#ChooseUltraje

Entrevistas

[Entrevista] Cobalt: à procura da América profunda

João Correia

Publicado há

-

rsz_20170429_bmf_numprovisória_087_josé_félix_da_costaCobalt @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental.»

«Meu, t-shirt brutal!», dizem-me Erik Wunder e Charlie Fell, especados à minha frente a olhar para a minha t-shirt de Melvins. «Sempre estive indeciso entre Ministry, Jesus Lizard ou Melvins como a minha banda preferida. Mas é Ministry, sem pestanejar», diz-me Erik. Entendo-o perfeitamente: afinal, Ministry também é capaz de ser a minha banda preferida ou, se não é, é por muito pouco. A entrevista com os Cobalt não poderia ter começado melhor do que com uma troca de impressões pessoais sobre três bandas completamente distintas.

Cobalt. À medida que o tempo passa, o burburinho em redor da banda cresce exponencialmente. Após o pontapé nos testículos do metal que deram em 2009 com essa anomalia bipolar chamada “Gin”, regressaram, em 2016, com “Slow Forever”, um trabalho aprimorado mas que, em relação ao anterior, aponta baterias para outros géneros que não o black metal ou até sequer qualquer tipo de metal – country, Americana, hardcore e até rock progressivo são alguns dos filões que os Cobalt exploram em “Slow Forever”. “A minha mente insurge-se contra a estagnação”, dizia Conan Doyle, e parece que os Cobalt levaram a citação muito à letra quando compuseram o último álbum, sempre a desafiar estereótipos, sempre a extirpar convencionalismos e a fazer o que fazem de melhor, sem medo de mudar.

«Na verdade, e pessoalmente, não pensei em mudar ou em fazer um trabalho diferente nos oito anos que passaram desde “Gin”», começa Erik Wunder, visivelmente impressionado com a qualidade da revista Ultraje que ainda tem nas mãos e que utilizei para tirar fotografias promocionais com a banda. «Era apenas o tipo de coisas que estava a fazer na altura.» Charlie Fell relembra Erik de que era o mesmo período em que ele estava «a gravar o disco de Man’s Gin». «Sim, foi nessa altura de Man’s Gin», continua Erik. «Quando o “Gin” foi lançado, mudei-me para Nova Iorque para fazer uma digressão com os Jarboe, tinha o “Gin” acabado de sair e começado a exceder toda e qualquer expectativa, tipo “WOW!”. Há cerca de três anos mudei-me de novo para a minha terra natal, o Colorado, e foi então que comecei a juntar o material novo de Cobalt. Em Nova Iorque, ia gravando uns riffs ou apontando ideias no meu telefone ou no meu gravador de cassetes. De regresso ao Colorado, marquei um estúdio, e foi quando o Phil se passou da cabeça, ele…»

A julgar pela maneira que fala, Wunder parece ainda não estar convencido de que Phil McSorley já não é membro integrante dos Cobalt. «Teve que sair da banda, estava com sérios problemas, chama-lhe o que quiseres… Ele tinha uma forma muito agressiva de PSPT [PTSD] de quando era militar, e atravessou um período complicado, o que foi uma chatice, pois na altura eu estava a juntar os novos temas de Cobalt, passados sete anos, e acontece essa merda… Como eu conhecia o Charlie e já tinha tudo pronto, convidei-o para vocalista de Cobalt, não podia parar agora. Como já tínhamos feito uma tour com Lord Mantis e Nachtmystium…» Charlie intervém de novo: «Isso foi há cerca de quatro anos, foi quando nos conhecemos e ficámos bons amigos. Eu era grande fã de Cobalt, e tinha uma visão bastante exagerada do que eram os Cobalt enquanto fã, e penso que o novo álbum saiu assim por causa dessa visão exacerbada. É por isso que incluímos country; é propositado, é uma forma de nos afirmarmos enquanto americanos, faz parte da nossa identidade.»

O que me leva a crer sem grande margem para dúvidas que a saída de Phil influenciou imenso o resultado final que é “Slow Forever”. «Sim, claro que sim», retoma Fell. «Os acontecimentos mais pequenos dentro de uma banda influenciam os álbuns, logo imagina este, que foi uma coisa enorme.» Wunder reforça: «Por coincidência, os Lord Mantis estavam na mesma posição.» Fell concorda: «Sim, eu estava na mesma situação nos Lord Mantis, e assim foi simples entrar no espírito deste álbum: sei o que o Erik estava a passar. Juntar-me à banda nem sequer foi uma opção, claro que aceitei. E é por isso que digo que tinha uma versão exagerada dos Cobalt, agora que “Slow Forever” saiu.» [risos] Erik ri-se ao lembrar-se do convite e da integração de Charlie Fell nos Cobalt: «Quando o Charlie entrou e começámos a falar de ideias para o novo álbum, apercebi-me de que ele nunca tinha estado no Colorado…» Fell interrompe-o para dizer: «O Colorado tem uma importância tão grande na composição da música dos Cobalt que ele [Wunder] nem sequer ainda percebeu quão importante é, mas eu vejo as influências dele, que foram extraídas do Estado do Colorado. Mesmo o trabalho do Phil era puramente influenciado pelo Colorado.» «Sim», diz Wunder, «afinal crescemos no mesmo county».

rsz_20170429_bmf_numprovisória_098_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Mas terá sido tudo influenciado pelo Estado Centenário? Situado quase ao centro dos Estados Unidos, é um estado recluso, muito distante de Nova Iorque e também de Los Angeles, as grandes capitais culturais americanas. Essa reclusão, acentuada pelas Rocky Mountains, traduz-se em temas como “Elephant Graveyard” ou “Cold Breaker”, repletos de movimento, mas, por outro lado, as letras parecem ter saído de um pesadelo regado a ácidos, mas não quis julgar a banda por isso. Acontece que as letras acrescentam dramatismo adicional aos temas. Ao contrário de “Gin” e do seu conceito totalmente literário, “Slow Forever” parece não ter um conceito em termos de letras, é tudo muito críptico.

