Gorguts: esculpindo uma pirâmide de pensamentos (entrevista c/ Luc Lemay) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Gorguts: esculpindo uma pirâmide de pensamentos (entrevista c/ Luc Lemay)

rsz_gorguts-7636b&w-jimmy_hubbardFoto: Jimmy Hubbard

«Gosto de adicionar uma estética nova em cada disco novo; não deixa de ser Gorguts.»

A ideia inicial de que 1993 se tratou de apenas mais um ano da década de noventa é rapidamente eclipsada se o assunto em causa for o death metal. De facto, foi um ano vintage para as edições de um subgénero musical em declínio mas ainda com vitalidade suficiente para que bandas como Death, Carcass, Morbid Angel, Atheist, Pestilence, Sentenced, Cancer, Suffocation, Benediction, Grave, Amorphis, Cemetery, At The Gates, Therion, Macabre, Dissection, Disincarnate, Dark Tranquility e Dismember, entre dezenas de outras, lançassem nesse período álbuns que são considerados hoje em dia fundamentais na colecção de qualquer apreciador de música extrema. Por essa altura, certas bandas seguiram o seu próprio caminho remando contra a corrente maioritária e geralmente pagando um preço bastante elevado pelo arrojo e criatividade.

Fruto de descontentamento com mais um lançamento igual a tantos outros, Cynic, Pestilence e Atheist são os três exemplos mais sonantes: juntamente com o facto de terem todos uma única palavra como título e de terem sido lançados em 1993, o ponto em comum dos álbuns “Focus”, “Spheres” e “Elements” é o factor revolucionário. De forma muito mais discreta, mas também nesse ano, os Gorguts deixaram para a posteridade a sua marca no estrato mais nobre do metal extremo com “The Erosion of Sanity”, indubitavelmente um trabalho de death metal, mas onde elementos como a utilização de um piano, composições invulgarmente complexas e arrítmicas e um baixo frenético aliado a uma bateria aparentemente descoordenada o tornaram num dos esforços pioneiros do que hoje chamamos de death metal progressivo.

Vinte e três anos passados sobre esse registo, os Gorguts editaram o seu último trabalho, “Pleiades’ Dust” (2016, Season Of Mist), um EP composto por uma única faixa dividida em sete andamentos. A primeira coisa que nos assalta é a diferença criativa patente em todo o trabalho – embora a complexidade musical de proa se mantenha, a toada seguida quase que roça o sludge numa oferta de death metal puramente experimental e caótico. Segundo Luc Lemay, guitarrista e mentor da banda, houve bons motivos para o lançamento do EP. «Antes de mais, sempre gostei de EPs. No passado, as editoras torciam o nariz a essa ideia – investir dinheiro num EP custava tanto como um álbum; era a produção, a promoção, a colocação no mercado… Depois as pessoas sempre ignoraram os EPs em detrimento dos álbuns, preferiam sempre esperar pelos álbuns. Eu adoro EPs, tenho uns poucos de Deathspell Omega, Meshuggah, etc. É por isso que, para mim, considero os EPs como álbuns pequenos, mas bastante poderosos. Felizmente, a Season Of Mist mostrou-se receptiva desde o princípio. Eu já tinha em mente gravar um EP com uma única faixa; eles disseram que sim, logo, perfeito. Não sabia como iria resultar, mas estou bastante satisfeito com o resultado.»

Considerado o parente pobre do LP, o EP é valioso para que fãs e imprensa possam acompanhar as bandas ao longo dos anos que decorrem entre o lançamento de longas-durações, como se se tratasse de uma nota de continuidade. Adicionalmente, podem apresentar curiosidades (remixes de temas, temas raros, covers e actuações ao vivo, entre outros), informações novas sobre caminhos igualmente novos trilhados pelas bandas e, geralmente, uma ideia do que esperar do próximo registo completo. Lemay concorda, mas revela que “Pleiades’ Dust” é um pouco mais do que apenas um EP: «Tive quase tanto trabalho com este EP como com um LP. Quando é um álbum, gosto de ficar pelos sessenta minutos, como aconteceu com o “Obscura”. O “From Wisdom To Hate” é um pouco mais curto, mas o “Colored Sands” regressa ao formato de uma hora. Compor um LP demora mais tempo, mas gosto de oferecer aos fãs muito material para que demorem mais tempo a digerir o material.»

«Tens que prestar atenção a todos os fãs, mas, principalmente, ser feliz e renovares-te enquanto compositor.»

