#ChooseUltraje

Entrevistas

Aveiroshima2027: um festival de um só dia (entrevista c/ João Peça)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

31740019_10209930993906221_3763990938850951168_nLucifer’s Ensemble

No dia 19 de Maio, o Espaço GrETUA (Aveiro) recebe a 7ª edição de um evento mutante que insiste em destacar-se tanto pela diferença como pela dinâmica na programação – um festival de um só dia, ou de uma só noite, como quiserem.  É o Aveiroshima2027, o primeiro de 2018. Sem mais delongas, até porque o cerne está nas respostas e não nas perguntas ou nesta introdução, João Peça (um dos membros da organização) concedeu-nos uns momentos para nos/vos ajudar a perceber o que é, afinal, Aveiroshima e todo o seu universo.

«A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço.»

AVEIROSHIMA2027. O nome do festival é composto pelo nome de Aveiro e por uma terminação que nos remete imediatamente para Hiroshima, uma das cidades japonesas vítimas da bomba atómica em 1945. Isto requer uma séria explicação.
Séria ou não, existe uma só explicação. Aveiroshima foi o nome de baptismo atribuído à cidade de Aveiro pelo Filho Do Demo (aka Flávio Moura), um street-artist / ilustrador do Porto que cá residiu uns tempos. Passo a citar: “(…nesta Aveiroshima que tão bem me recebeu.)” É assim que termina a sua nota de agradecimento na sinopse de apresentação da exposição que apresentou no Café, Galeria & Livraria Má Ideia, actualmente mais conhecido por Má Ideia – Craft Beer & Coffee. O nome ficou-me sempre na cabeça e não foi difícil adoptá-lo quando surgiu a necessidade de atribuir um título ao evento. Foi uma questão de fazer um telefonema, perguntar se o poderíamos utilizar e a resposta foi como se esperava, positiva. No início de 2016, a CM de Aveiro anuncia publicamente que se vai candidatar a Capital Europeia da Cultura para o ano de 2027. A notícia era tão séria quanto ridícula. Por um lado, este novo executivo não demonstrava qualquer interesse genuíno em investir na cidade a nível cultural – a deterioração da esperança num futuro mais cultural foi mais do que evidente após a sua entrada, embora o problema já viesse de trás. Por outro lado a candidatura parecia ser o seu único motivo de interesse e contributo nesse sentido. Ora, não nos interessava a candidatura em 2016, queríamos resultados naquele momento. No fundo, o 2027 acaba por ser o lado profético do nome do evento.

31747902_10209931027987073_3694520761961152512_nHHY & The Macumbas

O manifesto deste evento dá pano para mangas. Parece que Aveiroshima em 2027 é um local engarrafado pelo vazio, mas lá no centro há um subúrbio doente e desnutrido que resiste. No entanto voltamos ao presente – a Aveiro de 2016-2018 – e há um exército de entusiastas que teima em não perder para as massas, para o turismo desmesurado, para o capitalismo sem quartel que está por todo o lado. Queres dar-nos a tua visão real e sem metáforas do que se está a passar?
Com esta é que me fodeste. Posso tentar. A principal diferença entre 2016 e 2018 está no número de promotores, no tipo de promotores e no número de locais interessados em acolher os eventos, existem em mais número em regra geral, tem uma especial tendência e à-vontade para a mútua colaboração e isso traz frutos, obviamente. Antes, a programação cultural era prevista em apenas dois ou três espaços, sendo que apenas um mantinha a regularidade em termos quantitativos e qualitativos. No entanto, acabava por ser uma oferta algo limitada, um local por si só não é suficiente para transformar uma cidade inteira, pelo menos nos dias de hoje, e com este tipo de colaboração criam-se laços que tornam possível com que espectadores que procuram apenas um certo tipo de eventos marquem presença em diversos tipos de eventos, quanto mais não seja pela proximidade à casa onde este decorre. Embora dentro desta teia, o AVEIROSHIMA2027 continua a ser um filho bastardo por opção, o que não invalida o facto de poder usufruir (nem deve) desta nova abordagem colaborativa entre espaços. Embora opte por uma programação mais desviante, completamente afastada de qualquer circuito nacional, continua a ser um nome de referência pela diferenciação positiva no que toca a escolhas de cartaz. Para além disso, conceptualmente é um mutante – ainda não houve, nem deverá haver, uma edição similar à anterior e a próxima vem responder bem a isto. Para que não haja dúvidas, são três as edições propostas para este ano no GrETUA e estão todas fechadas.

