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Bent Knee: salto de fé (entrevista c/ Jessica Kion)

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De vez em quando, muito de vez em quando, surge uma banda com algo mais do que apenas a receita musical para oferecer. No caso dos jovens norte-americanos Bent Knee, a receita musical – misto de rock progressivo, pop alternativo, jazz e tudo o que fizer uma música funcionar bem – já seria suficiente para conquistar qualquer tipo de fã. Mas a energia que se solta do sexteto quando toca ao vivo é o elemento não-tangível, que faz dos Bent Knee uma proposta verdadeiramente excepcional. Falámos com a baxista Jessica Kion sobre o quarto álbum de originais, “Land Animal”, e da chegada da banda à editora InsideOut.

«Conseguimos definitivamente ver que estamos a crescer.»

Abordaram a composição do “Land Animal” com algum objectivo específico em mente?
Acho que sempre compusemos da mesma forma; ou seja, gravamos maquetas, aparecemos com canções na sala de ensaios e depois arranjamo-las juntos. Acho que o que foi diferente desta vez foi o facto de andarmos a ouvir música muito diferente. Por isso a música que fizemos para o “Land Animal” foi o produto de nós a sermos nós próprios e da música nova presente na nossa vida.

Que tipo de música nova?
Kendrick Lamar… O álbum dele “To Pimp A Butterfly” mudou as nossas vidas à grande. É espantoso e tão aventureiro. Esse disco afectou muitos de nós e encorajou-nos a começar a ouvir hip-hop e rap; acabámos por descobrir que é um género muito inovador que ainda não tínhamos explorado muito. Mergulhámos num poço de material muito inspirador e de ideias muito fixes. Também o Nick Bärtsch, da Suíça, que tem uma cena com ritmos minimalistas em dois projectos distintos chamados Mobile e Ronin. Ele faz coisas diferentes, como tocar concertos de 48 horas. Faz coisas espantosas com o ritmo e a métrica e a música acaba por ser complexa de modos diferentes. Temos ouvido a música dele e já nos encontrámos um par de vezes, fizemos inclusivamente um mini-workshop com ele. E acho que isso acabou por marcar a diferença na música que fizemos recentemente também.

Tendo tantas influências diferentes e sendo assumidamente uma banda democrática faz com que o processo de composição seja difícil ou é simples e fluído?
É sempre diferente, mas acho que no geral é difícil porque todos temos ideias diferentes e muito abundantes. Temos a regra de, basicamente, quando alguém tem uma ideia, antes de dizermos “Nem pensar. Isso nunca vai funcionar”, tentamos tudo. Por vezes alguns de nós temos uma ideia juntos e tentamos que resulte, mesmo que essa ideia não esteja a agradar muito a uma pessoa em específico. Essa é umas das maneiras. Outras vezes alguém aparece com uma sugestão e é tudo muito simples, não demora muito tempo e resulta tudo bem. Mas isto não acontece muitas vezes. [risos] Mas por acaso aconteceu na faixa “Terror Bird”, a primeira do álbum.

Isso é bom, porque assim não ficam colados a apenas um método de composição e não obtêm sempre os mesmos resultados.
Sim, tentamos não nos repetirmos de muitas formas. Vamos sempre tentando coisas diferentes.

Mudaram de editora para este lançamento. O facto de saberem que a InsideOut exporia a vossa música a um público muito mais vasto e ligeiramente diferente colocou-vos sob algum tipo de pressão adicional quando criaram o “Land Animal”?
A sensação foi mais de experiência do que de pressão. Eles fizeram um trabalho excelente a deixarem fazermos a nossa cena no processo criativo. Nem sequer requisitaram uma pré-produção, qualquer tipo de elemento das músicas ou mesmo qualquer tipo de visual. Tipo, o artwork do álbum não teve sequer uma sugestão de mudança, o que é verdadeiramente impressionante. [risos] Limitaram-se a aceitar o que lhes levámos e gostaram. Por isso não sentimos qualquer tipo de pressão desse lado. Para mim, pessoalmente, também foi benéfico o facto de não saber muito sobre a InsideOut antes de decidirmos trabalhar com eles. Não sabia o que eles faziam e fui descobrindo à medida que íamos finalizando a pré-produção do álbum. Foi tipo “O quê?! Eles lançaram isto?! Não pode ser!”. [risos] Têm uma força e um estatuto enormes que, se eu conhecesse antes, me intimidariam de certeza.

