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Entrevistas

[Entrevista] Disassembled (c/ Samuel Trindade)

Pedro Felix

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De vez em quando, no mundo da música pesada, cai uma “bomba” que nos apanha desprevenidos. Algumas são antecipadas, mas outras são mesmo genuínas surpresas. Disassembled é um caso desses. Uma banda que, no passado, lançou dois EPs bastante interessantes, após um período de dez anos larga sobre nós uma autêntica bomba de neutrões musical. “Portals To Decimation” faz jus ao seu nome. Cada tema que apresenta é um portal para a nossa dizimação, tal é a qualidade que apresenta. Para sabermos mais sobre esta obra-prima do death metal nacional, e sobre a banda por trás dela, falámos com Samuel Trindade, único elemento restante da formação original.

«Vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal.»

Desde o “N.V.N.”. até a este “Portals to Decimation” já se passaram 18 anos; com o EP “2.0” pelo meio já lá vão dez anos. Sonoramente as coisas mudaram enormemente quanto a estes dois lançamentos anteriores. Porquê não optar por uma nova entidade para a banda/projecto? Porquê manter o nome Disassembled quando a mudança foi tão radical?
Antes de mais, obrigado pelo interesse e por me darem a oportunidade de esclarecer algumas questões que, curiosamente, têm sido feitas ao longo dos anos. Esta é uma grande questão… Porque não acabar com isto e começar fresquinho com outro nome? Cheguei a ponderar isso mesmo, até já tinha arranjado nome e logótipo, mas três factores foram decisivos para manter o nome Disassembled. O primeiro foi a conveniência. Mesmo que a banda não tenha tido grande projecção no passado, eu sei que existem muitos fãs que se lembram de nos ter visto ao vivo, ter ouvido os EPs, etc.. Criar uma banda de raiz obrigaria a começar tudo de novo e, inicialmente, teria de me “colar” ao que fiz em Disassembled como forma de promoção e posicionamento – “Novo projecto do guitarrista de Disassembled”. Ou seja, este nome seguir-me-ia, mesmo que o tentasse “enterrar”. Ninguém conhece o Samuel, mas o nome Disassembled provavelmente viria à memória de alguns. O segundo factor: apesar das diferenças nos primeiros EPs serem de facto substanciais, vejo essas mudanças como uma evolução musical. O EP “2.0” está mais próximo deste álbum do que propriamente do EP anterior, e vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal. Temos muitos exemplos de bandas, como Opeth, que mudaram radicalmente o seu som e continuam a ser os Opeth, para não falar da trabalheira que o Mikael teria de ter para conseguir-se desvincular de Opeth e começar do zero. Esta continuação de identidade faz também sentido numa vertente de enriquecimento de repertório. A banda assim não “morre” com dois míseros EPs, mas parte, sim, um dia para o descanso eterno com um legado mais “composto”. Por outro lado, se Disassembled voltasse ao activo como banda a dar concertos por esse país fora teria que voltar atrás no tempo e tocar temas antigos que muita malta iria certamente gostar de recordar e, para mim, só faria sentido fazê-lo mantendo a mesma identidade. Não gosto de ver a “Troops of Doom” ser tocada por várias bandas de ex-elementos dos Sepultura. Mesmo que tenham o direito intelectual para o fazer, acho que não faz grande sentido. O último factor terá certamente uma origem emotiva – este nome já me acompanha desde os meus 18 anos e não me conseguiria desassociar dele facilmente.

A história da banda é bastante atribulada, com todos os restantes membros a abandonar o barco. Podes-nos fazer um resumo do que se passou?
No fundo, o grande momento de viragem surgiu depois do lançamento do EP “N.V.N.”. Sabíamos que tínhamos um bom EP como cartão-de-visita da banda. Entretanto surge um contacto de uma editora internacional que se interessou pelo que ouviu e isso fez-nos “ter medo” do que poderia vir. As discussões sobre o futuro da banda começaram a surgir. O Luís [Candeias, bateria] estava a começar a descobrir o jazz e facilmente percebeu que o futuro dele passava por aí, para além de que o metal que tocávamos começar a ser desmotivador para a sua mente brilhante. O Nuno [Jesus, baixo] estava no limbo a explorar outras sonoridades e estava a ver para onde o barco iria remar. Eu e o Ricardo [Almeida, voz] começámos nos nossos empregos e sabíamos que não poderíamos andar a tocar quando uma editora quisesse, mas estávamos dispostos a fazer esse esforço. Então começou a gerar-se um clima pesado de diferentes opiniões; chegámos a ensaiar algumas vezes sem nos falarmos, quase a picar ponto. Um dia tivemos uma daquelas conversas difíceis que surgem nestas situações e assumimos que não queríamos editoras ou compromissos sérios e a banda começou a morrer aos poucos…Existe uma analogia fácil de explicar este estado – namoras com uma rapariga durante uns anos, ela quer dar um passo em frente, mas tu dizes-lhe que estás bem assim. Num instante estás divorciado ainda sem ter casado – Se os elementos não remam para o mesmo lado, como é óbvio, vai dar merda… E deu. Mantive o contacto com o Ricardo para continuarmos em duo; apenas queria continuar a exprimir-me musicalmente sem grandes pressões e, passado uns anos, compus com ele mais três musicas que vieram a ser o EP “2.0”. Depois deste, já tinha as ideias do álbum praticamente organizadas, mas o Ricardo não tinha tempo para assumir o compromisso e aí fechou-se um ciclo. Depois disso vejo-me sozinho. Na música alguns ficam sozinhos pelo seu mau feitio, mas não foi o caso.

