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[Entrevista] Cobalt: à procura da América profunda

João Correia

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rsz_20170429_bmf_numprovisória_087_josé_félix_da_costaCobalt @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental.»

«Meu, t-shirt brutal!», dizem-me Erik Wunder e Charlie Fell, especados à minha frente a olhar para a minha t-shirt de Melvins. «Sempre estive indeciso entre Ministry, Jesus Lizard ou Melvins como a minha banda preferida. Mas é Ministry, sem pestanejar», diz-me Erik. Entendo-o perfeitamente: afinal, Ministry também é capaz de ser a minha banda preferida ou, se não é, é por muito pouco. A entrevista com os Cobalt não poderia ter começado melhor do que com uma troca de impressões pessoais sobre três bandas completamente distintas.

Cobalt. À medida que o tempo passa, o burburinho em redor da banda cresce exponencialmente. Após o pontapé nos testículos do metal que deram em 2009 com essa anomalia bipolar chamada “Gin”, regressaram, em 2016, com “Slow Forever”, um trabalho aprimorado mas que, em relação ao anterior, aponta baterias para outros géneros que não o black metal ou até sequer qualquer tipo de metal – country, Americana, hardcore e até rock progressivo são alguns dos filões que os Cobalt exploram em “Slow Forever”. “A minha mente insurge-se contra a estagnação”, dizia Conan Doyle, e parece que os Cobalt levaram a citação muito à letra quando compuseram o último álbum, sempre a desafiar estereótipos, sempre a extirpar convencionalismos e a fazer o que fazem de melhor, sem medo de mudar.

«Na verdade, e pessoalmente, não pensei em mudar ou em fazer um trabalho diferente nos oito anos que passaram desde “Gin”», começa Erik Wunder, visivelmente impressionado com a qualidade da revista Ultraje que ainda tem nas mãos e que utilizei para tirar fotografias promocionais com a banda. «Era apenas o tipo de coisas que estava a fazer na altura.» Charlie Fell relembra Erik de que era o mesmo período em que ele estava «a gravar o disco de Man’s Gin». «Sim, foi nessa altura de Man’s Gin», continua Erik. «Quando o “Gin” foi lançado, mudei-me para Nova Iorque para fazer uma digressão com os Jarboe, tinha o “Gin” acabado de sair e começado a exceder toda e qualquer expectativa, tipo “WOW!”. Há cerca de três anos mudei-me de novo para a minha terra natal, o Colorado, e foi então que comecei a juntar o material novo de Cobalt. Em Nova Iorque, ia gravando uns riffs ou apontando ideias no meu telefone ou no meu gravador de cassetes. De regresso ao Colorado, marquei um estúdio, e foi quando o Phil se passou da cabeça, ele…»

A julgar pela maneira que fala, Wunder parece ainda não estar convencido de que Phil McSorley já não é membro integrante dos Cobalt. «Teve que sair da banda, estava com sérios problemas, chama-lhe o que quiseres… Ele tinha uma forma muito agressiva de PSPT [PTSD] de quando era militar, e atravessou um período complicado, o que foi uma chatice, pois na altura eu estava a juntar os novos temas de Cobalt, passados sete anos, e acontece essa merda… Como eu conhecia o Charlie e já tinha tudo pronto, convidei-o para vocalista de Cobalt, não podia parar agora. Como já tínhamos feito uma tour com Lord Mantis e Nachtmystium…» Charlie intervém de novo: «Isso foi há cerca de quatro anos, foi quando nos conhecemos e ficámos bons amigos. Eu era grande fã de Cobalt, e tinha uma visão bastante exagerada do que eram os Cobalt enquanto fã, e penso que o novo álbum saiu assim por causa dessa visão exacerbada. É por isso que incluímos country; é propositado, é uma forma de nos afirmarmos enquanto americanos, faz parte da nossa identidade.»

O que me leva a crer sem grande margem para dúvidas que a saída de Phil influenciou imenso o resultado final que é “Slow Forever”. «Sim, claro que sim», retoma Fell. «Os acontecimentos mais pequenos dentro de uma banda influenciam os álbuns, logo imagina este, que foi uma coisa enorme.» Wunder reforça: «Por coincidência, os Lord Mantis estavam na mesma posição.» Fell concorda: «Sim, eu estava na mesma situação nos Lord Mantis, e assim foi simples entrar no espírito deste álbum: sei o que o Erik estava a passar. Juntar-me à banda nem sequer foi uma opção, claro que aceitei. E é por isso que digo que tinha uma versão exagerada dos Cobalt, agora que “Slow Forever” saiu.» [risos] Erik ri-se ao lembrar-se do convite e da integração de Charlie Fell nos Cobalt: «Quando o Charlie entrou e começámos a falar de ideias para o novo álbum, apercebi-me de que ele nunca tinha estado no Colorado…» Fell interrompe-o para dizer: «O Colorado tem uma importância tão grande na composição da música dos Cobalt que ele [Wunder] nem sequer ainda percebeu quão importante é, mas eu vejo as influências dele, que foram extraídas do Estado do Colorado. Mesmo o trabalho do Phil era puramente influenciado pelo Colorado.» «Sim», diz Wunder, «afinal crescemos no mesmo county».

rsz_20170429_bmf_numprovisória_098_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Mas terá sido tudo influenciado pelo Estado Centenário? Situado quase ao centro dos Estados Unidos, é um estado recluso, muito distante de Nova Iorque e também de Los Angeles, as grandes capitais culturais americanas. Essa reclusão, acentuada pelas Rocky Mountains, traduz-se em temas como “Elephant Graveyard” ou “Cold Breaker”, repletos de movimento, mas, por outro lado, as letras parecem ter saído de um pesadelo regado a ácidos, mas não quis julgar a banda por isso. Acontece que as letras acrescentam dramatismo adicional aos temas. Ao contrário de “Gin” e do seu conceito totalmente literário, “Slow Forever” parece não ter um conceito em termos de letras, é tudo muito críptico.

