Benighted: Ooh-la-laaargh (entrevista c/ Julien Truchan) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Benighted: Ooh-la-laaargh (entrevista c/ Julien Truchan)

rsz_benighted_2_-_félixBenighted no Moita Metal Fest 2018 (Foto: Pedro Félix)

Entre 1990 e 2018 muita coisa mudou para pior e para melhor no panorama do heavy metal. No entanto, uma das principais características dos anos 90 foi o número de discos lançados: num bom ano saíam para o mercado cerca de 10-20 bons discos (com as devidas excepções de anos anormalmente ricos, como 1993). Em 2018, essa margem explodiu para centenas de bons discos por ano. Esta discrepância é fácil de explicar: ainda não existia a Internet como a conhecemos, ainda não existiam os subgéneros dentro dos subgéneros que existem hoje e, maioritariamente, ainda não se tinha dado o fenómeno da globalização que os avanços científicos proporcionaram em pouco mais de 10 anos – fora a Internet, telecomunicações, rádio, televisão e imprensa escrita sofreram alterações dramáticas em diversos planos, umas mais do que outras. Mas mesmo nos idos de 90 já existiam padrões que ditavam a continuidade ou não de uma banda, como a riqueza técnica dos seus membros, a aventura por paisagens ainda inexploradas e a necessidade de apresentar um trabalho de qualidade ou de inegável originalidade para poder sobressair do já então oceano de bandas à procura de uma oportunidade.

Em 2018, o paradigma é agora muito mais exigente: a mistura de condições sine qua non por excelência para que uma banda consiga singrar engloba a mais alta qualidade, originalidade e o factor técnico. E os Benighted não só conseguem reunir os três como ainda são mestres nos três. A Ultraje já conhece Julien Truchan desde o tempo em que a revista ainda nem existia; logo, tivemos uma vez mais a enorme satisfação de o apanhar em nome da revista na edição do Moita Metal Fest 2018 para trocar algumas palavras e impressões com o vocalista dos Benighted. “Necrobreed”, muito provavelmente o melhor álbum de metal extremo do ano transacto, completou recentemente um ano de vida. Em 2017, uns três meses depois do lançamento do álbum, tivemos a oportunidade de os ver Espanha, no Resurrection Fest, num concerto em que tiveram a colaboração especial de Trevor Strnad, vocalista dos The Black Dahlia Murder. Um ano e trocos depois, já houve tempo suficiente para ter uma opinião formada da recepção do disco. «A maior parte dos nossos fãs concorda sem reservas que “Necrobreed” é, de facto, o álbum mais bem-conseguido dos Benighted até à data. Somos levados a concordar com eles, pois esforçámo-nos imenso com a composição deste trabalho, principalmente no que refere às alterações no line-up, até porque nem nos conhecíamos todos muito bem, mas a recepção do disco ultrapassou as nossas expectativas mais optimistas; a Season of Mist está felicíssima com as vendas do disco. Graças a este novo registo, tivemos a oportunidade de tocar em todo o mundo – fizemos uma tour pela Europa, pela Rússia, pela Ásia, vamos fazer uma pelos Estados Unidos no Verão… Enfim, foi um passo enorme para os Benighted.»

Não existem assim tantas bandas de topo de metal extremo a embarcarem em digressões mundiais, salvo seja as que já têm um nome guardado no passeio da fama dos diversos géneros e subgéneros da cultura mais agressiva (Napalm Death, Cannibal Corpse, Morbid Angel, etc.). Os Benighted são uma das bandas mais acutilantes do death-gore metal de primeira linha, que ainda assim é um subgénero de nicho, mas ao adicionarem fartas doses de grindcore em “Necrobreed” começamos a pensar quais os ingredientes que utilizaram para criar esta fórmula vencedora. A juntar a tudo isto, os franceses ainda apostaram com enorme sucesso em diversos vídeos de promoção a “Necrobreed”, como “Reptilian” ou “Leatherface”. Quem já teve oportunidade de os visualizar sabe que se tratam de peças bastante perturbadoras que incluem imagens de transplantes de cadáveres de animais em humanos, entranhas, bastante sangue e, amiúde, uma sensação de insanidade prevalecente. Não são vídeos para estômagos fracos, é certo, mas a questão que se coloca é onde é que o vocalista e letrista da banda se inspirou para criar peças visuais tão fortes. Maior parte das bandas gore (até os Carcass) escreveram letras e descreveram cenários doentios com recurso a dicionários patológicos, relatos de obituários trágicos e afins, mas existe qualquer coisa de demasiadamente real, de demasiadamente ‘primeira pessoa’ nas histórias contadas por Julien.

