[Entrevista] Revolution Within: give it revolution! – Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Revolution Within: give it revolution!

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«Enquanto formos assim [humildes], andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma.»

É importante valorizar o que temos para podermos perceber o que não temos. Ao longo das décadas, o movimento português de heavy metal tem evoluído a um ritmo bastante rápido, tendo em conta o nosso atraso em relação ao exterior devido a 50 anos de uma ditadura que nos sufocou artística e intelectualmente. Se nos anos 80 a emancipação da música pesada em Portugal começou com passos tímidos e pequenos, depois de 1993 houve uma mudança de paradigma que a fez crescer desenfreadamente, uma adolescência que incorporou tudo o que um adolescente experimenta nos seus anos de ouro: muitos excessos, muita criatividade e a certeza absoluta de que a dominação global é apenas o começo. Mas foi depois dos 2000 que a cena começou a aquecer – com a maturidade veio maior qualidade e até quantidade e, chegados ao final da segunda década dos 2000, seria desonesto dizer que a cena estagnou ou que ficou desinteressante.

De facto, bandas como os feirenses Revolution Within provam que, quando há vontade comum e gosto no que se faz, portas que antes estavam fechadas se começam a abrir espontaneamente dentro e fora de fronteiras. Doze anos passados sobre a sua formação, o trabalho do colectivo já deu frutos no Wacken Open Air e a sua recente digressão espanhola, cujo ponto máximo foi o Resurrection Fest, na Galiza, é prova cabal de que insistir e persistir são os dois ingredientes fundamentais para vingar. Rui “Raça” Alves, vocalista, mostra-se um pouco incrédulo quando diz que «quando formámos a banda, nunca pensámos que ainda estaríamos no activo ao fim de 12 anos, quanto mais tocar nos sítios onde tocámos. O Resurrection acaba por ser mais um dos degraus que conseguimos subir e, agora, estamos a tocar no Vagos Metal Fest e também já tocámos no Vagos Open Air, mais dois obstáculos ultrapassados».

Matador, guitarrista, prefere o termo «patamares, em vez de obstáculos», não por questões de semântica, antes por positivismo. «Temos sonhos, e este foi mais um que concretizámos», continua Raça. «O Resurrection correu bem. Tivemos o azar de tocar no terceiro dia e muito cedo, acabámos por não ter tanto público quanto gostaríamos, mas a nossa atitude mantém-se inalterada ao fim de 12 anos: damos sempre o nosso melhor. O público presente gostou do nosso som e houve bastante energia; é uma palavra que nos define. Tivemos ainda o azar das três alterações de palco que ocorreram, mas correu bem e estivemos presentes com o intuito de provar que podíamos fazer um bom trabalho e abrir portas para nós e para motivar outras bandas nacionais a fazê-lo.»

DSC_0120(Raça, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Houve bandeiras nacionais desfraldadas e umas centenas de pessoas presentes no concerto dos Revolution Within no Resurrection Fest. Tendo em conta que, ao terceiro dia, o cansaço já é visível em toda a gente, Adriano, guitarrista, indica que «foi um orgulho tremendo ter encontrado tanto público português amigo; não estávamos a contar com a moldura humana que compareceu, principalmente no dia e à hora a que tocámos». Matador acrescenta que «seja por uma hora, seja por meia hora, se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo». «A nossa postura é idêntica tanto para cinco como para 5000 pessoas», retoma Matador. «Certa vez, no Hard Bar, em Bustos, tocámos para 10 ou 12 pessoas e acabámos por oferecer as entradas à casa, não faria sentido cobrar; esse concerto parecia um grupo de amigos a curtir.» Raça finaliza, indicando que «algo que também é muito importante para a banda é a nossa atitude e humildade genuína, sem artifícios. Enquanto formos assim, andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma».

