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[Exclusivo | Entrevista] Mortiis: violado e mutilado

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Mortiis não precisa de apresentações, pois não? Do dark medieval ao black metal e ao rock industrial é crível que a maioria dos melómanos o conheça musicalmente. Em 2016 lançou o álbum “The Great Deceiver” e ainda no mesmo ano preparou aquele que se viria a tornar em “The Great Corrupter” – um disco com quase 30 remisturas feitas por nomes como Chris Venna, Die Krupps, Godflesh ou Merzbow. Este foi, de facto, o melhor pretexto para contactar o ícone norueguês, mas a entrevista que se segue vai mais além disso – ainda o pusemos a falar de “The Smell Of Rain” e, rapidamente, da cena black metal dos 1990s.

«Isto foi realmente um projecto que se transformou de ideia para a realidade muito rapidamente.»

Dirias que este empreendimento é das maiores coisas em que já estiveste envolvido?
Depende de como se olha para isto. Em termos de esforço, energia e tempo gasto, isto foi realmente um projecto que se transformou de ideia para a realidade muito rapidamente. Comecei por alcançar todos os artistas e bandas no Verão de 2016, e em Dezembro [desse ano] já tinha o disco pronto. Mais de vinte remixes estavam asseguradas nessa altura. Acho que se olhares para isto do ponto de vista de todas as pessoas envolvidas e do estatuto que estes gajos têm no mundo da música (Godflesh, Rhys Fulber, Chris Venna, Die Krupps, John Fryer, Apoptygma Berzerk, etc.), então sim, nesse sentido, é a maior coisa em que já estive envolvido – mais ou menos.

Com “The Great Corrupter” temos metal, rock, industrial, electro, retro-wave e pop. Esperas que os fãs compreendam o propósito disto e que desfrutem de tudo?
Bem, claro que sim. Mas comigo nada muda, e com isso quero dizer que avanço sempre com os meus instintos e sentimentos e não por aquilo que pode ou não funcionar comercialmente. Comecei [a trabalhar em] música porque tinha um amor pessoal por isso, e ainda é isso que me guia hoje em dia. Tenho a certeza que algumas pessoas não compreenderão, mas estou contente com isto e estou orgulhoso do que consegui aqui, e isso é suficiente para mim.

Sobre as remisturas que estes artistas fizeram, que palavra gostarias de usar: violado ou mutilado?
[risos] No caso da mistura de Merzbow, a palavra mutilado assenta muito bem. Estas [misturas] são principalmente reinterpretações, versões, reparações. Tudo o que funcionar, acho eu. Tentei deliberadamente afastar-me da palavra ‘remix’, pois penso que nas mentes de muitas pessoas isso conjura a ideia de uma faixa em que um bastardo preguiçoso removeu a bateria e adicionou uma batida chata. Detesto coisas assim, e acho que a maioria das remisturas enfadonhas que andam aí deram, provavelmente, um mau nome ao conceito de ‘remixing’ – pelo menos para alguém que não esteja familiarizado com música criada electronicamente. Gosto mesmo da ideia de separar uma canção, sacar os vários elementos que nela consistem e levá-la noutra direcção. É isso que penso que os artistas que trabalharam no “The Great Corrupter” foram capazes de fazer.

«Fiquei muito entusiasmado quando o Masami, de Merzbow, me respondeu a dizer que queria trabalhar numa faixa.»

Claro que não vou perguntar qual é a tua remistura ou artista favoritos, mas quem é que te deixou mais perplexo? Quero dizer, quem foram aqueles que te deixaram de queixo caído por estarem interessados?
Fiquei muito entusiasmado quando o Masami, de Merzbow, me respondeu a dizer que queria trabalhar numa faixa – não sabia mesmo se ele responderia, ou se estaria interessado, uma vez que vimos de mundos tão diferentes. Fiquei empolgado por finalmente ter o Stephan (Apoptygma Berzerk) a bordo para uma mistura, já que andava atrás dele há anos para algo deste género. É frustrante porque tínhamos morado na mesma rua durante 10 anos! [risos] Ele levou a mistura muito a sério ao ponto de eu ter ido gravar algumas vozes adicionais, portanto a mistura foi mais do que uma remistura, foi mais uma colaboração. Além disso, ter o John Fryer também foi óptimo. Só me tinha encontrado com ele uma vez, por isso não tinha a certeza se estaria interessado, mas estava.

