Natal Canibal: 18 anos de Butchery At Christmas Time | Ultraje – Metal & Rock Online
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Natal Canibal: 18 anos de Butchery At Christmas Time

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Enchidos, queijos e neve são os produtos que apresentam a Covilhã ao resto do país. Em termos de movimento do metal ou outras actividades culturais, a cidade é tão árida como a montanha que a reveste. Em 2000, Micael Olímpio, Daniel Simão e Rui Gil decidiram criar um evento de metal para promover a sua banda, os Necrose, colectivo de death metal da Guarda. Foi assim que nasceu o Butchery At Christmas Time, um dos poucos eventos nacionais exclusivamente dedicados ao death metal e ao grindcore. «Pareceu-me que fazia falta um festival dedicado ao death e ao grind em Portugal», inicia Micael. «Entretanto, nasceram outros e outros ainda terminaram, mas, juntamente com o SWR, o Butchery foi pioneiro e não mudou ao longo dos anos. Agora que este festival existe, tento mantê-lo, o que não é fácil sem apoios.» Certamente que não. Criar uma banda é simples, mas será que se pode dizer o mesmo sobre criar uma banda, uma editora activa e um festival anual que pontua largamente por ser o segundo festival de metal nacional ininterrupto mais antigo do país?

«A ideia inicial foi promovermos a nossa bandaO Butchery começou na Guarda e passou para a Covilhã em 2010 por motivos pessoais, bem como de logística. Não é nada fácil. Na Guarda tínhamos alguns apoios; na Covilhã, basicamente nenhum. Tivemos apoios no primeiro ano na forma de almoços e dormidas para as bandas e tivemos um apoio na edição de 2016, já que nos emprestaram uma carrinha para ir buscar uma banda ao aeroporto, o que ainda nos poupou tempo, dinheiro e logística. Exceptuando alguns magros apoios dos órgãos governativos locais, o Butchery é suportado por mim, pela Catarina [esposa do Micael] e por alguns voluntários que, todos os anos, investem o seu tempo e trabalho por amor ao movimento.»

Mas não é só a falta de apoio governativo que compromete o festival. Desde desinteresse local/nacional, passando pelo factor de se situar no Interior e por falta de infraestruturas rodoviárias, o Butchery apresenta dois géneros que são, de longe, dos menos populares dentro do universo do metal. «É um nicho dentro de um nicho.», diz Catarina. «Um nicho nichoso. [risos]» Micael explica: «Quando a média é 100 ou 110 pagantes não posso fazer milagres. Olha para o SWR: tem sempre muito mais público pelo factor da diversidade – death, grind, thrash, black, industrial, etc.. Eu poderia fazer isso também, mas desvirtuaria o conceito do Butchery, que é death e grind. É provável que ou eu o diversifique ou que ele acabe. Não sei, ainda assim, se a diversificação fará dele um fest maior. Já houve outros festivais na Covilhã mais diversificados e, mesmo assim, acabaram. Depois a emigração e a migração arrasaram com a cidade. Farto-me de ver putos da faculdade com t-shirts de metal e que não vêm aos concertos. Uma das maneiras que arranjei para dar continuidade ao festival foi organizando pequenos concertos na zona. Todo o lucro que advém desses concertos vai para o “mealheiro” do Butchery. Depois há muitos contactos envolvidos e, acima de tudo, muita boa-vontade da parte de muitas bandas que compreendem as dificuldades e que, ainda assim, marcam presença no festival. Outras há que só vêm ao festival para tocar. Vir apenas por vir, para apoiar, não vêm. Não sou assim. Vou a imensos festivais onde nunca toquei apenas para apoiar.»

Butchery, em 2007. Ou que Micael conseguiu trazer a grande custo ao festival bandas lendárias como Macabre, Master, Agathocles, Jig-Ai, Haemorrhage, Gutalax ou Cerebral Bore. «Montamos o festival de raiz, do zero, o que não nos permite trazer sempre todos os nomes que gostaríamos. E é claro que em Dezembro as passagens aéreas são mais caras, muitas bandas andam em digressão, há que negociar headliners e datas e não existem apoios, como disse antes. Ainda não tivemos uma edição que tivesse dado lucro para investir no Butchery seguinte, é uma luta constante organizar o festival no ano seguinte. Felizmente conseguimos juntar algum dinheiro para este ano. No ano de Master, por exemplo, tivemos um prejuízo imenso, pago totalmente por nós. Mesmo assim fazemos uma t-shirt do festival, que terá que ser repensada por motivos financeiros.»

A juntar à oferta musical, há singularidades como os ‘comes & bebes’ e curiosidades ligadas ao evento. «Não só o preço das bebidas é mais barato do que em qualquer outro festival nacional, como a comida é caseira», diz Catarina. «Às duas da manhã de uma madrugada de Dezembro na Covilhã sabe bem comer um caldo verde a fumegar e uma bifana no pão acabada de fritar, tudo preparado por nós ou pelos voluntários. Também temos oferta vegetariana, até salame de chocolate caseiro servimos. [risos] O facto de ser um festival pequeno norteado pelo conceito do-it-yourself acaba por oferecer algumas coisas que outros não oferecem. Temos um serviço acordado com taxistas que oferece transporte de e para o festival por uma bagatela. Temos indoor camping, o que permite aos festivaleiros poupar dinheiro em alojamento e resguardados das intempéries. Há festivaleiros anuais; a Mirte e a Alba, por exemplo, deslocaram-se do País Basco o ano passado e cá estarão este ano.»

O Butchery At Christmas Time XVIII decorre entre 8-9 de Dezembro de 2017. O cartaz é composto por Sacred Sin (PT)Grog (PT)Analepsy (PT)Vai-te Foder (PT)Cliteater (HOL)Enblood (PT)Wojczech (ALE)RDB (PT)Dead Meat (PT)Okkultist (PT) e Convulsions (ESP). Todas as informações estão disponíveis na página do festival.

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