 

É neste ponto que a realidade se torna mais aterradora do que a ficção. «Todas as histórias são relatos verídicos que extraio da minha profissão; sou enfermeiro num hospital psiquiátrico há 15 anos. Cada conceito que vês nos Benighted e cada letra que eu escrevo trata de patologias psiquiátricas de pacientes que eu conheci pessoalmente. Obviamente não revelo tudo numa letra, até porque tenho de preservar a privacidade e confidencialidade dos meus doentes. [risos] Inspiro-me em cada caso para criar um conceito, seja sobre patologias com sintomas de esquizofrenia, doença bipolar… Por exemplo, o conceito de “Reptilian” foi inspirado num paciente que tinha o delírio de dar à luz os seus próprios filhos. Trata-se de uma pessoa muito só e foi a sua solidão que o levou a criar essa ilusão de que poderia engravidar. Assim, ele recolhe animais mortos nas autoestradas e leva os cadáveres para casa para depois os coser à sua barriga. Obviamente que, quando a “operação” ganha infecção, a barriga dele começa-lhe a arder. Nessa altura, ele acha que o ardor que sente é o coração dos “filhos” a bater novamente e, então, remove-os e trata-os como se fossem os seus bebés, pois acredita que acabou de dar à luz. Ou seja, trata-se de um paciente masculino que crê que consegue dar à luz.» Digo-lhe que isso é macabro como o c*ralho. [risos] «Pois é!», responde. [risos] «Como vês, não tenho nenhuma dificuldade em inspirar-me para escrever os horrores que escrevo – basta ir trabalhar de manhã e, à tarde, quando saio, levo material suficiente para escrever as letras para um disco. [risos]»

Como se não bastassem as letras e o desempenho absurdamente técnico de cada elemento da banda, os Benighted insistem ainda em apresentar um som diferente a cada novo álbum. Não se trata do cliché clássico da banda em querer apresentar um som diferente, mas sim de o conseguirem com cada disco novo. Isto pode dever-se a grande inspiração, ao amadurecimento da banda ou até a uma mistura desses dois factores. Truchan aponta para outro ângulo. «Penso que isso se deve muito ao nosso produtor de sempre, o Kristian. Nós tratamo-lo como o sexto membro dos Benighted, já nos conhecemos há uns 12 anos. Quando entramos no seu estúdio tentamos obter um som personalizado para o novo álbum. Por exemplo, o “Carnivore Sublime” é o nosso álbum com melhor som, mas o “Necrobreed” é sem dúvida o mais agressivo. Quando ouves os dois discos reparas que o “Carnivore Sublime” é mais robusto e limpo enquanto o “Necrobreed” é mais arranhado e agressivo. Não aconteceu por acaso; bem pelo contrário, foi tudo estudado. É por isso que cada um dos nossos discos não apresenta repetições, temos o cuidado de variar o quanto possível a cada novo trabalho para não saturar o ouvinte. É verdade que o som dos Benighted é distinto de tudo o que anda por aí, mas mesmo assim damos o máximo para não nos repetirmos a cada disco. O processo do próximo registo será assim, com certeza.»