A lista continua, mas gostaria de referir Godflesh, Chris Venna e Die Krupps. Quão honrado te sentes por tê-los a corromper a tua música?
Muito. Conheço o Chris há vários anos e esteve sempre envolvido na mistura inicial do [álbum] “The Great Deceiver”, portanto sempre estivemos em contacto. Eu e o Jurgen, de Die Krupps, temos alguns amigos mútuos, então foi um processo muito fácil. Eu e o Justin, de Godflesh, partilhámos a mesma editora no passado, portanto tínhamos isso em comum e trocámos e-mails algumas vezes na altura em que lhe perguntei se queria fazer uma remistura. Todos esses tipos são porreiros e muito fáceis de lidar.

«Sinto-me sempre esquisito quando as pessoas creditam certas influências ou som a mim.»

Mesmo hoje em dia, após todos estes anos, faço comparação com Mortiis antigo quando uma banda black metal adiciona arranjos medievais. Sentes que a tua música inicial tem tanto impacto ao ponto de sobreviver até hoje?
Honestamente tento não pensar na música que fiz dessa maneira… Sinto-me sempre esquisito quando as pessoas creditam certas influências ou som a mim. Apenas fico contente que as pessoas gostem. Na altura, tudo o que fiz veio directamente do coração e não de alguma teoria ou habilidade musical. Como hoje. Vem directo do coração e da mente. Aconteça o que acontecer quando faço música. Continuo a ser um idiota musical! [risos] Não faço ideia como tocar, nem tenho qualquer competência teórica. Tenho um ouvido e uma voz melhor actualmente, mas, para ser honesto, essa é a única diferença.

“The Smell Of Rain” é o meu álbum favorito de Mortiis – ainda o ouço bastante, seja em casa ou no carro. Imagino paisagens áridas e grandes cenários de palco com orquestra e performers tribais. As pessoas ainda te falam desse disco? Quão importante foi esse álbum para ti?
Sim, as pessoas ainda me falam nele. Tem excelentes melodias e canções, é certo. Percebo por que é que as pessoas gostam dele. Acho que devia ter tido uma produção melhor, mas é o que é. Esse álbum é muito importante, porque tirou-me do limbo musical em que me meti depois do “The Stargate” [1999], em que comecei mesmo a odiar tudo o que tinha feito e perdi muita fé e crença em mim. “The Smell Of Rain” foi como a fénix a erguer-se das cinzas. Sempre quis que “The Smell Of Rain” fosse um álbum mais furioso, mas ainda sentia o meu caminho nesse disco e não estava pronto para mandar fora todos os elementos do passado, como as cordas e coros. Portanto, para a nova sonoridade, trouxe comigo esse tipo de electrónica e gótico ao mesmo tempo. Também me sentia muito inseguro enquanto cantor; é por isso que a voz é tão monótona e ‘calma’ nesse disco. Foi um produto muito honesto daquilo que eu era exactamente nesse momento.

«Nunca mais falei com o Ihsahn [Emperor], o que é um bocado estranho, porque dávamo-nos muito bem.»

Ainda manténs contacto com os tipos do black metal dos anos 90, como Emperor? Ou afastaste-te completamente?
Mantenho contacto com o Samoth de tempos a tempos. Troquei alguns e-mails com o Bard Faust há uns 2-3 anos. Nunca mais falei com o Ihsahn, o que é um bocado estranho, porque dávamo-nos muito bem. Mas sabes como é, mudei de cidade há uns 11 anos, todos temos filhos, a vida mete-se no meio e de repente os anos passaram.

O que te desencantou no black metal? Quero dizer, afastaste-te muito cedo…
Afastei-me por volta de 1995-1996, quando a cena começou a ficar desvirtuada e tudo começou a soar ao mesmo. Estava a interessar-me noutros tipos de música e, num grau muito elevado, regressei às minhas raízes, que eram o hard rock e metal dos 80s. Também comecei a desenvolver um grande interesse na música electrónica e no rock / hard rock dos 70s. Sempre adorei a cena inicial de 1991-1993 com Darkthrone, Mayhem e Enslaved, mas, de longe, os 70s e 80s tornaram-se mais interessantes. Daí continuei a expandir o meu interesse musical. Também assinei com a Cold Meat Industry de 1994 a 1998, portanto é claro que andei com muitos músicos e artistas experimentais e industriais, e esse tipo de música interessou-me bastante também.

 

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