Dead Congregation: Atravessando as Termópilas (entrevista c/ Anastasis Valtsanis) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Dead Congregation: Atravessando as Termópilas (entrevista c/ Anastasis Valtsanis)

rsz_img_1480Dead Congregation @ SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Para mim o death metal não tem a ver com técnica ou velocidade, mas sim com dinâmica, tem que funcionar como um todo.»

«Vais ver o concerto de Dead Congregation amanhã?», pergunta-me Alexander von Meilenwald, mentor dos The Ruins of Beverast, logo após finalizar a entrevista com a banda. «Sim, vou vê-los, vocês também?», pergunto-lhe e a G.ST, ainda nos camarins. «Sim, decidimos ficar mais um dia para os ver actuar, são tão intensos ao vivo…» Isto disse-me tudo em relação às expectativas do concerto da banda grega. Já Tiago Veiga, um dos responsáveis pelo SWR, indicou-me que tinham esgotado todo o merchandise: «Venderam tudo, nem os Venom venderam tanto.» Não é de estranhar – se tivesse que caracterizar a banda, diria que são os verdadeiros sucessores ao trono deixado em aberto há anos pelos Morbid Angel, o que explica o enorme culto de que Anastasis Valtsanis e o seu pujante death metal gozam em terras lusas.

A princípio, Valtsanis parece desconfiado sobre a legitimidade da entrevista, mas quando lhe passo a Ultraje para a mão, arregala os olhos, chama os restantes membros da banda para a verem, folheiam-na e adoptam outra postura. “Sombre Doom”, o seu último registo, é o EP que data de 2016 e, a julgar pela venda de merchandise, a recepção a esse trabalho deve estar a correr bem. «As críticas têm sido mesmo muito boas», inicia o vocalista. «A princípio, o EP apanhou muita gente de surpresa devido à faixa totalmente lenta que incluímos [“Redemptive Immolation”], pois não é costume termos uma faixa lenta do princípio ao fim, mas depois veio a aceitação e tem estado a correr muito bem.»

O inglês falado de Valtsanis vem acompanhado de uma pronúncia grega clássica, por vezes muito forte. Isto é tipicamente vulgar nos povos ao redor do Egeu devido ao seu nacionalismo (não confundir com nacional-socialismo), que centra muito o seu modo de vida na sua própria cultura. Isto traz consequências muito fortes não só à formação de carácter destas gentes como, também, à música que tocam. Assim acontece com os Dead Congregation que, em vez de se focarem nos aspectos mais técnicos e velozes do death metal, preferem atribuir-lhe sentimento, alma, algo que faz falta ao death metal da actualidade. «Sabes, para mim o death metal não tem a ver com técnica ou velocidade, mas sim com dinâmica, tem que funcionar como um todo, como…» (pausa longa). Tenta encontrar a palavra certa em inglês, mas em vão. «Assim como com as partes velozes têm uma finalidade, as partes lentas e atmosféricas também cumprem o seu propósito. Se acharmos que precisamos de uma passagem lenta para extrair sentimento de uma determinada faixa, então será lenta, não temos problema algum em fazê-lo. Quanto ao estado do death metal, tenho uma opinião concomitantemente positiva e negativa. Em primeiro lugar, está saturadíssima, existem demasiadas bandas e editoras. Mas, pontualmente, também se encontram boas surpresas. É uma cena saudável – está sempre a acontecer qualquer coisa; nem sempre é interessante, mas no meio de tanta banda aborrecida, de vez em quando aparece uma ou outra que são interessantes, portanto, é bom.»

