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Entrevistas

Grunt: no answers – just grind (entrevista c/ Boy-G)

João Correia

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DSC_0551(Grunt, no Vagos Metal Fest 2017. Foto: João Correia)

«Encaramos Grunt não apenas como um projecto musical, mas também como um projecto que engloba uma performance artística.»

Como diria Jack, o Estripador: “Vamos por partes.” Se, por um lado, é indesmentível que os Grunt são um dos casos mais sérios de música extrema nacional de sucesso, por outro é inegável que a abordagem estética da banda muito contribuiu para a quantidade de queixos a bater no chão a cada concerto: em palco, temas como a objectificação da mulher e do homem, a sodomia e toda a cultura BDSM são glorificados de modo a conciliar a agressividade musical com a visual… e resulta (ó se resulta, meus amigos!). Por tudo isto, é fácil de adivinhar que a imagética dos Grunt só é menos relevante do que a música, tal é a importância do teatro a que se assiste em cima do palco – uma mistura de perversão, masoquismo, sangue e realizações sexuais. Boy-G, mestre dominador e vocalista da banda, desenvolve o assunto despudoradamente: «Para nós, a estética complementa a nossa linha artística enquanto músicos e performers, e encaramos Grunt não apenas como um projecto musical, mas também como um projecto que engloba uma performance artística e que achamos que temos que materializar de forma realista e aproximada em relação ao conceito que queremos transmitir às pessoas. O aspecto visual é importantíssimo e a performance ao vivo catalisa de forma autêntica e inequívoca aquilo que queremos transmitir, o conceito dos nossos álbuns e a música que gravamos em estúdio.»

A aliar ao estilo musical e imagem da banda, a outra grande característica dos Grunt é que raramente tocam no país. Mais falados no estrangeiro do que cá, a banda já percorreu toda a Europa, obviamente com algumas datas em Portugal, das quais se destacam o SWR Barroselas Metalfest e o Vagos Metal Fest, este decorrido no princípio de Agosto, mas também os Estados Unidos da América já foram (des)agraciados pelo colectivo do Porto, que teve a oportunidade de tocar no mítico bar Saint Vitus, em Brooklyn, Nova Iorque. “Codex Bizarre”, o último registo da banda, foi lançado há cerca de dois anos e o número de concertos de promoção ao álbum por cá foram diminutos, o que leva a pensar sobre a aceitação do disco em terras lusas com tão pouca promoção. O frontman tem uma explicação lógica: «Não é que seja difícil tocar em Portugal, mas a nossa estratégia aponta para outro rumo. Não somos um país muito grande, com 10 milhões de habitantes; não sei qual a percentagem de pessoas que gostam de heavy metal, mas não é com certeza a grande minoria. Quem gosta do nosso estilo em particular é a uma minoria e se dermos cinco ou dez concertos por ano cá poderá ser excessivo e até aborrecer as pessoas. Entendemos que a estratégia dos concertos não passe por ser raro ou não, mas pelo prazer de ver um concerto diferente e que nunca viram. Cinco concertos por ano poderão não ser muitos, mas se calhar são excessivos para o território nacional e a nossa dimensão não nos permite tocar muito mais vezes. Também tem a ver com o negócio da música, com a lei da oferta e da procura: se nos convidam, temos todo o gosto em tocar. Se não, também não nos impingimos a ninguém.»

Falar sobre o Brooklyn sem referir Type O Negative é o mesmo que falar sobre o Vaticano e ignorar o Papa. Curiosamente, os “rapazes de verde” foram homenageados pelos Grunt duas vezes com as versões de “My Girlfriend’s Girlfriend” e “Red Water”, sendo que esta última resultou na perfeição. Podemos considerar que os Type O Negative piscam muito fugazmente o olho ao BDSM, mas isso não explica não só uma, mas duas versões de duas músicas de uma banda que, ainda de culto, não tem rigorosamente nada a ver com Grunt em termos musicais. Boy-G explica e impressiona com a explicação, afastando a ideia de ter sido uma experiência centrada na diversificação: «Não foi uma experiência, não foi disso que se tratou. Nos Grunt, somos todos fãs de Type O Negative e acho que toda a gente que gosta de heavy metal é fã de Type O Negative, porque é decididamente uma das melhores bandas que apareceu nesse panorama… Se é que podem ser considerados heavy metal. Pessoalmente, sempre os considerei uma banda muito sedutora e foi, provavelmente, uma das primeiras bandas de metal que ouvi. Acompanharam-me durante toda a vida, a mim e ao Boy-Z [baixista], e passámos ambos momentos musicais bastante ricos a ouvir Type O Negative. Foi uma banda que sempre nos inspirou a nível lírico e musical e da qual somos quase inseparáveis. Musicalmente, essa ligação poderá não ser óbvia, mas não há duvidas de que é uma banda que nos inspira. Não se tratou de um exercício jocoso, mas de apreciação genuína que temos por Type O Negative.»

