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Enblood “Cast to Exile” [Nota: 9/10]

João Correia

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Editora: Miasma Records / Vomit Your Shirt
Data de lançamento: 15 Junho 2018
Género: death metal

Oriundos de Almada, os Enblood são uma jovem banda de death metal. À primeira impressão parece a descrição de mais uma banda qualquer, mas, como em quase tudo na vida, as primeiras impressões geralmente enganam. Felizmente, este é apenas mais um desses casos. Presenciámos um concerto dos Enblood pela primeira vez no Moita Metal Fest em 2017. Abriram o segundo dia do certame perante meia-dúzia de pessoas e denotaram uma certa imaturidade em palco – afinal, formaram-se em 2015 e outra coisa não seria de esperar de um grupo de miúdos. Executaram um set que nos remeteu directamente para o death metal sueco do final dos anos 90 / princípio dos 2000. A  juntar a isso, o contacto ainda muito mecanizado de César Moreira (vocalista) com o público e a quase inércia em palco do colectivo confirmou a ideia de verdinhos. Depois, o som que tiveram não ajudou a formar uma ideia melhor. “Nada de novo” – pensou-se na altura.

Chegado o Butchery at Christmas Time do mesmo ano, tivemos a oportunidade de os ver nas mesmas condições: abriram o cartaz do segundo dia, mas desta vez com um som muito pior do que na Moita, do princípio ao fim. No entanto, ao observar o trabalho de Nuno Cruz (baixista), ficámos na dúvida se seriam os mesmos Enblood, tal era a complexidade do trabalho que o homem malhava nas quatro cordas. Assim, ficámos curiosos em ouvir algo com mais qualidade sonora da parte dos Enblood, algo com qualidade de estúdio.

Chegados a meados de 2018, os Enblood lançam “Cast to Exile” e arriscam-se a ter em mãos o álbum nacional do ano. Trata-se de um disco de death metal técnico moderno, acima de competente e que nos vai mostrando que o que é nacional é mesmo bom. “Pantheon of Solitude”, a intro (e o trabalho mais fraco de todo o registo) dá seguimento a “ Cast to Exile”, tema-título e uma malha de quatro minutos com a qual os Enblood eclipsam qualquer dúvida sobre o que pretendem e que conseguem com facilidade. Nela, notam-se as influências mais do que óbvias de Obscura com direito a um solo de baixo (fretless, claro!) feito à medida por ninguém menos do que Linus Klausenitzer, o homem por detrás do baixo nos Obscura e nos Alkaloid. No entanto, o convite feito a Linus não se tratou de uma jogada de prestígio para captarem atenções – tecnicamente, os Enblood não precisam disso, como nos apercebemos nos restantes temas.

“Earth Raised Creation”, “Awaken From The Depths” e “Under Werewolves’ Skies”, por exemplo, apresentam-nos o robusto trabalho de Daniel Torgal (bateria) – diversificado e preciso. Por seu lado, “Oblivious Hate”, “Strayed Path In Dementia” e “Earth Raised Creation” evidenciam os dotes de Nuno Cruz e (principalmente) de João Miguel (guitarras), sendo que este último cria solos dignos de nota com uma facilidade impressionante: seja nos dois temas anteriores, seja em “Leaviathan”, “Abyssal Consolation of Souls” ou em “Black Morning” (em que Nuno e João Miguel brincam de mãos dadas), é fácil de perceber que o guitarrista irá longe. Já César Moreira faz um trabalho bastante competente e espesso como vocalista e guitarrista ritmo ao longo de todo o trabalho, conseguindo com isso que os restantes elementos encontrem o Norte devido à coordenação exemplar com que os guia.

