Divine Era: groove californiano (entrevista c/ Daisuke Wachi) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Divine Era: groove californiano (entrevista c/ Daisuke Wachi)

Daisuke Wachi, Divine Era e groove metal são um só. Bem longe de Portugal, na Califórnia (EUA), o músico tem obtido o seu highlight com o mais recente álbum “Scripture Codes Summon Suicidal Thoughts”, que não é apenas mais um disco de groove metal – é perceptível a paixão que Daisuke implementa na sua arte, sendo essencialmente sobre ela que nos fala na entrevista que se segue.

«A cena heavy metal em Los Angeles está definitivamente viva.»

Sabemos que adoras solos, por isso é normal se pensarmos que essa é a tua parte favorita quando estás a compor uma música. No entanto, também sentimos que dás muito de ti nas outras partes, já que temos um óptimo estilo de riffing por todo o álbum. Quão detalhado és quando se trata de escrever um novo tema?
Divine Era é um projecto de groove metal de apenas um homem. Componho tudo. Geralmente os riffs surgem primeiro, depois a bateria. Enquanto a bateria e as guitarras se unem, decifro quais são as partes em que o baixo não deverá tocar em uníssono com a guitarra de modo a tornar as músicas mais interessantes. Uma vez que os instrumentos estão completos, concentro-me no conteúdo lírico. Uma vez mais, como no baixo, começo a descobrir quais são as partes vocais em que quero gritar e quais são as que quero cantar quando a música está em produção.
Graças à tecnologia actual, gravo as minhas ideias no computador e ouço logo de volta. Normalmente componho guitarra, baixo e voz nota a nota, mas quando estou preso, improviso e vejo o que sai naturalmente. Se gostar de algo que venha desse improviso, então reconstruo a música a partir dessa nova ideia.
Componho a bateria nota a nota sem o usar quaisquer grooves predefinidos ou fills.
O detalhe final com a bateria é a manipulação do tempo. Uma das razões pelas quais o heavy metal actual soa tão mecânico e computadorizado é que normalmente não há variações de tempo dentro de cada música.
Passo muito tempo a fazer mapas de tempos complicados para que as músicas fluam da maneira que eu quero. Não é muito perceptível, porque são subtis e suaves. Acredito fortemente que essa atenção aos detalhes faz uma enorme diferença no resultado das músicas.

O som de Divine Era tem uma sensação e vibe muito características no lado do groove do metal, mas também há um pouco de thrash aqui, nu-metal acolá… Como é que manténs as coisas diversificadas dentro de um género principal? Quão importante é adicionar camadas diferentes à base do género?
O foco principal de Divine Era é sempre o groove, mas devem haver dinâmicas dentro de cada música para que ela seja completa. Não passa necessariamente por lançar apenas um arpeggio de guitarra ou uma linha vocal limpa para dar textura, mas a adição de uma secção mais rápida a meio de uma música baseada em groove, por exemplo, incrementa o suficiente sem ser demais.
Quando tenho ideias sólidas para quatro ou cinco músicas, tento equilibrar o álbum. «Tenho este tipo de música e também tenho este estilo de música. Agora, que tipo de música preciso a seguir? Mais melódico? Brutal? Mais lento ou mais rápido?» Equilibro cada álbum desta maneira.

A faixa “The Sound of Words” é apresentada no OST do videojogo “Tony Hawk’s Proving Ground”. És um tipo do skate? Como é ter a tua própria música num franchise destes?
Não sou um tipo do skate. No entanto, ter uma música de Divine Era num videojogo de milhões de unidades vendidas como o “Tony Hawk’s Proving Ground” é uma grande conquista. Isto já aconteceu há algum tempo, mas ainda tenho muito orgulho disso.
Quando estava a gravar o primeiro trabalho, “The Sound of Words” [EP de 2007], o estúdio estava localizado numa casa onde viviam muitas pessoas. Um dos tipos que lá morava na altura trabalhava para a Activision. Ele ouviu a minha música e perguntou se eu gostaria de ter uma das minhas num videojogo da Activision. Respondi imediatamente com um enfático “Hell yeah! Isso seria incrível!”. Foi assim que consegui ter essa música no “Tony Hawk’s Proving Ground”.

Duas das tuas influências são Dimebag Darrell e Zakk Wylde. Muita gente defende que se os Pantera se reunissem, Zakk Wylde deveria ser o guitarrista. Também concordas com isso?
Concordo a 100%. Em primeiro, o Dimebag Darrell e o Zakk Wylde eram bons amigos. Em segundo, quem quer que tocasse guitarra nessa reunião tinha de ser um ícone do heavy metal. Não se trata apenas de quão perfeitamente alguém consegue imitar o que o Dimebag Darrell fez. Tenho certeza de que, se vasculharmos pelo YouTube, vamos encontrar alguém que consegue copiar o estilo dele, mas não se trata apenas disso. Teria que ser uma personagem carismática. É por tudo isso combinado que eu também digo Zakk.

Los Angeles e toda a Califórnia sempre foram uma região muito produtiva em relação à música. Por exemplo, relembremos a cena punk com Bad Religion ou a cena metal com o Big 4. Como é hoje? Quão cultural é a Califórnia em relação ao underground?
Tenho tocado localmente em Los Angeles. Existem tantas bandas. Metal toca a qualquer momento nesta cidade em tudo o que é dive-bars, clubes e recintos maiores graças a grandes promotores como Church of the 8th Day, ADHD Entertainment, Metal Assault, entre outros. Organizam concertos de metal de todos os tamanhos e dão a um tipo como eu uma oportunidade de tocar. Agradeço imensamente a todos eles.
Deixa-me apresentar algumas das bandas com as quais toquei e gostei.
Delphian é uma banda moderna de death metal da velha-guarda. Os berros e riffs desta banda são intocáveis. Infelizmente, eles ainda não lançaram um álbum, mas será lançado ainda em 2018. Recomendo vivamente que os procurem.
Voices of Ruin é uma banda de death metal melódico. Toquei com eles recentemente. Dão um grande concerto. Nessa noite cheguei a casa, ouvi o álbum deles e fiquei muito impressionado.
Zombie Eating Horse… Acho que posso dizer que é de groove metal. Toquei com eles e adorei o set deles.
Grand Lord High Master tem um estilo muito interessante, que é difícil de categorizar. Também toquei com eles. Thrash, punk, progressivo – tudo dentro de um estilo de composição. São muito porreiros!
A cena heavy metal em Los Angeles está definitivamente viva.

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