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Fozzy “Judas” [Nota: 7.5/10]

Jorge Almeida

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22405402_10155455528301195_1441155117752604145_nEditora: Century Media Records
Data de lançamento: 13 Outubro 2017
Género: hard rock

Há anos que ouvimos falar dos Fozzy. Aquando da explosão de popularidade da WWE no longínquo ano de 2003, tudo quanto pudesse ser relacionado com pro wrestling era perscrutado. Bem, pelo menos por o tipo a teclar, que ainda guarda o bilhete do primeiro Smackdown no Pavilhão Atlântico.

Das descobertas musicais desse tempo, o melhor que daí resultou foram os Alter Bridge (a “Metalingus” era o tema do Edge) e os Our Lady Peace – saudades, Benoit. Inversamente descobriu-se a abominação do álbum de estreia do John Cena e o tema do Shawn Michaels. Algures no meio deste espectro musical estavam os Fozzy.

O melhor que se pode dizer da fase incipiente da banda de Chris Jericho é que eram fruto do seu tempo. Infelizmente, este era o tempo em que não havia banda maior do que os Creed. E para um tipo que é do mais criativo no ringue e fora dele enquanto wrestler (e escritor, já agora), Chris Jericho, o músico, foi durante anos tão insípido como Becel sem sal numa côdea de esferovite. “Adult Alternative” é o que lhe chamam. Parece metal, tem distorção, baixos saturadíssimos, mas nenhuma da garra. É música pesada para ouvir numa mini-van com a família.

Mas aos poucos a banda foi ganhando notoriedade. Abriram para grandes nomes e imiscuíram-se num meio que lhes deu as credenciais metal que precisavam. O que nos traz aos dias de hoje e a “Judas”, o sétimo (!) álbum de originais.

Nada contra as referências religiosas. São um atalho mais ou menos fácil para dar intertextualidade aos temas e abrir várias leituras e um garante de que toda a gente que tenha estado marginalmente em contacto com o “bom livro” saberá como interpretar a mensagem.

O resultado varia. “Judas”, a faixa homónima, é um conceito e uma alegoria fácil de perceber: às vezes somos o nosso próprio inimigo e sabotamo-nos a nós mesmos. Simples, sem complicações e descolado o suficiente da história original ao atribuir a entidade que trai a um personagem interno. Agora, que devaneio sacrossanto é “Drinking With Jesus”? É porque Jesus é uma má influência? Canta-se “All alone and I’m drinking with Jesus” e “Fucked up, I’m drinking with Jesus”, e perguntamo-nos se é só a constatação de que Jesus está sempre connosco. É que se for esse o caso, e o tema for mais sobre solidão do que sobre álcool, a bebida poderia facilmente ser substituída por um vicio por Calipos de limão, o que é sintomático de uma ideia mal concebida.

E o álbum sucede-se nesta sequência de “uma no cravo e outra na ferradura”. Há ideias bem concretizadas, mas que não chegam para elevar o álbum acima das más. E já que falamos em “elevar”, deixem-me citar “Elevator”, como que ilustrando o argumento: “I’m your elevator, I’m gonna get you high”. Se fizesse uma crítica isolada a este tema era só um “lol” com tantos ós quanto o processador de texto me permitisse.

Mas para lá das insuficiências temáticas de “Judas” há ainda muito para apontar ao mais recente trabalho dos Fozzy. Há que dizer que não pode ser dado mérito o suficiente à banda por fugirem do cliché musical pop que grassa este género de rock alternativo. Não há muitos temas que acusem o esforço de querer ser orelhudos só porque sim. “Judas” é o mais próximo disso, mas a abordagem aos refrães é tão descomplexada que acaba por resultar a seu favor. Há peso nos riffs dos Fozzy e, apesar de todos os temas serem tão estruturados ao ponto da previsibilidade, são incrivelmente variados. O groove de “Burn Me Out” tem pouco ou nada a ver com o power metal de “Wolves At Bay”. A iron maidesca “Running With The Bulls” não parece feita pelas mãos que martelam em “Painless”. E o que achar do hip-hop dos anos 90 que faz uma perninha em “Three Days In Jail”?

