Hallatar: transformar morte em arte (entrevista c/ Juha Raivio) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Hallatar: transformar morte em arte (entrevista c/ Juha Raivio)

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Falar sobre os recentes projectos de Juha Raivio (Swallow The Sun) é sinónimo de Aleah Starbrigde, a companheira e cantora do finlandês, que perdeu a luta contra o cancro em Abril de 2016. Ainda assim, os Trees Of Eternity (com Raivio e outros convidados) lançaram o álbum “Hour of the Nightingale” (2016) postumamente com a voz da sul-africana para, agora em 2017, Juha chamar Tomi Joutsen (Amorphis) e Gas Lipstick (ex-HIM) de modo a darem vida a Hallatar, uma banda de doom metal negríssimo com letras e poemas de Aleah. Daí surgiu o disco “No Stars Upon The Bridge”, que será lançado pela Svart Records brevemente. É sobre Hallatar e obviamente sobre Aleah Starbridge que se forma a seguinte conversa com Juha Raivio – seguramente umas das entrevistas mais difíceis, pelo peso emocional, levadas a cabo pela Ultraje.

«Nunca esperei, na minha vida, ter que escrever um álbum como este.»

“No Stars Upon The Bridge” ainda é parte do processo de luto ou é um alívio?
É profundamente ambos. É um alívio, porque consegui mandar cá para fora mais letras e músicas da Aleah como lhe prometi, e este álbum de Hallatar é o próximo passo para isso. Vou chorar a morte dela para sempre, todos os dias, e não há nada que possa fazer quanto a isso, mas trabalhar na sua música e letras é bom, traz algum consolo e luz – ao mesmo tempo é como espetar uma faca no coração.

O álbum é muito profundo e pesado como mil caixões a serem carregados – é por isso que perguntei se ainda é parte do processo de luto. Portanto, e tendo em conta que é a tua maneira de fazer música, percebeste desde cedo que o álbum tinha de soar assim?
Depois da morte da Aleah comecei a juntar toda a sua música e letras de forma segura e próxima do meu coração. Cedo percebi que tinha de escrever um álbum com origem em algumas letras e poemas dela.

Na press-release lê-se que compuseste as canções numa semana e que não tens memória desse período. Dirias que estas nove faixas são aquelas que, em toda a tua carreira, vieram directamente do coração sem pensares demasiado?
Quando decidi compor este álbum prometi a mim mesmo que não alteraria uma única nota à medida que a música surgisse – e assim fiz. Quis que toda a música deste álbum fosse 100% honesta e verdadeira para que saísse e se tornasse num modelo desse momento para sempre. Sempre me senti uma antena entre dois mundos quando escrevo música ou letras, portanto a ligação foi tão forte que nem tenho memória de compor este álbum – mas aqui está ele.

Podemos ver Hallatar como uma extensão de Trees Of Eternity, embora o som seja algo diferente. Portanto, por que não manteres-te com os irmãos Norrman (October Tide) e com Kai Hahto (Wintersun, Nightwish)?
Não haverá mais nenhum álbum de Trees Of Eternity com outra voz que não seja a da Aleah, portanto não quis fazer este álbum [de Hallatar] sob o mesmo nome. Mas compusemos uns 30 minutos de demos para o segundo álbum de Trees Of Eternity, e espero que nos juntemos futuramente para gravar as canções, talvez para um EP de Trees Of Eternity.

«Quando decidi compor este álbum prometi a mim mesmo que não alteraria uma única nota à medida que a música surgisse – e assim fiz.»

Então Trees Of Eternity é um projecto a abater? E Hallatar será um tiro único?
Como disse, não vai haver mais nenhum álbum de Trees Of Eternity porque perdemos a vocalista que era a alma e o coração da banda. Mas espero continuar com Hallatar, e tanto o Tomi como o Gas sentem o mesmo. Mas veremos isso no futuro – espero que haja um segundo álbum de Hallatar, porque adoro trabalhar e tocar com estes dois gajos que são artistas e pessoas maravilhosas.

Tenho de dizer que o Tomi Joutsen é uma escolha muito boa. Neste álbum berra como nunca na sua carreira. Quão satisfeito ficou com o convite e quão emocional foi pôr as letras da Aleah na boca dele?
Sou grande fã do Tomi e de Amorphis, e estou muito orgulhoso que o Tomi cante neste álbum. A voz dele é tão poderosa, mas também pode ser frágil e bonita ao mesmo tempo. A Aleah cantou no último álbum de Amorphis e eles eram amigos, portanto foi muito emocional para ele. Ele pôs todo o seu coração nas vozes e pode-se mesmo ouvir isso.

Hallatar é a verdadeira definição de se transformar morte e perda em arte. Dirias o mesmo?
Nunca esperei, na minha vida, ter que escrever um álbum como este, mas sim, acertaste em cheio. Este álbum destrói o meu coração, mas ao mesmo tempo sinto-me bem e traz algum consolo, porque sei que estou a carregar a chama da Aleah até às pessoas. Todos deviam ter a hipótese de, pelo menos uma vez na vida, ouvir a sua voz e ler as suas letras. Ela tinha verdadeiramente uma voz de escuridão e luz para lá do além, e agora está de volta à luz. Desde a primeira nota que soube que ela tinha uma voz do outro mundo, e agora está de volta onde pertence.

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