Corpus Christii: escura é a noite (entrevista c/ Nocturnus Horrendus) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Corpus Christii: escura é a noite (entrevista c/ Nocturnus Horrendus)

rsz_corpus_christii_moitaCorpus Christii ao vivo no Moita Metal Fest 2017. Foto: João Correira

«O novo álbum é um resumo do que Corpus fez durante quase 20 anos.»

“Delusion”, o novo álbum, chega às prateleiras agora em abril, e foi o mote para trocar impressões com Nocturnus Horrendus (NH), mentor do lendário projeto lisboeta Corpus Christii, aquando do concerto da banda no Moita Metal Fest. Ainda que a caminhar a passos largos para o verão, nunca a noite foi tão longa e negra.

Ainda que nos tenhamos conhecido há alguns anos e noutras circunstâncias, NH não deixa margem para dúvidas em relação a quem é quando, a caminho da sua carrinha, me avisa sem deixar margem para dúvidas que «se as perguntas forem uma merda, digo-to de caras». Gosto de gente assim, honestamente. No fim de contas, isto é black metal. NH diz-me que está com a garganta extremamente irritada, o que, só por si, indica o quanto venera a arte, isto a escassas horas de subir ao palco.

Acompanho a banda desde 2007, altura do lançamento de “Rising”. Daí em diante, os Corpus Christii cresceram ao ponto de a Candlelight finalmente ter reparado que em Portugal existe black metal de qualidade. Embora o som de raiz da banda não tenha mudado significativamente em 10 anos, a maturidade é visível, bem como as diferentes produções de álbum para álbum. Para quem conhece títulos como “Luciferian Frequencies” ou “PaleMoon”, “Delusion” apresenta uma produção que, inicialmente, parece muito mais polida. Nítida, até.

«Demorou tempo até chegar a este som, a um som puro, e é essa pureza que leva à verdadeira alma da música. Foi gradual e sistemático.»

NH desmistifica, explicando: «Vamos fazendo a produção segundo o que me vai na mente. Na minha mente, queria uma bateria maior, mais profunda, com mais delays, uma bateria mais grave. Queria ainda que tivesse uma linha de baixo bastante presente, logo, sim, teríamos que ter elementos um pouco mais definidos. Quanto a ser limpo, é relativo. Por exemplo, a guitarra foi ligada a um Peavey Bandit 112 e a um pedal Boss Metal Zone, logo, limpidez é um termo relativo. Acho, sim, que temos um grande produtor, que teve imenso trabalho a tirar aquele som. O homem fez magia. Acima de tudo, captou a essência total da música, e acho que quando as pessoas ouvirem o álbum entenderão o propósito desta produção. Demorou tempo até chegar a este som, a um som puro, e é essa pureza que leva à verdadeira alma da música. Foi gradual e sistemático.»

Quem conhece a banda sabe que Corpus Christii e repetição não são sinónimos. Ainda assim, encontrei diversas semelhanças a “Luciferian Frequencies”, que elegi como álbum do ano em 2011. NH não se furta à questão, indicando que não tem opinião formada sobre o assunto. «Não pensei uma única vez nesse álbum quando compus o novo. O novo foi feito de raiz, e nem sequer pensei também no “PaleMoon” quando criei este. Com o novo registo, queria um álbum mais negro. Nem de propósito, mas sem ser propositado, à medida que o ia compondo, saía menos grim que o “PaleMoon”, a música saía mais retorcida, mais negra, profunda… Quase esotérica, como se fosse o culminar de quase 20 anos de Corpus. Assim, pega em quase todos os elementos do que Corpus fez até hoje. De certa maneira, o novo álbum é isso, um resumo do que Corpus fez durante quase 20 anos.»

Nada propositado, então? «Não, nada propositado, tanto que, quando acabámos o álbum, ouvi-o e arrepiei-me, admito. Senti um flashback de memórias a passar por mim. Este álbum invoca todas as memórias de Corpus que tive até hoje. Logo, sim, pode fazer lembrar um pouco o “Luciferian”, mas também tudo o resto. As pessoas terão que ouvir o álbum na totalidade, porque é bastante completo. Não é grim como o “PaleMoon”, totalmente retorcido, nem fodido da cabeça como o “Luciferian”, mas sim o álbum que explica Corpus na sua totalidade.» Quase que parece que estamos a falar de um estado de espírito. «Sim, isso é sempre, mas este… Este é-o em particular.»

 

Com o novo álbum à porta, seria hipócrita não mencionar que é a segunda vez que os Corpus Christii tocam num festival de metal importante em Portugal (a primeira foi no SWR), ainda mais no ano que confirmou o Moita Metal Fest como festival profissional. Lá fora, a banda é mais que conhecida há anos, mas a filosofia por detrás do black metal pode, por vezes, limitar concertos ao vivo. Felizmente, tocaram no Moita, muito a pedido de vários fãs. «Nós tocamos onde nos convidarem» – adianta, rindo. «Não me recordo de recusar tocar em festivais onde toca esta ou aquela banda. Recuso é quando querem que toquemos de graça.»

A minha pergunta não correu da melhor forma, e tomo outra abordagem: Corpus Christii tem provas dadas e reconhecimento no exterior, mas deveria ser ao contrário – crescer em Portugal, tocar mais amiúde em Portugal, mas, no entanto, nada. Será por falta de convites? «Temos tido mais convites, ultimamente. Talvez Corpus tenha que provar mais que as outras bandas em Portugal, não sei se é bem isso. É verdade que, este ano, tocámos em mais alguns festivais que, noutros anos, não nos convidariam. Isto devido a fãs, que insistiram com os produtores e exigiram ver Corpus… Sei e estou a par disso. Se metem de tudo um pouco, porque não black metal? Sei que para nós é bastante difícil – black metal é um mundo à parte e temos que levar com muito preconceito.»

Espera, preconceito no panorama metálico em Portugal?! «Sim, claro que sim, mas até nos dá algum gozo. Black metal não é para ser aceite por qualquer um, logo, não tenho problemas em levar com preconceito. Somos a etnia excomungada [risos].» Mas continua a acabar em “metal”… «Não – para mim, black metal não é metal, nunca foi. Para mim, o black metal é quase o punk do género, o …» (pausa) O enfant terrible? «O enfant terrible, acho que sim, pelo menos segundo a minha vivência. No meio, sempre foi excomungado pelo pessoal do metal, e só ultimamente se tem tornado mais fácil. E, hoje, está na boca do mundo, e toda a gente fala em black metal, como se fosse qualquer coisa, passou de oito para oitenta. Resumindo: gosto de tocar em festivais diferentes, seja no Mangualde ou no Mosher e ver pessoas vir ter comigo que nitidamente não gostam de black metal, mas que contrapõem dizendo que o nosso show foi do caraças. Claro que é agradável ouvir isso.»

«No meio, [black metal] sempre foi excomungado pelo pessoal do metal, e só ultimamente se tem tornado mais fácil.»

É tempo de um golo de água – garganta irritada e muita conversa não são propriamente melhores amigos. Falando em amigos, e aquando do lançamento do primeiro teaser do novo disco, NH declarou guerra a tendências, falsos discípulos e a uma cena plástica. Estará a cena nacional e internacional a trilhar caminhos menos sanos que antes? E, na continuação da conversa anterior, será por isso que bandas como os Corpus Christii se escudam de eventos maiores? Qual Moisés profano, NH separa as águas quando diz que «isso é relativo apenas à cena black metal. Como disse há pouco, existe o panorama do metal, que é uma coisa, e como músico e pessoa que gosta de música, é outra, tenho dupla personalidade. Como black metaller que sou, odeio, abomino aquilo em que o black metal se tornou. Abomino. Gostava de ver este meio a arder». OK, é uma opinião válida como qualquer outra. Mas fiquei interrogado em relação apenas à cena black metal e não a outras dentro do metal, e tento meter o dedo na ferida.

«Falo em exclusivo do black metal, os outros meios não me interessam, não faço parte deles. Gosto de muitos géneros fora do black metal, mas não são o meu meio, não me assiste criticar ou defendê-los. O black, porém, é patético atualmente, é levado na brincadeira, na boa, e não o apoio. Gostaria de o ver arder porque não apresenta qualquer lógica. A questão filosófica… Ou é tudo muito sério, ou é tudo a brincar, e o que parece muito sério são gajos encapuçados a fingir que estão a levar muito a sério, e é tudo treta. No princípio dos 90’s, éramos inocentes, ainda não tínhamos desenvolvido a nossa filosofia, mas tentávamos enraizar as coisas. Black metal não é apenas um género musical, mas uma filosofia de vida, e a única forma de o explicar é uma expressão artística quase religiosa. Se fosse religião, as pessoas já conseguiriam dar-lhe o verdadeiro mérito e respeito necessário.» Shots fired!

Tudo isto me faz questionar o trajeto da banda entre editoras, e a Folter, uma das mais respeitadas de black metal a nível mundial, parece ter sido a escolha certa. Entre contratos de 20 páginas com a Candlelight e total autonomia e uma sensação de liberdade com a Folter, NH não tem dúvidas em relação à editora que melhor representa os interesses de Corpus Christii. Mais: raro que é ver a banda ao vivo em Portugal, será que a nova editora foi a escolha certa nesse sentido? «Tocar ao vivo tem sido complicado, mas temos algo planeado, nomeadamente uma mini-tour lá fora, em outubro, e temos outra em desenvolvimento nos mesmos moldes. Somos co-headliners no Under The Black Sun, nos arredores de Berlim. Para mim, é o festival de black metal mais importante da Europa… E esperamos por mais ofertas.»

 

No cartaz do Under The Black Sun constam nomes lendários da cena, como Funeral Winds, In the Woods, Nocturnal Depression e Streams of Blood, entre bastantes outros, mas parecem ser poucos concertos, ainda assim. «Temos um problema grave: falta de agenciamento. Hoje em dia, mesmo no black metal, as bandas precisam de agenciamento para se mexerem. Nunca cedemos a agenciamento. É sempre necessário pagar nas primeiras tours, e nunca cedi a isso, pagar para tocar. Seria um bocado ridículo fazer isso ao fim de quase 20 anos de carreira. Logo, é difícil; assim como com a sociedade, a classe média das bandas, à qual pertencem os Corpus Christii, está a desaparecer. As bandas grandes cobram cachets muito grandes, e as de classe média, tipo Corpus, sofrem imenso com isso. Mas lutamos, continuamos, e temos sempre feito tours lá fora.» Em Portugal, é diferente. Não me recordo da última vez que a banda cá tocou, e interrogo-me se a Folter pode fazer mais pelo nosso mercado.

«Estamos numa editora underground do início dos 90’s, que funciona numa base de… [pausa longa] irmandade. Eles gostam realmente da banda. Falo com o patrão na boa, aperto-lhe a mão, e se ele gosta, lança, se não, não lança. E se preciso de ajuda, ele diz que sim, ou que não, e é nesse patamar que trabalhamos. Não há intermediários, não há perdas de tempo, se preciso de mais umas cópias, peço e é sim ou não, como se fazia antigamente. Claro, não lhes compete arranjar concertos e agenciamento. Algumas editoras grandes já o fazem, tipo Nuclear Blast. Voltámos à cena antiga, com pessoas que gostam, com prazer no que gostam, que continuam a lutar, e tenho imenso gosto nisso. Posso vender metade do que vendia, mas trabalho com pessoas que têm gosto no que fazem, e isso dá-me…» (pausa longa)

Felicidade? «Sim, felicidade. Dá-me muito gosto, mais que na Candlelight. Na Candlelight, eu pensava que iria ter menos trabalho com a banda, e que só precisava de me focar na música. Nada disso! Tive muito mais trabalho, preocupações e stress, e isso comigo não funciona. Agora, estou relaxado; mesmo com a Candlelight nunca tive deadlines, e agora menos tenho que me preocupar com isso. Mas na Candlelight desmotivei-me e estive 4 anos sem fazer um álbum.» O homem parece que lê os meus pensamentos, era precisamente isso que lhe iria perguntar, o que correu mal com a Candlelight. «Foi isso – desmotivei, fuck the music business, e não estive para fazer um álbum. Agora, sinto-me em casa, sinto que estou com pessoas que merecem, e que têm uma editora desde 1991, e agora lançamos um novo álbum que simplesmente…»

O homem faz longas pausas, sejam intelectuais ou emotivas, e nota-se que parece que fala de um filho, de (passe a expressão) algo sagrado e intocável. É visível que está extremamente satisfeito com o novo trabalho. «…Eu, que sou o meu maior fã, ouço sempre os meus álbuns, regularmente sou o meu maior fã, já disse isto muitas vezes… Quando ouço a minha música, não a ouço como a pessoa que fez a música, e este álbum… É a primeira vez que… [pausa longa] que o ouço como tendo sido eu a fazê-lo, e faz-me bastante confusão, fico mesmo arrepiado ao ouvi-lo. Não quero estar aqui a tentar vender rebuçados [risos], mas este álbum está qualquer coisa como produto final.»

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A review a “Delusion” pode ser lida no #9 da Ultraje Magazine disponível AQUI.

(O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico)

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