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[Entrevista] Persona: As máscaras que (nunca) caem

Diogo Ferreira

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Simpáticos e alegres desde o primeiro momento em que e-mails foram trocados, decidimos premiar os tunisinos Persona com uma entrevista ímpar. Dar voz a bandas menos conhecidas e oriundas de regiões menos inclinadas à música metal é dar voz a todo um movimento de melómanos que vive para a música sem, muitas vezes, se ter algo de volta. As linhas seguintes demonstram o que os Persona sentem ao conseguirem lançar um disco e abrem o livro sobre o que gostariam de viver no futuro. Contactar com culturas diferentes é conhecer outras realidades e a Primavera Árabe foi também motivo de assunto.

«Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho.»

O álbum “Elusive Reflections” já está cá fora! Quão felizes estão? Era este um dos sonhos que perseguiam?
Yosri: Estamos muito entusiasmados com o tão esperado lançamento de “Elusive Reflections”. Este álbum é o resultado de vários anos de dedicação e trabalho. Claro que não vamos parar de melhorar e dar o nosso melhor, isto ainda nos motiva mais para trabalhar num futuro álbum. Isto pode ajudar a atingir um dos meus sonhos mais queridos como guitarrista: partir em digressão com a minha banda, conhecer fãs de sítios que eu [de outra forma] não conseguiria ir. Persona é mais do que uma banda: é uma experiência maravilhosa!

Soa a cliché, mas será que o nome Persona tem a ver com as ‘máscaras’ que as pessoas usam? Lembrei-me logo do filme de Ingmar Bergman com o mesmo título…
Jelena: Não é directamente inspirado no filme de Bergman, mas mais em algo que terá inspirado o próprio filme: o conceito psicológico do psiquiatra suíço Carl Gustav Jung. Representa a personalidade que alguém mostra em público em oposição ao interior da pessoa. De acordo com Jung, ‘persona’ é tipo a ‘máscara’ que alguém usa no quotidiano para ajudar a interagir com outras pessoas e esconder os verdadeiros pensamentos e sentimentos. Escolhemos esse nome porque é o que experienciamos quando compomos e quando subimos ao palco: cada canção tem de ter a sua identidade particular e, assim, temos de seguir com diferentes emoções e estados de alma que, por vezes, não representam o que realmente se sente nesse momento particular.

Apesar da direcção rock e metal nas vossas canções, o tema “Forgotten” tem inicialmente um pitada de cultura arábica. Quão importante é manter as raízes e implementá-las na vossa sonoridade?
Melik: É interessante a quantidade de diferentes pessoas que ouvem influências arábicas em canções totalmente distintas. A verdade é que nenhum desses elementos foram usados nas nossas músicas para soarem ‘arábicos’ ou ‘orientais’ propositadamente. Pessoalmente até acho que nem há muito ‘toque arábico’ na nossa música, mas fico contente por as pessoas detectarem isso de várias maneiras. Manter as raízes musicais não é importante para nós, porque vemos a música como algo universal, e as coisas que nos inspiram não têm necessariamente de vir do país onde nascemos.

«Vemos a música como algo universal.»

Se não estou em erro, a Jelena tem origens na Sérvia. Como é que uma rapariga sérvia acaba numa banda tunisina?
Jelena: Primeiro vim para a Tunísia e depois acabei numa banda tunisina, e não ao contrário. [risos] Mudei-me para cá em Setembro de 2011, um ano depois de ter conhecido o Melik. Como e porquê, podemos deixar para outra altura. [risos]

Das fotografias que tenho visto, parece-me realmente agradável quando tocam ao vivo. O que sentem? Como é que as pessoas respondem a este tipo de música na Tunísia?
Walid: Com fotografias memorizamos os nossos melhores momentos em palco. É um sentimento muito bom quando tocamos ao vivo, especialmente quando tocamos as nossas canções originais para tão devota audiência que está pronta a seguir-nos para todo o lado.

Sempre que enviam merchandise para o estrangeiro é um pedaço de amizade e reconhecimento que estão a enviar, não?
Jelena: Claro que sim! Uma das coisas mais bonitas nesta jornada tem sido a oportunidade de conhecer muitas pessoas maravilhosas! De momento estamos limitados à amizade virtual com a maioria, mas mesmo que seja apenas através de e-mails e mensagens, as pessoas conseguem transmitir uma quantidade incrível de carinho e apoio. Isso motiva-nos imensamente.

«Nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim.»

A Primavera Árabe rebentou na Tunísia e foi um bonito movimento de massas, mas infelizmente não trouxe coisas boas a alguns países à volta. Como estão a viver esta nova era? O surgimento de bandas como os Persona é um lado positivo disso tudo?
Nesrine: Não há dúvidas de que a Primavera Árabe não trouxe coisas boas à maioria dos países à volta, nem mesmo para a própria Tunísia. Por outras palavras, a situação deste país até piorou devido à insegurança e devido à desordem política… Mas nós, tunisinos, somos conhecidos por sermos optimistas; não desistimos facilmente dos nossos sonhos e vamos atrás dos nossos objectivos até ao fim. Pode dizer-se que estamos a lidar bem com as circunstâncias apesar das pobres condições, e penso que o nosso tão esperado álbum é um passo muito encorajador para nós e para o resto das bandas africanas/árabes e aposto que também para os africanos e árabes em geral. Temos que aguentar e continuar o trabalho tão arduamente quanto o possível para atingir os objectivos e tornar os sonhos realidade sem importar a situação do ambiente.

Por exemplo, os nossos companheiros Confess, do Irão, encaram pesadas penalidades por tocarem metal. Queres partilhar algumas palavras sobre isso?
Melik: É triste que no ano de 2016 as pessoas continuem a ser presas e executadas por causa da música que criam. Nenhum artista devia ser ameaçado pelo sistema legal por causa da sua arte. Têm o nosso apoio absoluto.

Para encerrar esta conversa, deixem uma palavra final aos nossos leitores portugueses e deixem um desejo para o futuro.
Persona: Gostaríamos de agradecer por terem lido esta entrevista! Espero que ouçam o nosso álbum e que gostem dele. Adorávamos ver-vos, um dia, num concerto nosso em Portugal!

 

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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