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Entrevistas

Entrevista a Gustavo Vidal (Lança-Chamas)

Rui Vieira

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A Ultraje não tem memória curta. Para sermos melhores no futuro, nunca devemos esquecer o passado, as fundações de um determinado movimento. No caso concreto, falamos do underground metálico português, que teve em homens do leme, como o radialista António Sérgio, o seu auge. O nosso entrevistado trabalhou com o Mestre e, para além do Lança-Chamas, dinamizou a cena de forma independente com inúmeros projectos, musicais ou escritos. Uma coisa é certa: todos foram relevantes para o crescimento da cena metálica portuguesa. A Ultraje tem memória, por isso trazemos esta magnífica entrevista até vós. É o Gustavo Vidal.     

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Antes de mais, como está esse bichinho da rádio? A saudade do éter bate forte ou é apenas um (bom) passado?
Obrigado pelo convite para a entrevista, que me fez reviver alguns dos melhores momentos de um período da minha vida que hoje me parece ter sido há dois séculos. Sinceramente nunca deixei de ter o bichinho da rádio. Nos tempos em que estive rádio-activo fiz inúmeros programas. Para além do Lança-Chamas na Rádio Comercial e na Rádio Energia (NRJ), fiz o Metal Radical também na Rádio Energia (NRJ), a Boca do Inferno da Rádio Marginal (em substituição do Zica), o Siderurgia na Rádio Universidade Tejo (R.U.T) com o Paulo Fernandes e o Nuno Saldanha, o 107 Decibéis na Rádio Cidade, e colaborei com o Luís Filipe Barros no Rock Em Stock, e provavelmente mais algumas coisas que agora não me lembro. Adorei esses tempos. Sentia-me como peixe na água e fazia as coisas com um entusiasmo e dedicação totais. Apesar de na altura não haver tantos recursos como agora, quer de informação quer tecnológicos, sempre fui tendo acesso ao que de mais moderno havia, e fui construindo uma sólida base de contactos que me faziam a informação chegar com muita regularidade e em primeira mão. Esse conjunto de factores proporcionaram fazer um trabalho bastante competente e inovador para a época. Fiz o melhor que consegui e sinto-me bastante realizado com o que alcancei. Continuo a ter o bichinho da rádio e muita vontade de fazer coisas, mas já não estou tão envolvido como na altura. Já não conheço metade das bandas e deixei de acompanhar as novidades. Curiosamente, retomei recentemente algum contacto, graças ao meu filho Hugo (que tem agora 21 anos) e que me vai mostrando algumas coisas boas que vão surgindo. Mantenho contacto com alguns bons amigos que volta e meia lá me desafiam para ir a uns concertos.

Gustavo Vidal com Vanessa Warwick (MTV Headbangers Ball)

E sobre a escrita e dinamização da cena metálica? Ainda te dá aquela vontade de começar a escrever alguma coisa nova (tipo blog ou site) ou achas que o (teu) tempo já foi e as novas gerações que o façam? Agora é mais família, presumo…
Sinceramente não. Sinto que já não tenho muito a dizer em relação à cena metálica. Como disse, estou um bocado desactualizado em relação ao que foi feito nos últimos anos e não me sinto com competências para o fazer. Pontualmente sou desafiado a dar uns testemunhos sobre os anos em que estive activo (como é este o caso) e faço-o com todo o gosto, mas mais do que isto já é entrar em caminhos onde não me sinto confortável e sem competências para o fazer. Mantenho muito mais aceso o bichinho da rádio que o da escrita. Depois de me ter afastado dessas lides, recusei inclusivamente alguns convites para escrever para algumas publicações, precisamente por não me sentir com competência para fazer um trabalho decente. Também deixei de ter disponibilidade para me dedicar à música. Para além da família e dos amigos, descobri o gosto pela caminhada e pelos desportos-aventura, e é a isso que me tenho dedicado mais nos últimos anos. Mas guardo, contudo, óptimas recordações dos tempos em que escrevi para a Rock Power, Supersom e mesmo para o Renascimento do Metal. Guardo sobretudo óptimas recordações das pessoas e das bandas que conheci pelo caminho e com quem tive oportunidade de privar e de viver a vida nos bastidores.