Dificilmente se poderia dizer de um álbum em que tanto investimento parece ter sido feito em cada uma das faixas que o compõe que se trata de um trabalho pouco inspirado. “Judas” não é perfeito, mas é tão evidente que por detrás dele está uma banda que se importa que, à medida que o ouvimos, nos vamos afeiçoando a alguns destes temas. Mesmo àqueles que nos fazem procurar o fast forward não os acusaríamos de serem palha. Há, até nestes – olhando na direcção geral de “Wordsworth Way”, “Elevator” e “Capsized” -, ambição.

À medida que o papel de Jericho na WWE vai sendo recontextualizado para um veterano que surge para elevar talento, começa a valer a pena olhar para as outras vertentes do “melhor do mundo naquilo que faz*”.

E, porra, ainda estou a cantar os refrães de “Judas”.

* Desculpa CM Punk.

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Aborted “TerrorVision”

Pedro Felix

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Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 21 Setembro 2019
Género: death metal

Vinte anos volvidos sobre o lançamento da primeira demo “The Splat Pack”, os Aborted lançam este que é o seu oitavo álbum de originais. Nestes vinte anos, várias foram as vezes que estes belgas passaram pelo nosso país, tornando-se mesmo numa das bandas fetiche do SWR Barroselas Metalfest. A sua presença nos palcos lusos deve-se, em parte, à personalidade dos elementos da banda, mas maioritariamente por causa do death metal de qualidade que professam. “TerrorVision” não é excepção à regra, e traz-nos dez temas e uma intro de elevada qualidade. Mesmo para quem já conhece a banda e tem acompanhado o seu percurso, este trabalho pode-se revelar uma surpresa agradável. Em comparação com “Retrogore”, o seu predecessor, conseguimos sentir uma evolução, um aprimorar da sonoridade e da composição e execução dos temas. Quando se pensava que os Aborted tinham atingido o ponto de rebuçado, eis que surpreendem e sobem um pouco mais a fasquia.

Com um death metal sólido, as faixas, logo desde o arranque do tema-título a seguir à intro, revelam o que nos espera: uma barragem de riffs bem arquitectados, uma bateria avassaladora de assustadora precisão e uma voz poderosa que, no entanto, não torna as palavras imperceptíveis. As guitarras criam autênticas paredes sonoras, como se fossem uma orquestra de violinos demoníacos em perfeita sincronia e descarregam solos de precisão cirúrgica. Complexo, multifacetado e diversificado, o death metal apresentado pelos Aborted mostra-se sempre de fácil acompanhamento, sem nunca entrar em tecnicismos excessivos, apesar do nível alto de execução que exige.

Destacar algum tema em detrimento de outros seria uma injustiça para os preteridos, já que “TerrorVision” se mostra de pedra e cal, não só na qualidade de cada uma das suas composições como no conjunto de todas elas. Cada música é parte de um todo, sendo que se destaca sempre o tema que está a ser ouvido no momento. Os temas são de se apreciar como um todo e o álbum é de se ouvir e repetir uma e outra vez.

Nota Final

 

 

 

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Mantar “The Modern Art of Setting Ablaze”

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Editora: Nuclear Blast
Data de lançamento: 24 Agosto 2018
Género: sludge metal

Poucas bandas conseguem escapar-se de receber um rótulo no que toca à sua sonoridade, algumas podem até aceitá-los de bom grado e há outras, como é o caso de Mantar, que tornam este processo uma das tarefas mais difíceis que já tivemos. Foi sem grandes complicações ou pretensiosismos que este duo germânico conseguiu, desde o lançamento do seu primeiro álbum, enquadrar o punk e o black metal nos meandros do sludge.

Em apenas seis anos de carreira, e sobretudo desde o lançamento de “Ode To The Flame”, provou-se que esta assinatura sonora, tanto em palco como fora dele, lhes valeu um grande e merecido reconhecimento. É então através da Nuclear Blast que nos fazem chegar “The Modern Art of Setting Ablaze.” Este é o seu terceiro álbum de estúdio e volta a apontar holofotes na direcção de Hanno e Erinc, sem nunca se afastar da fórmula original, onde dois bastam para fazer o estrago de cinco ou mais.

