Earth Electric: mediar o futuro (entrevista c/ Rune Eriksen) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Earth Electric: mediar o futuro (entrevista c/ Rune Eriksen)

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Já foi conhecido como Blasphemer, o guitarrista e compositor de Mayhem. Em 2005 fundou os Ava Inferi com a companheira Carmen Simões e começou a ser tratado simplesmente por Rune Eriksen. Abateu o projecto sem dó nem piedade em 2013 para, quatro anos depois, ressurgir com estes Earth Electric e o álbum de estreia “Vol. 1: Solar”. Na entrevista que se segue não se investiu muito no passado (à parte da infância e da Noruega invernosa), mas sim no presente e no futuro – e Earth Electric, para além de muitas coisas encontradas nas próximas linhas, é mesmo isso: o futuro.

«Estou literalmente impressionado e orgulhoso por toda a gente ter encontrado o seu lugar rapidamente.»

A forma como abateste Ava Inferi foi pesada e terrível. Será que Earth Electric te está a dar stamina renovada e momentos prazerosos enquanto compões?
Sim. É uma forma diferente de pensar e trabalhar, por isso permite-me explorar algo mais multifacetado, se é que me entendes. É algo mais encorajador e vívido sobre como as coisas se juntam nesta banda, tanto musical como liricamente. Foi esse o objectivo da banda desde o início, avançar com um tipo de vibração diferente e focarmo-nos principalmente em temas positivos. Quero dizer, eu tenho um longo historial de revistar “caves e cemitérios”, portanto poder expressar algo que afecte o meu humor de uma forma mais harmoniosa é algo que estimo muito mais do que nunca.

A certa altura falei do som da banda com colegas da Ultraje e disse que Earth Electric é pesado, rock, metal e algo psicadélico, não conseguindo usar apenas uma palavra. Tendo em conta estes pensamentos vindos de um fã, gostarias que as pessoas tivessem uma perspectiva ampla sobre o que é Earth Electric?
Embora veja o teu ponto de vista claramente e de certa forma aceitável, gostaria de citar Ozzy [Osbourne] quando lhe perguntaram como define “metal” e a música de Black Sabbath em específico – ele respondeu: “É apenas rock pesado, não é?” Concordo plenamente com ele, não devia ser mais complicado do que isso. Claro que há certas facetas – como também sugeres –, sejam elas canções lentas ou com um toque mais psicadélico, mas no fundo e quando todos os adjectivos são ignorados, é apenas rock, na minha humilde opinião. Fruto diferente da mesma semente, da mesma árvore. Por acaso, enquanto respondo a esta entrevista estou a ouvir um álbum de Nazareth chamado “Hair Of The Dog”, um álbum brilhante, e há uma música chamada “Please Don’t Judas Me”. Arrebate-me vezes sem conta o quão negra e “sombria” é esta canção, mais do que qualquer banda doom que tenha ouvido ultimamente, mas Nazareth não é mais do que uma banda rock. É tudo facetas diferentes dentro do rock n’ roll, assim o vejo. O mesmo podia ser comparar-se a “Zero The Hero”, dos Black Sabbath, com a “Paranoid” ou a “Never Say Die”… E a lista continua. Claro que para alguns isso é parte do negócio (e concordo totalmente com isso) ou por uma questão de discussão, mas para mim, enquanto artista, é supérfluo. A melhor coisa da música é não usar-se demasiadas palavras ou descrições, apenas desfrutar e seguir o que te leva. Apenas assim a música pode cumprir o seu potencial, na minha opinião. Respondendo mais directamente à tua pergunta: sim, penso que ter uma mente-aberta e uma perspectiva ampla é importante. É mais fácil ser-se receptivo às nuances que enriquecem a música nesse sentido.

Não diria que Earth Electric é prog, mas há secções de teclas que me relembram Camel e algo do rock dos anos 70. Sabias desde o princípio que um crossover destes iria funcionar?
Sim, há definitivamente um toque e uma sugestão dessas bandas antigas, sejam vibrações de Camel ou, como outros comentam, de Pink Floyd. Bem, para ser honesto, este estilo que fizemos emergir na nossa estreia é o resultado de vários factores, à parte da ideia de se estabelecer uma banda hardrock. Algumas das canções têm já vários anos e outras foram compostas um mês antes de entrarmos em estúdio, resultando numa contribuição ampla, embora venha da mesma fonte. Estabelecemo-nos como banda literalmente 4-5 meses antes das gravações, por isso foi uma corrida para fazermos as coisas com propósito. Tenho de admitir que estou literalmente impressionado e orgulhoso por toda a gente ter encontrado o seu lugar rapidamente. Grandes músicos e está tudo a desenrolar-se, sinto que há um grande potencial a viver nesta banda. Outra razão para o que chamas crossover poderão ser as diversas contribuições, não apenas do meu passado musical mas do esforço colectivo combinado. Somos todos enraizados em diferentes tonalidades de música e o resultado de tudo é esta banda, penso eu. Embora seja maioritariamente trabalho meu até agora, espero que isto prenda a força de todos no segundo álbum. Também tenho que elogiar o Dan Knight por dedicar muito do seu tempo a esta banda. Ele apareceu na consequência de eu conhecer de perto o nosso produtor, o Jaime Gomez Arellano. É um bom amigo, portanto quando mencionei o facto de nos faltar um teclista, ele andou por aí a perguntar e o Dan surgiu. Ficou tudo nos trinques. De qualquer forma, o Dan trouxe muita da sua vibração dos 70s com ele, creio eu. A escolha das teclas e dos padrões trouxe algo um pouco diferente, positivamente falando, ao álbum daquilo que eu esperava, mesmo que eu e a Carmen estivéssemos activos em criar passagens para as teclas. Quanto à música e influências que sangram para aquilo que faço, vivo e respiro diariamente o hardrock dos 60s e 70s, e algumas bandas estão comigo desde que comecei a descobrir música. É tudo um potpourri, diverso mas com 110% de amor por isso.

