[Entrevista] Cephalic Carnage: traumatismo crânio-encefálico | Ultraje – Metal & Rock Online
Entrevistas

[Entrevista] Cephalic Carnage: traumatismo crânio-encefálico

rsz_cephalic_carnage(Cephalic Carnage no XXXicken Party 2017. Foto: João Correia)

«Vão vamos apressar as coisas apenas porque o público quer – vamos demorar o tempo que for necessário para que saia um bom álbum ao nosso ritmo.»

«Estávamos a discutir esse álbum», diz um Lenzig Leal bastante sério enquanto olha para a minha t-shirt de “The Dead Shal Inherit”, o clássico seminal dos Baphomet. Steve Goldberg anui em silêncio; diz após que o tem em vinil. «É indispensável», acrescenta. «Outro dos meus preferidos é o “Scream Bloody Gore”, dos Death. Aquele som podre… meu…! Qual é o teu?» Digo-lhe que o que mais me marcou foi “Leprosy”. Lenzig interrompe de olhos arregalados: «Esse tem aquela, pá… Como é mesmo? “Born dead into this world, na na na na na na na…» “Born Dead”, respondo-lhe. «Isso!» – continua. «É capaz de ser o meu primeiro ou segundo preferido deles!» Desta conversa inicial, passámos para Suffocation e Dying Fetus, ambas presentes na Ultraje nº 10 que ofereci à banda e que Lenzig folheia à medida que vai falando connosco sobre elas. A comemorar 25 anos de carreira, e tendo em conta que o último álbum viu a luz do dia em 2010, é de estranhar que, sete anos passados sobre esse, não haja previsões de um novo álbum dos Cephalic Carnage. Embora não seja uma situação única (note-se o caso dos Leng Tch’e, praticamente idêntico), sete anos é sempre muito tempo entre dois álbuns. Praticantes da religião que é a marijuana, poderíamos pensar que se trata de algo… sintomático, como fome ou lentidão, mas a realidade é sempre mais fantástica do que a ficção. Ou, segundo Goldberg, nem por isso: «Já o re-re-re-re-re-re-gravámos…» Brian Hopp parece mais sério: «Já temos um título para o novo álbum…», oferece. OK, e qual é? «Perpetual State of Procrastination» [Eterno Estado de Procrastinação], conclui com a cara mais séria do mundo, que Goldberg, ao meu lado, não consegue manter, rindo a bom rir. Leal retoma a palavra: «Nos últimos 25 anos, tirei o meu mestrado em procrastinação.» Não é o caso de John Merryman: «Já concluí o meu mestrado há anos, por isso é que não tenho feito nada ultimamente…» «Eu ainda não preenchi a matrícula, mas a ver se o faço amanhã… [risos]», indica Goldberg. Tudo isto antes de iniciar a entrevista. Bem-vindos ao mundo dos Cephalic Carnage.

As expectativas em relação ao próximo registo são enormes e não é para menos: “Mislead By Certainty”, o último trabalho, catapultou o nome dos Cephalic Carnage para um patamar mais alto dentro do death/grind avantgarde/progressivo. Técnico, orelhudo e pleno de inspiração que é, seria ridículo que a banda reduzisse para 70 quando vai a 120 na auto-estrada do género. «As músicas que temos estado a trabalhar são bastante diferentes dessas», começa Leal. «Algumas serão mais progressivas e técnicas do que essas, outras são mais orientadas para os tempos das primeiras demos. A cena musical mudou, há mais inspiração do que nos tempos de “Mislead By Certainty”. Toda a gente apareceu com milhares de riffs que criou ao longo de sete anos, logo… será variado, quase que parecerá uma compilação. Vamos começar a ensaiá-los em breve, não vamos apressar as coisas apenas porque o público quer – vamos demorar o tempo que for necessário para que saia um bom álbum ao nosso ritmo, porque, quando lançamos um álbum, queremos sempre que seja o melhor que os Cephalic conseguiram lançar nessa altura.»

«Quando lançamos um álbum, queremos sempre que seja o melhor que os Cephalic conseguiram lançar nessa altura.»