Nada se consegue de um dia para o outro e, no caso dos Revolution Within, 12 anos após a sua fundação é que começam a surgir os louvores. “Annihilation”, o último álbum da banda, recebeu críticas positivas lineares na imprensa nacional e internacional especializada. É habitual que as bandas mais rodadas sejam obcecadas pela perfeição, mas, por vezes, nem tudo corre como esperado e, no médio-longo termo, algumas gostariam de pode voltar atrás e alterar um ou outro detalhe. Não foi o caso dos Revolution Within com “Annihilation” … ou foi? Matador e Raça não hesitam e dizem que não, e Raça ainda acrescenta que «quando acabamos de gravar um disco, podíamos chegar à semana seguinte e dizer que isto ou aquilo poderia ter sido feito de outra forma, como um solo de guitarra, ou que poderíamos ter acrescentado aqui ou ali um berro, mas o disco está gravado e não vale a pena pensar nisso». Adriano tem outra visão e refere que «espetava mais uma música no disco, uma malha que iríamos tocar a 235 bpm. [risos] Geralmente andamos por volta das 210, 215 bpm, e aquela música era mesmo super-híper-mega-rápida, era super thrash metal».

«Se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo.»

É compreensível que Adriano pense assim – afinal de contas, “Annihilation” é o álbum mais agressivo da carreira da banda, com o thrash de base a ser misturado com toques de death metal. Isto parece indicar que a banda está ciente de que uma das formas clássicas de não estagnar o som é inovar e experimentar. «Toda a gente sabe que Revolution Within é thrash metal de raiz», começa Matador. «O “Collision” [primeiro álbum] tinha um pouco de heavy à mistura; já o segundo álbum [“Straight From Within”] tem uma costela mais hardcore, ao passo que o mais recente abraça o death metal. Não é propositado, é uma questão de gosto.» Adriano frisa que «durante o acto de composição, se percebermos que o som está pesado como o queremos, então é assim que será. Não importa se é death, ou grind ou black – desde que sintamos que fica bem, avançamos. Prova disso é o nosso novo videoclip: é uma malha cheia de groove, foge um pouco da linha habitual dos Revolution Within».

Matador vai mais além e explica que o próximo álbum «será sempre um disco com o carimbo de Revolution: não vamos fazer um álbum de jazz ou algo nessa linha. Vamos continuar a ser o que somos, mas não podemos assentar sempre no mesmo género de composição, vamos sempre apresentar algo de diferente nos nossos registos». Raça finaliza de forma pragmática: «Uma coisa eu posso afirmar ao fim de 12 anos: os tempos mudam; tivemos mudanças de elementos, mas compomos de forma descomprometida sem que as músicas pareçam sempre iguais. O próximo álbum será Revolution, com a mesma essência, ainda que com partes que fazem a diferença. É um pau de dois bicos: se fazes uma coisa diferente, depois passas a vendido, não é fácil.»

Talvez seja por isso que, recentemente, Pedro Vindeirinho, dono da Rastilho (editora dos Revolution Within), ficou surpreendido quando recebeu um pedido de encomenda de CD dos Revolution Within… do Japão. Quem se move no meio sabe o insólito que isso representa em diversas frentes: o reconhecimento no exterior, a questão de ser um país muito exótico e com um mercado extremamente elitista. «Acompanhei esse processo de venda», diz Raça visivelmente tocado pelo reconhecimento. «Surgiram contactos de duas ou três lojas japonesas e, embora fique extremamente dispendioso enviar discos para o Japão, o Pedro fê-lo. Os quinze ou vinte discos que ele enviou esgotaram no primeiro dia. No dia seguinte, voltaram a realizar outro pedido e, quando o Pedro deu por ela, já tinha vendido 160 discos. Foi brutal para nós e digo isto com muito orgulho: a Rastilho tem mais bandas e lembro-me de dizer ao Pedro para enviar mais CD de bandas portuguesas, mesmo que as lojas não quisessem, pois assim ajudávamo-nos uns aos outros. O Pedro assim fez e voltou a receber mais uma encomenda de discos de Revolution Within. Já quando eu estava nos Gates of Hell, a banda vendeu para o Japão. O Vindeirinho já dizia que os japoneses não ligavam às bandas, mas que compravam se tivessem o Raça nelas. [risos] Para nós, é importante o feedback e que a editora venda discos, pois ela não vive da boa-vontade das pessoas – se apostou em nós, interessa-lhe obter retorno e eu noto que a venda de discos está uma miséria. Vai ser cada vez pior. Do segundo, já conseguimos vender mil discos. Do terceiro, já atingimos cerca de quinhentas vendas. Não é mau, em Portugal, mas perdem-se várias coisas com a morte dos discos, apalpar o produto, cheirá-lo …»

