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[Entrevista] Persona: As máscaras que (nunca) caem

Diogo Ferreira

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Simpáticos e alegres desde o primeiro momento em que e-mails foram trocados, decidimos premiar os tunisinos Persona com uma entrevista ímpar. Dar voz a bandas menos conhecidas e oriundas de regiões menos inclinadas à música metal é dar voz a todo um movimento de melómanos que vive para a música sem, muitas vezes, se ter algo de volta. As linhas seguintes demonstram o que os Persona sentem ao conseguirem lançar um disco e abrem o livro sobre o que gostariam de viver no futuro. Contactar com culturas diferentes é conhecer outras realidades e a Primavera Árabe foi também motivo de assunto.

«Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho.»

O álbum “Elusive Reflections” já está cá fora! Quão felizes estão? Era este um dos sonhos que perseguiam?
Yosri: Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho. Claro que não vamos parar de melhorar e dar o nosso melhor, isto ainda nos motiva mais para trabalhar num futuro álbum. Isto pode ajudar a atingir um dos meus sonhos mais queridos como guitarrista: partir em digressão com a minha banda, conhecer fãs de sítios que eu [de outra forma] não conseguiria ir. Persona é mais do que uma banda: é uma experiência maravilhosa!

Soa a cliché, mas será que o nome Persona tem a ver com as ‘máscaras’ que as pessoas usam? Lembrei-me logo do filme de Ingmar Bergman com o mesmo título…
Jelena: Não é directamente inspirado no filme de Bergman, mas mais em algo que terá inspirado o próprio filme: o conceito psicológico do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Representa a personalidade que alguém mostra em público em oposição ao interior da pessoa. De acordo com Jung, ‘persona’ é tipo a ‘máscara’ que alguém usa no quotidiano para ajudar a interagir com outras pessoas e esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos. Escolhemos esse nome porque é o que experienciamos quando compomos e quando subimos ao palco: cada canção tem de ter a sua identidade particular e, assim, temos de seguir com diferentes emoções e estados de alma que, por vezes, não representam o que realmente se sente nesse momento particular.

Apesar da direcção rock e metal nas vossas canções, o tema “Forgotten” tem inicialmente um pitada de cultura arábica. Quão importante é manter as raízes e implementá-las na vossa sonoridade?
Melik: É interessante a quantidade de diferentes pessoas que ouvem influências arábicas em canções totalmente distintas. A verdade é que nenhum desses elementos foram usados nas nossas músicas para soarem ‘arábicos’ ou ‘orientais’ propositadamente. Pessoalmente até acho que nem há muito ‘toque arábico’ na nossa música, mas fico contente por as pessoas detectarem isso de várias maneiras. Manter as raízes musicais não é importante para nós, porque vemos a música como algo universal, e as coisas que nos inspiram não têm necessariamente de vir do país onde nascemos.

«Vemos a música como algo universal.»

Se não estou em erro, a Jelena tem origens na Sérvia. Como é que uma rapariga sérvia acaba numa banda tunisina?
Jelena: Primeiro vim para a Tunísia e depois acabei numa banda tunisina, e não ao contrário. [risos] Mudei-me para cá em Setembro de 2011, um ano depois de ter conhecido o Melik. Como e porquê, podemos deixar para outra altura. [risos]

Das fotografias que tenho visto, parece-me realmente agradável quando tocam ao vivo. O que sentem? Como é que as pessoas respondem a este tipo de música na Tunísia?
Walid: Com fotografias memorizamos os nossos melhores momentos em palco. É um sentimento muito bom quando tocamos ao vivo, especialmente quando tocamos as nossas canções originais para tão devota audiência que está pronta a seguir-nos para todo o lado.

Sempre que enviam merchandise para o estrangeiro é um pedaço de amizade e reconhecimento que estão a enviar, não?
Jelena: Claro que sim! Uma das coisas mais bonitas nesta jornada tem sido a oportunidade de conhecer muitas pessoas maravilhosas! De momento estamos limitados à amizade virtual com a maioria, mas mesmo que seja apenas através de e-mails e mensagens, as pessoas conseguem transmitir uma quantidade incrível de carinho e apoio. Isso motiva-nos imensamente.

«Nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim.»

A Primavera Árabe rebentou na Tunísia e foi um bonito movimento de massas, mas infelizmente não trouxe coisas boas a alguns países à volta. Como estão a viver esta nova era? O surgimento de bandas como os Persona é um lado positivo disso tudo?
Nesrine: Não há dúvidas de que a Primavera Árabe não trouxe coisas boas à maioria dos países à volta, nem mesmo para a própria Tunísia. Por outras palavras, a situação deste país até piorou devido à insegurança e devido à desordem política… Mas nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim. Pode dizer-se que estamos a lidar bem com as circunstâncias apesar das pobres condições, e penso que o nosso tão esperado álbum é um passo muito encorajador para nós e para o resto das bandas africanas/árabes e aposto que também para os africanos e árabes em geral. Temos que aguentar e continuar o trabalho tão arduamente quanto o possível para atingir os objectivos e tornar os sonhos realidade sem importar a situação do ambiente.

Por exemplo, os nossos companheiros Confess, do Irão, encaram pesadas penalidades por tocarem metal. Queres partilhar algumas palavras sobre isso?
Melik: É triste que no ano de 2016 as pessoas continuem a ser presas e executadas por causa da música que criam. Nenhum artista devia ser ameaçado pelo sistema legal por causa da sua arte. Têm o nosso apoio absoluto.

Para encerrar esta conversa, deixem uma palavra final aos nossos leitores portugueses e deixem um desejo para o futuro.
Persona: Gostaríamos de agradecer por terem lido esta entrevista! Espero que ouçam o nosso álbum e que gostem dele. Adorávamos ver-vos, um dia, num concerto nosso em Portugal!

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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