Bent Knee: salto de fé (entrevista c/ Jessica Kion) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Bent Knee: salto de fé (entrevista c/ Jessica Kion)

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De vez em quando, muito de vez em quando, surge uma banda com algo mais do que apenas a receita musical para oferecer. No caso dos jovens norte-americanos Bent Knee, a receita musical – misto de rock progressivo, pop alternativo, jazz e tudo o que fizer uma música funcionar bem – já seria suficiente para conquistar qualquer tipo de fã. Mas a energia que se solta do sexteto quando toca ao vivo é o elemento não-tangível, que faz dos Bent Knee uma proposta verdadeiramente excepcional. Falámos com a baxista Jessica Kion sobre o quarto álbum de originais, “Land Animal”, e da chegada da banda à editora InsideOut.

«Conseguimos definitivamente ver que estamos a crescer.»

Abordaram a composição do “Land Animal” com algum objectivo específico em mente?
Acho que sempre compusemos da mesma forma; ou seja, gravamos maquetas, aparecemos com canções na sala de ensaios e depois arranjamo-las juntos. Acho que o que foi diferente desta vez foi o facto de andarmos a ouvir música muito diferente. Por isso a música que fizemos para o “Land Animal” foi o produto de nós a sermos nós próprios e da música nova presente na nossa vida.

Que tipo de música nova?
Kendrick Lamar… O álbum dele “To Pimp A Butterfly” mudou as nossas vidas à grande. É espantoso e tão aventureiro. Esse disco afectou muitos de nós e encorajou-nos a começar a ouvir hip-hop e rap; acabámos por descobrir que é um género muito inovador que ainda não tínhamos explorado muito. Mergulhámos num poço de material muito inspirador e de ideias muito fixes. Também o Nick Bärtsch, da Suíça, que tem uma cena com ritmos minimalistas em dois projectos distintos chamados Mobile e Ronin. Ele faz coisas diferentes, como tocar concertos de 48 horas. Faz coisas espantosas com o ritmo e a métrica e a música acaba por ser complexa de modos diferentes. Temos ouvido a música dele e já nos encontrámos um par de vezes, fizemos inclusivamente um mini-workshop com ele. E acho que isso acabou por marcar a diferença na música que fizemos recentemente também.

Tendo tantas influências diferentes e sendo assumidamente uma banda democrática faz com que o processo de composição seja difícil ou é simples e fluído?
É sempre diferente, mas acho que no geral é difícil porque todos temos ideias diferentes e muito abundantes. Temos a regra de, basicamente, quando alguém tem uma ideia, antes de dizermos “Nem pensar. Isso nunca vai funcionar”, tentamos tudo. Por vezes alguns de nós temos uma ideia juntos e tentamos que resulte, mesmo que essa ideia não esteja a agradar muito a uma pessoa em específico. Essa é umas das maneiras. Outras vezes alguém aparece com uma sugestão e é tudo muito simples, não demora muito tempo e resulta tudo bem. Mas isto não acontece muitas vezes. [risos] Mas por acaso aconteceu na faixa “Terror Bird”, a primeira do álbum.

Isso é bom, porque assim não ficam colados a apenas um método de composição e não obtêm sempre os mesmos resultados.
Sim, tentamos não nos repetirmos de muitas formas. Vamos sempre tentando coisas diferentes.

Mudaram de editora para este lançamento. O facto de saberem que a InsideOut exporia a vossa música a um público muito mais vasto e ligeiramente diferente colocou-vos sob algum tipo de pressão adicional quando criaram o “Land Animal”?
A sensação foi mais de experiência do que de pressão. Eles fizeram um trabalho excelente a deixarem fazermos a nossa cena no processo criativo. Nem sequer requisitaram uma pré-produção, qualquer tipo de elemento das músicas ou mesmo qualquer tipo de visual. Tipo, o artwork do álbum não teve sequer uma sugestão de mudança, o que é verdadeiramente impressionante. [risos] Limitaram-se a aceitar o que lhes levámos e gostaram. Por isso não sentimos qualquer tipo de pressão desse lado. Para mim, pessoalmente, também foi benéfico o facto de não saber muito sobre a InsideOut antes de decidirmos trabalhar com eles. Não sabia o que eles faziam e fui descobrindo à medida que íamos finalizando a pré-produção do álbum. Foi tipo “O quê?! Eles lançaram isto?! Não pode ser!”. [risos] Têm uma força e um estatuto enormes que, se eu conhecesse antes, me intimidariam de certeza.