31886594_10209931034427234_735867213658980352_nJorge Barco

Há ainda um outro texto que se vira para a falta de civismo e para a cegueira religiosa. Há nisso algum ponto de partida para um conceito específico em relação a este Aveiroshima 2027?
Penso que terão sido apenas metáforas e figuras de estilo escolhidas pelo autor do texto de apresentação desta edição que, por sua vez, é também autor do manifesto inicial. Não existe um conceito específico neste evento, até porque sou a favor de voltar a explorar ideias que ficaram perdidas no tempo ou que ficaram por terra por muitas curtas tentativas que possam ter tido. O old-school tem tanto ou mais peso nos nossos critérios do que por exemplo o avant-garde ou o experimental. Não nos podemos esquecer da panóplia de bandas e projectos conjuntos ou a solo que marcaram os anos transactos, tanto nacional como internacionalmente. De resto não existem segredos, acho que a mais-valia a par das escolhas de cartaz é mesmo o próprio local que nos permite basicamente brincar com o espaço, concertos no palco, fora do palco, junto ao bar, na bancada, etc.. A principal preocupação é oferecer vários ambientes dentro de um único espaço, e o espaço do GrETUA agrupa todas essas possibilidades. Não há nada de inovador neste conceito, só nos resta que o público sinta algum interesse e simpatia pela dinâmica geral e que isso o faça voltar de edição para edição.

31764700_10209931039787368_8098735516117106688_nAntippode

Todavia, acabam por olhar para a palavra ritual como algo que pode ser positivo – algo que pode mesmo ser transcendental para toda a gente que visitar o evento. O que é que o Aveiroshima 2027 tem para oferecer a nível artístico e de comunidade?
Em Aveiro não existe um evento que seja pensado da forma como este é. Apesar de inicialmente termos apostado na dicotomia Concerto – Festa/DJs, o futuro dita que nos afastemos cada vez mais desse modelo e apostemos mais em vertentes ligadas à performance, à instalação, ao video e ao live-act sem colocar de lado o dancefloor, é importante que no meio de tanta informação e absorção haja espaço para a descompressão e o entretenimento – existem é várias formas de o fazer e o DJ não é a única opção com capacidade de produzir esse efeito. Para a próxima edição apostámos em espectáculos muito específicos e de rotulagem difícil, muito fortes a nível coreográfico e no mínimo intrigantes se vistos da abordagem musical e que, por obra do acaso ou não, partilham características subjacentes à temática que inicialmente nos levou a pensar este evento em particular. Para ser sincero, nunca esperei ver juntos na mesma noite e no mesmo local o colectivo Lucifer’s Ensemble e HHY & The Macumbas no espaço de três horas. Vai ser necessário algum fôlego da parte de todos e estaria a mentir se não dissesse que existe um certo receio e curiosidade em relação à reacção final do público. Aqui estamos certamente a falar de uma experiência –  e no fundo é tudo o queremos que as pessoas levem para casa: a sensação de que viram algo diferente do habitual mesmo numa altura em que praticamente já se viu de tudo. A estes dois nomes juntamos mais dois momentos improváveis, um concerto de noise com uma componente exploratória forte a partir de instrumentos construídos e desenvolvidos pelo próprio músico/artista, neste caso o colombiano Jorge Barco que penso que poderá ser visto em três momentos e com trabalhos distintos em Aveiro durante um certo período de tempo. Para finalizar a noite estreia em Aveiro, uma dupla que já se estreou em Águeda na festa de encerramento de um festival de Butô no ano passado: a dupla é composta pelo Hugo Branco (aka Fulano47) e pelo Israelita (Guvibosh) que deram corpo, alma e mãos a Antippode, um live-act carregado de hardware definitivamente dedicado à música electrónica que vai fechar o evento em grande classe. O programa aqui já vai bastante denso, posso apenas adiantar que, para descomprimir, na zona do bar vai estar um DJ da RUC responsável pelo programa Suburbano, dedicado ao hip-hop e às novas tendências dentro do género. Espera-se portanto, para além do hip-hop, a visita a subgéneros como o horror core, o hardcore hip-hop, o hip-hop experimental, entre outros.

