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[Entrevista] Revolution Within: give it revolution!

João Correia

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«Enquanto formos assim [humildes], andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma.»

É importante valorizar o que temos para podermos perceber o que não temos. Ao longo das décadas, o movimento português de heavy metal tem evoluído a um ritmo bastante rápido, tendo em conta o nosso atraso em relação ao exterior devido a 50 anos de uma ditadura que nos sufocou artística e intelectualmente. Se nos anos 80 a emancipação da música pesada em Portugal começou com passos tímidos e pequenos, depois de 1993 houve uma mudança de paradigma que a fez crescer desenfreadamente, uma adolescência que incorporou tudo o que um adolescente experimenta nos seus anos de ouro: muitos excessos, muita criatividade e a certeza absoluta de que a dominação global é apenas o começo. Mas foi depois dos 2000 que a cena começou a aquecer – com a maturidade veio maior qualidade e até quantidade e, chegados ao final da segunda década dos 2000, seria desonesto dizer que a cena estagnou ou que ficou desinteressante.

De facto, bandas como os feirenses Revolution Within provam que, quando há vontade comum e gosto no que se faz, portas que antes estavam fechadas se começam a abrir espontaneamente dentro e fora de fronteiras. Doze anos passados sobre a sua formação, o trabalho do colectivo já deu frutos no Wacken Open Air e a sua recente digressão espanhola, cujo ponto máximo foi o Resurrection Fest, na Galiza, é prova cabal de que insistir e persistir são os dois ingredientes fundamentais para vingar. Rui “Raça” Alves, vocalista, mostra-se um pouco incrédulo quando diz que «quando formámos a banda, nunca pensámos que ainda estaríamos no activo ao fim de 12 anos, quanto mais tocar nos sítios onde tocámos. O Resurrection acaba por ser mais um dos degraus que conseguimos subir e, agora, estamos a tocar no Vagos Metal Fest e também já tocámos no Vagos Open Air, mais dois obstáculos ultrapassados».

Matador, guitarrista, prefere o termo «patamares, em vez de obstáculos», não por questões de semântica, antes por positivismo. «Temos sonhos, e este foi mais um que concretizámos», continua Raça. «O Resurrection correu bem. Tivemos o azar de tocar no terceiro dia e muito cedo, acabámos por não ter tanto público quanto gostaríamos, mas a nossa atitude mantém-se inalterada ao fim de 12 anos: damos sempre o nosso melhor. O público presente gostou do nosso som e houve bastante energia; é uma palavra que nos define. Tivemos ainda o azar das três alterações de palco que ocorreram, mas correu bem e estivemos presentes com o intuito de provar que podíamos fazer um bom trabalho e abrir portas para nós e para motivar outras bandas nacionais a fazê-lo.»

DSC_0120(Raça, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Houve bandeiras nacionais desfraldadas e umas centenas de pessoas presentes no concerto dos Revolution Within no Resurrection Fest. Tendo em conta que, ao terceiro dia, o cansaço já é visível em toda a gente, Adriano, guitarrista, indica que «foi um orgulho tremendo ter encontrado tanto público português amigo; não estávamos a contar com a moldura humana que compareceu, principalmente no dia e à hora a que tocámos». Matador acrescenta que «seja por uma hora, seja por meia hora, se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo». «A nossa postura é idêntica tanto para cinco como para 5000 pessoas», retoma Matador. «Certa vez, no Hard Bar, em Bustos, tocámos para 10 ou 12 pessoas e acabámos por oferecer as entradas à casa, não faria sentido cobrar; esse concerto parecia um grupo de amigos a curtir.» Raça finaliza, indicando que «algo que também é muito importante para a banda é a nossa atitude e humildade genuína, sem artifícios. Enquanto formos assim, andamos de cabeça levantada, e a nossa postura é esta e esta mesma».

