AXIA: sons do reino animal (entrevista c/ Alexandre Moreira) – Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

AXIA: sons do reino animal (entrevista c/ Alexandre Moreira)

Foto: João Fitas

Em Setembro de 2017, no seguimento de uma entrevista aos Grunt no Vagos Metal Fest, fomos contactados pelo Alexandre Moreira, aka Boy-G, em relação a um novo projecto nacional prestes a despontar – AXIA. Esse contacto foi tão antecipado que o próprio só conseguiu passar à Ultraje um link que servia de ponte para as editoras com o álbum integral. Depois, indicou-nos que tinham assinado com a Selfmadegod Records, que é “apenas” uma das editoras mais conceituadas no universo da música extrema underground, maioritariamente a incidir no grindcore e casa de bandas lendárias como Agathocles e Rot, mas também com os dentes ferrados em pérolas do death metal avant-garde como os polacos Ketha. A coisa prometia, mas… mais um projecto de execração musical num panorama já tão apinhado de discos e projectos?

«A sequência de temas do “Pulverizer” surgiu de forma quase abrupta, fruto de um processo de composição fluido e unânime.»

Depois do concerto de apresentação de “Pulverizer”, no SWR Barroselas Metalfest, sim, sentimos que há necessidade de mais discos como este: animalesco, incessante e matematicamente preciso. Não seria de esperar menos vindo de quatro músicos veteranos com mais de três dezenas de projectos de metal extremo repartidos entre eles – assim, não só se trata de mais um disco de mais um projecto, como de mais um bom disco de mais um bom projecto que aponta para panoramas cada vez mais extremos. Alexandre Moreira não só crê que é necessário, como justifica que a criação dos AXIA surgiu da «necessidade associada às ramificações cada vez mais antagónicas, que temos explorado nos outros projectos em que estamos envolvidos». «A sequência de temas do “Pulverizer” surgiu de forma quase abrupta, fruto de um processo de composição fluido e unânime. Terminada a pré-produção, reparámos que aquele grupo de faixas obedecia a um padrão de obscuridade vincado, executado a uma velocidade e peso sem atenuantes. Esta análise determinou a criação de uma entidade que pudesse explorar essa sonoridade de forma mais cirúrgica e eficaz.»

É cirúrgica e eficaz, inequivocamente. Na verdade, a melhor forma de descrever “Pulverizer” é “exercício de descompromisso” – o disco apresenta-nos uma banda que trilha os caminhos do grindcore mais ou menos convencional: mais convencional quando nos apercebemos de que a duração média das músicas é um minuto e menos convencional quando não apresenta um meio-termo no que toca à velocidade, que geralmente roça as medidas Mach. Embora os outros projectos pelos quais os integrantes dos AXIA se repartem sejam geralmente bastante agressivos, caso de Holocausto Canibal, Grunt e The Ominous Circle, nenhum deles se foca tanto nessas duas características. O que poderia indicar que ambas não são fruto do acaso, mas sim da naturalidade musical, pois «a composição foi de tal forma espontânea e fluida que não tivemos sequer tempo para equacionar o resultado que pretendíamos produzir durante aquelas sessões», diz-nos Alexandre. E continua: «Todos nós somos apologistas da aleatoriedade rítmica, ou pelo menos da coexistência saudável entre secções downtempo de gravidade máxima e blastbeats disparados em tranches generosas e abundantes.»

Toda esta gravidade musical remete para o conceito lírico esperado: o niilismo. As sensações de desespero e desconforto não são hipérboles; sente-se, de facto, um mal-estar físico e psicológico ao ouvir “Pulverizer” de uma assentada, quase faz lembrar as actuações catárticas dos Sunn O))). A voz de Alexandre Moreira está inclusivamente mais crispada e rasgada neste registo, como se se tratasse de uma máscara para uma peça de teatro específica. O vocalista está de acordo com a descrição do conceito principal: «Sim, o conteúdo do álbum está indubitavelmente associado a uma negação da vida terrena, uma espiral negativa aguda que espelha inequivocamente as nossas vivências quotidianas. Recorremos a algumas fórmulas teológicas que nos permitiram exorcizar de forma clara uma existência material frustrada que lança a escuridão no nosso dia e nos faz derrapar em direcção ao nada.»

«Até ao momento a SMG tem feito um trabalho exemplar, metódico e pontual.»

Ao assinarem pela Selfmadegod, os AXIA ganharam currículo. Mais do que apenas assinar com a banda, a lendária editora polaca colocou a capa de “Pulverizer” logo na página de acolhimento do seu site, o que leva a crer que este lançamento é uma prioridade para a editora. Como não se trata de apenas mais uma label, mas sim de um dos nomes mais respeitados dentro do underground, ficou no ar a questão do porquê da assinatura com esse selo, até porque houve diversas propostas de várias editoras. É tudo uma questão de pragmatismo, como nos indica Alexandre: «Sendo que Axia é um projecto novo e sem qualquer histórico, fizemos a típica abordagem de prospecção inicial de procura de editora. A Selfmadegod acabou por ser a editora que nos apresentou a proposta mais aliciante, tendo sido uma escolha óbvia entre o leque de editoras que demonstraram interesse no lançamento. Até ao momento a SMG tem feito um trabalho exemplar, metódico e pontual.»

Para além da edição em formato CD pela Selfmadegod, Zé Pedro aproveitou para lançar o disco em versão cassete pela sua editora, a Larvae Productions, o que faz todo o sentido quando a cassete está cada vez mais na berra dentro do movimento. Para além deste registo, a Larvae prima por deter um roster de bandas exclusivamente nortenhas, entre as quais os lendários Web ou Pestifer. Embora Lisboa sempre tivesse sido o ponto focal de tudo o que se passa no país, incluindo o metal, a tendência parece agora mudar em parte graças à Larvae, pelo menos no que refere ao metal extremo de qualidade. Tudo isto leva-nos a crer que existe qualquer coisa de especial na parte cimeira do país em questão de bandas e de movimento que o resto do país parece ignorar. O vocalista responde à questão de forma expectável. «Não sei se o resto do país ignora aquilo que se passa no Norte, Interior ou Sul, mas é sintomático de um país centralista cujos focos estão apontados para a capital. A Larvae tem sido, sem dúvida, um estímulo e uma âncora para aquelas bandas que, de lançamento em lançamento, se vêem segregadas e relegadas para o campeonato amador devido a circunstâncias meramente geográficas. É inegável que tanto o Zé Pedro, como alguns outros agentes, têm contribuído de forma inédita para a construção de um circuito saudável e atractivo que impulsione definitivamente o talento dos artistas emergentes nas zonas geográficas mais marginalizadas pelos agentes decisores.» E quem fala assim não é gago.

Para finalizar, quisemos saber o que está reservado para os AXIA em termos de apresentações ao vivo de “Pulverizer” depois do Barroselas, até porque Zé Pedro é um conhecido organizador de eventos de metal mais pesado. Como quase (se não mesmo todos) os outros projectos e bandas dos integrantes deste novo colectivo já se estrearam no estrangeiro, faz todo o sentido perguntar se existem planos no futuro próximo para a internacionalização da banda. Alexandre finaliza sem revelar muito, mesmo porque ainda agora a banda começou a dar os seus primeiros passos: «Para nós, tocar vivo é a realização de todo o trabalho e investimento que envolve a produção de um álbum. Vamos tentar conceder a Axia a mesma regularidade ao vivo que temos concedido aos nossos outros projectos, naturalmente que tudo dependerá de factores e circunstâncias que nem sempre podemos controlar.»

Topo