DSC_0527(Grunt, no Vagos Metal Fest 2017. Foto: João Correia)

Perante tudo isto, é natural que os Grunt considerem que é mais fácil encontrar um certo público-alvo e até outras condições no exterior de que carecem em Portugal. Ainda que o panorama musical português tenha evoluído ao longo das décadas, cada cabeça – sua sentença, pois há sempre arestas que podem ser limadas para melhorar o movimento do heavy metal em Portugal. Se nos anos 80 não tínhamos nada e exigíamos mais, no presente temos demasiado e quase que imploramos para que a máquina abrande. «A pergunta é curiosa, até porque ainda há pouco falámos disso, no caminho para cá. Nota-se uma diferença de relacionamento entre as pessoas. Antigamente, penso que havia mais solidariedade e companheirismo entre as pessoas. Actualmente, a aproximação entre metaleiros é menos pessoal e emocional. Acho que, antes, as pessoas eram mais genuínas. Quanto a concertos e outros eventos, melhorou imenso desde há uns anos. Há festivais de Verão aos pontapés, todos com imensa qualidade, coisa que não se verificava não há muitos anos. Existem imensos festivais para todos os gostos, tanto mainstream como underground. Olha para este Vagos, por exemplo, em que existem bandas para todos os gostos – o festival está muito bem organizado, a produção é maravilhosa, a organização é muito dedicada… Acho que melhor do que isto não se pode pedir. Eu tenho sempre uma visão optimista, mas evoluímos imenso, excepção feita às relações interpessoais, e acho que estamos no bom caminho.»

Uma das grandes vantagens de entrevistar uma banda como Grunt é a fartura de temas que podemos abordar sem perder a objectividade. Seria tolice não a associar ao movimento BDSM que permeia a nossa sociedade. O BDSM é um movimento muito restrito e secreto, principalmente em países de moral acentuada, caso de Portugal geralmente, os novos intervenientes são sempre iniciados num clube ou círculo através de convite e, embora existam imensos encontros, só uma pequeníssima parte da população sabe o que é o quê, onde e como. Partindo do princípio muito seguro de que não existe uma banda mais ligada a esse movimento do que os Grunt, faria todo o sentido que o grupo nortenho já tivesse sido convidado a tocar numa dessas festas. «Já houve várias aproximações nesse sentido e para sondar a nossa disponibilidade para actuar nesse género de eventos. Até agora, a situação nunca se materializou porque esses eventos são direcionados a determinadas elites com um público bastante reduzido e os Grunt são uma banda de palco. Gostamos de interagir com mais pessoas, não só das que gostam de BDSM mas de música pesada, ou até que gostam apenas de música. Quando tocamos, gostamos de ser observados pelo público e tocar num evento desses com tão pouca gente não nos parece objectivo neste momento. Enquanto artistas musicais, o que nos interessa é estar em palco e tocar música não apenas pelo lado performativo, mas, claro, também pelo lado musical. Embora já tenha havido aproximações, não nos sentimos seduzidos por elas. As pessoas envolvidas nesses meios estão orientadas para aquilo e aquilo mesmo, o que esperam de um evento desses não passa por uma actuação musical. Bom, talvez algumas até esperem isso, mas são poucas. São eventos muito reservados e dirigidos a um público muito reduzido. Tivemos a oportunidade de tocar para um grupo mais alargado este ano no Eros Porto, ligados ao universo BDSM e nessa zona do evento, mas por situações burocráticas, não se proporcionou. No entanto, esse já seria o tipo de eventos a que estaríamos receptivos, estar num palco a fazer aquilo que gostamos. Para pouco público e fora de um palco, é complicado. Se for pouco público num bar, sem problema – já o fizemos imensas vezes pela Europa fora, não somos muito selectivos a esse nível. Mas tem que existir interesse a nível musical.»

«Nos Grunt inserimos no grindcore a música de que gostamos e que achamos que se enquadra na e que resulta com a banda.»

E o interesse musical que os Grunt cultivam junto do público não poderia ser mais distinto. A música electrónica em geral sempre teve uma forte ligação com o BDSM e a banda enfatizou e complementou o seu som de eleição (o grindcore) com algumas das vertentes mais agressivas de um género musical originalmente distante do outro. Ainda que refrescante e original, o verdadeiro factor surpresa do resultado final é um organismo muito bem sintetizado entre os dois estilos. Embora não seja a primeira vez que o metal extremo é mesclado com música electrónica, os casos de sucesso contam-se pelos dedos de uma mão. É sempre uma excelente forma de fugir da zona de conforto a que muitas bandas se remetem ao fim de alguns álbuns, mas também muito arriscado… A não ser, claro, que a experiência esteja assente em gosto pessoal e se saiba o que se está a fazer. «Acho que a música electrónica é transversal a este estilo. Somos todos grandes apreciadores de música electrónica – por exemplo, estivemos a ouvir Jamiroquai na viagem para cá. Sou um grande fã de Nine Inch Nails, que me influencia há muitos anos. Sou um grande fã de techno hardcore, ouço-o diariamente. O Boy-Z também é fã de alguns géneros electrónicos. A minha onda é mesmo o gabba e o frenchcore, que são duas linhagens bastante violentas, muito agressivas. Sempre tivemos gostos bastante ecléticos e, pela vossa pergunta, entendo que o interesse é saber se utilizamos a música electrónica em termos folclóricos, e posso dizer-te que não é tanto uma questão de inovação como é aquilo que somos. Nos Grunt inserimos no grindcore a música de que gostamos e que achamos que se enquadra na e que resulta com a banda.»

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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