Sejamos realistas: o Canadá não é, por excelência, o primeiro país em que pensamos quando o tópico em debate é o death metal e, muito menos, a vertente progressiva, experimental e avantgarde. É um facto de que existem bandas de metal de primeira linha como Voivod, Kataklysm, Zimmer’s Hole, Devin Townsend, Cryptopsy e Beyond Creation, mas nenhuma delas influenciou tanto o metal extremo como os Gorguts. Na verdade, se repararmos no trajecto discográfico da banda, cada novo disco é diferente do anterior, sempre mais ousado, sempre a tentar quebrar limitações e a mostrar uma banda que não se senta num sofá confortável durante um segundo que seja. «Cada disco que faço… [pausa] Há sempre dois lados para a questão. É bom fazer o que define a banda estilisticamente, pois é o que os fãs esperam. Depois, se te esqueces do que a banda representa, alguns fãs vão dizer que não gostam. Mas gosto de fazer sempre algo de diferente a cada álbum. É bom redefinir o som da banda, mas por exemplo, nunca tínhamos experimentado incluir drone na nossa música. Fui influenciado por música dark ambient desde que descobri Lustmord, o compositor, depois do “Colored Sands”. No registo seguinte quis fazer algo como isso e foi o que fiz. No entanto, ao fim de alguns álbuns começas a ter mais cartas no baralho, podes incluir solos mais progressivos, etc. Coisa que nunca aconteceu foi jogarmos as mesmas duas ou três cartas em cada álbum e, agora, podemos experimentar mais do que anteriormente. Gosto de adicionar uma estética nova em cada disco novo; não deixa de ser Gorguts, ainda consegues perceber que se trata da mesma banda, mas com a vantagem de podermos espantar as pessoas com essas novas estéticas. Mantém a banda viva e a avançar constantemente. Seja como for, nunca vais conseguir vencer: se fazes sempre a mesma coisa, então não varias; se fazes algo novo, então as pessoas preferem a veia mais tradicional. É um pau de dois bicos. No fim tens que prestar atenção a todos os fãs, mas, principalmente, ser feliz e renovares-te enquanto compositor.»

É interessante ouvir estas palavras de Lemay, mas, por outro prisma, somos levados a questionar esta direcção progressiva, passo após passo em direcção ao infinito. É válido questionar esta tendência pois, caso o vocalista se lembre de ouvir drum n’ bass (DnB) ou trip-hop e gostar, os fãs poderão associar uma coisa à outra e pensar que o próximo álbum de Gorguts tenha essas influências electrónicas. «Também há outra coisa a ter em conta: não é por eu gostar de música country que vou inserir um solo country num disco de Gorguts; quanto muito, o que poderei fazer é criar um projecto paralelo a Gorguts e onde posso dar asas à experimentação. Por vezes, as coisas são como são e não há nada de errado em experimentares à volta do DnB, mas há elementos de DnB que só funcionam até determinado ponto com metal. Nesse aspecto, acho que o dark ambient funciona muito bem, é perfeito. É muito negro, tem que ser música negra. Claro que podes misturar trip-hop, dark ambient e DnB na mesma panela, mas será que resulta? Em relação a ser interessante, sim, mas não me parece que resulte, e para isso mais vale teres um projecto paralelo com o qual possas experimentar.»

Dedicar toda uma carreira ao death metal não é pêra doce quando se trata de um género marginal, de nicho. Existem muitas bandas de topo do género que ainda mantêm trabalhos a tempo inteiro e que deixam o glamour de uma vida desafogada e ilusória para as bandas de rock ou pop. Ainda assim, certamente que deve ser recompensador chegar ao fim de quase 30 anos e estar satisfeito com aquilo que se faz, principalmente quando 2017 já é considerado por muitos o ano em que o death metal regressou com força. «Sim, não me posso queixar, tem sido excelente. Estamos a falar de um estilo que não obtém tempo de antena na rádio sequer e que durante alguns anos esteve desaparecido. Quando o som de Gotemburgo apareceu nos anos 90, o death metal não era uma prioridade, quanto muito seria secundário. Eu afastei-me da cena durante alguns anos, mas o que quero dizer com isto é que, embora o death metal nunca tivesse sido o estilo mais popular, sempre teve uma identidade muito forte e continuou a progredir, mesmo sem toda a atenção que o poderia ter auxiliado. Para mim, é muito assegurador saber que o género tem uma identidade tão vincada e que haverá sempre novas bandas a querer tocar death metal. Embora existam muitos clichés associados ao movimento, será sempre um género intenso como o caralho e é por isso que gostamos disso e que temos uma banda de death metal! [risos] Se eu tiver que tocar um tipo de metal, terá que ser death metal: os blastbeats, a afinação muito baixa, as vocalizações… [faz um falsete de death metal] Adoro todas as particularidades do estilo. Mas depois cabe-te a ti fazeres a tua própria cena e teres a tua própria voz no movimento.»

«Andamos em digressão e, quando acabar, vou fazer uma pausa de um ano e meio para tratar do novo álbum.»

Os Gorguts estão em digressão e já passaram alguns anos sobre o último longa-duração, mas o vocalista afasta quaisquer tentativas de levantar o véu sobre novas composições: «Andamos em digressão e, quando acabar, vou fazer uma pausa de um ano e meio para tratar do novo álbum. Tentei fazê-lo no fim do Natal passado, mas estávamos tão ocupados com a digressão que tudo o que compus me soou mal, pareciam versões aguadas de álbuns anteriores, soava mal. Neste momento posso-te dizer que ainda não iniciei nada. Não tenho pressa – quando me conseguir surpreender a mim próprio, que é o mais importante, o álbum será lançado. Será um LP e não outro EP. [risos] Mas podemos considerar fazer uma cópia especial para vocês, em triplo CD, para que possam ouvir três faixas de cada vez. [risos]»

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Entrevista: Diogo Ferreira / João Correia
Texto: João Correia

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