Daemonheim “Widerwelt” [Nota: 8/10] – Ultraje – Metal & Rock Online
Reviews

Daemonheim “Widerwelt” [Nota: 8/10]

801410Editora: Naturmacht Productions
Data de lançamento: 27 Abril 2018
Género: black metal

“Widerwelt”, tal como todos os grandes álbuns de black metal, é um exercício de atmosfera, crueza e brutalidade. Descrito pela própria banda como um álbum conceptual sobre morte e decadência, “Widerwelt” cria uma vasta planície sonora através das tonalidades dos diferentes instrumentos, da sua mistura e das suas surpreendentes composições. Daemonheim não se limitam a contentar-se com um tremolo picking, uns blastbeats e pequenas progressões melódicas para as suas estruturas musicais. Aqui encontramos várias mudanças melódicas e rítmicas dentro de uma só faixa – temos saltos entre instrumentalização acústica e elétrica e enormes mudanças de tom e emoção, sempre a um ritmo relativamente rápido, mas sem nunca tornarem dada música num simples exercício de composição. Apesar de todas estas mudanças drásticas, frequentes e inesperadas, as músicas nunca perdem a sua atmosfera. É incrível observar Daemonheim a misturar todos estes elementos, saltando de forma tão orgânica entre eles sem nunca perder o foco estético e conceptual do álbum.

Como já foi referido, “Widerwelt” é um álbum sobre a morte e decadência, tentando criar a imagem de um mundo cruel e injusto. Estes temas passam certamente através da sua atmosfera que invoca imagens de florestas antigas e gastas, um ambiente ao mesmo tempo aberto e vasto mas também bastante claustrofóbico. O tom das guitarras e a textura da voz invocam imagens abstractas de um fumo cinzento, um nevoeiro que envolve parte do ambiente, mas que não é dominante. Não enclausura toda a paisagem. Algumas das melodias e interlúdios acústicos passam um feeling folk que traz uma nostalgia pelo passado e pela natureza. “Widerwelt” retrata a morte e decadência mas não se limita a expressar esses temas musicalmente. Para tornar a experiência mais impactante, os Daemonheim dão-nos vários cheirinhos de beleza e melancolia. Não estamos apenas a observar a morte como algo fechado em si mesmo, mas sim como relação entre morto e vivo. Ao termos a nostalgia do que veio antes, a decadência e a consequente morte fazem-se sentir de forma mais forte. Nunca se deve subestimar o poder do contexto.  Mas atenção que quando se diz “belo” não estamos a dizer que a música fica agradável e bonitinha, continua a ser bastante escura mas abraça a beleza da escuridão, cria momentos cinzentos para nos relembrar da luz. Luz esta que é distante. Estes elementos melódicos servem quase como memórias do passado. Apesar de estas memórias se referirem a coisas doces, elas são na verdade amargas, pois aliciam-nos com tempos e locais que nunca mais iremos visitar. As próprias memórias com o tempo irão começar a decompor-se e se calhar até mesmo morrer, deixar de existir. Isto não funciona só tematicamente – tem consequências ressonantes na música, que resultam nas variedades de composição, textura e atmosfera que infectam todo o álbum, resultando numa escuta dinâmica que raramente se torna aborrecida.

Pode ser um bocado nitpicky, mas estava-se à espera que a última faixa (“Utopias Fall”) fosse uma espécie de resumo e catarse épica de todos os momentos e temas abordados, que resultasse num sentido de closure. No entanto sempre que se ouve o álbum parece que chega a um ponto em que simplesmente acaba. Talvez fosse esse o objectivo. Talvez se tenha criado uma falsa expectativa de um grand finale quando não era essa a intenção.

Seja como for, “Widerwelt” é extremamente competente na exploração dos seus temas e sonoridades e é certamente um álbum recomendado para os fãs de black metal atmosférico.

8/10
Topo