DSC_0176(Adriano, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Adriano reconhece que se trata não de uma evolução, mas de uma «regressão natural». «Olha para Tarântula: antigamente, não tocavam tanto e, ainda assim, vendiam muito mais discos. Hoje, a oferta é surreal, é impossível filtrar tudo, tens de te focar naquilo que gostas. Depois, vais à Net e encontras álbuns completos em streaming, sacas o álbum inteiro e depois reparte-lo em faixas. Temos que acompanhar os tempos que correm; apostar mais nos espectáculos ao vivo, por exemplo. As bandas grandes clássicas nunca estiveram tão activas. Olha para os Rhapsody, por exemplo, que estão neste festival a festejar os 20 anos de carreira.» Se os países mais avançados e com melhor poder de compra atravessam tempos menos felizes em termos de vendas de discos com a máquina de promoção que têm, em Portugal, onde geralmente a máquina de promoção cultural é deficitária em relação a países como Suécia, Noruega e Alemanha, parece ser pior. Será que o apoio que as bandas recebem dos diversos corpos (comunicação social, fãs, etc.) está melhor do que estava anteriormente? «O dinheiro não chega para tudo e as pessoas são forçadas a escolher mais criteriosamente quais concertos vão ver. A crise que atravessámos, que levou tanta gente a sair do país, prejudicou também muito o movimento; se já éramos poucos…», desabafa Raça. «Ainda assim, temos tido sorte. Num certo concerto em que estávamos à espera de umas 200 pessoas, apareceram 120 e achámos mau. O promotor disse-nos que as coisas mudaram e que 120 pessoas nesse concerto até tinham sido muitas. As pessoas mudaram de vida e o excesso de oferta veio prejudicar tudo.»

Nas palavras de Adriano, «se sentirmos que não existe apoio por parte dos interessados que importam, nomeadamente o público, então desistimos, os músicos desistem; há muito investimento nisto: de tempo, de dinheiro, de sacrifícios com a família… Os meios de comunicação mainstream estão-se completamente a cagar para nós. Dou-te um exemplo: em Zamora, há pouco tempo, tocámos numa zona histórica em horário nobre. Imagina isso em Portugal. Não acontece». Raça mete o dedo em feridas mais abertas: «Também há promotores a trabalhar mal, principalmente em concertos grandes e para com bandas portuguesas. Os outlets noticiosos especializados também não trabalham bem. Por exemplo, quando fomos tocar ao Wacken em 2014, vi a notícia dos Revolution Within em três revistas espanholas diferentes. Nessa altura, a única revista profissional portuguesa de metal nem nos mencionou, não disse nada. Nós não queremos ser levados ao colo, mas é lógico que o apoio faz falta, acho que deveriam apoiar-nos minimamente e isso não aconteceu, nem sequer houve uma referência.»

De modo a combater a recessão que a indústria atravessa, a banda apostou em conteúdos de alta qualidade para estar sempre um passo à frente da “competição”. Assim, não é de estranhar o investimento com o novo videoclip para a faixa “From Madness To Sanity”, a cargo de Guilherme Henriques que, entre outros, já realizou trabalhos em vídeo para bandas como Belphegor, Helheim, Noctem e Scuorn. Também a gravação do último registo foi com um novo produtor. Raça sabe que o colectivo deu o passo certo em frente quando abordou Guilherme para realizador do vídeo. «Este mundo é tão pequeno a andamos todos aqui às cabeçadas. Acontece que estávamos no sítio certo à hora certa, só isso, e o Guilherme só prova que não é necessário irmos lá fora para encontrarmos profissionais com quem trabalhar. Sempre foi muito profissional connosco. Antes de ser reconhecido, ninguém lhe ligava; agora têm orgulho nele. Já a gravação do álbum ficou a cargo do João Dourado [Golden Jack Studios, Coimbra], e o trabalho está à vista. Acontece que, neste meio, uma banda tem que investir muito e nas pessoas certas: tens que ter a capa certa, o vídeo certo, a produção certa, a pessoa certa a entrevistar-te. Para isso, é necessário mutualismo; andamos todos nisto e a vida são dois dias, não faz sentido andarmos em guerras uns com os outros, ganhamos mais com cooperação.»

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