Após o “2.0”, quando ficaste sozinho na banda, como referes, começaste a preparar este “Portals To Decimation”. No entanto levaste 10 anos a lançar o álbum. Porquê?
Porque os portugueses deixam sempre tudo para a última da hora! [risos] Estou a brincar… Mas, pensando bem, admito que existiu aqui muito desleixo da minha parte. Depois de ter o álbum em versão instrumental, pensei em lançar assim mesmo (devia ter batido com a cabeça nalgum sitio para pensar uma coisa dessas). Como estava sozinho, não devia nada a ninguém e divertia-me a melhorar as músicas: mais um solo, mais uns samples, experimentar novos kits de bateria, etc.. Estava sempre a tentar melhorar o trabalho e pensava sinceramente que nunca o iria lançar, ia sendo a minha brincadeira de fim-de-semana e convivia bem com isso… Certa altura achei que devia começar a pensar seriamente em colocar cá fora todas estas ideias, e um dia, em conversa de jola, perguntei ao Roger se ele me escrevia umas letras, seguindo alguns conceitos que me interessavam, e ficou decidido em 2013 que Disassembled iria lançar o seu primeiro álbum. Lembro-me que contactei o Sérgio (eu ainda não estava em Bleeding Display) e desafiei-o: nem precisava de se preocupar com letras ou colocação vocal, a papinha estava quase toda feita. Ele ouviu e alinhou logo. O Alex surge mais tarde por intermédio do Pedro Pedra, e, depois de me ter comprometido que lhe aumentava o baixo uns DBs acima do que um guitarrista normalmente acharia aceitável, ele aceitou. Os três estarolas estavam prontos para trabalhar juntos. Ou seja, vendo bem, o projecto só arrancou a todo o gás talvez nos últimos 3-4 anos. Só uma nota importante: o facto de ter gravado o álbum na minha casa deu-me liberdade para demorar o tempo que quisesse e isso nem sempre é bom. Num estúdio há compromissos e objectivos para cumprir. Em casa é mais para onde sopra o vento.

Como referiste, neste álbum tiveste a teu lado dois nomes grandes do death metal português: o Alexandre Ribeiro (Grog) no baixo e o Sérgio Afonso (Bleeding Display) na voz. No entanto, a forma como eles participam no álbum é algo diferente do que nos habituaram nas suas outras bandas. Como surgiu a possibilidade de trabalhares com eles e como decorreu o processo de gravação para a sonoridade sair assim diferente?
Como eu tinha decidido programar a bateria por efeitos de conveniência, só faltava mesmo gerir as gravações de voz e baixo e explicar o que queria ouvir da parte deles. Com o Alex foi fácil, pois eu queria potenciar o álbum com uma linha mais progressiva com baixo fretless e esse é o instrumento que ele mais usa, por isso estava mais ou menos alinhavado… Com o Sérgio foi mais difícil a adaptação, o gutural bruto de Bleeding Display não faria qualquer sentido neste álbum e ele próprio reconheceu quando ouviu a maquete pela primeira vez. Então, numa fase de pré-produção, fomos moldando o seu registo até identificarmos qual era o ideal. A forte projecção característica da sua voz está lá, mas com um timbre bem diferente do que nos habituou, e, sinceramente, superou o que eu tinha idealizado para a vocalização do álbum.

«Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê…»

Da tua parte o trabalho de gravação e de criação, principalmente os solos, não foi algo que seguisse a “tradição”, digamos assim. Como chegaste ao resultado final que encontramos no álbum relativamente ao trabalho da guitarra?
A conveniência tecnológica é uma coisa muito bonita, mas pode ser perversa. Num estúdio que utilize sistemas analógicos, como os velhinhos Alesis Adat, tens de gravar tudo de uma vez – até te pode dar uma vontade tremenda de coçar os tomates, mas se o take te está a correr bem tens de mamar com a bucha e gravar a malha toda até ao fim. Hoje em dia já ninguém precisa de passar por esse tormento. Eu sei que tenho solos gravados no álbum que ficaram só depois de umas dezenas de takes. Embora não tenha utilizado “corte e costura”, a verdade é que os solos só ficaram quando eu ouvia a malha no dia seguinte e dava-a como fechada. Se calhar eram pormenores a que ninguém liga, mas para mim bastava ter dado com menos ataque uma palhetada e isso já era o suficiente para voltar ao início. Foi assim também com todos os riffs. No seu todo regravei centenas de vezes só para ficarem como eu achava que estavam bem… Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê… Pancas.