«A “The Great Vast”, é uma das [canções] contemplativas, e as letras lidam com como a humanidade polui e destrói o nosso planeta.»

A promoção utiliza palavras como energético e extrovertido, mas também consigo encontrar passagens mais negras – faixas como “The Great Vast” e “Set Sail” são bons exemplos duma veia doomy. Continua a haver um lado obscuro a explorar, não é?
Sabes, por mais que ataque as coisas musicalmente, parece que há sempre um lado algo técnico e introvertido nisso. É mais um aspecto de “pensamento” do que fluidez livre e pura emoção, se assim quiseres. A canção que mencionas, a “The Great Vast”, é uma das contemplativas, e as letras lidam com como a humanidade polui e destrói o nosso planeta. E com esta canção, o objectivo está nos oceanos. “Like a drop of rain, fall into thy depths, no grave for the uncoffined ones”, é assim o refrão. Este tópico é das coisas que mais ocupa Earth Electric, entre outros, ou devo dizer tópicos “green living and spiritual awakening”. De certa forma pareceu certo representar esta canção assim, um pouco mais melancólica e maldisposta. Até uso acordes menores no refrão para torná-la mais dramática.

O álbum até pode parecer simples se ouvido levemente, mas há muitas camadas nas guitarras e nos teclados. De um ponto de vista artístico, como é possível criar música musculada com uma atitude complexa enquanto se torna tudo numa fácil audição?
Obrigado. Bem, para começar, a ideia era criar uma abordagem mais simples. Estou farto de estar preso aos rótulos “avant-garde” e não sei quê. Desculpa-me, mas já aí estive, já o fiz. Portanto, foi claro desde o início, tipo “ei, vamos aparar isto ao mínimo e rockar” e assim fizemos. Continua a haver algumas partes técnicas aqui e ali, mas nada de mais. Sinto que quando o segundo álbum chegar vamos provavelmente aparar ainda mais, já que neste ponto da minha carreira, e especialmente com esta banda, quero é rockar. Um pouco como Twisted Sister, estás a ver? Falando a sério, isto é algo que tem crescido em mim, mais valorização por coisas simples. Acho que é uma coisa da idade, pelo menos para alguns de nós. Mas também é tipo um “círculo completo”, pois lembro-me claramente das estrelas rock dos Mountain antes de ir à descoberta de cenas mais pesadas. Contudo, quando em estúdio, as possibilidades são quase infinitas quanto àquilo que as camadas podem ser. Às vezes não resisto, outras vezes deixo passar. E sabes, por vezes muita informação passa despercebida. Por acaso, quando gravámos as guitarras havia um foco de se fazer as coisas num take e manter isso ao mínimo. Para se ter uma condução natural nas canções. Assim sendo, até os solos são improvisados no momento. Criando à medida que se segue. Isto também é parcialmente traduzido na bateria; no entanto, todos temos as nossas maneiras diferentes de trabalhar as coisas. Algumas coisas precisam de um sentido de atenção e precisão. Bem, todas as coisas precisam a vários níveis.

«Acho engraçado que o meu álbum mais negro (“Ordo A Chao” [de Mayhem]) e o mais optimista (“Vol. 1: Solar” [de Earth Electric]) tenham sido ambos escritos em Portugal.»

Será que Portugal te deu uma forma diferente de criar música ou regiões e climas não têm impacto em ti?
Creio que o clima tem um certo impacto na minha escrita… Por vezes conscientemente, mas talvez mais ao nível do subconsciente. Sempre me senti mais confortável em países mediterrânicos, com muito sol e calor em oposição à Noruega invernosa. Mesmo assim, não é fácil diminuir isso porque sou influenciado nesse ponto, naturalmente. Era diferente na minha infância. Quero dizer, o clima tem-se transformado drasticamente nos últimos 35 anos, tendo eu grandes memórias do frio a sério e dos invernos nevosos a sério. Quando estás literalmente no meio da neve e estão cerca de 25 graus negativos lá fora… Meu! Esse é o inverno que ainda aprecio, pois a sua magia absoluta cria algo jubiloso em mim. Contudo, a chuva branda e lamacenta que tem acontecido nos invernos noruegueses nos últimos 20 anos não é a minha cena. Mas pronto, estou a divagar. Acho engraçado que o meu álbum mais negro (“Ordo A Chao” [de Mayhem]) e o mais optimista (“Vol. 1: Solar” [de Earth Electric]) tenham sido ambos escritos em Portugal. Mesmo separados por 8-9 anos, isto leva-me a dizer que o clima “espiritual” é o que finalmente determina o resultado. Por isso, a minha resposta definitiva deveria ser “sim e não”.

Tendo em conta a quantidade de bandas que já fizeste parte, para a posteridade gostarias de ser visto como alguém de mente-aberta e que quebrou barreiras?
Nem sei o que responder. Por certo não quero ter quaisquer barreiras na minha música. Não acho que qualquer artista consciente queira isso; quero dizer, pelo bem da arte e da auto-expressão. Creio que, no fundo, só quero ser respeitado pelo meu trabalho e pela música que tenho partilhado com o mundo, estás a ver? Basicamente, como quero ser visto versus como tenho sido visto são duas coisas diferentes que raramente se juntam. [risos] Conclua-se que estou feliz e humilde quanto à minha posição na cena musical neste momento. Têm sido décadas de dedicação e infinita quantidade de trabalho, e não se pára. O ano de 2018 vai ser forte, e só podemos olhar para a frente.

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