Contas feitas, “Cast to Exile” é a grande surpresa nacional de 2018 até à data. É um disco invulgar composto por gente invulgarmente nova e sem grande pegada no movimento nacional. Assim como quando os vimos há um ano, nota-se ainda uma certa inocência e inexperiência, o que em parte eleva ainda mais o resultado final – um disco ousado com rasgos de génio composto por quatro miúdos que, com tempo e estrada, têm tudo o que é preciso para nos fazer voltar a ter orgulho de Portugal no departamento da música extrema de qualidade. A produção, a cargo de Miguel Tereso, é o quinto elemento dos Enblood, tal é a perfeição apresentada, sem espinhas e que volta a confirmá-lo como o melhor produtor nacional no que toca ao metal. Agora queremos vê-los ao vivo com a qualidade de som que merecem para ver como se portam. Pelo andar da carruagem, rapidamente estarão envolvidos em vôos mais altos. Levam 8,5 pelo trabalho geral, mas mais 0,5 pela surpresa de terem aparecido de basicamente nenhures com “Cast to Exile”. A edição a cargo da recém-criada Miasma Records e da já repetente Vomit Your Shirt não é de estranhar e é bem atempada, assim como bem-vinda. A ouvir e a repetir. E a repetir novamente.

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Dust Bolt “Trapped in Chaos”

Diogo Ferreira

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Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 18 Janeiro 2019
Género: thrash metal

Novos que se inspiram nos velhos, teutónicos que querem soar a americanos. É assim que, frugalmente, podemos classificar os Dust Bolt, mas há, como é óbvio, mais para além disso. Com pouco mais de 10 anos de carreira, estes alemães chegam ao quarto álbum com o estatuto de banda que toca velho mas soa novo. “Trapped in Chaos” é a prova cabal de tal posição na cena thrash metal europeia com temas estipulados em velocidade alucinante que fazem flirt com heavy metal, um solo que faz lembrar muito brevemente Buckethead em “Shed My Skin”, segmentos com groove tenso que pode soar a Pantera para alguns em “Rhythm To My Madness”, uma power-ballad com lembranças de “Fade To Black” em “Another Day In Hell”, bateria dinâmica que faz os címbalos andarem numa fona e variados jogos de voz que operam a condução de alguns temas entre o limpo aberto e o berro também ele aberto.

Por mais que possa parecer hostil – muito à custa das malhas esgalhadas, pois assim é o thrash metal -, “Trapped in Chaos” é até um álbum com uma toada sónica positiva e melodicamente transbordante, com especial foco nos refrãos, e ganchos que se te engatam o lábio levam-te de rastos. Tudo isto, mais a premissa do retro versus moderno, e temos aquilo a que o thrash metal deve ou pode soar mesmo à porta dos anos 20 do Séc. XXI.

Nota Final

 

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OOMPH! “Ritual”

Diogo Ferreira

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Editora: Napalm Records
Data de lançamento: 18 Janeiro 2019
Género: metal / industrial / EBM

Hoje em dia podemos mencionar Rammstein a toda a hora e momento quando se fala em metal com lances industriais proveniente da Alemanha; no entanto há um pormenor que não podemos esquecer: sem Die Krupps e OOMPH! é muito provável que uma banda como Rammstein nunca tivesse sido formada.

Fundados em 1989, e com formação original intacta, o trio prepara o seu trigésimo aniversário com o 13º álbum, que é apontado pela própria banda como o mais agressivo, pesado e negro em alguns anos. Trinta anos volvidos, os OOMPH! ajudaram, praticamente sem querer, à criação do movimento Neue Deutsche Härte e já eram crossover antes de tal termo existir ao unirem metal e elementos sonoros dançáveis. Aplaudidos tanto no espectro metal como no gótico ou EBM, estes veteranos apresentam 11 novas composições com aquele poder catchy que só este tipo de bandas consegue fornecer e do qual os contemporâneos Lord Of The Lost muito bebem (o vocalista Chris Harms participa até na faixa “Europa”). Para além desse poder orelhudo, é óbvio que as guitarras densas e groovadas ajudam à festa, ainda que a cereja no topo do bolo seja muitas vezes os arranjos electrónicos e orquestrais que pintam um álbum moderno feito por homens muito experimentados na indústria musical.

Nota Final

 

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Venom “Storm the Gates”

João Correia

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Editora: Spinefarm Records
Data de lançamento: 14 Dezembro 2018
Género: black/thrash metal

É redutor (e até massacrante) referir a importância dos Venom no universo do metal extremo com tudo o que isso aparca: o início selvagem, as alterações de som, a saída dos membros fundadores, o drama envolvido nas disputas entre Venom e Venom Inc., etc.. Afinal, o que importa é sempre a música. Felizmente, estes Venom conseguem trazer-nos um disco de heavy metal da velha-guarda que ultrapassa todos os feudos possíveis, mesmo que de forma limitada.