31894859_10209931033107201_5221541713415241728_nLucifer’s Ensemble

 “Engendrado pela Má Ideia, acolhido pelo GrETUA, coproduzido pela Zigur Artists, tecnicamente possível graças à Musa e apadrinhado pelo empenho e pela boa vontade dos artistas convidados (…).” Esta é uma das frases que apresenta o evento ao mundo. Lutar contra tudo e todos mas com a intenção de encontrar sinergias que nos levem a bom-porto é a cruz de todas as entidades independentes. Por mais desigual que possa ser ir contra multinacionais e enormes infra-estruturas, também é com ânimo que se realizam coisas como o Aveiroshima, certo?
Sim e não. Primeiro sim, dá um tesão enorme conjecturar uma noite assim, e desde já saliento os dois cartazes que mais tesão deram “engendrar”, como refere o texto. O actual cartaz proposto para o próximo dia 19 de Maio de 2018 e o cartaz da 4ª edição que aconteceu há mais ou menos um ano atrás. Curiosamente foi o que nos deu mais prejuízo, porque esteve muito menos gente presente. Até hoje acredito que a razão para tal deveu-se ao facto de os holofotes da passadeira de peões mais próxima do evento estarem apagados devido à falta de eficiência dos serviços municipalizados da cidade de Aveiro. As pessoas ficam mais facilmente marcadas por datas de acontecimentos traumáticos e talvez por essa razão, e pelo facto de ter uma puta de um cartaz como este mais ou menos na mesma altura passado um ano, eu tenha tendência de ter o pé atrás. Espero mesmo estar errado, e felizmente o Hugo Branco (VIC // Aveiro Arts House) contrabalança com eficácia esta tendência menos positiva no seio da organização – é tipo Yin-Yang, acho eu. Ir contra as multinacionais é sempre discutível, já não se vai contra as multinacionais, mas sim rogamos aos céus que a nossa voz seja ouvida neste meio; aqui quem faz a diferença são as pessoas caso decidam valorizar o nosso trabalho – os pequenos e médios promotores estão condenados ao insucesso já há muito tempo. Se por um lado não queres trabalhar com patrocínios só o retorno de uma boa bilheteira é que te safa as costas, se as bilheteiras são fracas não podes apostar em bons cartazes. Por outro, se optas por recorrer a patrocínios estás a entrar no jogo das multinacionais e a vestir uma camisola que não queres vestir. Este ano, por exemplo, renunciámos ao único patrocinador que tínhamos que dava uma folga mínima para trabalharmos, porque no ano passado achámos que não conseguimos devolver resultados satisfatórios ao patrocinador – custa-nos pedir dinheiro a alguém só para nos safar as costas sem devolver nada em troca quando é da responsabilidade do público assegurar que o evento tem continuidade. De que é que vale ter um patrocinador que te dá, por exemplo, 1000 euros hipoteticamente para montar um evento para 250 pessoas se aparecem 100? O evento fica pago, mas quem é que paga a desilusão pessoal e individual da organização que tanto fez para que isto acontecesse? Portanto, nem tudo são rosas. Não queremos enchentes histéricas e desmesuradas, apenas queremos atingir o conforto mínimo a vários níveis e que as pessoas que venham ao evento fiquem com essa mesma sensação, a de que correu tudo bem para todos.

29790168_2022024781342535_6949153159604338688_n

Entrevistas

Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

Continuar a ler

Entrevistas

Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

Publicado há

-

«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

Continuar a ler

Entrevistas

RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

Publicado há

-

«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

Review AQUI.

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #17