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David Pais (Low Torque, One Hundred And Twenty): “Finalmente estou a obter algum reconhecimento pelo meu trabalho.”

Joel Costa

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Se a cena musical nacional fosse um livro, David Pais já teria certamente contribuído com alguns capítulos, ou não encabeçasse ele projectos como The9thCell, Ashes, No Tribe e mais recentemente Low Torque, One Hundred And Twenty ou até o trabalho a solo do guitarrista Tó Pica (R.A.M.P., Anti-Clockwise). Mas estes são apenas alguns exemplos da actividade deste eloquente vocalista e multi-instrumentalista, que não mente quando nos diz que o seu amor verdadeiro é a música.

Nesta entrevista ao Ultraje, David Pais partilha connosco um pouco do frenesim que o ano de 2015 tem sido (e ainda só vamos a meio!), avançando também com alguns pormenores sobre futuras colaborações e sobre o seu aguardado regresso a solo, que sob o nome de The9thCell conta já com um total de sete álbuns de originais na bagagem.

Neste momento há uma boa possibilidade de vir a ficar como vocalista [de Low Torque].

Comecemos por falar de Low Torque. Foste anunciado primeiro como vocalista de serviço nas actuações ao vivo, em substituição do Marco Resende. Como é que se deu a tua entrada neste projecto?

Neste caso, foi através do Arlindo Cardoso, que é o baterista da banda, que me contactou porque na altura o Marco estava com dificuldades a nível de saúde e não iria conseguir estar presente em algumas datas que já tinham sido marcadas para a tour do lançamento do “Croatoan”, e como já estávamos a trabalhar em conjunto para One Hundred And Twenty, o Arlindo perguntou-me se eu estaria interessado em cantar os temas que eles queriam apresentar durante a tour, pelo menos até ao Marco recuperar totalmente.

(Low Torque com David Pais, na festa de lançamento do álbum “Croatoan”. Vídeo de Nuno Vieira)

Há planos para prolongar a tua “estadia” na banda? Já consideraste essa hipótese?

Essa hipótese já foi considerada e neste momento está em cima da mesa, sendo que para já estou comprometido a fazer todas as datas desta tour e alguns concertos que possam advir posteriormente. Mas sim, neste momento há uma boa possibilidade de vir a ficar como vocalista.

Tendo em conta que já emprestaste a voz a um grande número de projectos ao longo dos vários anos que tens de actividade, qual a importância dos Low Torque na tua carreira?

Os Low Torque refrescaram-me um pouco a estaleca do palco e, para ser sincero, foi e continua a ser um excelente desafio a todos os níveis, pois o trabalho vocal do Marco é excelente e difícil de equiparar. Mas são neste momento uma das minhas prioridades não só pelo compromisso a que me propus, como pelo gozo que me está a dar durante as actuações.

Podemos chamar-lhe carreira? É desta forma que tu vês a tua actividade musical?

Sem dúvida! Pouco a pouco, fui firmando a minha presença no universo musical português, e considero todo o trabalho que fiz até hoje como parte da minha carreira, porque o meu único trabalho e amor verdadeiro é a Música. Sempre foi e sempre será até morrer.

(Concerto de estreia dos One Hundred And Twenty)

Há um mês atrás os One Hundred And Twenty fizeram a sua estreia ao vivo. Como foi partilhar o palco com músicos como o Arlindo e o Daniel Cardoso?

Para ser muito sincero, foi extremamente excitante por um lado e absolutamente aterrador por outro. Ambos são músicos de excelência e sinto uma responsabilidade para com o projecto de não falhar em nenhuma circunstância e dar sempre o meu melhor, tanto em palco como em estúdio, mas tê-los em palco comigo foi uma experiência inigualável. Em primeiro lugar, porque ambos são músicos que respeito e admiro pelo talento que transpiram e trabalho que fizeram nas suas carreiras pelos seus projectos e bandas, e depois porque têm um patamar de exigência profissional que me agrada e desafia bastante. De salientar também o trabalho fantástico que o grande Tobel Lopes nos agraciou com as reestruturações das músicas e por ter vindo tocá-las connosco, assim também como o trabalho do Gonçalo Larsen nos dar uma textura mais rockalhada. Confesso que não estava a par do trabalho do Tobel até o Arlindo o convidar para o projecto e depois de começar a conhecer Slamo e Meu Outro Tanto, senti-me parvo por nunca o ter conhecido ou ouvido antes. Ele é uma das mentes mais criativas que conheço e tem uma voz única que o destaca de forma excepcional, e para mim foi um prazer tê-lo em palco connosco.

Apesar de ter sido o primeiro concerto, e pelas imagens que tive oportunidade de ver, percebia-se que havia química entre todos, concordas? A que achas que se deve isso? À experiência acumulada de todos os membros ou é algo mais forte?

Concordo e subscrevo! Este é um daqueles casos raros em que alguém junta as peças de um puzzle e todas encaixam perfeitamente. Mesmo apesar de todos termos tido os nossos percursos e termos adquirido experiência nos mais variados projectos, encontrámos um ponto em comum em One Hundred, e desde o primeiro ensaio que houve uma química brutal entre todos tanto dentro como fora de estúdio, e até ao momento tem sido mesmo muito bom poder trabalhar com eles.

(David Pais com Tó Pica a interpretar o tema “”All Access Denied”)

Como se 2015 já não fosse agitado que chegue para ti, também deixaste a tua marca no álbum a solo do Tó Pica, que também trouxe convidados dos One Hundred and Twenty e Low Torque. Como foi para ti fazer parte deste projecto?

Foi algo que me apanhou totalmente de surpresa! Foi mesmo algo que surgiu assim meio do nada, em que ele me convidou a cantar num tema, e progrediu para mais três e um concerto! Para mim é uma honra poder contribuir para o projecto dele, não só por ser um músico muito completo e com uma alma totalmente rockeira, mas também por ser um bacano fora de série.

Tiveste algum input na letra da “Time Will Change”?

A única coisa que ele disse foi “Faz o que quiseres”. Baseei-me no título que ele tinha dado previamente ao tema e o resto saiu do momento pessoal que estava a passar, que assentou que nem uma luva para a temática desta canção.

Foi algo que te imaginaste a fazer naquelas alturas em que te punhas a ouvir um álbum dos R.A.M.P.?

Na verdade, pensei que nunca fosse possível algo do género acontecer! Houve uma altura em que andei a pesquisar o trabalho dele e conheci Anti Clock-Wise e Sacred Sin, assim como algumas das malhas dele a solo que ele ia publicando. Acreditas se eu te disser que nunca vi um concerto de R.A.M.P.? É uma das minhas bandas preferidas nacionais e nunca tive oportunidade de os ver.

Fotografia de Filipe Cartaxo

Fotografia de Filipe Cartaxo

Sei que ainda estou muito longe de todo o meu potencial, pelo que espero nunca parar e continuar sempre a evoluir com estes e mais projectos que possam aparecer.

O que é que esta actividade recente representa para ti enquanto músico? Sentes que ainda tens muito para oferecer?

Sinto que finalmente estou a obter algum reconhecimento pelo meu trabalho, e isso deixa-me satisfeito e ansioso para continuar! Contudo, sei que ainda estou muito longe de todo o meu potencial, pelo que espero nunca parar e continuar sempre a evoluir com estes e mais projectos que possam aparecer, seja em que vertente for, porque tenho sempre ideias a fervilhar-me na mente que só não coloco em prática por ter de trabalhar num emprego para pôr comida em cima da mesa, o que me tira imenso tempo e paciência para compor e cantar diariamente.

Já tens planos para o que vais fazer durante o resto do ano?

Sim! Isto vai ser recheadinho, senão vejamos: este Verão vou firmar os temas que cantei com o Tó Pica em estúdio para o seu álbum de estreia que se chama “Is That The best You Can Do?”. Conto também continuar e talvez já finalizar o “Karma” de The9thCell, que tem estado parado por negligência minha e lá está, pelo emprego que me ocupa a maior parte do dia. Participei no novo álbum de Mordomo em alguns temas e conto também lançar o EP de estreia em nome de Rei Zero, em que participei com voz e letras em temas de Alexandre Vaz e Francisco Esteves, ambos membros de outra das bandas que mais me agradam a nível nacional, que são os Springshoes. Mais para o final do ano, o álbum de One Hundred And Twenty também já deverá estar finalizado, assim como o álbum de estreia do Eduardo Serraventoso, 3 A.M., onde também canto nalguns temas. Estou também a criar um projecto meio secreto que deverá ver a luz do dia mais lá para o Inverno e conto participar em alguns temas de outros músicos que entretanto me convidaram para cantar, assim como talvez participe no novo álbum de Low Torque… e estou a ver se arranjo um tempo para isso tudo, porque quero cantar o máximo possível! Vou também trabalhar na banda sonora de uma curta-metragem do Pedro Caldeira e há uma surpresa de Ashes para ser lançada em breve. A par de tudo isto, estou a dar os primeiros passos para criar um videojogo que ando há anos para fazer e à partida vou finalmente ter aulas de canto a partir de Setembro, pelo que o meu horário vai ser bem apertadinho para todo este universo musical a que me entreguei.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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