Voltando à zona do Egeu, a Grécia deixou um legado inestimável à Humanidade em vários espectros, da democracia à filosofia, passando pela matemática e história. Também no que toca a metal, é uma nação prolífica a lançar alguns dos maiores nomes de culto, como Nightfall, Necromantia (bem como todo o black metal grego, que é muito característico e atípico), Rotting Christ e Septic Flesh. Ainda assim, não faz muito tempo que, muito à imagem de Portugal, a Grécia ainda se encontrava debaixo do jugo inquisitorial do BCE. Dois países que tanto ofereceram ao mundo são, hoje em dia, tratados como lixo (se levarmos as agências de rating à letra). Apercebo-me de que é um assunto frustrante para o vocalista, mas a pergunta sobre o ânimo do povo grego tem que ser feita. «Na verdade, e nesse aspecto, está pior que nunca. Ainda não há sinais de melhoria, pelo contrário, e as pessoas estão pessimistas porque acham que ainda vai piorar. A cada ano que passa, julgamos que é impossível piorar, mas somos surpreendidos pelos desenvolvimentos económicos. Perdemos a fé de que as coisas vão melhorar, pelo menos no futuro próximo.»

rsz_img_1463Dead Congregation @ SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

Porque a agulha hipodérmica já está espetada, tento obter uma opinião sobre a forma de governação como factor causal da precariedade grega. Será o Syriza responsável por tudo o que continua a correr mal na Grécia? Valtsanis começa a ficar desconfortável, talvez por ele pensar que eu tenho alguma agenda política, mas asseguro-lhe que apenas estou a tentar obter a sua opinião pessoal. «O Syriza é uma parte de um problema maior. Todos os políticos e partidos políticos na Grécia são corruptos, não têm uma visão para o bem-estar do país, preocupam-se apenas com o bem-estar dos partidos políticos.» Ou seja, são políticos, mas não estadistas? «Sim, sem ponta de dúvida.»

De volta a assuntos mais higiénicos, percebi que o EP “Sombre Doom” afasta cada vez mais os Dead Congregation do death metal típico e banal, e como um EP costuma ser uma entrada para o prato principal (um álbum, portanto), fiquei na dúvida se o próximo registo seria ainda mais distante do vulgar. O vocalista ri-se, como se estivesse à espera de uma pergunta parecida. «Na verdade, o EP “Sombre Doom” foi gravado na mesma sessão do álbum “Promulgation of the Fall”, mas os dois temas do EP são mais antigos, logo, é normal as pessoas fazerem a pergunta a pensar que será um cheirinho do próximo álbum. Como te disse, temos um interesse enorme pelas dinâmicas e pela fluência de cada álbum, e como nos pareceu que estas faixas não fizessem parte dessa dinâmica no álbum anterior, decidimos excluí-las; se as tivéssemos incluído no álbum, a dinâmica ficaria comprometida. Mas como a faixa mais lenta do EP era tão especial para nós, decidimos lançá-la noutra edição, no EP. Queríamos destacá-la numa edição à parte. Fora isso, sim, nós apenas lançamos álbuns que nos representem enquanto banda, e por isso esforçamo-nos sempre para lançar algo que seja memorável e com alma.»

Com o tempo a acabar, e devido ao burburinho que a banda anda a causar um pouco por todo o mundo, restava saber sobre novo material. «Nós não nos reunimos em datas específicas para criar nova música. No nosso caso, criamos apenas quando estamos inspirados. Há material novo já composto, mas não sabemos se teremos material suficiente para um álbum nos próximos dois anos ou nos próximos dois meses. Certas vezes, temos uma corrente de inspiração enorme e compomos muito trabalho vindo do nada.» Sim, mas há alguma coisa que nos possas dizer sobre o próximo registo, visto que já existe material? «Não, nunca o fazemos; há material, mas ainda é muito cedo para falar nisso. Vai soar a Dead Congregation, com certeza; será obviamente diferente, mas não nos afastaremos assim tanto que não seja perceptível. De facto, esta é a única maneira para fazermos as coisas, pois é um género musical que amamos.» Ao ouvir “Promulgation of the Fall” ou “Sombre Doom”, é fácil de concordar com o vocalista.

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