As vossas letras são assumidamente não-políticas, mas estão relacionadas com o que se passa no mundo actualmente. Qual é a abordagem?
Quando penso em música ou álbuns políticos acho que as pessoas relacionam isso com artistas que o fazem de forma demasiado literal na sua abordagem. Julgo que é necessário um cuidado especial para fazer uma coisa sentida sobre política, porque é um tópico muito pessoal e sensível. Por exemplo, o “Times They Are A-Changing”, do Bob Dylan, é um álbum muito político, mas é “contado” de uma forma humana muito bonita. É estranho, mas é importante lidar com esse tipo de letras de um ponto de vista pessoal mas, ao mesmo tempo, dar-lhe uma forma com que as pessoas se possam identificar, enquanto ao mesmo tempo não pareça muito geral. [risos] É um bocado complicado. Em muitas das coisas que abordamos, como o aquecimento global, assuntos de género e raciais, há muito da nossa experiência pessoal e identidade. Mas espero que não tenhamos feito as canções demasiado “Ei, tudo bem? Aqui está o que pensamos sobre isto”. [risos]

«Acabámos de despedir-nos dos nossos empregos para que possamos fazer mais digressões.»

Os vossos álbuns anteriores foram muito bem aceites pela imprensa e público, quase ao ponto do estatuto de culto. Sentem esse “estatuto de culto” no número de pessoas que vão aos vossos concertos e receitas financeiras da banda?
Conseguimos definitivamente ver que estamos a crescer. Acabámos de regressar de uma digressão, que foi bastante curta, em que fomos cabeças-de-cartaz pela primeira vez este ano e notámos que foram as maiores audiências que já tivemos. No entanto, as mudanças ainda são muito pequenas. Mas em Nova Iorque tivemos o maior público que alguma vez tivemos… Acho que em todas as cidades tivemos um aumento de público, embora em algumas fosse do género “Ei, há pessoas aqui agora”, porque antes não havia ninguém. [risos] Acho que financeiramente estamos numa situação interessante. Acabámos de despedir-nos dos nossos empregos para que possamos fazer mais digressões, mas ainda não estamos a retirar dinheiro da banda individualmente. Por isso estamos nesta fase meio estranha, tipo à espera que as coisas aconteçam e com esperança que corra tudo pelo melhor. [risos] Acho que na Europa, na pequena digressão que fizemos aí, nos pareceu mais que tínhamos esse estatuto de culto. Mas só demos cinco ou seis concertos, por isso é difícil dizer. É engraçado, porque há muitos anos que ouvimos dizer “Ah, vocês vão explodir!”, mas a sensação que temos é que nunca vamos verdadeiramente “explodir”, porque explodir talvez não seja a nossa cena. Talvez apenas aumentar lentamente o nosso número de fãs e trabalhar arduamente para subirmos degrau a degrau. [risos]

Acabaram então de fazer o proverbial leap of faith. Foi uma decisão consensual dentro do grupo?
Estamos todos em situações financeiras diferentes; alguns de nós tinham algum dinheiro de parte e outros nem por isso. Então, esta é uma fase de incertezas e algum stress, mas o mais importante é que estamos todos muito comprometidos e para todos a banda vem em primeiro lugar. Apenas estamos a sentir na pele que é preciso passar por muitas dificuldades para levar um projecto assim para a frente, mas também é bom saber que estamos todos dispostos a tudo para continuarmos a fazer isto.

Agora que fazem mais digressões vão passar muito mais tempo juntos, em viagens e à espera dos concertos. Como está a correr isso?
Já fizemos algumas digressões até agora e têm sido cada vez maiores. Acho que, em geral, as comodidades e a hospitalidade nos vários locais em que temos tocado e ficado têm sido um pouco melhores. Isso ajuda muito. E as coisas também ficaram um pouco mais previsíveis… Quando fazíamos digressões há um par de anos os nossos concertos podiam ser a qualquer hora, desde as sete da tarde até às duas da manhã. E não sabíamos até ao próprio dia e até lá chegarmos. [risos] “Ah, também tocam outras sete bandas? OK.”. [risos] Saber com que bandas vamos tocar e ter um horário para descarregar as coisas são coisas que ajudam muito.

Até onde achas que esta música tão imprevisível e aventureira vos pode levar, em termos de popularidade? Não é exactamente pop, por isso existe um limite, ou achas que não?
Não sei bem. Da nossa perspectiva, é muito difícil responder a isso. Porque parece que, sempre que damos um concerto, uma grande percentagem do público parece gostar genuinamente. Os nossos concertos têm um público que varia de estilo conforme as bandas que tocam connosco e nós não nos limitamos a tocar um tipo de música; por isso a sensação que temos é que somos aceites de um modo muito vasto. E depois vejo álbuns como “To Pimp A Butterfly” do Kendrick Lamar e até os Radiohead ou os Lemonade e penso “Estes artistas conseguiram fazer música muito estranha e, mesmo assim, chegar ao mainstream”. Talvez seja o facto de já serem famosos quando fizeram o seu material mais estranho ou talvez a estranheza tenha ajudado a ficarem maiores, mas também não sei se vamos sempre ser “estranhos” da forma que somos agora. O nosso público parece estar sempre a mudar, por isso não sei se temos uma base fixa de fãs, se a nossa popularidade está assente numa base sólida ou se podemos chegar a um público mais vasto do que imaginamos. É possível.

 

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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