«Houve muitos jogos de palavras», inicia Fell. «O Erik queria muitas palavras nos temas e eu jogava à volta delas. Eu tentei incorporar muitas palavras para juntar às dele, e acabei por criar um banco de palavras para utilizar palavras parecidas com as dele. É como se estivesse a pintar um quadro e o quisesse fazer com um aspecto rústico, e então pegaria em tons quentes, de terra, como castanho. Os Cobalt são muito literários – algumas das grandes influências de Cobalt são Hunter S. Thompson e Hemingway. Os Cobalt não são influenciados por outras bandas – eu sou influenciado por coisas muito visuais, tipo David Cronenberg, ao passo que o Erik é influenciado por jornalismo, e isto influencia os Cobalt a serem únicos. Mas precisamos de um banco de palavras para nos movermos em redor das músicas; letras como “animal skin, animal law, rule!” poderão parecer não fazer sentido, mas houve um esforço consciente em escrevê-las e têm significado: os primeiros homens, as montanhas do Colorado…» Ou seja, podemos dizer que é um conceito primordial, primitivo? «Sim, primordial é o termo mais apropriado, de facto», responde Fell.

E continua: «Ele [Wunder] apontava a direcção em que ia, dava-me uma linha de um tema e era assim que fazíamos. Mesmo hoje em dia, em digressão, se tenho uma linha para um tema, apresento-a e podemos criar uma ideia baseada numa frase. Com apenas uma frase, pintamos um quadro. Logo, sim, são letras crípticas, pois nós não sabíamos o que significavam, não havia uma história ou mensagem directa, era como se estivéssemos a pintar com palavras, como se fosse um desvario extraído do “The Naked Lunch”.» É fácil de perceber, aliás, que os Cobalt são bastante influenciados pela Beat Generation. Wunder intervém, dizendo que as letras dos temas de “Slow Forever” são mais como «um mantra do que como letras, curtas, repetitivas, hipnóticas. É um dos factores mais acentuados dos Cobalt, a repetição de letras».

Ainda sobre a simbiose dos Cobalt com o Colorado, pareceu-me mais que óbvio que o resultado final seria algo de completamente distinto caso tivesse sido gravado noutro lado. A imensidão do estado e os grandes espaços naturais ao ar-livre, como referido acima, foram largamente responsáveis pela composição dos temas finais. Erik concorda: «Sim, definitivamente, quase nem conseguimos descrever essa simbiose em palavras, meu. Todos os pequenos elementos fazem de “Slow Forever” o álbum que concluímos. Para o próximo álbum pensámos incorporar novos elementos, e temos a certeza de que será uma experiência muito interessante.» Pareceu-me que Wunder já estava a adiantar planos sobre o começo imediato da gravação do novo disco depois da digressão de promoção de “Slow Forever”, e decidi explorar mais o filão.

Fell responde: «Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental, e é por isso que adoramos compor, viajar para tocar para tantos fãs quanto possível, mas, acima de tudo, somos uma banda, e interessa-nos gravar e apresentar coisas novas, continuar a criar música. Queremos muito tornar-nos numa banda ao vivo – tem sido difícil, mas temos conseguido criar esse ambiente. Contudo, não nos queremos tornar numa party band, que viaja e toca muito, mas cujos concertos não significam nada. Queremos que seja sempre um evento especial, e como só podes capitalizar um álbum até determinado ponto, concentramo-nos em escrever novos álbuns, mas também em tocar ao vivo.»

rsz_20170429_bmf_numprovisória_102_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Decido ser mais pragmático, visto que Fell não respondeu concretamente à minha pergunta: os Cobalt já estão ou estarão em breve no processo de criação e gravação de um novo álbum? «Estamos, sim», diz Wunder. «Neste momento, tenho 256 ideias gravadas no meu iPhone, e já escrevemos imensas letras para o novo álbum, algumas escritas anteontem. Podemos adiantar-te que, quando regressarmos da digressão de Verão, vou começar a trabalhar num novo trabalho de Man’s Gin. Tenho que conciliar o meu tempo entre Man’s Gin e Cobalt, e depois de Man’s Gin, começamos a gravar novo material de Cobalt.» Charlie Fell disse ainda que tinha outro projecto chamado The Missing, envolto em segredo e cujo nome provém de um dos temas clássicos dos Ministry, bem como que tinham gravado uma demo. Segredo ou não, esse projecto era composto por membros de Abigail Williams e de Leviathan mas, entretanto, Charlie Fell teve um desentendimento com os membros de Abigail Williams, e o Chris Bruni (dono da Profound Lore Records, a editora dos Cobalt) adiantou que não só o nome do projecto poderia ser alterado, como ainda que Fell iria incluir nele Shane McCarthy, um dos guitarristas dos Wayfarer, e também Sanford Parker, antigo teclista de Nachtmystium. Em última análise, podemos sempre esperar dos Cobalt um novo álbum repleto daquilo de que muitos falam, mas que poucos conseguem.

Entrevistas

Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

Continuar a ler

Entrevistas

Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

Continuar a ler

Entrevistas

Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

Publicado há

-

«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #19