[Entrevista] Persona: As máscaras que (nunca) caem | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Persona: As máscaras que (nunca) caem

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Simpáticos e alegres desde o primeiro momento em que e-mails foram trocados, decidimos premiar os tunisinos Persona com uma entrevista ímpar. Dar voz a bandas menos conhecidas e oriundas de regiões menos inclinadas à música metal é dar voz a todo um movimento de melómanos que vive para a música sem, muitas vezes, se ter algo de volta. As linhas seguintes demonstram o que os Persona sentem ao conseguirem lançar um disco e abrem o livro sobre o que gostariam de viver no futuro. Contactar com culturas diferentes é conhecer outras realidades e a Primavera Árabe foi também motivo de assunto.

«Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho.»

O álbum “Elusive Reflections” já está cá fora! Quão felizes estão? Era este um dos sonhos que perseguiam?
Yosri: Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho. Claro que não vamos parar de melhorar e dar o nosso melhor, isto ainda nos motiva mais para trabalhar num futuro álbum. Isto pode ajudar a atingir um dos meus sonhos mais queridos como guitarrista: partir em digressão com a minha banda, conhecer fãs de sítios que eu [de outra forma] não conseguiria ir. Persona é mais do que uma banda: é uma experiência maravilhosa!

Soa a cliché, mas será que o nome Persona tem a ver com as ‘máscaras’ que as pessoas usam? Lembrei-me logo do filme de Ingmar Bergman com o mesmo título…
Jelena: Não é directamente inspirado no filme de Bergman, mas mais em algo que terá inspirado o próprio filme: o conceito psicológico do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Representa a personalidade que alguém mostra em público em oposição ao interior da pessoa. De acordo com Jung, ‘persona’ é tipo a ‘máscara’ que alguém usa no quotidiano para ajudar a interagir com outras pessoas e esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos. Escolhemos esse nome porque é o que experienciamos quando compomos e quando subimos ao palco: cada canção tem de ter a sua identidade particular e, assim, temos de seguir com diferentes emoções e estados de alma que, por vezes, não representam o que realmente se sente nesse momento particular.

Apesar da direcção rock e metal nas vossas canções, o tema “Forgotten” tem inicialmente um pitada de cultura arábica. Quão importante é manter as raízes e implementá-las na vossa sonoridade?
Melik: É interessante a quantidade de diferentes pessoas que ouvem influências arábicas em canções totalmente distintas. A verdade é que nenhum desses elementos foram usados nas nossas músicas para soarem ‘arábicos’ ou ‘orientais’ propositadamente. Pessoalmente até acho que nem há muito ‘toque arábico’ na nossa música, mas fico contente por as pessoas detectarem isso de várias maneiras. Manter as raízes musicais não é importante para nós, porque vemos a música como algo universal, e as coisas que nos inspiram não têm necessariamente de vir do país onde nascemos.

«Vemos a música como algo universal.»

Se não estou em erro, a Jelena tem origens na Sérvia. Como é que uma rapariga sérvia acaba numa banda tunisina?
Jelena: Primeiro vim para a Tunísia e depois acabei numa banda tunisina, e não ao contrário. [risos] Mudei-me para cá em Setembro de 2011, um ano depois de ter conhecido o Melik. Como e porquê, podemos deixar para outra altura. [risos]

Das fotografias que tenho visto, parece-me realmente agradável quando tocam ao vivo. O que sentem? Como é que as pessoas respondem a este tipo de música na Tunísia?
Walid: Com fotografias memorizamos os nossos melhores momentos em palco. É um sentimento muito bom quando tocamos ao vivo, especialmente quando tocamos as nossas canções originais para tão devota audiência que está pronta a seguir-nos para todo o lado.

Sempre que enviam merchandise para o estrangeiro é um pedaço de amizade e reconhecimento que estão a enviar, não?
Jelena: Claro que sim! Uma das coisas mais bonitas nesta jornada tem sido a oportunidade de conhecer muitas pessoas maravilhosas! De momento estamos limitados à amizade virtual com a maioria, mas mesmo que seja apenas através de e-mails e mensagens, as pessoas conseguem transmitir uma quantidade incrível de carinho e apoio. Isso motiva-nos imensamente.

«Nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim.»

A Primavera Árabe rebentou na Tunísia e foi um bonito movimento de massas, mas infelizmente não trouxe coisas boas a alguns países à volta. Como estão a viver esta nova era? O surgimento de bandas como os Persona é um lado positivo disso tudo?
Nesrine: Não há dúvidas de que a Primavera Árabe não trouxe coisas boas à maioria dos países à volta, nem mesmo para a própria Tunísia. Por outras palavras, a situação deste país até piorou devido à insegurança e devido à desordem política… Mas nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim. Pode dizer-se que estamos a lidar bem com as circunstâncias apesar das pobres condições, e penso que o nosso tão esperado álbum é um passo muito encorajador para nós e para o resto das bandas africanas/árabes e aposto que também para os africanos e árabes em geral. Temos que aguentar e continuar o trabalho tão arduamente quanto o possível para atingir os objectivos e tornar os sonhos realidade sem importar a situação do ambiente.

Por exemplo, os nossos companheiros Confess, do Irão, encaram pesadas penalidades por tocarem metal. Queres partilhar algumas palavras sobre isso?
Melik: É triste que no ano de 2016 as pessoas continuem a ser presas e executadas por causa da música que criam. Nenhum artista devia ser ameaçado pelo sistema legal por causa da sua arte. Têm o nosso apoio absoluto.

Para encerrar esta conversa, deixem uma palavra final aos nossos leitores portugueses e deixem um desejo para o futuro.
Persona: Gostaríamos de agradecer por terem lido esta entrevista! Espero que ouçam o nosso álbum e que gostem dele. Adorávamos ver-vos, um dia, num concerto nosso em Portugal!

 

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