[Exclusivo] Conta-me como foi… com Miguel Ângelo (ex-Ibéria) | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Exclusivo] Conta-me como foi… com Miguel Ângelo (ex-Ibéria)

Mayday_Miracle_1(Miguel Ângelo, em primeiro, com os Mayday Miracle)

Nos finais do passado mês de Abril, os veteranos Ibéria editaram o seu novo trabalho, “Much Higher Than A Hope”, que surpreendeu a cena metálica nacional pela sua qualidade, sendo, provavelmente, a melhor proposta lusa de heavy metal em 2017. Uma das peças fortes apresentadas neste novo trabalho foi o extraordinário trabalho de Hugo Soares na voz. No entanto, não é esta a primeira vez que os Ibéria apresentam um vocalista de excelência. Outro nome que passou pelas fileiras da banda, e que também prima pela excelência vocal, foi o de Miguel Ângelo da Glória Candeias, mais conhecido apenas por Miguel Ângelo. O levantar do pó sobre o passado da banda devido ao alvoroço provocado pelo novo trabalho fez-nos questionar por onde andaria actualmente Miguel Ângelo. Após alguma pesquisa descobrimos que tinha trocado a Ibéria pela Britânia e, então, fomos à sua procura para conhecermos o passado, presente e futuro musical deste ilustre desaparecido das costas portuguesas.

«Se tivesse uma banda seria o vocalista, e isto sem ter ideia nenhuma se era capaz de cantar ou ter jeito para a coisa.»

Conta-nos como foi…

…que decidiste ser vocalista e como é que isso aconteceu.
Isso é uma questão curiosa. Lembro-me de ter 17 ou 18 anos e, um dia, em conversa com o meu amigo José Mendes, dizer-lhe que se tivesse uma banda seria o vocalista, e isto sem ter ideia nenhuma se era capaz de cantar ou ter jeito para a coisa.
Uns meses depois um amigo comum perguntou-me se queria formar uma banda, e a coisa começou aí. A primeira banda chamava-se Ressacados [risos], coisas de puto.

…a tua passagem pelos Shangai Blue
Os Shangai Blue aconteceram por acaso. Eu e a irmã do João Alexandre [vocalista original dos Ibéria] éramos colegas de turma e ela viu-me tocar com os Ressacados um par de vezes e deve ter falado com o João sobre isso. Um dia, o João Alexandre perguntou-me se queria tocar com ele e com o João Sérgio [Ibéria]. A ideia era tocar umas covers e passar o tempo. O João Alexandre tocava bateria, o João Sérgio tocava baixo, e mais dois nomes vieram a baila, o Sérgio Palma e o Vítor Brás. Passámos um mês e tal a ensaiar e ainda tocámos numa sociedade na Baixa da Banheira. Depois disso o João Alexandre convenceu-me a formar uma banda. O João era a força por detrás dos Shangai Blue. O Sérgio e o Vítor alinharam e só precisávamos de um baixo, já que o João Sérgio não tinha tempo na altura. Juntou-se então o Paulo Barrocas e fomos em frente.
O João Alexandre tinha contactos, graças aos Ibéria, e, assim que gravámos uma demo, começámos a enviar cópias para tudo quanto era lado. Conseguimos ter um tema numa compilação de metal português chamada “Birth Of A Tragedy”, editada pela MTM, e ainda conseguimos gravar um vídeo para o programa “Pop Off”, que passava na RTP2.
Entretanto, o Vítor teve que cumprir o Serviço Militar Obrigatório e, pouco depois, os Ibéria começaram a trabalhar em material novo, desta vez com temas em português. Com isto tudo, os Shangai Blue acabaram. Da minha parte posso dizer que foram tempos superexcitantes e sempre felizes. Continuamos todos bons amigos.

…a tua chegada aos Ibéria
A minha ida para os Ibéria veio do facto dos Shangai Blue terem terminado. A banda estava a experimentar temas em português e a tentar encaixar-se na cena musical da altura. O início e meados dos anos 90 foram um pouco estranhos para o metal e rock pesado.
Mais uma vez foi o João Alexandre que me levou para os Ibéria. Tanto ele como o João Sérgio sabiam que eu podia cantar e acolheram-me no seio da banda.
Para mim foi fantástico, sou fã dos Ibéria desde o início. Era a banda da minha terra a tocar música que eu adorava e tocar com aqueles gajos era brilhante. Estava bem entregue.

«Aprendi muito com [os Ibéria] e tenho muito orgulho da música que fizemos juntos.»

Falando dos Ibéria…

…a tua passagem pela banda foi curta e apenas gravaste uma demo. Porquê uma passagem tão meteórica?
Na altura gravámos a demo e tocámos em várias partes do país, mas não conseguimos ter o apoio de nenhuma editora e ao fim de três anos decidi sair. Não estávamos a ir a lado nenhum, achava eu na altura, e também tinha outros problemas de ordem pessoal que não me ajudavam. Com isto tudo decidi que era hora de parar, e assim foi. Aprendi muito com eles e tenho muito orgulho da música que fizemos juntos e der ter feito parte, embora pequena, de uma banda tão brilhante. Tal como com os Shangai Blue, continuamos a ser grandes e bons amigos até aos dias de hoje.

…agora que saiu o álbum que consolida o regresso dos Ibéria, como vês a banda em geral e o novo vocalista em particular?
O Hugo foi a lufada de ar fresco que os Ibéria precisavam. Não quero, nem vou tentar tirar crédito nenhum ao álbum feito pelo Miguel Freitas. O “Revolution” é um álbum bom com canções nices, e o Miguel fez um excelente trabalho – eu não teria feito melhor, mas sempre achei que os Ibéria precisavam de fazer um som mais pesado, mais metal e menos rock. O Hugo é um talento raro e deu-lhes o “pontapé no cú” que precisavam. A mim parece-me que a banda tem a medida das coisas, estão mais maduros e a música reflecte isso. Espero que continuem a tocar por muitos e muitos anos.