Gustavo Vidal com Phil Anselmo (Pantera)

Para quem só agora tem conhecimento da tua pessoa, nomeadamente os mais jovens (até aos 30), podes elaborar uma breve descrição – com os momentos-chave – do teu percurso na rádio  e sobre os teus outros órgãos metálicos oficiais (como o fanclub Heavy Metal Zombies Paranoid e a fanzine Renascimento do Metal) que tanto marcaram uma época de 85-92?
O meu gosto pelo heavy metal surgiu no final dos anos 70, incutido pelo meu irmão, pelos meus primos e por um grupo de grandes amigos de infância e adolescência. Em 1984, eu (na altura com 14 anos) e o meu irmão (com 16), criámos o fã-clube Heavy Metal Zombies Paranoid. Basicamente a ideia era um endereço postal (que era a casa dos meus pais) para trocar correspondência com pessoal de outras zonas do país com os mesmos gostos. Aos poucos a coisa foi tomando alguma notoriedade e a malta de Lisboa começou a bater à porta, pensando que se tratava de uma associação com uma sede social, para se reunir. Determinado dia surgiu a ideia de fazer uma fanzine e juntou-se o pessoal todo para traduzir uns artigos de umas revistas, recortar umas fotos, colar numas folhas A4 dactilografadas e fotocopiar em A3, em formato jornal para se distribuir por correio. Desde o primeiro dia achámos que deveríamos ir mais longe, e para além de traduzir/piratear os artigos, teríamos que ter produção própria, criar os nossos próprios artigos e entrevistar as bandas, sobretudo as portuguesas que não tinham nenhuma outra forma de se dar a conhecer. Assim, em 1985, lá conseguimos arranjar, através dos amigos de uns amigos, o contacto dos Sepulcro e lá fui eu com o meu leitor de cassetes entrevistar a banda para a primeira edição. Para além de muita produção própria, tivemos o mérito de em todas as edições conseguirmos incluir uma entrevista com uma banda portuguesa. Isto à época era algo de inovador e nunca antes feito. Em todas as edições havia uma enorme curiosidade de saber quem era a banda portuguesa entrevistada. Muitas se deram a conhecer aí mesmo. Outras coisas que elevaram a fanzine ao nível de publicação de culto eram as fantásticas e criativas capas do Miguel Alvarez, influenciadas pelas ilustrações do Derek Riggs que fazia as capas dos discos dos Iron Maiden. Quando surgiu a Mark II do Lança-Chamas (em 1985), o António Sérgio lançou o apelo no programa a todos os fã-clubes para que enviassem material para divulgação e para intercâmbio de informações e de música que na altura era muito inacessível. Enviámos a fanzine com o contacto telefónico (que era o número de telefone da casa dos meus pais) e a Ana Cristina Ferrão (esposa do Sérgio) contactou-nos a dizer que gostou muito da fanzine e que queria falar connosco, e combinámos um encontro na Rádio Comercial na hora do Lança-Chamas. Aparecemos lá muito envergonhados e fomos extremamente bem-recebidos pelo Sérgio e pela Ana. Houve logo ali uma faísca qualquer que marcou o início de uma enorme amizade que durou para sempre. Tornámo-nos assíduos do Lança-Chamas. Levávamos muitos discos, que comprávamos em viagens ao estrangeiro ou que os nossos amigos iam arranjando e que de outra forma nunca tocariam no programa. Começámos a escrever algumas notícias e programas especiais sobre determinadas bandas, até que certo dia o Sérgio desafiou-nos para dar voz a algumas das coisas que íamos escrevendo para o programa. Comecei a fazer uma rubrica com notícias sobre as bandas portuguesas, que sempre foi a minha aposta e o factor diferenciador de tudo o que se tinha feito até então. Não era muito fácil arranjar todas as semanas três ou quatro notícias sobre uma cena que praticamente não existia, com um número muito reduzido de bandas e a maior parte delas com uma actividade praticamente nula, mas creio que foi essa necessidade de criar notícias que estimulou muitas bandas a gravarem demo-tapes e a improvisarem espectáculos ao vivo, uma vez que estava criado um aliciante e privilegiado canal de divulgação. Foi ali que demos a conhecer ao mundo inúmeras bandas portuguesas de renome que ainda hoje existem, como é o caso dos Moonspell, Alkateya, Ibéria ou Heavenwood.