O álbum termina com o instrumental “Revelations”. Pelo que sei teve a participação de um convidado e tem uma história própria. Podes-nos clarificar essa história de como surge este curto mas incrível instrumental?
Depois de fazer o último riff da “Traveller of Deceit”, deixei-me ir no mesmo embalo e continuei a improvisar… A “Traveller” estava fechada, mas eu achei que faria sentido usar aquilo que estava a sair no improviso. Fiquei a pensar naquilo durante uns dias e achei que o álbum acabaria com chave de ouro se conseguisse um diálogo entre guitarra solo e baixo. Como me senti limitado no vocabulário para o fazer, falei novamente com o João Paulo para me safar mais esta. Como ele gosta destes desafios, começou logo a trabalhar nas frases. O Alex também curtiu a ideia e começou a explorar frases como respostas às perguntas do João Paulo. Quando fechei a mistura deste instrumental percebi que estava diante de um grande trabalho de dois génios. Se a tecnologia nalguns casos pode ser perversa, posso partilhar contigo que os elementos que participaram neste álbum nunca se cruzaram na gravação do mesmo. Aqui até deu jeito, já que o João Paulo estava no Funchal e o Alex em Lisboa.

Agora que o álbum finalmente está cá fora, o que se segue? Qual o rumo a tomar pelos Disassembled?
Como tenho partilhado com todos os que me fazem essa pergunta, o meu objectivo principal foi cumprido – gravar um álbum que fique no repertório da banda e que, de alguma forma, deixe a sua marca no metal nacional. Não tenho muito tempo para me dedicar ao formato banda, quanto mais tocar ao vivo. A acontecer teria de ser com elementos que mostrassem uma grande capacidade técnica e que isto fosse para eles “um passeio no parque”, e sabemos que desses não há muitos por aí. No futuro logo se vê, mas para já quero que este álbum chegue o mais longe possível, pois acho que merece ser ouvido.

Olhando para cena nacional, como a vês? Qual o impacto que esperas que este trabalho venha a ter? Modéstia à parte, obviamente.
A cena nacional tem-se demarcado dos velhos tempos em que “soar a português” era algo depreciativo. Cada vez mais vejo bandas a mostrar que isso é coisa do passado. Isso é bastante positivo, embora, por outro lado, acho que ainda faltam de facto bons músicos executantes; e quando digo bons, não são os catalogados como “bons” por amigos só para não fazer a desfeita quando o próprio sabe que nem numa pentatónica atina. O problema geral passa um pouco por aqui, vê-se demasiados pseudo-bons e poucos efectivamente bons e depois isso reflecte-se no panorama geral. Um guitarrista de renome (já não me lembro do nome) uma vez disse numa entrevista: “Não é a comprar boas guitarras ou bons amplificadores que acordamos um dia Steve Vaianos.” Acho que, de um modo geral, falta algum empenho em praticar com qualidade que nem loucos até fazer bolhas nos dedos – eu fiz isso nos meus tempos de jovem folgado e ainda os tenho. [risos] Se houvesse este empenho no instrumento, iríamos assistir certamente a uma melhoria na qualidade do metal nacional… E apenas para não parecer presunçoso, uma pequena análise: a bateria que programei para este álbum não é muito complexa, mas tem alguns elementos de difícil execução real. De todos os bateristas de bandas nacionais que já vi ao vivo (também não conheço muitas), se colocar numa mão cinco nomes de bateristas que a tocassem, se calhar já me estava a esticar. Posso dizer o mesmo do baixo… Muito poucos conseguem atingir o nível técnico do Alex, e ele é só pele e osso… [risos] Mas ressalvo que refiro-me “aos que vi ao vivo”. Certamente haverá muitos, mas eu não os vi ao vivo e os álbuns não são grandes referências, visto que se consegue atingir elevados níveis de “areia para os olhos” em estúdio. Respondendo à segunda parte da pergunta, esta falta de empenho individual de que falo não faz parte do vocabulário dos músicos que trabalharam comigo. Analisando bem, eu sou até musicalmente o mais fraco. Essas características fizeram toda a diferença no produto final – o impacto só o tempo dirá, mas tem tudo para se assumir como um grande álbum para ficar na prateleira ao lado de alguns ilustres! Até os haters estão convidados a ouvir e a opinar.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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