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Benighted: Ooh-la-laaargh (entrevista c/ Julien Truchan)

João Correia

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rsz_benighted_2_-_félixBenighted no Moita Metal Fest 2018 (Foto: Pedro Félix)

Entre 1990 e 2018 muita coisa mudou para pior e para melhor no panorama do heavy metal. No entanto, uma das principais características dos anos 90 foi o número de discos lançados: num bom ano saíam para o mercado cerca de 10-20 bons discos (com as devidas excepções de anos anormalmente ricos, como 1993). Em 2018, essa margem explodiu para centenas de bons discos por ano. Esta discrepância é fácil de explicar: ainda não existia a Internet como a conhecemos, ainda não existiam os subgéneros dentro dos subgéneros que existem hoje e, maioritariamente, ainda não se tinha dado o fenómeno da globalização que os avanços científicos proporcionaram em pouco mais de 10 anos – fora a Internet, telecomunicações, rádio, televisão e imprensa escrita sofreram alterações dramáticas em diversos planos, umas mais do que outras. Mas mesmo nos idos de 90 já existiam padrões que ditavam a continuidade ou não de uma banda, como a riqueza técnica dos seus membros, a aventura por paisagens ainda inexploradas e a necessidade de apresentar um trabalho de qualidade ou de inegável originalidade para poder sobressair do já então oceano de bandas à procura de uma oportunidade.

Em 2018, o paradigma é agora muito mais exigente: a mistura de condições sine qua non por excelência para que uma banda consiga singrar engloba a mais alta qualidade, originalidade e o factor técnico. E os Benighted não só conseguem reunir os três como ainda são mestres nos três. A Ultraje já conhece Julien Truchan desde o tempo em que a revista ainda nem existia; logo, tivemos uma vez mais a enorme satisfação de o apanhar em nome da revista na edição do Moita Metal Fest 2018 para trocar algumas palavras e impressões com o vocalista dos Benighted. “Necrobreed”, muito provavelmente o melhor álbum de metal extremo do ano transacto, completou recentemente um ano de vida. Em 2017, uns três meses depois do lançamento do álbum, tivemos a oportunidade de os ver Espanha, no Resurrection Fest, num concerto em que tiveram a colaboração especial de Trevor Strnad, vocalista dos The Black Dahlia Murder. Um ano e trocos depois, já houve tempo suficiente para ter uma opinião formada da recepção do disco. «A maior parte dos nossos fãs concorda sem reservas que “Necrobreed” é, de facto, o álbum mais bem-conseguido dos Benighted até à data. Somos levados a concordar com eles, pois esforçámo-nos imenso com a composição deste trabalho, principalmente no que refere às alterações no line-up, até porque nem nos conhecíamos todos muito bem, mas a recepção do disco ultrapassou as nossas expectativas mais optimistas; a Season of Mist está felicíssima com as vendas do disco. Graças a este novo registo, tivemos a oportunidade de tocar em todo o mundo – fizemos uma tour pela Europa, pela Rússia, pela Ásia, vamos fazer uma pelos Estados Unidos no Verão… Enfim, foi um passo enorme para os Benighted.»

Não existem assim tantas bandas de topo de metal extremo a embarcarem em digressões mundiais, salvo seja as que já têm um nome guardado no passeio da fama dos diversos géneros e subgéneros da cultura mais agressiva (Napalm Death, Cannibal Corpse, Morbid Angel, etc.). Os Benighted são uma das bandas mais acutilantes do death-gore metal de primeira linha, que ainda assim é um subgénero de nicho, mas ao adicionarem fartas doses de grindcore em “Necrobreed” começamos a pensar quais os ingredientes que utilizaram para criar esta fórmula vencedora. A juntar a tudo isto, os franceses ainda apostaram com enorme sucesso em diversos vídeos de promoção a “Necrobreed”, como “Reptilian” ou “Leatherface”. Quem já teve oportunidade de os visualizar sabe que se tratam de peças bastante perturbadoras que incluem imagens de transplantes de cadáveres de animais em humanos, entranhas, bastante sangue e, amiúde, uma sensação de insanidade prevalecente. Não são vídeos para estômagos fracos, é certo, mas a questão que se coloca é onde é que o vocalista e letrista da banda se inspirou para criar peças visuais tão fortes. Maior parte das bandas gore (até os Carcass) escreveram letras e descreveram cenários doentios com recurso a dicionários patológicos, relatos de obituários trágicos e afins, mas existe qualquer coisa de demasiadamente real, de demasiadamente ‘primeira pessoa’ nas histórias contadas por Julien.

 

É neste ponto que a realidade se torna mais aterradora do que a ficção. «Todas as histórias são relatos verídicos que extraio da minha profissão; sou enfermeiro num hospital psiquiátrico há 15 anos. Cada conceito que vês nos Benighted e cada letra que eu escrevo trata de patologias psiquiátricas de pacientes que eu conheci pessoalmente. Obviamente não revelo tudo numa letra, até porque tenho de preservar a privacidade e confidencialidade dos meus doentes. [risos] Inspiro-me em cada caso para criar um conceito, seja sobre patologias com sintomas de esquizofrenia, doença bipolar… Por exemplo, o conceito de “Reptilian” foi inspirado num paciente que tinha o delírio de dar à luz os seus próprios filhos. Trata-se de uma pessoa muito só e foi a sua solidão que o levou a criar essa ilusão de que poderia engravidar. Assim, ele recolhe animais mortos nas autoestradas e leva os cadáveres para casa para depois os coser à sua barriga. Obviamente que, quando a “operação” ganha infecção, a barriga dele começa-lhe a arder. Nessa altura, ele acha que o ardor que sente é o coração dos “filhos” a bater novamente e, então, remove-os e trata-os como se fossem os seus bebés, pois acredita que acabou de dar à luz. Ou seja, trata-se de um paciente masculino que crê que consegue dar à luz.» Digo-lhe que isso é macabro como o c*ralho. [risos] «Pois é!», responde. [risos] «Como vês, não tenho nenhuma dificuldade em inspirar-me para escrever os horrores que escrevo – basta ir trabalhar de manhã e, à tarde, quando saio, levo material suficiente para escrever as letras para um disco. [risos]»

Como se não bastassem as letras e o desempenho absurdamente técnico de cada elemento da banda, os Benighted insistem ainda em apresentar um som diferente a cada novo álbum. Não se trata do cliché clássico da banda em querer apresentar um som diferente, mas sim de o conseguirem com cada disco novo. Isto pode dever-se a grande inspiração, ao amadurecimento da banda ou até a uma mistura desses dois factores. Truchan aponta para outro ângulo. «Penso que isso se deve muito ao nosso produtor de sempre, o Kristian. Nós tratamo-lo como o sexto membro dos Benighted, já nos conhecemos há uns 12 anos. Quando entramos no seu estúdio tentamos obter um som personalizado para o novo álbum. Por exemplo, o “Carnivore Sublime” é o nosso álbum com melhor som, mas o “Necrobreed” é sem dúvida o mais agressivo. Quando ouves os dois discos reparas que o “Carnivore Sublime” é mais robusto e limpo enquanto o “Necrobreed” é mais arranhado e agressivo. Não aconteceu por acaso; bem pelo contrário, foi tudo estudado. É por isso que cada um dos nossos discos não apresenta repetições, temos o cuidado de variar o quanto possível a cada novo trabalho para não saturar o ouvinte. É verdade que o som dos Benighted é distinto de tudo o que anda por aí, mas mesmo assim damos o máximo para não nos repetirmos a cada disco. O processo do próximo registo será assim, com certeza.»