Gustavo Vidal com Paulo ‘Scorp’ Fernandes

Podes descrever uma emissão típica do Lança-Chamas? Como era o processo no estúdio, nomeadamente com as ferramentas antigas?
Era uma coisa verdadeiramente épica. Muito mais do que se ouvia no ar. Aquilo era tão fervilhante que a determinada altura o António Sérgio nos disse: “Nós temos que passar a fazer a emissão com o microfone sempre ligado!” Havia sempre muita conversa com o microfone desligado. Acho que vivíamos todos fases muito inebriantes das nossas vidas, com muita criatividade e muito sentido de humor. Em cada emissão surgiam sempre muitas ideias novas que precisaríamos de viver várias vidas para as colocar todas em prática. O António Sérgio e a Ana Cristina eram dois génios criativos, com uma vivência extraordinária, extremamente cultos e interessados, não só musicalmente mas culturalmente também. Devoravam livros, liam revistas, contactavam muito com músicos estrangeiros, sobretudo ligados à música alternativa, fruto do Som da Frente que faziam também na Rádio Comercial. Eles eram um poço de cultura e transmitiam-nos isso com muita paixão e muito carinho. Partilhavam muitas histórias e muita informação. Cresci muito e evoluí muito com estas vivências. Havia muita necessidade de darmos o melhor de nós próprios para conseguir estar a um nível que não destoasse muito do nível deles. Foi uma escola de vida ímpar que me trouxe coisas absolutamente fantásticas. Muito gratificante. Foram fundamentais na minha formação. O António Sérgio era muito perfeccionista (herança dos seus pais que também vinham da escola da rádio). Todos os indicativos eram feitos em directo a cada emissão. Agulha do gira-discos no vinil e a voz a sobrepor-se, emissão após emissão, tudo em directo sem pré-gravações, sempre com o mesmo rigor, perfeccionismo e a mesma solenidade como se fosse a primeira vez ou uma gravação para um anúncio. A voz do Sérgio era muito grave e muito solene e havia muita autodisciplina de todos. Poderia estar a maior galhofa do mundo e a maior algazarra no estúdio, mas assim que a música acabava e o Sérgio abria o microfone, fazia-se um silêncio sepulcral imediato e natural. Apesar de estarmos sempre a vaguear por todos os assuntos com o microfone fechado, tínhamos bastante poder de concentração e sobretudo de improvisação. Foi uma escola absolutamente notável. Tanto eu como o Paulo Fernandes, e como o António Freitas, fomos uns enormes privilegiados por termos podido viver esta experiência e esta aprendizagem que pudemos transportar para as nossas vidas, não só profissionalmente mas sobretudo pessoalmente. Saímos todos muito mais enriquecidos e valorizados, bem preparados para outros desafios que se depararam nas nossas vidas. Foi um bilhete premiado da lotaria termos podido ser os aprendizes do Mestre.

Gustavo Vidal com António Sérgio (de barba)

Falar em Lança-Chamas é falar em António Sérgio, obviamente. Como o descreverias, pessoal e profissionalmente? Como foi trabalhar com ele?
O António Sérgio era uma pessoa extraordinária, muito culta e muito interessante, um poço de sabedoria em termos musicais e tudo o que tocava transformava-se em ouro. Ele tinha uma capacidade extraordinária de ouvir a coisa mais inovadora e diferente do mundo pela primeira vez e ao fim de 30 segundos pressentir que aquilo se iria transformar no maior sucesso à escala planetária. Aconteceu quando pusemos a tocar pela primeira vez os Guns n’ Roses ou os Nirvana. Ainda nós estávamos a ver a coisa a preto e branco e ele já estava a ver a cores com uma nitidez impressionante. Creio que isso não é uma coisa que se trabalhe ou que se aperfeiçoe, é um dom natural que ele tinha e que nunca voltei a ver em mais ninguém. Para além disso ele não tinha preconceitos nem castrações estéticas. Se aquilo era bom, ele tocava no Lança-Chamas, não interessa se era o Bon Jovi, os Cult ou Napalm Death. Ele tinha uma mente muito criativa e tinha uma necessidade contínua de inovar e de se desafiar. Lembro-me que chegámos a fazer um teatro radiofónico com uma história que envolvia umas bandas espaciais e eu fazia a voz de um robot que a determinada altura encravou e nos escangalhámos todos a rir em directo. Foi um desastre total. Não conseguimos continuar. Cada vez que ele abria o microfone para tentarmos recomeçar, havia uma catarse de riso geral e não conseguimos continuar. Mas isso fazia parte do programa e não nos impedia de experimentar outras coisas diferentes. O facto de ser um programa de autor e não estar sujeito a um formato específico pré-definido também nos deu muita liberdade para colocar em prática todas as ideias que queríamos. Volto a sublinhar, foi um privilégio gigante ter podido fazer parte disto!

Gustavo Vidal com Steve Harris (Iron Maiden)

Existe um pouco a ideia que o António Sérgio era o metálico de serviço mas, realmente, a verdadeira mola impulsionadora do Lança-Chamas não serias tu? “Estou certo ou estou errado”?
Não, isso é uma ideia totalmente errada. O Lança-Chamas era o somatório de todas as partes. Cada um de nós trazia as suas influências e as suas bandas descobertas para o programa. O António Sérgio tinha a mente muito aberta e era muito ecléctico. Acho que não haveria nenhum outro programa no mundo a conseguir conciliar os Canibal Corpse com os 38 Special, os Judas Priest, o Danzig, os Motörhead e a Diamanda Galás. Acho que esse atrevimento era a marca do António Sérgio e da Ana Cristina. A minha bandeira era mais a música nacional e acho que consegui transportar essa mentalidade para o Lança-Chamas, divulgando com o mesmo entusiasmo as propostas dos Grog, Sacred Sin, Ramp, do Francis, da Adelaide Ferreira ou dos Samurai. Sempre mantivemos a porta aberta a toda gente. Fomos tudo menos elitistas.

