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Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça)

Diogo Ferreira

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31740019_10209930993906221_3763990938850951168_nLucifer’s Ensemble

No dia 19 de Maio, o Espaço GrETUA (Aveiro) recebe a 7ª edição de um evento mutante que insiste em destacar-se tanto pela diferença como pela dinâmica na programação – um festival de um só dia, ou de uma só noite, como quiserem.  É o Aveiroshima2027, o primeiro de 2018. Sem mais delongas, até porque o cerne está nas respostas e não nas perguntas ou nesta introdução, João Peça (um dos membros da organização) concedeu-nos uns momentos para nos/vos ajudar a perceber o que é, afinal, Aveiroshima e todo o seu universo.

«A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço.»

AVEIROSHIMA2027. O nome do festival é composto pelo nome de Aveiro e por uma terminação que nos remete imediatamente para Hiroshima, uma das cidades japonesas vítimas da bomba atómica em 1945. Isto requer uma séria explicação.
Séria ou não, existe uma só explicação. Aveiroshima foi o nome de baptismo atribuído à cidade de Aveiro pelo Filho Do Demo (aka Flávio Moura), um street-artist / ilustrador do Porto que cá residiu uns tempos. Passo a citar: “(…nesta Aveiroshima que tão bem me recebeu.)” É assim que termina a sua nota de agradecimento na sinopse de apresentação da exposição que apresentou no Café, Galeria & Livraria Má Ideia, actualmente mais conhecido por Má Ideia – Craft Beer & Coffee. O nome ficou-me sempre na cabeça e não foi difícil adoptá-lo quando surgiu a necessidade de atribuir um título ao evento. Foi uma questão de fazer um telefonema, perguntar se o poderíamos utilizar e a resposta foi como se esperava, positiva. No início de 2016, a CM de Aveiro anuncia publicamente que se vai candidatar a Capital Europeia da Cultura para o ano de 2027. A notícia era tão séria quanto ridícula. Por um lado, este novo executivo não demonstrava qualquer interesse genuíno em investir na cidade a nível cultural – a deterioração da esperança num futuro mais cultural foi mais do que evidente após a sua entrada, embora o problema já viesse de trás. Por outro lado a candidatura parecia ser o seu único motivo de interesse e contributo nesse sentido. Ora, não nos interessava a candidatura em 2016, queríamos resultados naquele momento. No fundo, o 2027 acaba por ser o lado profético do nome do evento.

31747902_10209931027987073_3694520761961152512_nHHY & The Macumbas

O manifesto deste evento dá pano para mangas. Parece que Aveiroshima em 2027 é um local engarrafado pelo vazio, mas lá no centro há um subúrbio doente e desnutrido que resiste. No entanto voltamos ao presente – a Aveiro de 2016-2018 – e há um exército de entusiastas que teima em não perder para as massas, para o turismo desmesurado, para o capitalismo sem quartel que está por todo o lado. Queres dar-nos a tua visão real e sem metáforas do que se está a passar?
Com esta é que me fodeste. Posso tentar. A principal diferença entre 2016 e 2018 está no número de promotores, no tipo de promotores e no número de locais interessados em acolher os eventos, existem em mais número em regra geral, tem uma especial tendência e à-vontade para a mútua colaboração e isso traz frutos, obviamente. Antes, a programação cultural era prevista em apenas dois ou três espaços, sendo que apenas um mantinha a regularidade em termos quantitativos e qualitativos. No entanto, acabava por ser uma oferta algo limitada, um local por si só não é suficiente para transformar uma cidade inteira, pelo menos nos dias de hoje, e com este tipo de colaboração criam-se laços que tornam possível com que espectadores que procuram apenas um certo tipo de eventos marquem presença em diversos tipos de eventos, quanto mais não seja pela proximidade à casa onde este decorre. Embora dentro desta teia, o AVEIROSHIMA2027 continua a ser um filho bastardo por opção, o que não invalida o facto de poder usufruir (nem deve) desta nova abordagem colaborativa entre espaços. Embora opte por uma programação mais desviante, completamente afastada de qualquer circuito nacional, continua a ser um nome de referência pela diferenciação positiva no que toca a escolhas de cartaz. Para além disso, conceptualmente é um mutante – ainda não houve, nem deverá haver, uma edição similar à anterior e a próxima vem responder bem a isto. Para que não haja dúvidas, são três as edições propostas para este ano no GrETUA e estão todas fechadas.

