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Entrevistas

[Entrevista] Disassembled (c/ Samuel Trindade)

Pedro Felix

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De vez em quando, no mundo da música pesada, cai uma “bomba” que nos apanha desprevenidos. Algumas são antecipadas, mas outras são mesmo genuínas surpresas. Disassembled é um caso desses. Uma banda que, no passado, lançou dois EPs bastante interessantes, após um período de dez anos larga sobre nós uma autêntica bomba de neutrões musical. “Portals To Decimation” faz jus ao seu nome. Cada tema que apresenta é um portal para a nossa dizimação, tal é a qualidade que apresenta. Para sabermos mais sobre esta obra-prima do death metal nacional, e sobre a banda por trás dela, falámos com Samuel Trindade, único elemento restante da formação original.

«Vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal.»

Desde o “N.V.N.”. até a este “Portals to Decimation” já se passaram 18 anos; com o EP “2.0” pelo meio já lá vão dez anos. Sonoramente as coisas mudaram enormemente quanto a estes dois lançamentos anteriores. Porquê não optar por uma nova entidade para a banda/projecto? Porquê manter o nome Disassembled quando a mudança foi tão radical?
Antes de mais, obrigado pelo interesse e por me darem a oportunidade de esclarecer algumas questões que, curiosamente, têm sido feitas ao longo dos anos. Esta é uma grande questão… Porque não acabar com isto e começar fresquinho com outro nome? Cheguei a ponderar isso mesmo, até já tinha arranjado nome e logótipo, mas três factores foram decisivos para manter o nome Disassembled. O primeiro foi a conveniência. Mesmo que a banda não tenha tido grande projecção no passado, eu sei que existem muitos fãs que se lembram de nos ter visto ao vivo, ter ouvido os EPs, etc.. Criar uma banda de raiz obrigaria a começar tudo de novo e, inicialmente, teria de me “colar” ao que fiz em Disassembled como forma de promoção e posicionamento – “Novo projecto do guitarrista de Disassembled”. Ou seja, este nome seguir-me-ia, mesmo que o tentasse “enterrar”. Ninguém conhece o Samuel, mas o nome Disassembled provavelmente viria à memória de alguns. O segundo factor: apesar das diferenças nos primeiros EPs serem de facto substanciais, vejo essas mudanças como uma evolução musical. O EP “2.0” está mais próximo deste álbum do que propriamente do EP anterior, e vejo este “Portals to Decimation” mais como um passo evolutivo do que propriamente um álbum de uma banda fresquinha que acabou de sair dos fornos do metal. Temos muitos exemplos de bandas, como Opeth, que mudaram radicalmente o seu som e continuam a ser os Opeth, para não falar da trabalheira que o Mikael teria de ter para conseguir-se desvincular de Opeth e começar do zero. Esta continuação de identidade faz também sentido numa vertente de enriquecimento de repertório. A banda assim não “morre” com dois míseros EPs, mas parte, sim, um dia para o descanso eterno com um legado mais “composto”. Por outro lado, se Disassembled voltasse ao activo como banda a dar concertos por esse país fora teria que voltar atrás no tempo e tocar temas antigos que muita malta iria certamente gostar de recordar e, para mim, só faria sentido fazê-lo mantendo a mesma identidade. Não gosto de ver a “Troops of Doom” ser tocada por várias bandas de ex-elementos dos Sepultura. Mesmo que tenham o direito intelectual para o fazer, acho que não faz grande sentido. O último factor terá certamente uma origem emotiva – este nome já me acompanha desde os meus 18 anos e não me conseguiria desassociar dele facilmente.

A história da banda é bastante atribulada, com todos os restantes membros a abandonar o barco. Podes-nos fazer um resumo do que se passou?
No fundo, o grande momento de viragem surgiu depois do lançamento do EP “N.V.N.”. Sabíamos que tínhamos um bom EP como cartão-de-visita da banda. Entretanto surge um contacto de uma editora internacional que se interessou pelo que ouviu e isso fez-nos “ter medo” do que poderia vir. As discussões sobre o futuro da banda começaram a surgir. O Luís [Candeias, bateria] estava a começar a descobrir o jazz e facilmente percebeu que o futuro dele passava por aí, para além de que o metal que tocávamos começar a ser desmotivador para a sua mente brilhante. O Nuno [Jesus, baixo] estava no limbo a explorar outras sonoridades e estava a ver para onde o barco iria remar. Eu e o Ricardo [Almeida, voz] começámos nos nossos empregos e sabíamos que não poderíamos andar a tocar quando uma editora quisesse, mas estávamos dispostos a fazer esse esforço. Então começou a gerar-se um clima pesado de diferentes opiniões; chegámos a ensaiar algumas vezes sem nos falarmos, quase a picar ponto. Um dia tivemos uma daquelas conversas difíceis que surgem nestas situações e assumimos que não queríamos editoras ou compromissos sérios e a banda começou a morrer aos poucos…Existe uma analogia fácil de explicar este estado – namoras com uma rapariga durante uns anos, ela quer dar um passo em frente, mas tu dizes-lhe que estás bem assim. Num instante estás divorciado ainda sem ter casado – Se os elementos não remam para o mesmo lado, como é óbvio, vai dar merda… E deu. Mantive o contacto com o Ricardo para continuarmos em duo; apenas queria continuar a exprimir-me musicalmente sem grandes pressões e, passado uns anos, compus com ele mais três musicas que vieram a ser o EP “2.0”. Depois deste, já tinha as ideias do álbum praticamente organizadas, mas o Ricardo não tinha tempo para assumir o compromisso e aí fechou-se um ciclo. Depois disso vejo-me sozinho. Na música alguns ficam sozinhos pelo seu mau feitio, mas não foi o caso.