Nada se consegue de um dia para o outro e, no caso dos Revolution Within, 12 anos após a sua fundação é que começam a surgir os louvores. “Annihilation”, o último álbum da banda, recebeu críticas positivas lineares na imprensa nacional e internacional especializada. É habitual que as bandas mais rodadas sejam obcecadas pela perfeição, mas, por vezes, nem tudo corre como esperado e, no médio-longo termo, algumas gostariam de pode voltar atrás e alterar um ou outro detalhe. Não foi o caso dos Revolution Within com “Annihilation” … ou foi? Matador e Raça não hesitam e dizem que não, e Raça ainda acrescenta que «quando acabamos de gravar um disco, podíamos chegar à semana seguinte e dizer que isto ou aquilo poderia ter sido feito de outra forma, como um solo de guitarra, ou que poderíamos ter acrescentado aqui ou ali um berro, mas o disco está gravado e não vale a pena pensar nisso». Adriano tem outra visão e refere que «espetava mais uma música no disco, uma malha que iríamos tocar a 235 bpm. [risos] Geralmente andamos por volta das 210, 215 bpm, e aquela música era mesmo super-híper-mega-rápida, era super thrash metal».

«Se conseguirmos fazer as pessoas esquecer os problemas do dia a dia, então cumprimos o nosso objectivo.»

É compreensível que Adriano pense assim – afinal de contas, “Annihilation” é o álbum mais agressivo da carreira da banda, com o thrash de base a ser misturado com toques de death metal. Isto parece indicar que a banda está ciente de que uma das formas clássicas de não estagnar o som é inovar e experimentar. «Toda a gente sabe que Revolution Within é thrash metal de raiz», começa Matador. «O “Collision” [primeiro álbum] tinha um pouco de heavy à mistura; já o segundo álbum [“Straight From Within”] tem uma costela mais hardcore, ao passo que o mais recente abraça o death metal. Não é propositado, é uma questão de gosto.» Adriano frisa que «durante o acto de composição, se percebermos que o som está pesado como o queremos, então é assim que será. Não importa se é death, ou grind ou black – desde que sintamos que fica bem, avançamos. Prova disso é o nosso novo videoclip: é uma malha cheia de groove, foge um pouco da linha habitual dos Revolution Within».

Matador vai mais além e explica que o próximo álbum «será sempre um disco com o carimbo de Revolution: não vamos fazer um álbum de jazz ou algo nessa linha. Vamos continuar a ser o que somos, mas não podemos assentar sempre no mesmo género de composição, vamos sempre apresentar algo de diferente nos nossos registos». Raça finaliza de forma pragmática: «Uma coisa eu posso afirmar ao fim de 12 anos: os tempos mudam; tivemos mudanças de elementos, mas compomos de forma descomprometida sem que as músicas pareçam sempre iguais. O próximo álbum será Revolution, com a mesma essência, ainda que com partes que fazem a diferença. É um pau de dois bicos: se fazes uma coisa diferente, depois passas a vendido, não é fácil.»

Talvez seja por isso que, recentemente, Pedro Vindeirinho, dono da Rastilho (editora dos Revolution Within), ficou surpreendido quando recebeu um pedido de encomenda de CD dos Revolution Within… do Japão. Quem se move no meio sabe o insólito que isso representa em diversas frentes: o reconhecimento no exterior, a questão de ser um país muito exótico e com um mercado extremamente elitista. «Acompanhei esse processo de venda», diz Raça visivelmente tocado pelo reconhecimento. «Surgiram contactos de duas ou três lojas japonesas e, embora fique extremamente dispendioso enviar discos para o Japão, o Pedro fê-lo. Os quinze ou vinte discos que ele enviou esgotaram no primeiro dia. No dia seguinte, voltaram a realizar outro pedido e, quando o Pedro deu por ela, já tinha vendido 160 discos. Foi brutal para nós e digo isto com muito orgulho: a Rastilho tem mais bandas e lembro-me de dizer ao Pedro para enviar mais CD de bandas portuguesas, mesmo que as lojas não quisessem, pois assim ajudávamo-nos uns aos outros. O Pedro assim fez e voltou a receber mais uma encomenda de discos de Revolution Within. Já quando eu estava nos Gates of Hell, a banda vendeu para o Japão. O Vindeirinho já dizia que os japoneses não ligavam às bandas, mas que compravam se tivessem o Raça nelas. [risos] Para nós, é importante o feedback e que a editora venda discos, pois ela não vive da boa-vontade das pessoas – se apostou em nós, interessa-lhe obter retorno e eu noto que a venda de discos está uma miséria. Vai ser cada vez pior. Do segundo, já conseguimos vender mil discos. Do terceiro, já atingimos cerca de quinhentas vendas. Não é mau, em Portugal, mas perdem-se várias coisas com a morte dos discos, apalpar o produto, cheirá-lo …»

