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[Entrevista] Revolution Within: give it revolution!

João Correia

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«Enquanto formos assim [humildes], andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma.»

É importante valorizar o que temos para podermos perceber o que não temos. Ao longo das décadas, o movimento português de heavy metal tem evoluído a um ritmo bastante rápido, tendo em conta o nosso atraso em relação ao exterior devido a 50 anos de uma ditadura que nos sufocou artística e intelectualmente. Se nos anos 80 a emancipação da música pesada em Portugal começou com passos tímidos e pequenos, depois de 1993 houve uma mudança de paradigma que a fez crescer desenfreadamente, uma adolescência que incorporou tudo o que um adolescente experimenta nos seus anos de ouro: muitos excessos, muita criatividade e a certeza absoluta de que a dominação global é apenas o começo. Mas foi depois dos 2000 que a cena começou a aquecer – com a maturidade veio maior qualidade e até quantidade e, chegados ao final da segunda década dos 2000, seria desonesto dizer que a cena estagnou ou que ficou desinteressante.

De facto, bandas como os feirenses Revolution Within provam que, quando há vontade comum e gosto no que se faz, portas que antes estavam fechadas se começam a abrir espontaneamente dentro e fora de fronteiras. Doze anos passados sobre a sua formação, o trabalho do colectivo já deu frutos no Wacken Open Air e a sua recente digressão espanhola, cujo ponto máximo foi o Resurrection Fest, na Galiza, é prova cabal de que insistir e persistir são os dois ingredientes fundamentais para vingar. Rui “Raça” Alves, vocalista, mostra-se um pouco incrédulo quando diz que «quando formámos a banda, nunca pensámos que ainda estaríamos no activo ao fim de 12 anos, quanto mais tocar nos sítios onde tocámos. O Resurrection acaba por ser mais um dos degraus que conseguimos subir e, agora, estamos a tocar no Vagos Metal Fest e também já tocámos no Vagos Open Air, mais dois obstáculos ultrapassados».

Matador, guitarrista, prefere o termo «patamares, em vez de obstáculos», não por questões de semântica, antes por positivismo. «Temos sonhos, e este foi mais um que concretizámos», continua Raça. «O Resurrection correu bem. Tivemos o azar de tocar no terceiro dia e muito cedo, acabámos por não ter tanto público quanto gostaríamos, mas a nossa atitude mantém-se inalterada ao fim de 12 anos: damos sempre o nosso melhor. O público presente gostou do nosso som e houve bastante energia; é uma palavra que nos define. Tivemos ainda o azar das três alterações de palco que ocorreram, mas correu bem e estivemos presentes com o intuito de provar que podíamos fazer um bom trabalho e abrir portas para nós e para motivar outras bandas nacionais a fazê-lo.»

DSC_0120(Raça, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Houve bandeiras nacionais desfraldadas e umas centenas de pessoas presentes no concerto dos Revolution Within no Resurrection Fest. Tendo em conta que, ao terceiro dia, o cansaço já é visível em toda a gente, Adriano, guitarrista, indica que «foi um orgulho tremendo ter encontrado tanto público português amigo; não estávamos a contar com a moldura humana que compareceu, principalmente no dia e à hora a que tocámos». Matador acrescenta que «seja por uma hora, seja por meia hora, se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo». «A nossa postura é idêntica tanto para cinco como para 5000 pessoas», retoma Matador. «Certa vez, no Hard Bar, em Bustos, tocámos para 10 ou 12 pessoas e acabámos por oferecer as entradas à casa, não faria sentido cobrar; esse concerto parecia um grupo de amigos a curtir.» Raça finaliza, indicando que «algo que também é muito importante para a banda é a nossa atitude e humildade genuína, sem artifícios. Enquanto formos assim, andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma».

Nada se consegue de um dia para o outro e, no caso dos Revolution Within, 12 anos após a sua fundação é que começam a surgir os louvores. “Annihilation”, o último álbum da banda, recebeu críticas positivas lineares na imprensa nacional e internacional especializada. É habitual que as bandas mais rodadas sejam obcecadas pela perfeição, mas, por vezes, nem tudo corre como esperado e, no médio-longo termo, algumas gostariam de pode voltar atrás e alterar um ou outro detalhe. Não foi o caso dos Revolution Within com “Annihilation” … ou foi? Matador e Raça não hesitam e dizem que não, e Raça ainda acrescenta que «quando acabamos de gravar um disco, podíamos chegar à semana seguinte e dizer que isto ou aquilo poderia ter sido feito de outra forma, como um solo de guitarra, ou que poderíamos ter acrescentado aqui ou ali um berro, mas o disco está gravado e não vale a pena pensar nisso». Adriano tem outra visão e refere que «espetava mais uma música no disco, uma malha que iríamos tocar a 235 bpm. [risos] Geralmente andamos por volta das 210, 215 bpm, e aquela música era mesmo super-híper-mega-rápida, era super thrash metal».

«Se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo.»

É compreensível que Adriano pense assim – afinal de contas, “Annihilation” é o álbum mais agressivo da carreira da banda, com o thrash de base a ser misturado com toques de death metal. Isto parece indicar que a banda está ciente de que uma das formas clássicas de não estagnar o som é inovar e experimentar. «Toda a gente sabe que Revolution Within é thrash metal de raiz», começa Matador. «O “Collision” [primeiro álbum] tinha um pouco de heavy à mistura; já o segundo álbum [“Straight From Within”] tem uma costela mais hardcore, ao passo que o mais recente abraça o death metal. Não é propositado, é uma questão de gosto.» Adriano frisa que «durante o acto de composição, se percebermos que o som está pesado como o queremos, então é assim que será. Não importa se é death, ou grind ou black – desde que sintamos que fica bem, avançamos. Prova disso é o nosso novo videoclip: é uma malha cheia de groove, foge um pouco da linha habitual dos Revolution Within».

Matador vai mais além e explica que o próximo álbum «será sempre um disco com o carimbo de Revolution: não vamos fazer um álbum de jazz ou algo nessa linha. Vamos continuar a ser o que somos, mas não podemos assentar sempre no mesmo género de composição, vamos sempre apresentar algo de diferente nos nossos registos». Raça finaliza de forma pragmática: «Uma coisa eu posso afirmar ao fim de 12 anos: os tempos mudam; tivemos mudanças de elementos, mas compomos de forma descomprometida sem que as músicas pareçam sempre iguais. O próximo álbum será Revolution, com a mesma essência, ainda que com partes que fazem a diferença. É um pau de dois bicos: se fazes uma coisa diferente, depois passas a vendido, não é fácil.»

Talvez seja por isso que, recentemente, Pedro Vindeirinho, dono da Rastilho (editora dos Revolution Within), ficou surpreendido quando recebeu um pedido de encomenda de CD dos Revolution Within… do Japão. Quem se move no meio sabe o insólito que isso representa em diversas frentes: o reconhecimento no exterior, a questão de ser um país muito exótico e com um mercado extremamente elitista. «Acompanhei esse processo de venda», diz Raça visivelmente tocado pelo reconhecimento. «Surgiram contactos de duas ou três lojas japonesas e, embora fique extremamente dispendioso enviar discos para o Japão, o Pedro fê-lo. Os quinze ou vinte discos que ele enviou esgotaram no primeiro dia. No dia seguinte, voltaram a realizar outro pedido e, quando o Pedro deu por ela, já tinha vendido 160 discos. Foi brutal para nós e digo isto com muito orgulho: a Rastilho tem mais bandas e lembro-me de dizer ao Pedro para enviar mais CD de bandas portuguesas, mesmo que as lojas não quisessem, pois assim ajudávamo-nos uns aos outros. O Pedro assim fez e voltou a receber mais uma encomenda de discos de Revolution Within. Já quando eu estava nos Gates of Hell, a banda vendeu para o Japão. O Vindeirinho já dizia que os japoneses não ligavam às bandas, mas que compravam se tivessem o Raça nelas. [risos] Para nós, é importante o feedback e que a editora venda discos, pois ela não vive da boa-vontade das pessoas – se apostou em nós, interessa-lhe obter retorno e eu noto que a venda de discos está uma miséria. Vai ser cada vez pior. Do segundo, já conseguimos vender mil discos. Do terceiro, já atingimos cerca de quinhentas vendas. Não é mau, em Portugal, mas perdem-se várias coisas com a morte dos discos, apalpar o produto, cheirá-lo …»

DSC_0176(Adriano, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Adriano reconhece que se trata não de uma evolução, mas de uma «regressão natural». «Olha para Tarântula: antigamente, não tocavam tanto e, ainda assim, vendiam muito mais discos. Hoje, a oferta é surreal, é impossível filtrar tudo, tens de te focar naquilo que gostas. Depois, vais à Net e encontras álbuns completos em streaming, sacas o álbum inteiro e depois reparte-lo em faixas. Temos que acompanhar os tempos que correm; apostar mais nos espectáculos ao vivo, por exemplo. As bandas grandes clássicas nunca estiveram tão activas. Olha para os Rhapsody, por exemplo, que estão neste festival a festejar os 20 anos de carreira.» Se os países mais avançados e com melhor poder de compra atravessam tempos menos felizes em termos de vendas de discos com a máquina de promoção que têm, em Portugal, onde geralmente a máquina de promoção cultural é deficitária em relação a países como Suécia, Noruega e Alemanha, parece ser pior. Será que o apoio que as bandas recebem dos diversos corpos (comunicação social, fãs, etc.) está melhor do que estava anteriormente? «O dinheiro não chega para tudo e as pessoas são forçadas a escolher mais criteriosamente quais concertos vão ver. A crise que atravessámos, que levou tanta gente a sair do país, prejudicou também muito o movimento; se já éramos poucos…», desabafa Raça. «Ainda assim, temos tido sorte. Num certo concerto em que estávamos à espera de umas 200 pessoas, apareceram 120 e achámos mau. O promotor disse-nos que as coisas mudaram e que 120 pessoas nesse concerto até tinham sido muitas. As pessoas mudaram de vida e o excesso de oferta veio prejudicar tudo.»

Nas palavras de Adriano, «se sentirmos que não existe apoio por parte dos interessados que importam, nomeadamente o público, então desistimos, os músicos desistem; há muito investimento nisto: de tempo, de dinheiro, de sacrifícios com a família… Os meios de comunicação mainstream estão-se completamente a cagar para nós. Dou-te um exemplo: em Zamora, há pouco tempo, tocámos numa zona histórica em horário nobre. Imagina isso em Portugal. Não acontece». Raça mete o dedo em feridas mais abertas: «Também há promotores a trabalhar mal, principalmente em concertos grandes e para com bandas portuguesas. Os outlets noticiosos especializados também não trabalham bem. Por exemplo, quando fomos tocar ao Wacken em 2014, vi a notícia dos Revolution Within em três revistas espanholas diferentes. Nessa altura, a única revista profissional portuguesa de metal nem nos mencionou, não disse nada. Nós não queremos ser levados ao colo, mas é lógico que o apoio faz falta, acho que deveriam apoiar-nos minimamente e isso não aconteceu, nem sequer houve uma referência.»

De modo a combater a recessão que a indústria atravessa, a banda apostou em conteúdos de alta qualidade para estar sempre um passo à frente da “competição”. Assim, não é de estranhar o investimento com o novo videoclip para a faixa “From Madness To Sanity”, a cargo de Guilherme Henriques que, entre outros, já realizou trabalhos em vídeo para bandas como Belphegor, Helheim, Noctem e Scuorn. Também a gravação do último registo foi com um novo produtor. Raça sabe que o colectivo deu o passo certo em frente quando abordou Guilherme para realizador do vídeo. «Este mundo é tão pequeno a andamos todos aqui às cabeçadas. Acontece que estávamos no sítio certo à hora certa, só isso, e o Guilherme só prova que não é necessário irmos lá fora para encontrarmos profissionais com quem trabalhar. Sempre foi muito profissional connosco. Antes de ser reconhecido, ninguém lhe ligava; agora têm orgulho nele. Já a gravação do álbum ficou a cargo do João Dourado [Golden Jack Studios, Coimbra], e o trabalho está à vista. Acontece que, neste meio, uma banda tem que investir muito e nas pessoas certas: tens que ter a capa certa, o vídeo certo, a produção certa, a pessoa certa a entrevistar-te. Para isso, é necessário mutualismo; andamos todos nisto e a vida são dois dias, não faz sentido andarmos em guerras uns com os outros, ganhamos mais com cooperação.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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