Após o “2.0”, quando ficaste sozinho na banda, como referes, começaste a preparar este “Portals To Decimation”. No entanto levaste 10 anos a lançar o álbum. Porquê?
Porque os portugueses deixam sempre tudo para a última da hora! [risos] Estou a brincar… Mas, pensando bem, admito que existiu aqui muito desleixo da minha parte. Depois de ter o álbum em versão instrumental, pensei em lançar assim mesmo (devia ter batido com a cabeça nalgum sitio para pensar uma coisa dessas). Como estava sozinho, não devia nada a ninguém e divertia-me a melhorar as músicas: mais um solo, mais uns samples, experimentar novos kits de bateria, etc.. Estava sempre a tentar melhorar o trabalho e pensava sinceramente que nunca o iria lançar, ia sendo a minha brincadeira de fim-de-semana e convivia bem com isso… Certa altura achei que devia começar a pensar seriamente em colocar cá fora todas estas ideias, e um dia, em conversa de jola, perguntei ao Roger se ele me escrevia umas letras, seguindo alguns conceitos que me interessavam, e ficou decidido em 2013 que Disassembled iria lançar o seu primeiro álbum. Lembro-me que contactei o Sérgio (eu ainda não estava em Bleeding Display) e desafiei-o: nem precisava de se preocupar com letras ou colocação vocal, a papinha estava quase toda feita. Ele ouviu e alinhou logo. O Alex surge mais tarde por intermédio do Pedro Pedra, e, depois de me ter comprometido que lhe aumentava o baixo uns DBs acima do que um guitarrista normalmente acharia aceitável, ele aceitou. Os três estarolas estavam prontos para trabalhar juntos. Ou seja, vendo bem, o projecto só arrancou a todo o gás talvez nos últimos 3-4 anos. Só uma nota importante: o facto de ter gravado o álbum na minha casa deu-me liberdade para demorar o tempo que quisesse e isso nem sempre é bom. Num estúdio há compromissos e objectivos para cumprir. Em casa é mais para onde sopra o vento.

Como referiste, neste álbum tiveste a teu lado dois nomes grandes do death metal português: o Alexandre Ribeiro (Grog) no baixo e o Sérgio Afonso (Bleeding Display) na voz. No entanto, a forma como eles participam no álbum é algo diferente do que nos habituaram nas suas outras bandas. Como surgiu a possibilidade de trabalhares com eles e como decorreu o processo de gravação para a sonoridade sair assim diferente?
Como eu tinha decidido programar a bateria por efeitos de conveniência, só faltava mesmo gerir as gravações de voz e baixo e explicar o que queria ouvir da parte deles. Com o Alex foi fácil, pois eu queria potenciar o álbum com uma linha mais progressiva com baixo fretless e esse é o instrumento que ele mais usa, por isso estava mais ou menos alinhavado… Com o Sérgio foi mais difícil a adaptação, o gutural bruto de Bleeding Display não faria qualquer sentido neste álbum e ele próprio reconheceu quando ouviu a maquete pela primeira vez. Então, numa fase de pré-produção, fomos moldando o seu registo até identificarmos qual era o ideal. A forte projecção característica da sua voz está lá, mas com um timbre bem diferente do que nos habituou, e, sinceramente, superou o que eu tinha idealizado para a vocalização do álbum.

«Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê…»

Da tua parte o trabalho de gravação e de criação, principalmente os solos, não foi algo que seguisse a “tradição”, digamos assim. Como chegaste ao resultado final que encontramos no álbum relativamente ao trabalho da guitarra?
A conveniência tecnológica é uma coisa muito bonita, mas pode ser perversa. Num estúdio que utilize sistemas analógicos, como os velhinhos Alesis Adat, tens de gravar tudo de uma vez – até te pode dar uma vontade tremenda de coçar os tomates, mas se o take te está a correr bem tens de mamar com a bucha e gravar a malha toda até ao fim. Hoje em dia já ninguém precisa de passar por esse tormento. Eu sei que tenho solos gravados no álbum que ficaram só depois de umas dezenas de takes. Embora não tenha utilizado “corte e costura”, a verdade é que os solos só ficaram quando eu ouvia a malha no dia seguinte e dava-a como fechada. Se calhar eram pormenores a que ninguém liga, mas para mim bastava ter dado com menos ataque uma palhetada e isso já era o suficiente para voltar ao início. Foi assim também com todos os riffs. No seu todo regravei centenas de vezes só para ficarem como eu achava que estavam bem… Às vezes o primeiro take é o melhor e andamos a perder tempo à procura não sei bem do quê… Pancas.

