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[Entrevista] Cobalt: à procura da América profunda

rsz_20170429_bmf_numprovisória_087_josé_félix_da_costaCobalt @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental.»

«Meu, t-shirt brutal!», dizem-me Erik Wunder e Charlie Fell, especados à minha frente a olhar para a minha t-shirt de Melvins. «Sempre estive indeciso entre Ministry, Jesus Lizard ou Melvins como a minha banda preferida. Mas é Ministry, sem pestanejar», diz-me Erik. Entendo-o perfeitamente: afinal, Ministry também é capaz de ser a minha banda preferida ou, se não é, é por muito pouco. A entrevista com os Cobalt não poderia ter começado melhor do que com uma troca de impressões pessoais sobre três bandas completamente distintas.

Cobalt. À medida que o tempo passa, o burburinho em redor da banda cresce exponencialmente. Após o pontapé nos testículos do metal que deram em 2009 com essa anomalia bipolar chamada “Gin”, regressaram, em 2016, com “Slow Forever”, um trabalho aprimorado mas que, em relação ao anterior, aponta baterias para outros géneros que não o black metal ou até sequer qualquer tipo de metal – country, Americana, hardcore e até rock progressivo são alguns dos filões que os Cobalt exploram em “Slow Forever”. “A minha mente insurge-se contra a estagnação”, dizia Conan Doyle, e parece que os Cobalt levaram a citação muito à letra quando compuseram o último álbum, sempre a desafiar estereótipos, sempre a extirpar convencionalismos e a fazer o que fazem de melhor, sem medo de mudar.

«Na verdade, e pessoalmente, não pensei em mudar ou em fazer um trabalho diferente nos oito anos que passaram desde “Gin”», começa Erik Wunder, visivelmente impressionado com a qualidade da revista Ultraje que ainda tem nas mãos e que utilizei para tirar fotografias promocionais com a banda. «Era apenas o tipo de coisas que estava a fazer na altura.» Charlie Fell relembra Erik de que era o mesmo período em que ele estava «a gravar o disco de Man’s Gin». «Sim, foi nessa altura de Man’s Gin», continua Erik. «Quando o “Gin” foi lançado, mudei-me para Nova Iorque para fazer uma digressão com os Jarboe, tinha o “Gin” acabado de sair e começado a exceder toda e qualquer expectativa, tipo “WOW!”. Há cerca de três anos mudei-me de novo para a minha terra natal, o Colorado, e foi então que comecei a juntar o material novo de Cobalt. Em Nova Iorque, ia gravando uns riffs ou apontando ideias no meu telefone ou no meu gravador de cassetes. De regresso ao Colorado, marquei um estúdio, e foi quando o Phil se passou da cabeça, ele…»

A julgar pela maneira que fala, Wunder parece ainda não estar convencido de que Phil McSorley já não é membro integrante dos Cobalt. «Teve que sair da banda, estava com sérios problemas, chama-lhe o que quiseres… Ele tinha uma forma muito agressiva de PSPT [PTSD] de quando era militar, e atravessou um período complicado, o que foi uma chatice, pois na altura eu estava a juntar os novos temas de Cobalt, passados sete anos, e acontece essa merda… Como eu conhecia o Charlie e já tinha tudo pronto, convidei-o para vocalista de Cobalt, não podia parar agora. Como já tínhamos feito uma tour com Lord Mantis e Nachtmystium…» Charlie intervém de novo: «Isso foi há cerca de quatro anos, foi quando nos conhecemos e ficámos bons amigos. Eu era grande fã de Cobalt, e tinha uma visão bastante exagerada do que eram os Cobalt enquanto fã, e penso que o novo álbum saiu assim por causa dessa visão exacerbada. É por isso que incluímos country; é propositado, é uma forma de nos afirmarmos enquanto americanos, faz parte da nossa identidade.»

O que me leva a crer sem grande margem para dúvidas que a saída de Phil influenciou imenso o resultado final que é “Slow Forever”. «Sim, claro que sim», retoma Fell. «Os acontecimentos mais pequenos dentro de uma banda influenciam os álbuns, logo imagina este, que foi uma coisa enorme.» Wunder reforça: «Por coincidência, os Lord Mantis estavam na mesma posição.» Fell concorda: «Sim, eu estava na mesma situação nos Lord Mantis, e assim foi simples entrar no espírito deste álbum: sei o que o Erik estava a passar. Juntar-me à banda nem sequer foi uma opção, claro que aceitei. E é por isso que digo que tinha uma versão exagerada dos Cobalt, agora que “Slow Forever” saiu.» [risos] Erik ri-se ao lembrar-se do convite e da integração de Charlie Fell nos Cobalt: «Quando o Charlie entrou e começámos a falar de ideias para o novo álbum, apercebi-me de que ele nunca tinha estado no Colorado…» Fell interrompe-o para dizer: «O Colorado tem uma importância tão grande na composição da música dos Cobalt que ele [Wunder] nem sequer ainda percebeu quão importante é, mas eu vejo as influências dele, que foram extraídas do Estado do Colorado. Mesmo o trabalho do Phil era puramente influenciado pelo Colorado.» «Sim», diz Wunder, «afinal crescemos no mesmo county».

rsz_20170429_bmf_numprovisória_098_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Mas terá sido tudo influenciado pelo Estado Centenário? Situado quase ao centro dos Estados Unidos, é um estado recluso, muito distante de Nova Iorque e também de Los Angeles, as grandes capitais culturais americanas. Essa reclusão, acentuada pelas Rocky Mountains, traduz-se em temas como “Elephant Graveyard” ou “Cold Breaker”, repletos de movimento, mas, por outro lado, as letras parecem ter saído de um pesadelo regado a ácidos, mas não quis julgar a banda por isso. Acontece que as letras acrescentam dramatismo adicional aos temas. Ao contrário de “Gin” e do seu conceito totalmente literário, “Slow Forever” parece não ter um conceito em termos de letras, é tudo muito críptico.

«Houve muitos jogos de palavras», inicia Fell. «O Erik queria muitas palavras nos temas e eu jogava à volta delas. Eu tentei incorporar muitas palavras para juntar às dele, e acabei por criar um banco de palavras para utilizar palavras parecidas com as dele. É como se estivesse a pintar um quadro e o quisesse fazer com um aspecto rústico, e então pegaria em tons quentes, de terra, como castanho. Os Cobalt são muito literários – algumas das grandes influências de Cobalt são Hunter S. Thompson e Hemingway. Os Cobalt não são influenciados por outras bandas – eu sou influenciado por coisas muito visuais, tipo David Cronenberg, ao passo que o Erik é influenciado por jornalismo, e isto influencia os Cobalt a serem únicos. Mas precisamos de um banco de palavras para nos movermos em redor das músicas; letras como “animal skin, animal law, rule!” poderão parecer não fazer sentido, mas houve um esforço consciente em escrevê-las e têm significado: os primeiros homens, as montanhas do Colorado…» Ou seja, podemos dizer que é um conceito primordial, primitivo? «Sim, primordial é o termo mais apropriado, de facto», responde Fell.

E continua: «Ele [Wunder] apontava a direcção em que ia, dava-me uma linha de um tema e era assim que fazíamos. Mesmo hoje em dia, em digressão, se tenho uma linha para um tema, apresento-a e podemos criar uma ideia baseada numa frase. Com apenas uma frase, pintamos um quadro. Logo, sim, são letras crípticas, pois nós não sabíamos o que significavam, não havia uma história ou mensagem directa, era como se estivéssemos a pintar com palavras, como se fosse um desvario extraído do “The Naked Lunch”.» É fácil de perceber, aliás, que os Cobalt são bastante influenciados pela Beat Generation. Wunder intervém, dizendo que as letras dos temas de “Slow Forever” são mais como «um mantra do que como letras, curtas, repetitivas, hipnóticas. É um dos factores mais acentuados dos Cobalt, a repetição de letras».

Ainda sobre a simbiose dos Cobalt com o Colorado, pareceu-me mais que óbvio que o resultado final seria algo de completamente distinto caso tivesse sido gravado noutro lado. A imensidão do estado e os grandes espaços naturais ao ar-livre, como referido acima, foram largamente responsáveis pela composição dos temas finais. Erik concorda: «Sim, definitivamente, quase nem conseguimos descrever essa simbiose em palavras, meu. Todos os pequenos elementos fazem de “Slow Forever” o álbum que concluímos. Para o próximo álbum pensámos incorporar novos elementos, e temos a certeza de que será uma experiência muito interessante.» Pareceu-me que Wunder já estava a adiantar planos sobre o começo imediato da gravação do novo disco depois da digressão de promoção de “Slow Forever”, e decidi explorar mais o filão.

Fell responde: «Os Cobalt são uma banda a sério, e não apenas mais um projecto experimental, e é por isso que adoramos compor, viajar para tocar para tantos fãs quanto possível, mas, acima de tudo, somos uma banda, e interessa-nos gravar e apresentar coisas novas, continuar a criar música. Queremos muito tornar-nos numa banda ao vivo – tem sido difícil, mas temos conseguido criar esse ambiente. Contudo, não nos queremos tornar numa party band, que viaja e toca muito, mas cujos concertos não significam nada. Queremos que seja sempre um evento especial, e como só podes capitalizar um álbum até determinado ponto, concentramo-nos em escrever novos álbuns, mas também em tocar ao vivo.»

rsz_20170429_bmf_numprovisória_102_josé_félix_da_costa(Foto: José Félix da Costa)

Decido ser mais pragmático, visto que Fell não respondeu concretamente à minha pergunta: os Cobalt já estão ou estarão em breve no processo de criação e gravação de um novo álbum? «Estamos, sim», diz Wunder. «Neste momento, tenho 256 ideias gravadas no meu iPhone, e já escrevemos imensas letras para o novo álbum, algumas escritas anteontem. Podemos adiantar-te que, quando regressarmos da digressão de Verão, vou começar a trabalhar num novo trabalho de Man’s Gin. Tenho que conciliar o meu tempo entre Man’s Gin e Cobalt, e depois de Man’s Gin, começamos a gravar novo material de Cobalt.» Charlie Fell disse ainda que tinha outro projecto chamado The Missing, envolto em segredo e cujo nome provém de um dos temas clássicos dos Ministry, bem como que tinham gravado uma demo. Segredo ou não, esse projecto era composto por membros de Abigail Williams e de Leviathan mas, entretanto, Charlie Fell teve um desentendimento com os membros de Abigail Williams, e o Chris Bruni (dono da Profound Lore Records, a editora dos Cobalt) adiantou que não só o nome do projecto poderia ser alterado, como ainda que Fell iria incluir nele Shane McCarthy, um dos guitarristas dos Wayfarer, e também Sanford Parker, antigo teclista de Nachtmystium. Em última análise, podemos sempre esperar dos Cobalt um novo álbum repleto daquilo de que muitos falam, mas que poucos conseguem.

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