[Entrevista] Disassembled (c/ Samuel Trindade) – Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Disassembled (c/ Samuel Trindade)

De vez em quando, no mundo da música pesada, cai uma “bomba” que nos apanha desprevenidos. Algumas são antecipadas, mas outras são mesmo genuínas surpresas. Disassembled é um caso desses. Uma banda que, no passado, lançou dois EPs bastante interessantes, após um período de dez anos larga sobre nós uma autêntica bomba de neutrões musical. “Portals To Decimation” faz jus ao seu nome. Cada tema que apresenta é um portal para a nossa dizimação, tal é a qualidade que apresenta. Para sabermos mais sobre esta obra-prima do death metal nacional, e sobre a banda por trás dela, falámos com Samuel Trindade, único elemento restante da formação original.

«Vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal.»

Desde o “N.V.N.”. até a este “Portals to Decimation” já se passaram 18 anos; com o EP “2.0” pelo meio já lá vão dez anos. Sonoramente as coisas mudaram enormemente quanto a estes dois lançamentos anteriores. Porquê não optar por uma nova entidade para a banda/projecto? Porquê manter o nome Disassembled quando a mudança foi tão radical?
Antes de mais, obrigado pelo interesse e por me darem a oportunidade de esclarecer algumas questões que, curiosamente, têm sido feitas ao longo dos anos. Esta é uma grande questão… Porque não acabar com isto e começar fresquinho com outro nome? Cheguei a ponderar isso mesmo, até já tinha arranjado nome e logótipo, mas três factores foram decisivos para manter o nome Disassembled. O primeiro foi a conveniência. Mesmo que a banda não tenha tido grande projecção no passado, eu sei que existem muitos fãs que se lembram de nos ter visto ao vivo, ter ouvido os EPs, etc.. Criar uma banda de raiz obrigaria a começar tudo de novo e, inicialmente, teria de me “colar” ao que fiz em Disassembled como forma de promoção e posicionamento – “Novo projecto do guitarrista de Disassembled”. Ou seja, este nome seguir-me-ia, mesmo que o tentasse “enterrar”. Ninguém conhece o Samuel, mas o nome Disassembled provavelmente viria à memória de alguns. O segundo factor: apesar das diferenças nos primeiros EPs serem de facto substanciais, vejo essas mudanças como uma evolução musical. O EP “2.0” está mais próximo deste álbum do que propriamente do EP anterior, e vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal. Temos muitos exemplos de bandas, como Opeth, que mudaram radicalmente o seu som e continuam a ser os Opeth, para não falar da trabalheira que o Mikael teria de ter para conseguir-se desvincular de Opeth e começar do zero. Esta continuação de identidade faz também sentido numa vertente de enriquecimento de repertório. A banda assim não “morre” com dois míseros EPs, mas parte, sim, um dia para o descanso eterno com um legado mais “composto”. Por outro lado, se Disassembled voltasse ao activo como banda a dar concertos por esse país fora teria que voltar atrás no tempo e tocar temas antigos que muita malta iria certamente gostar de recordar e, para mim, só faria sentido fazê-lo mantendo a mesma identidade. Não gosto de ver a “Troops of Doom” ser tocada por várias bandas de ex-elementos dos Sepultura. Mesmo que tenham o direito intelectual para o fazer, acho que não faz grande sentido. O último factor terá certamente uma origem emotiva – este nome já me acompanha desde os meus 18 anos e não me conseguiria desassociar dele facilmente.

A história da banda é bastante atribulada, com todos os restantes membros a abandonar o barco. Podes-nos fazer um resumo do que se passou?
No fundo, o grande momento de viragem surgiu depois do lançamento do EP “N.V.N.”. Sabíamos que tínhamos um bom EP como cartão-de-visita da banda. Entretanto surge um contacto de uma editora internacional que se interessou pelo que ouviu e isso fez-nos “ter medo” do que poderia vir. As discussões sobre o futuro da banda começaram a surgir. O Luís [Candeias, bateria] estava a começar a descobrir o jazz e facilmente percebeu que o futuro dele passava por aí, para além de que o metal que tocávamos começar a ser desmotivador para a sua mente brilhante. O Nuno [Jesus, baixo] estava no limbo a explorar outras sonoridades e estava a ver para onde o barco iria remar. Eu e o Ricardo [Almeida, voz] começámos nos nossos empregos e sabíamos que não poderíamos andar a tocar quando uma editora quisesse, mas estávamos dispostos a fazer esse esforço. Então começou a gerar-se um clima pesado de diferentes opiniões; chegámos a ensaiar algumas vezes sem nos falarmos, quase a picar ponto. Um dia tivemos uma daquelas conversas difíceis que surgem nestas situações e assumimos que não queríamos editoras ou compromissos sérios e a banda começou a morrer aos poucos…Existe uma analogia fácil de explicar este estado – namoras com uma rapariga durante uns anos, ela quer dar um passo em frente, mas tu dizes-lhe que estás bem assim. Num instante estás divorciado ainda sem ter casado – Se os elementos não remam para o mesmo lado, como é óbvio, vai dar merda… E deu. Mantive o contacto com o Ricardo para continuarmos em duo; apenas queria continuar a exprimir-me musicalmente sem grandes pressões e, passado uns anos, compus com ele mais três musicas que vieram a ser o EP “2.0”. Depois deste, já tinha as ideias do álbum praticamente organizadas, mas o Ricardo não tinha tempo para assumir o compromisso e aí fechou-se um ciclo. Depois disso vejo-me sozinho. Na música alguns ficam sozinhos pelo seu mau feitio, mas não foi o caso.