«Houve muitos jogos de palavras», inicia Fell. «O Erik queria muitas palavras nos temas e eu jogava à volta delas. Eu tentei incorporar muitas palavras para juntar às dele, e acabei por criar um banco de palavras para utilizar palavras parecidas com as dele. É como se estivesse a pintar um quadro e o quisesse fazer com um aspecto rústico, e então pegaria em tons quentes, de terra, como castanho. Os Cobalt são muito literários – algumas das grandes influências de Cobalt são Hunter S. Thompson e Hemingway. Os Cobalt não são influenciados por outras bandas – eu sou influenciado por coisas muito visuais, tipo David Cronenberg, ao passo que o Erik é influenciado por jornalismo, e isto influencia os Cobalt a serem únicos. Mas precisamos de um banco de palavras para nos movermos em redor das músicas; letras como “animal skin, animal law, rule!” poderão parecer não fazer sentido, mas houve um esforço consciente em escrevê-las e têm significado: os primeiros homens, as montanhas do Colorado…» Ou seja, podemos dizer que é um conceito primordial, primitivo? «Sim, primordial é o termo mais apropriado, de facto», responde Fell.

E continua: «Ele [Wunder] apontava a direcção em que ia, dava-me uma linha de um tema e era assim que fazíamos. Mesmo hoje em dia, em digressão, se tenho uma linha para um tema, apresento-a e podemos criar uma ideia baseada numa frase. Com apenas uma frase, pintamos um quadro. Logo, sim, são letras crípticas, pois nós não sabíamos o que significavam, não havia uma história ou mensagem directa, era como se estivéssemos a pintar com palavras, como se fosse um desvario extraído do “The Naked Lunch”.» É fácil de perceber, aliás, que os Cobalt são bastante influenciados pela Beat Generation. Wunder intervém, dizendo que as letras dos temas de “Slow Forever” são mais como «um mantra do que como letras, curtas, repetitivas, hipnóticas. É um dos factores mais acentuados dos Cobalt, a repetição de letras».

Ainda sobre a simbiose dos Cobalt com o Colorado, pareceu-me mais que óbvio que o resultado final seria algo de completamente distinto caso tivesse sido gravado noutro lado. A imensidão do estado e os grandes espaços naturais ao ar-livre, como referido acima, foram largamente responsáveis pela composição dos temas finais. Erik concorda: «Sim, definitivamente, quase nem conseguimos descrever essa simbiose em palavras, meu. Todos os pequenos elementos fazem de “Slow Forever” o álbum que concluímos. Para o próximo álbum pensámos incorporar novos elementos, e temos a certeza de que será uma experiência muito interessante.» Pareceu-me que Wunder já estava a adiantar planos sobre o começo imediato da gravação do novo disco depois da digressão de promoção de “Slow Forever”, e decidi explorar mais o filão.

Fell responde: «Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental, e é por isso que adoramos compor, viajar para tocar para tantos fãs quanto possível, mas, acima de tudo, somos uma banda, e interessa-nos gravar e apresentar coisas novas, continuar a criar música. Queremos muito tornar-nos numa banda ao vivo – tem sido difícil, mas temos conseguido criar esse ambiente. Contudo, não nos queremos tornar numa party band, que viaja e toca muito, mas cujos concertos não significam nada. Queremos que seja sempre um evento especial, e como só podes capitalizar um álbum até determinado ponto, concentramo-nos em escrever novos álbuns, mas também em tocar ao vivo.»

rsz_20170429_bmf_numprovisória_102_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Decido ser mais pragmático, visto que Fell não respondeu concretamente à minha pergunta: os Cobalt já estão ou estarão em breve no processo de criação e gravação de um novo álbum? «Estamos, sim», diz Wunder. «Neste momento, tenho 256 ideias gravadas no meu iPhone, e já escrevemos imensas letras para o novo álbum, algumas escritas anteontem. Podemos adiantar-te que, quando regressarmos da digressão de Verão, vou começar a trabalhar num novo trabalho de Man’s Gin. Tenho que conciliar o meu tempo entre Man’s Gin e Cobalt, e depois de Man’s Gin, começamos a gravar novo material de Cobalt.» Charlie Fell disse ainda que tinha outro projecto chamado The Missing, envolto em segredo e cujo nome provém de um dos temas clássicos dos Ministry, bem como que tinham gravado uma demo. Segredo ou não, esse projecto era composto por membros de Abigail Williams e de Leviathan mas, entretanto, Charlie Fell teve um desentendimento com os membros de Abigail Williams, e o Chris Bruni (dono da Profound Lore Records, a editora dos Cobalt) adiantou que não só o nome do projecto poderia ser alterado, como ainda que Fell iria incluir nele Shane McCarthy, um dos guitarristas dos Wayfarer, e também Sanford Parker, antigo teclista de Nachtmystium. Em última análise, podemos sempre esperar dos Cobalt um novo álbum repleto daquilo de que muitos falam, mas que poucos conseguem.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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