As vossas letras são assumidamente não-políticas, mas estão relacionadas com o que se passa no mundo actualmente. Qual é a abordagem?
Quando penso em música ou álbuns políticos acho que as pessoas relacionam isso com artistas que o fazem de forma demasiado literal na sua abordagem. Julgo que é necessário um cuidado especial para fazer uma coisa sentida sobre política, porque é um tópico muito pessoal e sensível. Por exemplo, o “Times They Are A-Changing”, do Bob Dylan, é um álbum muito político, mas é “contado” de uma forma humana muito bonita. É estranho, mas é importante lidar com esse tipo de letras de um ponto de vista pessoal mas, ao mesmo tempo, dar-lhe uma forma com que as pessoas se possam identificar, enquanto ao mesmo tempo não pareça muito geral. [risos] É um bocado complicado. Em muitas das coisas que abordamos, como o aquecimento global, assuntos de género e raciais, há muito da nossa experiência pessoal e identidade. Mas espero que não tenhamos feito as canções demasiado “Ei, tudo bem? Aqui está o que pensamos sobre isto”. [risos]

«Acabámos de despedir-nos dos nossos empregos para que possamos fazer mais digressões.»

Os vossos álbuns anteriores foram muito bem aceites pela imprensa e público, quase ao ponto do estatuto de culto. Sentem esse “estatuto de culto” no número de pessoas que vão aos vossos concertos e receitas financeiras da banda?
Conseguimos definitivamente ver que estamos a crescer. Acabámos de regressar de uma digressão, que foi bastante curta, em que fomos cabeças-de-cartaz pela primeira vez este ano e notámos que foram as maiores audiências que já tivemos. No entanto, as mudanças ainda são muito pequenas. Mas em Nova Iorque tivemos o maior público que alguma vez tivemos… Acho que em todas as cidades tivemos um aumento de público, embora em algumas fosse do género “Ei, há pessoas aqui agora”, porque antes não havia ninguém. [risos] Acho que financeiramente estamos numa situação interessante. Acabámos de despedir-nos dos nossos empregos para que possamos fazer mais digressões, mas ainda não estamos a retirar dinheiro da banda individualmente. Por isso estamos nesta fase meio estranha, tipo à espera que as coisas aconteçam e com esperança que corra tudo pelo melhor. [risos] Acho que na Europa, na pequena digressão que fizemos aí, nos pareceu mais que tínhamos esse estatuto de culto. Mas só demos cinco ou seis concertos, por isso é difícil dizer. É engraçado, porque há muitos anos que ouvimos dizer “Ah, vocês vão explodir!”, mas a sensação que temos é que nunca vamos verdadeiramente “explodir”, porque explodir talvez não seja a nossa cena. Talvez apenas aumentar lentamente o nosso número de fãs e trabalhar arduamente para subirmos degrau a degrau. [risos]

Acabaram então de fazer o proverbial leap of faith. Foi uma decisão consensual dentro do grupo?
Estamos todos em situações financeiras diferentes; alguns de nós tinham algum dinheiro de parte e outros nem por isso. Então, esta é uma fase de incertezas e algum stress, mas o mais importante é que estamos todos muito comprometidos e para todos a banda vem em primeiro lugar. Apenas estamos a sentir na pele que é preciso passar por muitas dificuldades para levar um projecto assim para a frente, mas também é bom saber que estamos todos dispostos a tudo para continuarmos a fazer isto.

Agora que fazem mais digressões vão passar muito mais tempo juntos, em viagens e à espera dos concertos. Como está a correr isso?
Já fizemos algumas digressões até agora e têm sido cada vez maiores. Acho que, em geral, as comodidades e a hospitalidade nos vários locais em que temos tocado e ficado têm sido um pouco melhores. Isso ajuda muito. E as coisas também ficaram um pouco mais previsíveis… Quando fazíamos digressões há um par de anos os nossos concertos podiam ser a qualquer hora, desde as sete da tarde até às duas da manhã. E não sabíamos até ao próprio dia e até lá chegarmos. [risos] “Ah, também tocam outras sete bandas? OK.”. [risos] Saber com que bandas vamos tocar e ter um horário para descarregar as coisas são coisas que ajudam muito.

Até onde achas que esta música tão imprevisível e aventureira vos pode levar, em termos de popularidade? Não é exactamente pop, por isso existe um limite, ou achas que não?
Não sei bem. Da nossa perspectiva, é muito difícil responder a isso. Porque parece que, sempre que damos um concerto, uma grande percentagem do público parece gostar genuinamente. Os nossos concertos têm um público que varia de estilo conforme as bandas que tocam connosco e nós não nos limitamos a tocar um tipo de música; por isso a sensação que temos é que somos aceites de um modo muito vasto. E depois vejo álbuns como “To Pimp A Butterfly” do Kendrick Lamar e até os Radiohead ou os Lemonade e penso “Estes artistas conseguiram fazer música muito estranha e, mesmo assim, chegar ao mainstream”. Talvez seja o facto de já serem famosos quando fizeram o seu material mais estranho ou talvez a estranheza tenha ajudado a ficarem maiores, mas também não sei se vamos sempre ser “estranhos” da forma que somos agora. O nosso público parece estar sempre a mudar, por isso não sei se temos uma base fixa de fãs, se a nossa popularidade está assente numa base sólida ou se podemos chegar a um público mais vasto do que imaginamos. É possível.

 

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