Futuro da Metal Hammer incerto; Realidade Ultraje | Ultraje – Metal & Rock Online
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Futuro da Metal Hammer incerto; Realidade Ultraje

metal-hammer-share-logoA Team Rock, grupo que controla as revistas “Metal Hammer”, “Classic Rock” e “Prog”, entrou em colapso financeiro. Como resultado, mais de 70 pessoas perderam os seus trabalhos a poucos dias do Natal, sendo que a empresa manteve apenas um total de sete funcionários para dar assistência aos administradores, que procuram agora uma solução.

Fundada em 2012, a Team Rock adquiriu os títulos acima mencionados à Future Publishing no ano seguinte, sendo também proprietária de marcas como os Golden Gods Awards e os Classic Rock Awards.

Isto significa que, de momento, não há escritores disponíveis em nenhuma das publicações, colocando em causa o futuro de revistas como a Metal Hammer.

Entretanto, Ben Ward, dos Orange Goblin, deu início a uma campanha de crowdfunding para ajudar todos os funcionários que foram despedidos. A campanha pode ser vista AQUI.

REALIDADE ULTRAJE

Notícias destas têm sempre um grande impacto para quem, como eu, está atrás de uma revista. Podemos até ver a Ultraje como uma equipa que joga num escalão inferior ao da Metal Hammer mas muitas das dificuldades são as mesmas, ainda que numa escala diferente. Para começar:

Este não é o nosso trabalho: Da direcção aos colaboradores, todos nós temos um outro emprego, o que significa que a Ultraje não é o nosso ganha pão e a nossa disponibilidade para a mesma fica limitada pelas responsabilidades que temos no nosso dia-a-dia.

Nós financiamos a Ultraje: Não temos uma empresa ou grupo a financiar o projecto e todos os custos relacionados com a revista são suportados por nós. As edições da Ultraje são sempre pagas com 15 dias de antecedência à saída das mesmas, o que significa que parte do nosso orçamento familiar é “desviado” para manter a revista viva, seguindo-se depois um período onde tentamos recuperar os nossos gastos e procuramos fazer algum lucro, de forma a que a próxima edição se torne mais auto-sustentável. A maior parte do valor arrecadado com a venda de publicidade de cada edição só nos chega após a saída da mesma e às vezes nunca.

A publicidade não paga a revista: É esta a principal razão pela qual a Ultraje é uma revista bimestral e não mensal. É difícil conseguir anunciantes e mais difícil do que consegui-los é mesmo mantê-los. Resolvemos então lançar a Ultraje apenas de dois em dois meses de forma a darmos 30 dias de “descanso” aos nossos anunciantes habituais e para termos também mais tempo de encontrar novos. Ainda assim, os valores para anunciar na Ultraje estão muito longe daquilo que precisaríamos para assegurar o futuro da revista, reduzir o preço de compra e ter este título disponível nas bancas em todo o país. É importante referir que nem sempre recebemos pela publicidade que entra nas nossas edições e que a Ultraje é sempre lançada conforme planeado, quer haja publicidade suficiente para suportar os custos da produção ou não.

As vendas também não pagam a revista: Os preços para produzir a Ultraje variam consoante a procura que a gráfica que imprime a Ultraje tem para este tipo de produto, ou seja, o preço ora aumenta ora é reduzido de X em X meses. Mas vejam este exemplo como o que acontece quando há alterações no preço da gasolina: ninguém nota quando é reduzido mas percebe-se facilmente quando é aumentado. Já o preço da Ultraje mantém-se igual, o que nos leva muitas vezes a vender a revista a um preço inferior ao custo de cada unidade.

O preço da Ultraje não é todo lucro: Aos €4,00 do preço de capa, subtraiam o valor de produção de cada unidade mais o montante gasto com portes de envio, plástico e impressão da morada. Quando não dá um valor negativo, o que nos sobra é uma migalhinha de um bolo já ele muito pequeno.

O CD tem custos: Algumas bandas podem achar que os €50,00 para a entrada numa das nossas compilações é um valor exagerado, um “roubo”, mas da mesma forma que a revista é lançada com ou sem publicidade suficiente, também o CD é lançado quer tenhamos 17 bandas ou 10. Fechar uma compilação torna-se um trabalho mais demorado e dispendioso do que fechar uma edição da revista, no entanto achamos que é um bom complemento à nossa publicação, dando um pouco mais de identidade ao que fazemos. Fabricamos um total de 1.000 unidades para cada compilação. Se conseguirmos 17 bandas a pagar €50,00 cada e subtrairmos os gastos com fees e portes de envio de unidades do CD para as bandas, dá-nos aproximadamente €40,00 por cada faixa. A produção dos CDs fica à volta de €600, dando-nos um lucro de apenas €80,00. Agora imaginem quando a compilação só tem 14 ou 15 bandas.

Esgotar não é sinónimo de fazer um monte de dinheiro: Já aconteceu ter falado do lado financeiro da Ultraje a certas pessoas e do outro lado ter ouvido com admiração: “Mas a Ultraje tem esgotado sempre!” Felizmente tem, mas vender todas as edições que temos disponíveis para o feito não significa que está a ser feito lucro. Como já foi dito, nem sempre é possível vender a revista a um preço superior ao custo de produção e nem todas as unidades podem ser vendidas, pois há sempre um número de revistas que são postas de lado para fins promocionais, o que significa que por cada edição de oferta, estamos a perder dinheiro com portes de envio e com o valor da mesma.

“Não pago para tocar mas quero a Ultraje de graça”: Esta podia dispensar comentários, mas infelizmente somos muitas vezes confrontados com esta situação. Cada página presente na Ultraje tem um custo e quando entrevistamos uma banda significa que estamos a pagar para a promover, sem exigir nenhuma contrapartida. Vejam as capas das nossas edições: todas as entrevistas são lá destacadas e nem todos os nomes que lá constam “vendem”. No entanto, no parecer deles, a Ultraje está obrigada a dispensar cópias gratuitas para todos os membros da banda.

“Eu até comprava mas…”: Há sempre um “mas”. Não somos ninguém para vos dizer o que podiam ou não fazer com o vosso dinheiro: ele é vosso. A Ultraje acaba por ser como uma banda de metal nacional: ninguém é obrigado a gostar só porque é de Portugal. Pode-se e deve-se respeitar, sim, mas eu também não dava dinheiro a uma banda que não ensaia, que não se preocupa em manter uma actuação ao vivo dentro daquilo que se entende como aceitável, que apresenta um produto fraco ou que não tem noção do que comenta nas redes sociais. E antes de dizerem que vão deixar de comprar a Ultraje porque “isto” e “aquilo”, lembrem-se que a revista é comprada online e que o processo de cada uma das encomendas é manual, o que significa que nós sabemos quem compra e quem não compra pois somos nós que imprimimos as moradas, que embalamos as revistas e que as separamos por código postal.

Tudo isto para dizer que é fácil falar. Difícil é conseguir ir contra tudo isto que foi falado e manter viva uma revista em papel, um projecto que tem tudo para correr mal. Desta forma, a Ultraje agradece a todos aqueles que compreendem não só a nossa realidade mas a de todas as revistas ligadas ao metal.

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