Lentidão não é sinónima de preguiça, principalmente quando o que importa é o resultado final, mas, no caso dos Cephalic Carnage, há sempre que associar a inércia à marijuana – afinal, a banda não só denominou o seu género musical de “hydrogrind” como ainda utiliza e apoia a utilização de marijuana para fins recreativos. Se em Portugal não é crime consumir marijuana, em certos estados dos Estados Unidos, como o Texas, ser apanhado na posse de um charro é um crime grave. Tendo em conta que não faz muitos anos que os Cephalic Carnage tocavam ao vivo dia sim, dia não, certamente que existem histórias para contar sobre abordagens policiais. Goldberg recorda-se bem: «Em Texarkana, no Texas, fomos seguidos. Parámos numa bomba de gasolina para atestar e vinha um polícia atrás de nós. Quando nos viu, parou, mediu-nos de alto a baixo, esperou que arrancássemos e seguiu-nos: meteu-se atrás de nós, ao nosso lado, etc. Como estávamos a respeitar o limite de velocidade, rimo-nos. Ao ultrapassarmos a fronteira do condado, ele parou e regressou. Como eu tinha fumado um charro antes da perseguição, ele deve ter reparado e foi por isso que aconteceu. O gajo seguiu-nos durante uns 13 Km, as coisas lá são a sério. Outra vez, no Arkansas, no dia de lançamento de “Exploiting Dysfunction”, fomos parados por fumar um charro. Não fomos presos porque nos sugeriram um suborno, tão simples quanto isto. Estávamos a 10 minutos do Texas, logo, pagámos-lhes em dinheiro e não ficámos com cadastro. Suborno puro e duro.»

A diversidade jurídica dos Estados Unidos em relação às drogas leves consegue surpreender. Se no Texas ser apanhado com canábis é uma infracção grave, no Colorado é vendida em lojas específicas a qualquer jovem adulto com idade igual ou superior a 21 anos, americano ou não. A administração de Barack Obama foi a principal responsável pela legalização, mas, agora que o ex-presidente foi substituído por Donald Trump, que tem orientações políticas completamente distintas das suas, resta saber se as políticas sobre a canábis retrocederão. «Isso nunca acontecerá», dispara um convicto Goldberg. «Vai ser legalizada e espalhar-se-á para outros estados, penso que há seis estados que a legalizarão nas próximas eleições. Há demasiado dinheiro envolvido, muita criação de emprego… [pausa] Finalmente perceberam que o céu não está a cair, que as pessoas continuam a ir para o trabalho todos os dias e a funcionar como anteriormente; é como com o álcool, logo…» O Colorado não é conhecido apenas por ser um dos estados pioneiros na legalização da marijuana; na verdade, é um dos laboratórios mais activos de heavy metal dos Estados Unidos, com bandas como os Cephalic Carnage, Cobalt, Jag Panzer e The Quiet Room a darem cartas nesse campo em todo o mundo. Hoje, mais do que nunca, parece que todas as bandas de metal que exportam desde o Colorado têm as qualidades certas para serem potenciais next big things. Goldberg diz que não vai «promover outras bandas que não os Cephalic Carnage, senão elas acabam. [risos]» «Blood Incantation», dispara Merryman. «São bons.» Hopp acrescenta que os «Of Feather and Bone também são muito bons». «Depois há uma banda chamada Vimana, que era do Colorado mas que mudou para Seattle, e que é excelente. Se os apanharem ao vivo, não percam, são mesmo muito extremos», conclui Goldberg.

«Cada vez que chega alguém a dizer que certo género está estagnado, aparece sempre alguém com uma cena totalmente nova que muda todo o paradigma do género e mantém a cena fresca.»

Falando em andar na estrada, os Cephalic Carnage tocaram recentemente no Northwest Terror Fest juntamente com nomes como Wolves In The Throne Room, YOB e Goatwhore, entre outros. Este espectáculo ajudou a quebrar o jejum de grandes festivais a que a banda se submeteu, e deve ter sido bom liderar um grande cartaz novamente, ainda mais quando se encontra a planear o próximo registo. Goldberg concorda. «Foi excelente! Divertimo-nos imenso!» Merryman acrescenta que «os estilos musicais foram separados por dias – não tocámos no mesmo dia de Wolves In The Throne Room ou YOB. Tocámos no mesmo de Goatwhore, por exemplo. Foi um dia mais orientado ao death/grind. Seattle sempre nos tratou bem e este festival não foi uma excepção». As alterações do heavy metal foram gigantescas em sete anos. A massificação da Internet ajudou a que editoras, publicações e bandas proliferassem espontaneamente, ainda que de forma quase nada moderada: hoje em dia, qualquer miúdo com um computador, uma ligação de banda larga, uma minicâmara, um microfone e acesso ao YouTube consegue obter visibilidade se for bom. Alguns dizem que são sinais do tempo; outros que o espírito associado ao metal está a morrer. Afinal, em que ficamos? Goldberg finaliza a entrevista, esperançoso: «Boa pergunta, pá. Cada vez que chega alguém a dizer que certo género está estagnado, aparece sempre alguém com uma cena totalmente nova que muda todo o paradigma do género e mantém a cena fresca. Por exemplo, o novo álbum dos Dying Fetus parece seguir essa linha de pensamento e tentar ver onde vai dar. Espero que consigamos algo com o nosso próximo trabalho, que tenha a mesma qualidade ao mesmo que tempo que seja extremo e pesado.»

Topo