31886594_10209931034427234_735867213658980352_nJorge Barco

Há ainda um outro texto que se vira para a falta de civismo e para a cegueira religiosa. Há nisso algum ponto de partida para um conceito específico em relação a este Aveiroshima 2027?
Penso que terão sido apenas metáforas e figuras de estilo escolhidas pelo autor do texto de apresentação desta edição que, por sua vez, é também autor do manifesto inicial. Não existe um conceito específico neste evento, até porque sou a favor de voltar a explorar ideias que ficaram perdidas no tempo ou que ficaram por terra por muitas curtas tentativas que possam ter tido. O old-school tem tanto ou mais peso nos nossos critérios do que por exemplo o avant-garde ou o experimental. Não nos podemos esquecer da panóplia de bandas e projectos conjuntos ou a solo que marcaram os anos transactos, tanto nacional como internacionalmente. De resto não existem segredos, acho que a mais-valia a par das escolhas de cartaz é mesmo o próprio local que nos permite basicamente brincar com o espaço, concertos no palco, fora do palco, junto ao bar, na bancada, etc.. A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço, e o espaço do GrETUA agrupa todas essas possibilidades. Não há nada de inovador neste conceito, só nos resta que o público sinta algum interesse e simpatia pela dinâmica geral e que isso o faça voltar de edição para edição.

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Todavia, acabam por olhar para a palavra ritual como algo que pode ser positivo – algo que pode mesmo ser transcendental para toda a gente que visitar o evento. O que é que o Aveiroshima 2027 tem para oferecer a nível artístico e de comunidade?
Em Aveiro não existe um evento que seja pensado da forma como este é. Apesar de inicialmente termos apostado na dicotomia Concerto – Festa/DJs, o futuro dita que nos afastemos cada vez mais desse modelo e apostemos mais em vertentes ligadas à performance, à instalação, ao video e ao live-act sem colocar de lado o dancefloor, é importante que no meio de tanta informação e absorção haja espaço para a descompressão e o entretenimento – existem é várias formas de o fazer e o DJ não é a única opção com capacidade de produzir esse efeito. Para a próxima edição apostámos em espectáculos muito específicos e de rotulagem difícil, muito fortes a nível coreográfico e no mínimo intrigantes se vistos da abordagem musical e que, por obra do acaso ou não, partilham características subjacentes à temática que inicialmente nos levou a pensar este evento em particular. Para ser sincero, nunca esperei ver juntos na mesma noite e no mesmo local o colectivo Lucifer’s Ensemble e HHY & The Macumbas no espaço de três horas. Vai ser necessário algum fôlego da parte de todos e estaria a mentir se não dissesse que existe um certo receio e curiosidade em relação à reacção final do público. Aqui estamos certamente a falar de uma experiência –  e no fundo é tudo o queremos que as pessoas levem para casa: a sensação de que viram algo diferente do habitual mesmo numa altura em que praticamente já se viu de tudo. A estes dois nomes juntamos mais dois momentos improváveis, um concerto de noise com uma componente exploratória forte a partir de instrumentos construídos e desenvolvidos pelo próprio músico/artista, neste caso o colombiano Jorge Barco que penso que poderá ser visto em três momentos e com trabalhos distintos em Aveiro durante um certo período de tempo. Para finalizar a noite estreia em Aveiro, uma dupla que já se estreou em Águeda na festa de encerramento de um festival de Butô no ano passado: a dupla é composta pelo Hugo Branco (aka Fulano47) e pelo Israelita (Guvibosh) que deram corpo, alma e mãos a Antippode, um live-act carregado de hardware definitivamente dedicado à música electrónica que vai fechar o evento em grande classe. O programa aqui já vai bastante denso, posso apenas adiantar que, para descomprimir, na zona do bar vai estar um DJ da RUC responsável pelo programa Suburbano, dedicado ao hip-hop e às novas tendências dentro do género. Espera-se portanto, para além do hip-hop, a visita a subgéneros como o horror core, o hardcore hip-hop, o hip-hop experimental, entre outros.

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 “Engendrado pela Má Ideia, acolhido pelo GrETUA, coproduzido pela Zigur Artists, tecnicamente possível graças à Musa e apadrinhado pelo empenho e pela boa vontade dos artistas convidados (…).” Esta é uma das frases que apresenta o evento ao mundo. Lutar contra tudo e todos mas com a intenção de encontrar sinergias que nos levem a bom-porto é a cruz de todas as entidades independentes. Por mais desigual que possa ser ir contra multinacionais e enormes infra-estruturas, também é com ânimo que se realizam coisas como o Aveiroshima, certo?
Sim e não. Primeiro sim, dá um tesão enorme conjecturar uma noite assim, e desde já saliento os dois cartazes que mais tesão deram “engendrar”, como refere o texto. O actual cartaz proposto para o próximo dia 19 de Maio de 2018 e o cartaz da 4ª edição que aconteceu há mais ou menos um ano atrás. Curiosamente foi o que nos deu mais prejuízo, porque esteve muito menos gente presente. Até hoje acredito que a razão para tal deveu-se ao facto de os holofotes da passadeira de peões mais próxima do evento estarem apagados devido à falta de eficiência dos serviços municipalizados da cidade de Aveiro. As pessoas ficam mais facilmente marcadas por datas de acontecimentos traumáticos e talvez por essa razão, e pelo facto de ter uma puta de um cartaz como este mais ou menos na mesma altura passado um ano, eu tenha tendência de ter o pé atrás. Espero mesmo estar errado, e felizmente o Hugo Branco (VIC // Aveiro Arts House) contrabalança com eficácia esta tendência menos positiva no seio da organização – é tipo Yin-Yang, acho eu. Ir contra as multinacionais é sempre discutível, já não se vai contra as multinacionais, mas sim rogamos aos céus que a nossa voz seja ouvida neste meio; aqui quem faz a diferença são as pessoas caso decidam valorizar o nosso trabalho – os pequenos e médios promotores estão condenados ao insucesso já há muito tempo. Se por um lado não queres trabalhar com patrocínios só o retorno de uma boa bilheteira é que te safa as costas, se as bilheteiras são fracas não podes apostar em bons cartazes. Por outro, se optas por recorrer a patrocínios estás a entrar no jogo das multinacionais e a vestir uma camisola que não queres vestir. Este ano, por exemplo, renunciámos ao único patrocinador que tínhamos que dava uma folga mínima para trabalharmos, porque no ano passado achámos que não conseguimos devolver resultados satisfatórios ao patrocinador – custa-nos pedir dinheiro a alguém só para nos safar as costas sem devolver nada em troca quando é da responsabilidade do público assegurar que o evento tem continuidade. De que é que vale ter um patrocinador que te dá, por exemplo, 1000 euros hipoteticamente para montar um evento para 250 pessoas se aparecem 100? O evento fica pago, mas quem é que paga a desilusão pessoal e individual da organização que tanto fez para que isto acontecesse? Portanto, nem tudo são rosas. Não queremos enchentes histéricas e desmesuradas, apenas queremos atingir o conforto mínimo a vários níveis e que as pessoas que venham ao evento fiquem com essa mesma sensação, a de que correu tudo bem para todos.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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