Isto terá sido, aliás, um dos factores que levou os Benighted a darem um salto tão grande e tão rápido para a linha da frente do death metal/grindcore mundial. Se adicionarmos um line-up profissional e um conceito lírico cuja inspiração vem de onde vem a um som agressivo e diferente, certamente que as coisas começarão a correr bem. «Na verdade, é algo extremamente difícil hoje em dia», retoma Truchan. «Há tantas bandas hoje em dia que, para além do mencionado, a única forma de sobressaírem é terem uma assinatura própria, pessoal. É muito fácil criares uma banda e pensares “OK, eu gosto de metal extremo, logo, qual é o tipo de som na moda hoje em dia?”. Não precisamos de mais bandas assim, que se copiam umas às outras. Acho que tens de fazer aquilo que gostas, imprimires-lhe uma personalidade própria e apostares com força no aspecto visual. Existem muitas bandas de heavy metal e é por isso que realizamos tantos videoclipes. As pessoas necessitam de ver o que está por detrás da música, pois as coisas evoluem a uma velocidade tão vertiginosa e saem tantos álbuns a toda a hora que é impossível de prestar atenção a tudo. É por isso que é preciso surpreender as pessoas com um conceito marcante e único. O nosso conceito não assenta num falso choque, não se trata apenas de gore pelo valor do gore. Assim, cada videoclipe serve como um cartão-de-apresentação da banda.»

 

Outra forma de captar a atenção passa por convidar intérpretes de renome para colaborar com a banda de modo a incrementar um tema, um videoclipe ou, até, um concerto ao vivo. O concerto do Resurrection em 2017 é um exemplo perfeito: a colaboração de Trevor Strnad num dos temas ajudou a que se falasse um pouco mais nos Benighted. Se uma colaboração num tema ao vivo ajuda, imaginamos que uma colaboração menos pontual com artistas de renome, como colaborações em álbuns, ajude ainda mais. «Na verdade, o Trevor é um grande amigo meu. Vi os The Black Dahlia Murder ao vivo há cerca de um mês perto de casa e depois seguimos para uma after-party, estou de bons termos com ele e com os TBDM. Este ano, estamos a trabalhar no novo EP dos Benighted e convidei outro bom amigo meu, o Svencho dos Aborted, para colaborar com vocais no novo EP; ele estará connosco em estúdio em Maio, logo, sim, toda a ajuda é mais do que bem-vinda.»

Não é primeira vez que uma banda francesa nos faz virar a cabeça de incredulidade: Massacra, Supuration, Misanthrope, Carnival in Coal, Alcest, Deathspell Omega e, mais recentemente, o projecto Igorrr (de Gautier Sarre) apresentaram ao mundo bandas de elite extremamente originais. Todas elas ajudaram a revitalizar a cena de uma forma ou de outra, mas a França ainda é um dos parentes pobres do metal extremo de primeira linha quando a comparamos com países como Polónia ou Noruega. Quase que parece tratar-se de uma questão de identidade cultural. «Durante cerca de 15 anos tivemos a péssima atitude de seguir as grandes bandas sem imprimirmos a nossa própria personalidade. Agora que bandas como Gojira fazem tournées e são reconhecidas um pouco por todo o mundo, já não sentimos esse complexo de inferioridade. Agora, as bandas em França criam os seus próprios trabalhos sem se preocuparem com os grandes nomes estrangeiros, imprimem aos seus trabalhos uma marca d’água única, experimentam sem medo e, principalmente, não copiam outras bandas. Presentemente, existem imensas bandas em França de altíssima qualidade em diversos espectros – Inhumate no grindcore, Peste Noire e Deathspell Omega no black metal, etc..»

A comemorarem 20 anos de carreira em Maio, certamente que há motivos para celebrar em breve. «Sim, há pois. [risos] Novo EP em Maio com três novos temas e uma cover, bem como material ao vivo. Ainda em Maio daremos um concerto de aniversário em França; logo de seguida, imensas tours, vamos estar em todos os grandes festivais do planeta. Depois, mais um mês ou dois na estrada com os Aborted, Cryptopsy e Cytotoxin. Este ano vamos dar em doidos com tanto trabalho. [risos] No entanto, posso adiantar que, em princípio, vamos entrar em estúdio para gravar o nosso novo disco no Verão de 2019.» Que será mais uma excelente altura para voltarmos a falar com Julien sobre o novo registo.

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