamente a falar de uma experiência –  e no fundo é tudo o queremos que as pessoas levem para casa: a sensação de que viram algo diferente do habitual mesmo numa altura em que praticamente já se viu de tudo. A estes dois nomes juntamos mais dois momentos improváveis, um concerto de noise com uma componente exploratória forte a partir de instrumentos construídos e desenvolvidos pelo próprio músico/artista, neste caso o colombiano Jorge Barco que penso que poderá ser visto em três momentos e com trabalhos distintos em Aveiro durante um certo período de tempo. Para finalizar a noite estreia em Aveiro, uma dupla que já se estreou em Águeda na festa de encerramento de um festival de Butô no ano passado: a dupla é composta pelo Hugo Branco (aka Fulano47) e pelo Israelita (Guvibosh) que deram corpo, alma e mãos a Antippode, um live-act carregado de hardware definitivamente dedicado à música electrónica que vai fechar o evento em grande classe. O programa aqui já vai bastante denso, posso apenas adiantar que, para descomprimir, na zona do bar vai estar um DJ da RUC responsável pelo programa Suburbano, dedicado ao hip-hop e às novas tendências dentro do género. Espera-se portanto, para além do hip-hop, a visita a subgéneros como o horror core, o hardcore hip-hop, o hip-hop experimental, entre outros.

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 “Engendrado pela Má Ideia, acolhido pelo GrETUA, coproduzido pela Zigur Artists, tecnicamente possível graças à Musa e apadrinhado pelo empenho e pela boa vontade dos artistas convidados (…).” Esta é uma das frases que apresenta o evento ao mundo. Lutar contra tudo e todos mas com a intenção de encontrar sinergias que nos levem a bom-porto é a cruz de todas as entidades independentes. Por mais desigual que possa ser ir contra multinacionais e enormes infra-estruturas, também é com ânimo que se realizam coisas como o Aveiroshima, certo?
Sim e não. Primeiro sim, dá um tesão enorme conjecturar uma noite assim, e desde já saliento os dois cartazes que mais tesão deram “engendrar”, como refere o texto. O actual cartaz proposto para o próximo dia 19 de Maio de 2018 e o cartaz da 4ª edição que aconteceu há mais ou menos um ano atrás. Curiosamente foi o que nos deu mais prejuízo, porque esteve muito menos gente presente. Até hoje acredito que a razão para tal deveu-se ao facto de os holofotes da passadeira de peões mais próxima do evento estarem apagados devido à falta de eficiência dos serviços municipalizados da cidade de Aveiro. As pessoas ficam mais facilmente marcadas por datas de acontecimentos traumáticos e talvez por essa razão, e pelo facto de ter uma puta de um cartaz como este mais ou menos na mesma altura passado um ano, eu tenha tendência de ter o pé atrás. Espero mesmo estar errado, e felizmente o Hugo Branco (VIC // Aveiro Arts House) contrabalança com eficácia esta tendência menos positiva no seio da organização – é tipo Yin-Yang, acho eu. Ir contra as multinacionais é sempre discutível, já não se vai contra as multinacionais, mas sim rogamos aos céus que a nossa voz seja ouvida neste meio; aqui quem faz a diferença são as pessoas caso decidam valorizar o nosso trabalho – os pequenos e médios promotores estão condenados ao insucesso já há muito tempo. Se por um lado não queres trabalhar com patrocínios só o retorno de uma boa bilheteira é que te safa as costas, se as bilheteiras são fracas não podes apostar em bons cartazes. Por outro, se optas por recorrer a patrocínios estás a entrar no jogo das multinacionais e a vestir uma camisola que não queres vestir. Este ano, por exemplo, renunciámos ao único patrocinador que tínhamos que dava uma folga mínima para trabalharmos, porque no ano passado achámos que não conseguimos devolver resultados satisfatórios ao patrocinador – custa-nos pedir dinheiro a alguém só para nos safar as costas sem devolver nada em troca quando é da responsabilidade do público assegurar que o evento tem continuidade. De que é que vale ter um patrocinador que te dá, por exemplo, 1000 euros hipoteticamente para montar um evento para 250 pessoas se aparecem 100? O evento fica pago, mas quem é que paga a desilusão pessoal e individual da organização que tanto fez para que isto acontecesse? Portanto, nem tudo são rosas. Não queremos enchentes histéricas e desmesuradas, apenas queremos atingir o conforto mínimo a vários níveis e que as pessoas que venham ao evento fiquem com essa mesma sensação, a de que correu tudo bem para todos.

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