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[Exclusivo] Conta-me como foi… com Miguel Ângelo (ex-Ibéria)

Pedro Felix

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Mayday_Miracle_1(Miguel Ângelo, em primeiro, com os Mayday Miracle)

Nos finais do passado mês de Abril, os veteranos Ibéria editaram o seu novo trabalho, “Much Higher Than A Hope”, que surpreendeu a cena metálica nacional pela sua qualidade, sendo, provavelmente, a melhor proposta lusa de heavy metal em 2017. Uma das peças fortes apresentadas neste novo trabalho foi o extraordinário trabalho de Hugo Soares na voz. No entanto, não é esta a primeira vez que os Ibéria apresentam um vocalista de excelência. Outro nome que passou pelas fileiras da banda, e que também prima pela excelência vocal, foi o de Miguel Ângelo da Glória Candeias, mais conhecido apenas por Miguel Ângelo. O levantar do pó sobre o passado da banda devido ao alvoroço provocado pelo novo trabalho fez-nos questionar por onde andaria actualmente Miguel Ângelo. Após alguma pesquisa descobrimos que tinha trocado a Ibéria pela Britânia e, então, fomos à sua procura para conhecermos o passado, presente e futuro musical deste ilustre desaparecido das costas portuguesas.

«Se tivesse uma banda seria o vocalista, e isto sem ter ideia nenhuma se era capaz de cantar ou ter jeito para a coisa.»

Conta-nos como foi…

…que decidiste ser vocalista e como é que isso aconteceu.
Isso é uma questão curiosa. Lembro-me de ter 17 ou 18 anos e, um dia, em conversa com o meu amigo José Mendes, dizer-lhe que se tivesse uma banda seria o vocalista, e isto sem ter ideia nenhuma se era capaz de cantar ou ter jeito para a coisa.
Uns meses depois um amigo comum perguntou-me se queria formar uma banda, e a coisa começou aí. A primeira banda chamava-se Ressacados [risos], coisas de puto.

…a tua passagem pelos Shangai Blue
Os Shangai Blue aconteceram por acaso. Eu e a irmã do João Alexandre [vocalista original dos Ibéria] éramos colegas de turma e ela viu-me tocar com os Ressacados um par de vezes e deve ter falado com o João sobre isso. Um dia, o João Alexandre perguntou-me se queria tocar com ele e com o João Sérgio [Ibéria]. A ideia era tocar umas covers e passar o tempo. O João Alexandre tocava bateria, o João Sérgio tocava baixo, e mais dois nomes vieram a baila, o Sérgio Palma e o Vítor Brás. Passámos um mês e tal a ensaiar e ainda tocámos numa sociedade na Baixa da Banheira. Depois disso o João Alexandre convenceu-me a formar uma banda. O João era a força por detrás dos Shangai Blue. O Sérgio e o Vítor alinharam e só precisávamos de um baixo, já que o João Sérgio não tinha tempo na altura. Juntou-se então o Paulo Barrocas e fomos em frente.
O João Alexandre tinha contactos, graças aos Ibéria, e, assim que gravámos uma demo, começámos a enviar cópias para tudo quanto era lado. Conseguimos ter um tema numa compilação de metal português chamada “Birth Of A Tragedy”, editada pela MTM, e ainda conseguimos gravar um vídeo para o programa “Pop Off”, que passava na RTP2.
Entretanto, o Vítor teve que cumprir o Serviço Militar Obrigatório e, pouco depois, os Ibéria começaram a trabalhar em material novo, desta vez com temas em português. Com isto tudo, os Shangai Blue acabaram. Da minha parte posso dizer que foram tempos superexcitantes e sempre felizes. Continuamos todos bons amigos.

…a tua chegada aos Ibéria
A minha ida para os Ibéria veio do facto dos Shangai Blue terem terminado. A banda estava a experimentar temas em português e a tentar encaixar-se na cena musical da altura. O início e meados dos anos 90 foram um pouco estranhos para o metal e rock pesado.
Mais uma vez foi o João Alexandre que me levou para os Ibéria. Tanto ele como o João Sérgio sabiam que eu podia cantar e acolheram-me no seio da banda.
Para mim foi fantástico, sou fã dos Ibéria desde o início. Era a banda da minha terra a tocar música que eu adorava e tocar com aqueles gajos era brilhante. Estava bem entregue.

«Aprendi muito com [os Ibéria] e tenho muito orgulho da música que fizemos juntos.»

Falando dos Ibéria…

…a tua passagem pela banda foi curta e apenas gravaste uma demo. Porquê uma passagem tão meteórica?
Na altura gravámos a demo e tocámos em várias partes do país, mas não conseguimos ter o apoio de nenhuma editora e ao fim de três anos decidi sair. Não estávamos a ir a lado nenhum, achava eu na altura, e também tinha outros problemas de ordem pessoal que não me ajudavam. Com isto tudo decidi que era hora de parar, e assim foi. Aprendi muito com eles e tenho muito orgulho da música que fizemos juntos e der ter feito parte, embora pequena, de uma banda tão brilhante. Tal como com os Shangai Blue, continuamos a ser grandes e bons amigos até aos dias de hoje.

…agora que saiu o álbum que consolida o regresso dos Ibéria, como vês a banda em geral e o novo vocalista em particular?
O Hugo foi a lufada de ar fresco que os Ibéria precisavam. Não quero, nem vou tentar tirar crédito nenhum ao álbum feito pelo Miguel Freitas. O “Revolution” é um álbum bom com canções nices, e o Miguel fez um excelente trabalho – eu não teria feito melhor, mas sempre achei que os Ibéria precisavam de fazer um som mais pesado, mais metal e menos rock. O Hugo é um talento raro e deu-lhes o “pontapé no cú” que precisavam. A mim parece-me que a banda tem a medida das coisas, estão mais maduros e a música reflecte isso. Espero que continuem a tocar por muitos e muitos anos.