“Storm The Gates” é o 15.º álbum de estúdio do nome Venom, e quando brilha (o pouco que brilha) é por culpa de Rage e Danté. Se estes dois integrantes pouco ou nada tinham para apresentar devido a passagens anteriores em bandas perfeitamente desconhecidas, é a eles que se deve a vitalidade que encontramos no novo disco, principalmente a Rage. A faixa de abertura “Bring Out Your Dead” revela-nos o que os Venom sempre tiveram como garantido – uma produção bastante agressiva, um som afiado que nem facas e uma secção de percussão simples, mas eficaz. Quanto à voz, mantém-se igual a tantos outros discos de Venom dos velhos tempos, mas quando percebemos as letras, quase que dá para chorar, se não vejamos esta infelicidade extraída de “Dark Night Of The Soul” e saída da pena de Cronos:

“Hey, you motherfucker
What you lookin’ at?
What a fucking loser
Acting like a twat!”

Felizmente, Rage apresenta-nos riffs e estruturas memoráveis, daquelas que entram e não saem e que rapidamente nos fazem esquecer a apatia e ausência de espírito de Cronos – quer no riff inicial de “Bring Out Your Dead”, quer na estrutura viciante de “Notorious”, é fácil de perceber que o pilar principal é o guitarrista. O trabalho de baixo é relativamente inexistente, como se o vocalista/baixista estivesse a cumprir calendário porque a isso é obrigado. O trabalho de bateria é competente, mas muito distante de fantástico. Outra vez – obrigado por salvares o disco, Rage.

As faixas vão-se sucedendo a um ritmo agradável e não causam aborrecimento a qualquer género de fã de metal, até porque se trata de um trabalho tradicional. O motivo para ‘espanto’ surge quando Rage debita um delicioso solo Maidenesco em “100 Miles To Hell”, uma das faixas em que Cronos mais se destaca, mesmo que sem brilhar. “Destroyer” evidencia um pouco mais Danté ao comando das baquetas, mas sem grande emoção. Entretanto, Rage congemina novamente um bom solo caótico, voltando a salvar o dia. “The Mighty Have Fallen” apresenta a passagem mais violenta/rápida de todo o disco, convencendo com a sua cadência e… (drum roll) não um, não dois, mas três majestosos solos de Rage a lembrarem Slayer antigo – vale a pena repetir a faixa apenas para os ouvir de novo. Na seguinte e também bastante rápida “Over My Dead Body” ocorre a simbiose entre Rage e Danté, criando um novo organismo que começa a parecer-se com uma banda clássica. Cronos balbucia qualquer coisa irrelevante e repete a palavra “Propaganda” demasiadas vezes, fazendo lembrar um animal encurralado que, por força das circunstâncias, tem de atacar em vez de se defender, mesmo que de forma atabalhoada e que por isso lhe poderá custar a vida, um tudo-ou-nada por assim dizer. Mesmo nas faixas finais “Suffering Dictates”, “We The Loud”, “Immortal” e a derradeira “Storm The Gate” vingam graças ao homem das seis cordas, que devia receber mais royalties deste disco do que qualquer outro dos seus músicos.

Assim é “Storm The Gates”: um trabalho acima de previsível, mas abaixo de cativante, e no qual o guitarrista de serviço faz a festa, lança os foguetes e apanha as canas, evidenciando-se e destacando-se do marasmo ou desinteresse de Cronos e da falta de culpa de Danté, o que evita que uma banda lendária se torne vítima de si própria. É fácil repetir a audição do disco; não se trata de um colossal tiro no pé, mas está muito aquém das expectativas que um disco de Venom costuma trazer. Outra vez: sem Rage ao comando, os Venom que ouvimos em “Storm The Gates” seria uma embarcação errática, desnorteada e pouco importada em chegar a terra firme.

Nota Final

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