Após o “2.0”, quando ficaste sozinho na banda, como referes, começaste a preparar este “Portals To Decimation”. No entanto levaste 10 anos a lançar o álbum. Porquê?
Porque os portugueses deixam sempre tudo para a última da hora! [risos] Estou a brincar… Mas, pensando bem, admito que existiu aqui muito desleixo da minha parte. Depois de ter o álbum em versão instrumental, pensei em lançar assim mesmo (devia ter batido com a cabeça nalgum sitio para pensar uma coisa dessas). Como estava sozinho, não devia nada a ninguém e divertia-me a melhorar as músicas: mais um solo, mais uns samples, experimentar novos kits de bateria, etc.. Estava sempre a tentar melhorar o trabalho e pensava sinceramente que nunca o iria lançar, ia sendo a minha brincadeira de fim-de-semana e convivia bem com isso… Certa altura achei que devia começar a pensar seriamente em colocar cá fora todas estas ideias, e um dia, em conversa de jola, perguntei ao Roger se ele me escrevia umas letras, seguindo alguns conceitos que me interessavam, e ficou decidido em 2013 que Disassembled iria lançar o seu primeiro álbum. Lembro-me que contactei o Sérgio (eu ainda não estava em Bleeding Display) e desafiei-o: nem precisava de se preocupar com letras ou colocação vocal, a papinha estava quase toda feita. Ele ouviu e alinhou logo. O Alex surge mais tarde por intermédio do Pedro Pedra, e, depois de me ter comprometido que lhe aumentava o baixo uns DBs acima do que um guitarrista normalmente acharia aceitável, ele aceitou. Os três estarolas estavam prontos para trabalhar juntos. Ou seja, vendo bem, o projecto só arrancou a todo o gás talvez nos últimos 3-4 anos. Só uma nota importante: o facto de ter gravado o álbum na minha casa deu-me liberdade para demorar o tempo que quisesse e isso nem sempre é bom. Num estúdio há compromissos e objectivos para cumprir. Em casa é mais para onde sopra o vento.

Como referiste, neste álbum tiveste a teu lado dois nomes grandes do death metal português: o Alexandre Ribeiro (Grog) no baixo e o Sérgio Afonso (Bleeding Display) na voz. No entanto, a forma como eles participam no álbum é algo diferente do que nos habituaram nas suas outras bandas. Como surgiu a possibilidade de trabalhares com eles e como decorreu o processo de gravação para a sonoridade sair assim diferente?
Como eu tinha decidido programar a bateria por efeitos de conveniência, só faltava mesmo gerir as gravações de voz e baixo e explicar o que queria ouvir da parte deles. Com o Alex foi fácil, pois eu queria potenciar o álbum com uma linha mais progressiva com baixo fretless e esse é o instrumento que ele mais usa, por isso estava mais ou menos alinhavado… Com o Sérgio foi mais difícil a adaptação, o gutural bruto de Bleeding Display não faria qualquer sentido neste álbum e ele próprio reconheceu quando ouviu a maquete pela primeira vez. Então, numa fase de pré-produção, fomos moldando o seu registo até identificarmos qual era o ideal. A forte projecção característica da sua voz está lá, mas com um timbre bem diferente do que nos habituou, e, sinceramente, superou o que eu tinha idealizado para a vocalização do álbum.

«Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê…»

Da tua parte o trabalho de gravação e de criação, principalmente os solos, não foi algo que seguisse a “tradição”, digamos assim. Como chegaste ao resultado final que encontramos no álbum relativamente ao trabalho da guitarra?
A conveniência tecnológica é uma coisa muito bonita, mas pode ser perversa. Num estúdio que utilize sistemas analógicos, como os velhinhos Alesis Adat, tens de gravar tudo de uma vez – até te pode dar uma vontade tremenda de coçar os tomates, mas se o take te está a correr bem tens de mamar com a bucha e gravar a malha toda até ao fim. Hoje em dia já ninguém precisa de passar por esse tormento. Eu sei que tenho solos gravados no álbum que ficaram só depois de umas dezenas de takes. Embora não tenha utilizado “corte e costura”, a verdade é que os solos só ficaram quando eu ouvia a malha no dia seguinte e dava-a como fechada. Se calhar eram pormenores a que ninguém liga, mas para mim bastava ter dado com menos ataque uma palhetada e isso já era o suficiente para voltar ao início. Foi assim também com todos os riffs. No seu todo regravei centenas de vezes só para ficarem como eu achava que estavam bem… Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê… Pancas.

