GrETUA: o sonho das nossas vidas (entrevista c/ Bruno dos Reis) | Ultraje – Metal & Rock Online
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GrETUA: o sonho das nossas vidas (entrevista c/ Bruno dos Reis)

29134327_1684841671572978_1568100749_n(Público no GrETUA)

GrETUA (Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro) é sinónimo para Cultura e Aveiro. Tem sido, aliás, um hotspot da cidade nos últimos anos, sendo que 2017 e este início de 2018 representam um espaço temporal muito positivo para a associação. Convergindo vários quadrantes artísticos, com especial afeição para a música e para o teatro, o GrETUA é um espaço de liberdade criativa onde todas as pessoas são recebidas de braços abertos para assistir a um concerto de rock ou a uma peça de teatro. Com muito amor ao que faz e às palavras que diz, Bruno dos Reis tem um olho no sonho e outro na crítica, o que nos proporciona uma entrevista honesta e profunda.

«O papel do GrETUA será sempre o de defender-se enquanto estrutura em primeiro lugar e, depois de garantida a sua sobrevivência, o crescimento e a expansão de uma plataforma que seja o trampolim artístico e cultural.»

O GrETUA não é um nome estranho na cidade de Aveiro, no entanto assistimos a uma espécie de revigoração do nome e do espaço durante 2017 e agora nesta primeira metade de 2018. A que se deve este crescimento?
O GrETUA tem vindo a crescer significativamente desde 2015/2016 com a entrada da direcção correspondente a esse ano lectivo, mas o seu crescimento tem sido, dentro do possível, sustentado. É normal que no último ano os saltos tenham sido maiores porque já tínhamos algumas infraestruturas técnicas e humanas que nos permitiam isso. É, em certa medida, um projecto a longo prazo – como não podia deixar de ser.
Crescer é talvez, apesar de tudo, uma palavra errada, porque o GrETUA já foi muito grande. Acompanhou a grande expansão do Teatro Universitário que houve no fim dos anos 80 e inícios dos 90, com Coimbra bem à frente. O que aconteceu depois disso foi que os elementos responsáveis por esse grande movimento deram o salto para estruturas profissionais. Se por um lado, em Coimbra, foi criada a Escola da Noite, em Aveiro os elementos que constituíam na sua maioria o grosso artístico e técnico do GrETUA deram o salto para a Efémero ou para fora da cidade. A verdade é que já todas essas pessoas trabalhavam em regime semiprofissional nos respectivos grupos académicos, e eram os seus pilares. Quando esses elementos deram o salto, o Teatro Académico afundou-se.
Com o aparecimento de Bolonha tudo se tornou pior. Se por um lado é inimaginável que um punhado de gente dos 18 aos 23 consiga ter a experiência, a perseverança e a visão para gerir e formar um grupo de, às vezes, várias dezenas de pessoas, e material técnico de milhares de euros, com a transformação das Universidades em meros locais de passagem de um, dois, com sorte três anos, a coisa torna-se ainda mais grave. Depois, existe um vazio ideológico em relação àquilo que deve ser um grupo de Teatro Académico. A malta mais afecta à palhaçada e à brincadeira que passa por isto, como quem podia passar por outro local de convívio e de criação de memórias ternas, acha sempre que os locais de Teatro Académico devem ser acima de tudo um lugar da experimentação da inexperiência, da diversão, da ingenuidade. E, num mundo ideal e platónico que não existe, talvez tivessem razão. No mundo real, onde estão a encabeçar estruturas que necessitam de manutenção, de capitalização, de condições que proporcionem uma devida formação académica (a palavrinha-chave), que proporcionem uma oportunidade de crescimento para o mundo profissional do Teatro ou para cursos superiores de Teatro, que proporcionem uma oportunidade de descoberta artística, de criação de crivo artístico – num mundo real, dizia eu, onde estes espaços são fonte de investimento (menor ou maior) das estruturas que os albergam, fruto de muito labor e voluntariado antepassado, a verdade nesse mundo é que um grupo de Teatro Académico não deve ser um lugar afecto à palhaçada e a algum género de brincadeira. Brincadeira sim, sempre, to act is to play, né?, mas não irresponsavelmente. E responsabilidade significa planeamento, crescimento, formação.
A nossa tentativa de afirmação enquanto Casa de Cultura, mais do que apenas Teatro, vem também neste seguimento mas sobretudo de uma vontade ainda mais profunda: é que os jovens de Aveiro nunca souberam ser politizados culturalmente pelas estruturas a quem confiam a sua formação. Aveiro nunca teve uma Cultura Jovem forte – se algum dia a teve não foi recentemente, e quando se tem uma Universidade que alberga mais de 15 mil estudantes, isto é criminoso. Tanto para o dito desenvolvimento dos jovens como para o da Cidade, porque fica a pergunta: que cidade cresceu sem o forte investimento dos seus jovens? Quando se pensa nas grandes cidades europeias contemporâneas, pensa-se sempre na dimensão que a sua força jovem tem. A sua capacidade política, cultural e artística. A sua força motriz. As revoluções são os jovens e o futuro é sempre revolução.
Por tudo isto, o GrETUA lançou-se e lança-se como a casa que tenta preencher este vazio na cidade, e era-nos óbvio que não podíamos ficar apenas pelo Teatro – mormente quando o nosso trabalho na área do Teatro chegou a níveis altíssimos quando comparado com estruturas do mesmo grau.