Isto terá sido, aliás, um dos factores que levou os Benighted a darem um salto tão grande e tão rápido para a linha da frente do death metal/grindcore mundial. Se adicionarmos um line-up profissional e um conceito lírico cuja inspiração vem de onde vem a um som agressivo e diferente, certamente que as coisas começarão a correr bem. «Na verdade, é algo extremamente difícil hoje em dia», retoma Truchan. «Há tantas bandas hoje em dia que, para além do mencionado, a única forma de sobressaírem é terem uma assinatura própria, pessoal. É muito fácil criares uma banda e pensares “OK, eu gosto de metal extremo, logo, qual é o tipo de som na moda hoje em dia?”. Não precisamos de mais bandas assim, que se copiam umas às outras. Acho que tens de fazer aquilo que gostas, imprimires-lhe uma personalidade própria e apostares com força no aspecto visual. Existem muitas bandas de heavy metal e é por isso que realizamos tantos videoclipes. As pessoas necessitam de ver o que está por detrás da música, pois as coisas evoluem a uma velocidade tão vertiginosa e saem tantos álbuns a toda a hora que é impossível de prestar atenção a tudo. É por isso que é preciso surpreender as pessoas com um conceito marcante e único. O nosso conceito não assenta num falso choque, não se trata apenas de gore pelo valor do gore. Assim, cada videoclipe serve como um cartão-de-apresentação da banda.»

 

Outra forma de captar a atenção passa por convidar intérpretes de renome para colaborar com a banda de modo a incrementar um tema, um videoclipe ou, até, um concerto ao vivo. O concerto do Resurrection em 2017 é um exemplo perfeito: a colaboração de Trevor Strnad num dos temas ajudou a que se falasse um pouco mais nos Benighted. Se uma colaboração num tema ao vivo ajuda, imaginamos que uma colaboração menos pontual com artistas de renome, como colaborações em álbuns, ajude ainda mais. «Na verdade, o Trevor é um grande amigo meu. Vi os The Black Dahlia Murder ao vivo há cerca de um mês perto de casa e depois seguimos para uma after-party, estou de bons termos com ele e com os TBDM. Este ano, estamos a trabalhar no novo EP dos Benighted e convidei outro bom amigo meu, o Svencho dos Aborted, para colaborar com vocais no novo EP; ele estará connosco em estúdio em Maio, logo, sim, toda a ajuda é mais do que bem-vinda.»

Não é primeira vez que uma banda francesa nos faz virar a cabeça de incredulidade: Massacra, Supuration, Misanthrope, Carnival in Coal, Alcest, Deathspell Omega e, mais recentemente, o projecto Igorrr (de Gautier Sarre) apresentaram ao mundo bandas de elite extremamente originais. Todas elas ajudaram a revitalizar a cena de uma forma ou de outra, mas a França ainda é um dos parentes pobres do metal extremo de primeira linha quando a comparamos com países como Polónia ou Noruega. Quase que parece tratar-se de uma questão de identidade cultural. «Durante cerca de 15 anos tivemos a péssima atitude de seguir as grandes bandas sem imprimirmos a nossa própria personalidade. Agora que bandas como Gojira fazem tournées e são reconhecidas um pouco por todo o mundo, já não sentimos esse complexo de inferioridade. Agora, as bandas em França criam os seus próprios trabalhos sem se preocuparem com os grandes nomes estrangeiros, imprimem aos seus trabalhos uma marca d’água única, experimentam sem medo e, principalmente, não copiam outras bandas. Presentemente, existem imensas bandas em França de altíssima qualidade em diversos espectros – Inhumate no grindcore, Peste Noire e Deathspell Omega no black metal, etc..»

A comemorarem 20 anos de carreira em Maio, certamente que há motivos para celebrar em breve. «Sim, há pois. [risos] Novo EP em Maio com três novos temas e uma cover, bem como material ao vivo. Ainda em Maio daremos um concerto de aniversário em França; logo de seguida, imensas tours, vamos estar em todos os grandes festivais do planeta. Depois, mais um mês ou dois na estrada com os Aborted, Cryptopsy e Cytotoxin. Este ano vamos dar em doidos com tanto trabalho. [risos] No entanto, posso adiantar que, em princípio, vamos entrar em estúdio para gravar o nosso novo disco no Verão de 2019.» Que será mais uma excelente altura para voltarmos a falar com Julien sobre o novo registo.

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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