O álbum termina com o instrumental “Revelations”. Pelo que sei teve a participação de um convidado e tem uma história própria. Podes-nos clarificar essa história de como surge este curto mas incrível instrumental?
Depois de fazer o último riff da “Traveller of Deceit”, deixei-me ir no mesmo embalo e continuei a improvisar… A “Traveller” estava fechada, mas eu achei que faria sentido usar aquilo que estava a sair no improviso. Fiquei a pensar naquilo durante uns dias e achei que o álbum acabaria com chave de ouro se conseguisse um diálogo entre guitarra solo e baixo. Como me senti limitado no vocabulário para o fazer, falei novamente com o João Paulo para me safar mais esta. Como ele gosta destes desafios, começou logo a trabalhar nas frases. O Alex também curtiu a ideia e começou a explorar frases como respostas às perguntas do João Paulo. Quando fechei a mistura deste instrumental percebi que estava diante de um grande trabalho de dois génios. Se a tecnologia nalguns casos pode ser perversa, posso partilhar contigo que os elementos que participaram neste álbum nunca se cruzaram na gravação do mesmo. Aqui até deu jeito, já que o João Paulo estava no Funchal e o Alex em Lisboa.

Agora que o álbum finalmente está cá fora, o que se segue? Qual o rumo a tomar pelos Disassembled?
Como tenho partilhado com todos os que me fazem essa pergunta, o meu objectivo principal foi cumprido – gravar um álbum que fique no repertório da banda e que, de alguma forma, deixe a sua marca no metal nacional. Não tenho muito tempo para me dedicar ao formato banda, quanto mais tocar ao vivo. A acontecer teria de ser com elementos que mostrassem uma grande capacidade técnica e que isto fosse para eles “um passeio no parque”, e sabemos que desses não há muitos por aí. No futuro logo se vê, mas para já quero que este álbum chegue o mais longe possível, pois acho que merece ser ouvido.

Olhando para cena nacional, como a vês? Qual o impacto que esperas que este trabalho venha a ter? Modéstia à parte, obviamente.
A cena nacional tem-se demarcado dos velhos tempos em que “soar a português” era algo depreciativo. Cada vez mais vejo bandas a mostrar que isso é coisa do passado. Isso é bastante positivo, embora, por outro lado, acho que ainda faltam de facto bons músicos executantes; e quando digo bons, não são os catalogados como “bons” por amigos só para não fazer a desfeita quando o próprio sabe que nem numa pentatónica atina. O problema geral passa um pouco por aqui, vê-se demasiados pseudo-bons e poucos efectivamente bons e depois isso reflecte-se no panorama geral. Um guitarrista de renome (já não me lembro do nome) uma vez disse numa entrevista: “Não é a comprar boas guitarras ou bons amplificadores que acordamos um dia Steve Vaianos.” Acho que, de um modo geral, falta algum empenho em praticar com qualidade que nem loucos até fazer bolhas nos dedos – eu fiz isso nos meus tempos de jovem folgado e ainda os tenho. [risos] Se houvesse este empenho no instrumento, iríamos assistir certamente a uma melhoria na qualidade do metal nacional… E apenas para não parecer presunçoso, uma pequena análise: a bateria que programei para este álbum não é muito complexa, mas tem alguns elementos de difícil execução real. De todos os bateristas de bandas nacionais que já vi ao vivo (também não conheço muitas), se colocar numa mão cinco nomes de bateristas que a tocassem, se calhar já me estava a esticar. Posso dizer o mesmo do baixo… Muito poucos conseguem atingir o nível técnico do Alex, e ele é só pele e osso… [risos] Mas ressalvo que refiro-me “aos que vi ao vivo”. Certamente haverá muitos, mas eu não os vi ao vivo e os álbuns não são grandes referências, visto que se consegue atingir elevados níveis de “areia para os olhos” em estúdio. Respondendo à segunda parte da pergunta, esta falta de empenho individual de que falo não faz parte do vocabulário dos músicos que trabalharam comigo. Analisando bem, eu sou até musicalmente o mais fraco. Essas características fizeram toda a diferença no produto final – o impacto só o tempo dirá, mas tem tudo para se assumir como um grande álbum para ficar na prateleira ao lado de alguns ilustres! Até os haters estão convidados a ouvir e a opinar.

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