«Cada ano que passa tenho mais ganas de um dia voltar para Portugal.»

Depois de sair de Portugal…

…o que te levou aos reinos de Sua Majestade, mais concretamente, à Grã-Bretanha?
Depois de sair dos Ibéria andava à procura de direcção, e, na verdade, não via um futuro para mim em Portugal. Assim, decidi sair. O Reino Unido foi quase inevitável. O João Alexandre já cá estava (o João tem sido uma constante na minha vida).
Depois de ter passado o Verão de 1997 na Suíça, onde não gostei de estar, decidi ligar ao João e perguntei-lhe se me podia ajudar, e aqui vim parar. No início vivi em Londres, e depois a vida e o trabalho levaram-me a outras partes do país. Hoje em dia vivo numa aldeia no campo e sinto-me em paz. Gosto da vida que tenho: vou à pesca, dou uns tiros nuns coelhos e toco numa banda de que gosto… Mas cada ano que passa tenho mais ganas de um dia voltar para Portugal.

…como foi a passagem pelos Gross Affray?
Nos primeiros anos da minha vida aqui no Reino Unido não toquei com ninguém, estive parado durante cinco anos. Quando comecei a querer tocar novamente encontrei uma banda de covers que procurava um vocalista e comecei a tocar com eles. Estive naquela banda dois ou três anos, mas o que eu queria mesmo era fazer o que sempre fiz: tocar a minha própria música. Saí e comecei a procurar músicos para formar uma banda. Conheci uns gajos e começámos uma onda nova. Chamava-se Buried Beneath e tínhamos uns temas nices, mas nunca chegámos a fazer nada. Trabalho de uns e família de outros, enfim…
Continuei a busca e encontrei os Gross Affray, que estavam à procura de vocalista. O som dos Gross Affray era pesado e não era uma coisa que eu tivesse feito antes, mas era hora de fazer algo diferente e precisava de um desafio. Fui a uma audição e fiquei na banda.
Fomos de imediato para estúdio e terminámos um álbum, o “The Burden”, que eles já tinham começado a gravar. Demos uns concertos em Ipswich e Cambridge, entre outros, e a coisa ia bem. Depois disso gravámos o EP “Pilgrim”, mas, por essa altura, já não havia muita vontade por parte de alguns membros. Ao fim de alguns meses decidimos tomar rumos diferentes.
Tal como em todas as bandas em que toquei antes, continuamos a ser amigos e estamos em contacto.

 

Actualmente estás com os Mayday Miracle…

…qual a origem da banda e é verdade que o nome está intimamente ligado contigo?
Eu já conhecia o Brad e o Aaron antes de estar nos Gross Affray. Tínhamos tentado formar uma banda, mas nunca conseguimos encontrar um baterista. Na altura, o Rob estava noutra banda. Entretanto, em 2015, entrei em contacto com o Aaron e decidimos encontrarmo-nos para decidir o que fazer. O Aaron e o Brad queriam tocar numa banda juntos há muito tempo e quando nos encontrámos decidimos pôr a coisa em movimento. A data do encontro foi no May Day de 2015, que, normalmente, é a primeira segunda-feira de Maio, que é feriado. Foi o Aaron que teve a ideia para o nome Mayday Miracle. Mayday porque nos encontrámos para falar da banda nesse dia e Miracle porque ele já não pensava que ia formar outra banda. Na verdade, o nome está ligado a todos. Umas semanas depois, o Rob juntou-se à banda e o resto é música.

…Passado?
Até agora gravámos um EP, o “Freak Show”, com três temas, e temos estado a promovê-lo e a tocar onde quer que valha a pena pelo país fora. A reacção das pessoas tem sido positiva.

…Presente?
De momento continuamos a tocar ao vivo sempre que possível. Temos uns concertos marcados em Nottingham e em Manchester, em Setembro, que vão ser do cacete.
Estamos a trabalhar em material novo para gravar um EP ou um álbum, tudo depende do custo. Estamos ocupados…

…Futuro?
Bem, o futuro parece prometer. Como disse antes, a reacção do público tem sido óptima, e as pessoas parecem querer ouvir mais, o que nos deixa felizes.
Vamos para estúdio no final do ano e o novo trabalho sairá no início de 2018. Queremos tocar mais e em mais lados, e quero voltar a tocar em Portugal. Quero levar os Mayday Miracle a Portugal para conhecerem o público português, que é dos melhores públicos que existe.

…Que dizes ao paradoxo de seres um vocalista português a cantar numa banda inglesa, quando em Portugal as bandas gostavam de ter vocalistas “ingleses”?
[Risos] Talvez seja um paradoxo sim, mas eu não vejo diferença nenhuma no que faço aqui ou se estivesse numa banda em Portugal. Existem muitos e bons vocalistas por esse país e a nacionalidade não tem importância nenhuma. A única diferença talvez seja o sotaque ou a maneira como alguns vocalistas portugueses pronunciam as palavras em inglês, mas isso é uma questão de aprendizagem e ouvido. Tenho a sorte de conseguir dominar a língua inglesa melhor que muitos nativos e não tenho um sotaque acentuado, mas isso não é tudo. Dedicação e trabalho é que conta, não de onde vens. Temos de dar valor ao que temos e não ao que achamos que queremos.

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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