Apesar de tudo, Aveiro ainda tem uma população algo conservadora e vive de fases e estações – isto é, tanto surgem vários espaços alternativos como desaparecem logo a seguir e tem sido tudo muito centrado no turismo sazonal devido à afluência de espanhóis e franceses. Qual é o papel do GrETUA no meio disto tudo?
O papel do GrETUA será sempre o de defender-se enquanto estrutura em primeiro lugar e, depois de garantida a sua sobrevivência, o crescimento e a expansão de uma plataforma que seja o trampolim artístico e cultural não só dos jovens Universitários, mas dos cidadãos de Aveiro. Como estamos melhor defendidos do que espaços privados, é nossa obrigação conseguirmos apoiar todos os agentes culturais da cidade, aproximando-os cada vez mais. A Cultura não fica dentro de paredes – tem uma forma própria de expansão. Não podemos limitar-nos ao nosso campus Universitário; se estivermos a fazer um bom trabalho, então o nosso trabalho acabará por contaminar tudo o que existe à nossa volta. A Universidade deve e tem de ser uma força motriz da própria cidade. Nem toda a gente na cidade paga propinas, mas toda a gente na cidade oferece algo à Universidade que ela nunca teria de outra forma.
Numa altura em que a Cultura é utilizada como estratégia económica e turística, cabe-nos a nós sabermos aproveitar as oportunidades que isso nos oferece e sermos capazes de nos defender dos malefícios que isso acarreta. A especulação financeira e económica é sempre um meio perigoso para a Arte e muito pernicioso para a Cultura: compete-nos por um lado sermos o advogado do Diabo, por uma questão de sustentabilidade, e por outro o bastião da defesa de princípios e valores que consideramos inabaláveis . É uma ginástica complicada mas são os tempos complicados que vivemos. A nossa premissa é a criação de um futuro melhor, e para isso necessitamos de saber gerir o presente.

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A associação prima por uma agenda multicultural que vai da música – com concertos e jam sessions – ao teatro. O que é que uma pessoa pode esperar quando entra ali, seja para um concerto ou para uma peça de teatro? Isto é, acreditas que o GrETUA tem a estrelinha de nos fazer esquecer do mundo lá fora?
Eu acho maravilhosa a localização geográfica do GrETUA, que permite tudo isso. A ironia de ficarmos mesmo atrás do estabelecimento prisional também é de um requinte que propositadamente não se faria melhor.
Eu acho que uma pessoa pode esperar ser recebida com muita gratidão, porque toda esta gente sabe que só conseguirá continuar a trabalhar no que ama (mesmo que voluntariamente) graças ao apoio de toda a gente que os visita. Acho que pode esperar um nível de excelência que não existe em casas da mesma dimensão, mormente porque toda a gente que trabalha connosco não o faz por um salário, por uma obrigação ou por outra coisa qualquer. Fá-lo porque ama o que faz e quer, no seu fundo, que o próximo sinta o mesmo. É um pouco como quando mostras um filme a alguém e estás mais interessado na reacção que o filme causa na dita pessoa do que propriamente no filme.
Tudo isto soa um pouco ridículo no século em que vivemos – falar-se de amor ao Teatro, ou à Música, ou ao Cinema – foda-se, já todos crescemos cinicamente o suficiente para nos deixarmos levar por porras dessas –, mas a maravilha dos jovens é essa: é que ainda não são os cretinos que os mais velhos, na sua maioria, são. Os jovens ainda sonham, ainda são capazes da criação de ideais, ainda são impressionáveis e portanto, por vezes, impressionantes. Se quiseres dito em termos mais contemporâneos: ainda trabalham de graça. E em termos mais honestos: ainda criam e defendem ideais.
Espero que o GrETUA seja o ponto de encontro dessa gente toda, que vai desde os 18 (ou mais cedo) aos 60 (ou mais tarde). Espero que o GrETUA seja a oportunidade que eu não tinha quando cheguei à Universidade – e isso é uma coisa muito bonita.

Que actividades prestes a acontecer destacas nesta primeira metade do ano? Aproveita para deixar o convite…
Esta primeira metade do ano vai ser estafante. Já em Abril chegam as celebrações dos nossos ’39 anos de idade, com eventos espalhados pela cidade toda. Desde o Teatro Aveirense ao Mercado Negro, à VIC e ao Museu da Cidade. Será de 6 de Abril a 14 do mesmo mês. Depois segue-se outro mês infernal em Maio, com vários concertos e o Aveiroshima. Junho trará de novo a Supernova e uma estreia maravilhosa num espaço como o nosso: o GrETUA acolherá um espectáculo de teatro dos Artistas Unidos. Querem, genuinamente, maior orgulho que esse?
Convites ficarão sempre entregues, mas o que eu quero deixar mesmo, em nome de toda a gente que trabalha connosco e que nos apoia é: obrigado, vocês são todos o sonho das nossas vidas.

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Visita o Facebook do GrETUA -AQUI- para ficares a conhecer a sua programação cultural.

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