O álbum termina com o instrumental “Revelations”. Pelo que sei teve a participação de um convidado e tem uma história própria. Podes-nos clarificar essa história de como surge este curto mas incrível instrumental?
Depois de fazer o último riff da “Traveller of Deceit”, deixei-me ir no mesmo embalo e continuei a improvisar… A “Traveller” estava fechada, mas eu achei que faria sentido usar aquilo que estava a sair no improviso. Fiquei a pensar naquilo durante uns dias e achei que o álbum acabaria com chave de ouro se conseguisse um diálogo entre guitarra solo e baixo. Como me senti limitado no vocabulário para o fazer, falei novamente com o João Paulo para me safar mais esta. Como ele gosta destes desafios, começou logo a trabalhar nas frases. O Alex também curtiu a ideia e começou a explorar frases como respostas às perguntas do João Paulo. Quando fechei a mistura deste instrumental percebi que estava diante de um grande trabalho de dois génios. Se a tecnologia nalguns casos pode ser perversa, posso partilhar contigo que os elementos que participaram neste álbum nunca se cruzaram na gravação do mesmo. Aqui até deu jeito, já que o João Paulo estava no Funchal e o Alex em Lisboa.

Agora que o álbum finalmente está cá fora, o que se segue? Qual o rumo a tomar pelos Disassembled?
Como tenho partilhado com todos os que me fazem essa pergunta, o meu objectivo principal foi cumprido – gravar um álbum que fique no repertório da banda e que, de alguma forma, deixe a sua marca no metal nacional. Não tenho muito tempo para me dedicar ao formato banda, quanto mais tocar ao vivo. A acontecer teria de ser com elementos que mostrassem uma grande capacidade técnica e que isto fosse para eles “um passeio no parque”, e sabemos que desses não há muitos por aí. No futuro logo se vê, mas para já quero que este álbum chegue o mais longe possível, pois acho que merece ser ouvido.

Olhando para cena nacional, como a vês? Qual o impacto que esperas que este trabalho venha a ter? Modéstia à parte, obviamente.
A cena nacional tem-se demarcado dos velhos tempos em que “soar a português” era algo depreciativo. Cada vez mais vejo bandas a mostrar que isso é coisa do passado. Isso é bastante positivo, embora, por outro lado, acho que ainda faltam de facto bons músicos executantes; e quando digo bons, não são os catalogados como “bons” por amigos só para não fazer a desfeita quando o próprio sabe que nem numa pentatónica atina. O problema geral passa um pouco por aqui, vê-se demasiados pseudo-bons e poucos efectivamente bons e depois isso reflecte-se no panorama geral. Um guitarrista de renome (já não me lembro do nome) uma vez disse numa entrevista: “Não é a comprar boas guitarras ou bons amplificadores que acordamos um dia Steve Vaianos.” Acho que, de um modo geral, falta algum empenho em praticar com qualidade que nem loucos até fazer bolhas nos dedos – eu fiz isso nos meus tempos de jovem folgado e ainda os tenho. [risos] Se houvesse este empenho no instrumento, iríamos assistir certamente a uma melhoria na qualidade do metal nacional… E apenas para não parecer presunçoso, uma pequena análise: a bateria que programei para este álbum não é muito complexa, mas tem alguns elementos de difícil execução real. De todos os bateristas de bandas nacionais que já vi ao vivo (também não conheço muitas), se colocar numa mão cinco nomes de bateristas que a tocassem, se calhar já me estava a esticar. Posso dizer o mesmo do baixo… Muito poucos conseguem atingir o nível técnico do Alex, e ele é só pele e osso… [risos] Mas ressalvo que refiro-me “aos que vi ao vivo”. Certamente haverá muitos, mas eu não os vi ao vivo e os álbuns não são grandes referências, visto que se consegue atingir elevados níveis de “areia para os olhos” em estúdio. Respondendo à segunda parte da pergunta, esta falta de empenho individual de que falo não faz parte do vocabulário dos músicos que trabalharam comigo. Analisando bem, eu sou até musicalmente o mais fraco. Essas características fizeram toda a diferença no produto final – o impacto só o tempo dirá, mas tem tudo para se assumir como um grande álbum para ficar na prateleira ao lado de alguns ilustres! Até os haters estão convidados a ouvir e a opinar.

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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