DSC_0176(Adriano, dos Revolution Within, no Vagos Metal Fest 2017)

Adriano reconhece que se trata não de uma evolução, mas de uma «regressão natural». «Olha para Tarântula: antigamente, não tocavam tanto e, ainda assim, vendiam muito mais discos. Hoje, a oferta é surreal, é impossível filtrar tudo, tens de te focar naquilo que gostas. Depois, vais à Net e encontras álbuns completos em streaming, sacas o álbum inteiro e depois reparte-lo em faixas. Temos que acompanhar os tempos que correm; apostar mais nos espectáculos ao vivo, por exemplo. As bandas grandes clássicas nunca estiveram tão activas. Olha para os Rhapsody, por exemplo, que estão neste festival a festejar os 20 anos de carreira.» Se os países mais avançados e com melhor poder de compra atravessam tempos menos felizes em termos de vendas de discos com a máquina de promoção que têm, em Portugal, onde geralmente a máquina de promoção cultural é deficitária em relação a países como Suécia, Noruega e Alemanha, parece ser pior. Será que o apoio que as bandas recebem dos diversos corpos (comunicação social, fãs, etc.) está melhor do que estava anteriormente? «O dinheiro não chega para tudo e as pessoas são forçadas a escolher mais criteriosamente quais concertos vão ver. A crise que atravessámos, que levou tanta gente a sair do país, prejudicou também muito o movimento; se já éramos poucos…», desabafa Raça. «Ainda assim, temos tido sorte. Num certo concerto em que estávamos à espera de umas 200 pessoas, apareceram 120 e achámos mau. O promotor disse-nos que as coisas mudaram e que 120 pessoas nesse concerto até tinham sido muitas. As pessoas mudaram de vida e o excesso de oferta veio prejudicar tudo.»

Nas palavras de Adriano, «se sentirmos que não existe apoio por parte dos interessados que importam, nomeadamente o público, então desistimos, os músicos desistem; há muito investimento nisto: de tempo, de dinheiro, de sacrifícios com a família… Os meios de comunicação mainstream estão-se completamente a cagar para nós. Dou-te um exemplo: em Zamora, há pouco tempo, tocámos numa zona histórica em horário nobre. Imagina isso em Portugal. Não acontece». Raça mete o dedo em feridas mais abertas: «Também há promotores a trabalhar mal, principalmente em concertos grandes e para com bandas portuguesas. Os outlets noticiosos especializados também não trabalham bem. Por exemplo, quando fomos tocar ao Wacken em 2014, vi a notícia dos Revolution Within em três revistas espanholas diferentes. Nessa altura, a única revista profissional portuguesa de metal nem nos mencionou, não disse nada. Nós não queremos ser levados ao colo, mas é lógico que o apoio faz falta, acho que deveriam apoiar-nos minimamente e isso não aconteceu, nem sequer houve uma referência.»

De modo a combater a recessão que a indústria atravessa, a banda apostou em conteúdos de alta qualidade para estar sempre um passo à frente da “competição”. Assim, não é de estranhar o investimento com o novo videoclip para a faixa “From Madness To Sanity”, a cargo de Guilherme Henriques que, entre outros, já realizou trabalhos em vídeo para bandas como Belphegor, Helheim, Noctem e Scuorn. Também a gravação do último registo foi com um novo produtor. Raça sabe que o colectivo deu o passo certo em frente quando abordou Guilherme para realizador do vídeo. «Este mundo é tão pequeno a andamos todos aqui às cabeçadas. Acontece que estávamos no sítio certo à hora certa, só isso, e o Guilherme só prova que não é necessário irmos lá fora para encontrarmos profissionais com quem trabalhar. Sempre foi muito profissional connosco. Antes de ser reconhecido, ninguém lhe ligava; agora têm orgulho nele. Já a gravação do álbum ficou a cargo do João Dourado [Golden Jack Studios, Coimbra], e o trabalho está à vista. Acontece que, neste meio, uma banda tem que investir muito e nas pessoas certas: tens que ter a capa certa, o vídeo certo, a produção certa, a pessoa certa a entrevistar-te. Para isso, é necessário mutualismo; andamos todos nisto e a vida são dois dias, não faz sentido andarmos em guerras uns com os outros, ganhamos mais com cooperação.»

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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