Gustavo Vidal com Tom Araya (Slayer)

Como foi o término do Lança-Chamas na Rádio Comercial e a sua transição para a Rádio Energia
Acho que nós tínhamos a perfeita consciência que o Lança-Chamas estaria a prazo na Rádio Comercial. Sempre que mudava a direcção da rádio (algo que acontecia com muita frequência), questionávamo-nos se o programa continuaria ou se seria cancelado. Acho que se o programa esteve tantos anos no ar, nem foi pelos elevados níveis de audiência, mas sim pelo enorme respeito que havia pelo António Sérgio. É claro que as ameaças de bomba que a rádio recebeu quando o programa foi cancelado pela primeira vez também devem ter ajudado. Acho que foi com naturalidade que aceitámos a extinção do Lança-Chamas na Rádio Comercial. Depois disso, o Sérgio Noronha convidou-me para fazer o Metal Radical diariamente na Rádio Energia e algum tempo depois o António Sérgio foi para a XFM, que era uma rádio-irmã da Rádio Energia e que funcionava no mesmo piso, paredes-meias. Ressuscitar o Lança-Chamas na Rádio Energia, acho que foi quase tão natural como existir. Os autores estavam ali no mesmo espaço físico, era só arranjar-lhes tempo de antena e deixar a magia acontecer.

Gustavo Vidal com Robb Flynn (Machine Head)

Sentes que, de alguma forma, os programas de rádio que integraste, mas também o fanclub Heavy Metal Zombies Paranoid e a fanzine Renascimento do Metal, ajudaram a moldar, cimentar e a construir uma cena metálica nacional mais forte e que (ainda) se reflecte nos dias de hoje?
Sinceramente não sei quais as influências remanescentes que subsistem nos dias de hoje porque não acompanho muito do que se passa hoje em dia, mas acho que na altura ateámos o rastilho de uma cena que não existia ou existia de forma muito pulverizada e sem qualquer repercussão. Demos visibilidade a uma série de bandas, de salas de espectáculos, de imprensa, divulgámos outros programas de rádio e criámos condições para que os seus projectos pudessem prosperar e chegar a um grande número de pessoas. Gostaria de ter feito mais e de ter feito melhor, mas acho que não desperdiçámos a oportunidade que nos foi dada e fizemos um trabalho com muito empenhamento e com muito carinho. Espero que tenha ajudado a melhorar a vida das pessoas envolvidas.

Fanzine Renascimento do Metal

Como vês a rádio de autor, hoje em dia? Ainda há espaço? Segues algum em particular?
Acho que haverá sempre espaço para programas de autor. Acho que se desperdiça demasiado tempo de antena com as mesmas músicas, que passam repetidamente até à exaustão em todas as estações. Acho que a rádio acaba por ser redundante. O único programa de autor que acompanho sempre que posso é o Hotel Califórnia, na Rádio Renascença, com o Paulino Coelho e o Júlio Isidro. Uma verdadeira delícia. Embora não me identifique muito com a música, as histórias que contam são absolutamente deliciosas. Sinto falta de uma rádio mais falada em que não sejam apenas uns tipos a mandarem umas bojardas sem jeito nenhum e a rirem-se a bandeiras despregadas, embora ache que também deva haver espaço para isso. O último programa que ouvi com alguma militância foi o do Zé Pedro (dos Xutos) na Antena 3, mas creio que já lá vão umas décadas.

Gustavo Vidal 2018

Uma pergunta final e inevitável: qual a mensagem que deixarias para rádios, bandas e restantes intervenientes na cena metálica portuguesa?
Não tenho nenhuma mensagem relevante para deixar. Vivemos tempos estranhos em que aparece no YouTube um vídeo viral de uma loura oxigenada com uma voz desafinada e obtém um sucesso planetário num fósforo, e há bandas com anos e anos de trabalho, com um talento que chega daqui até à lua e com uma qualidade que não cabe neste planeta, a lutar pela sobrevivência. As coisas são assim mesmo, são efémeras e desaparecem à mesma velocidade com que aparecem. A única coisa que posso recomendar é muito trabalho e muito espírito de resiliência. Manterem-se fiéis às suas convicções e tentar retirar algum prazer daquilo que fazem, independentemente, ou não, do sucesso que possam vir a alcançar.

Entrevistas

Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Entrevistas

Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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