«Cada ano que passa tenho mais ganas de um dia voltar para Portugal.»

Depois de sair de Portugal…

…o que te levou aos reinos de Sua Majestade, mais concretamente, à Grã-Bretanha?
Depois de sair dos Ibéria andava à procura de direcção, e, na verdade, não via um futuro para mim em Portugal. Assim, decidi sair. O Reino Unido foi quase inevitável. O João Alexandre já cá estava (o João tem sido uma constante na minha vida).
Depois de ter passado o Verão de 1997 na Suíça, onde não gostei de estar, decidi ligar ao João e perguntei-lhe se me podia ajudar, e aqui vim parar. No início vivi em Londres, e depois a vida e o trabalho levaram-me a outras partes do país. Hoje em dia vivo numa aldeia no campo e sinto-me em paz. Gosto da vida que tenho: vou à pesca, dou uns tiros nuns coelhos e toco numa banda de que gosto… Mas cada ano que passa tenho mais ganas de um dia voltar para Portugal.

…como foi a passagem pelos Gross Affray?
Nos primeiros anos da minha vida aqui no Reino Unido não toquei com ninguém, estive parado durante cinco anos. Quando comecei a querer tocar novamente encontrei uma banda de covers que procurava um vocalista e comecei a tocar com eles. Estive naquela banda dois ou três anos, mas o que eu queria mesmo era fazer o que sempre fiz: tocar a minha própria música. Saí e comecei a procurar músicos para formar uma banda. Conheci uns gajos e começámos uma onda nova. Chamava-se Buried Beneath e tínhamos uns temas nices, mas nunca chegámos a fazer nada. Trabalho de uns e família de outros, enfim…
Continuei a busca e encontrei os Gross Affray, que estavam à procura de vocalista. O som dos Gross Affray era pesado e não era uma coisa que eu tivesse feito antes, mas era hora de fazer algo diferente e precisava de um desafio. Fui a uma audição e fiquei na banda.
Fomos de imediato para estúdio e terminámos um álbum, o “The Burden”, que eles já tinham começado a gravar. Demos uns concertos em Ipswich e Cambridge, entre outros, e a coisa ia bem. Depois disso gravámos o EP “Pilgrim”, mas, por essa altura, já não havia muita vontade por parte de alguns membros. Ao fim de alguns meses decidimos tomar rumos diferentes.
Tal como em todas as bandas em que toquei antes, continuamos a ser amigos e estamos em contacto.

 

Actualmente estás com os Mayday Miracle…

…qual a origem da banda e é verdade que o nome está intimamente ligado contigo?
Eu já conhecia o Brad e o Aaron antes de estar nos Gross Affray. Tínhamos tentado formar uma banda, mas nunca conseguimos encontrar um baterista. Na altura, o Rob estava noutra banda. Entretanto, em 2015, entrei em contacto com o Aaron e decidimos encontrarmo-nos para decidir o que fazer. O Aaron e o Brad queriam tocar numa banda juntos há muito tempo e quando nos encontrámos decidimos pôr a coisa em movimento. A data do encontro foi no May Day de 2015, que, normalmente, é a primeira segunda-feira de Maio, que é feriado. Foi o Aaron que teve a ideia para o nome Mayday Miracle. Mayday porque nos encontrámos para falar da banda nesse dia e Miracle porque ele já não pensava que ia formar outra banda. Na verdade, o nome está ligado a todos. Umas semanas depois, o Rob juntou-se à banda e o resto é música.

…Passado?
Até agora gravámos um EP, o “Freak Show”, com três temas, e temos estado a promovê-lo e a tocar onde quer que valha a pena pelo país fora. A reacção das pessoas tem sido positiva.

…Presente?
De momento continuamos a tocar ao vivo sempre que possível. Temos uns concertos marcados em Nottingham e em Manchester, em Setembro, que vão ser do cacete.
Estamos a trabalhar em material novo para gravar um EP ou um álbum, tudo depende do custo. Estamos ocupados…

…Futuro?
Bem, o futuro parece prometer. Como disse antes, a reacção do público tem sido óptima, e as pessoas parecem querer ouvir mais, o que nos deixa felizes.
Vamos para estúdio no final do ano e o novo trabalho sairá no início de 2018. Queremos tocar mais e em mais lados, e quero voltar a tocar em Portugal. Quero levar os Mayday Miracle a Portugal para conhecerem o público português, que é dos melhores públicos que existe.

…Que dizes ao paradoxo de seres um vocalista português a cantar numa banda inglesa, quando em Portugal as bandas gostavam de ter vocalistas “ingleses”?
[Risos] Talvez seja um paradoxo sim, mas eu não vejo diferença nenhuma no que faço aqui ou se estivesse numa banda em Portugal. Existem muitos e bons vocalistas por esse país e a nacionalidade não tem importância nenhuma. A única diferença talvez seja o sotaque ou a maneira como alguns vocalistas portugueses pronunciam as palavras em inglês, mas isso é uma questão de aprendizagem e ouvido. Tenho a sorte de conseguir dominar a língua inglesa melhor que muitos nativos e não tenho um sotaque acentuado, mas isso não é tudo. Dedicação e trabalho é que conta, não de onde vens. Temos de dar valor ao que temos e não ao que achamos que queremos.

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