“The Knowing” é a faixa introdutória, que rapidamente descontrai e prepara os ouvidos dos mais atentos para um dos momentos mais catchy deste trabalho: o riff inicial de “Age of the Absurd.” Os temas “Seek + Forget” e “Taurus” abrandam ligeiramente o ritmo, mas nem por isso desfalcam a descarga massiva de riffs memoráveis, que ficam alojados naquele sítio mais escondido e obscuro da nossa cabeça. Sempre sob a máxima ‘dois é bom, três é demais’, o ritmo galopante de Erinc nunca esmorece, juntando-se à voz e guitarra animalescas de Hanno, numa feroz contribuição para o build-up que sentimos ao longo destes doze temas.

A meio do álbum, o tema “Dynasty of Nails” chega acelerado e relembra que grande parte das raízes deste duo assenta efetivamente no punk. Mesmo com algumas oscilações de ritmo, o compasso abrasivo mantém-se e é apenas nos últimos “Teeth of the Sea” e “The Funeral” que podemos reconhecer um tom mais melancólico, onde a vertente mais doom da banda volta a merecer algum destaque.

Uma produção mais cuidada revela-se talvez uma novidade não tão bem-vinda neste terceiro trabalho. O registo mais limpo facilita a coesão entre faixas, mas descarta aquele som pantanoso, repleto de pormenores ásperos, a que já nos tínhamos habituado. Ainda assim, na maior parte do tempo, as letras dos temas compensam este ponto com linhas como “since you are born, you are waiting for death.”

Um álbum coeso e straightforward, com mais uma pitadinha de in-your-face do que lançamentos anteriores. Aqui não há direito a pausas para descanso.

Nota Final

 

 

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King Dude “Music To Make War To”

Diogo Ferreira

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Editora: Ván Records
Data de lançamento: 24 Agosto 2018
Género: blues / country / rock

King Dude não é um artista de massas, mas tem fãs leais por todo o mundo e ao fim de quase 10 anos é evidente que ajudou a modificar, para melhor, a cultura musical norte-americana. Se os primeiros discos eram direccionados às guitarras acústicas e já com muita atmosfera, em “Fear” (2014) introduziu a guitarra eléctrica, em “Songs Of Flessh & Blood – In The Key Of Light” (2015) surgiu com piano e em “Sex” revelou a sua faceta punk. Agora, com “Music To Make War To”, o músico adorado por tantas e tantos junta um pouco de tudo o que já fez.

Com a loucura de guerra como fundo, King Dude oferece uma mescla de country, blues, americana e rock, sempre, claro, com o seu cunho tão pessoal. Se a guerra provoca náuseas, desorientação e doença, a música de King Dude tenta curar tudo isso sem nunca omitir a negritude da base conceptual. A inaugural “Times To Go To War” apresenta uma faceta obscura e extremamente atmosférica, “Velvet Rope” atira-nos para campos sonoros relacionados ao rock, “I Don’t Write Love Songs Anymore” recorda-nos o post-punk de Inglaterra, “Dead On The Chorus” expõe mais uma vez uma inclinação punk, “In The Garden” apresenta uma paisagem sonora meia electrónica com loops cativantes, “Let It Burn” evoca uma espécie de cenário western e “Good And Bad” põe-nos à mesa de uma boîte envolta em fumo de cigarros onde, no palco, poderá estar uma cantora de vestido vermelho que chora ao lado de um saxofone.

Ao fim de sete álbuns, este “Music To Make War To” prova que parar e ficar numa zona de conforto não é o trato de King Dude. Relevando novamente que TJ Cowgill é parte importante da transformação da música underground norte-americana, este disco prova também que nunca sabemos ao certo o que acontecerá a cada álbum que é lançado. E isso é bom! Aliás, tem sido bom. Qualquer trabalho de King Dude é um must-have.

Nota Final

 

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