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Hammer King “King Is Rising” [Nota: 8.5/10]

Pedro Felix

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609157Editora: Cruz Del Sur Music
Data de lançamento: 11 Novembro 2016
Género: heavy metal

Em 2015, os Hammer King editaram o seu álbum de estreia, que dava pelo nome de “Kingdom Of The Hammer King”. Este trabalho bastante competente e de grande qualidade acabaria por ser totalmente obscurecido por este seu sucessor, “King Is Rising”.

Para quem não conhece os Hammer King, eles tocam uma forma curiosa de heavy metal onde às influências clássicas de uns Iron Maiden ou Judas Priest juntam a sonoridade típica do power metal alemão. No entanto, apesar de terem alguns temas mais rápidos e pesados, não deixam de ter uma sonoridade heavy metal, dando, assim, uma nova roupagem a uma sonoridade de todos já conhecida. Apesar do referido relativamente às influências, não deixam de ter uma sonoridade bastante própria e completamente moderna.

Os temas fluem pelo álbum com excelente ritmo, oscilando entre mais ritmados e mais lentos, sem nunca perderem o rumo nem traicionar as expectativas. Com forte presença de melodia, as músicas alicerçam-se nos refrões, mas nunca entram em pirosices e conseguem ter subjacente uma força constante que nos obriga a abanar a cabeça a todo o momento. Aliado as estas características temos uma exímia execução técnica, excelentes solos e a incrível amplitude da voz inconfundível de Kalle Keller.

Temas como “Last Hellriders” ou “Reichshammer”, como alguns outros, acusam a influência do tão característico cavalgar do baixo de Steve Harris, sua imagem de marca, e fazem-no de uma forma brilhante. Recheados de melodia, como já referido, os temas contagiam-nos com a sua energia e vivacidade e, quando damos por ela, estamos a inventar a letra porque queremos acompanhar a música cantando também, mesmo quando já não a estamos a ouvir. Toda a envolvência do álbum está recheada de energia positiva, e uma coisa é certa: é do melhor que há para animar o espírito.

Já que se mencionaram alguns temas, temos que apontar também o “Kingbrother” ou o “Eternal Tower Of Woe”, cheios de sentimento, mas sem nunca entrarem em modo balada. Noutro registo temos o excelente “Viva ‘La King”, com um misto de riff e batida inconfundível, onde a presença de castanholas, sim, leram bem, castanholas, lhe dá um toque único, uma classe à parte.

No global, um álbum de muita qualidade, que se destaca no panorama heavy actual e que, espera-se, seja seguido por mais do mesmo calibre.

“Forever we shall sing, the hammer is the king!”

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Rammstein “Rammstein”

Joel Costa

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Editora: Universal Music Group
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: Neue Deutsche Härte

Dez anos volvidos após o lançamento de “Liebe ist für alle da”, os Rammstein prometiam um regresso triunfante aos discos depois do lançamento de “Deutschland”, o primeiro single de avanço deste novo e muito aguardado álbum homónimo. O vídeo, que ofereceu um conceito visualmente rico, abriu de igual forma espaço para a controvérsia, algo a que já nos têm vindo a habituar desde que a bomba germânica explodiu na cena internacional há 25 anos.

Ainda que a banda se tenha mantido activa durante este longo interregno, uma ausência de dez anos exigia um disco em que o seu conjunto de temas se demarcasse de todos aqueles factores externos à música que tornaram os Rammstein na máquina de guerra que são, encontrando assim um equilíbrio entre a qualidade musical e tudo aquilo que faz com que sejam comentados, desde os seus concertos ao vivo cheios de energia e com uma dinâmica de fazer inveja a bandas com os mesmos (ou mais) anos de estrada, aos vídeos sensacionais e pouco ou nada familiarizados com o conceito de censura que fazem notícia nos jornais.

Assim, os Rammstein presenteiam-nos com uma banda-sonora à altura da componente cinematográfica com que sempre nos deliciou, apresentando riffs musculosos e desafiantes da autoria de um Richard Kruspe musicalmente renovado, ritmos dançáveis que exploram uma nova dimensão da identidade industrial do grupo – ouça-se “Radio”, “Ausländer” ou “Tattoo”, por exemplo -, e uma forte presença global com destaque para Till Lindemann, que desperta o desejo de com ele entoarmos os refrãos como se de um dueto se tratasse, e para as incursões electrónicas e atmosféricas do génio que é Christian Lorenz, que da melodia desenfreada de “Radio” à doce e arrepiante “Hallomann” mostra-nos o porquê de ser um elemento-chave e insubstituível no colectivo alemão.

Para aqueles que esperavam um disco mais pesado e distanciado da electrónica dançável, talvez este “Rammstein” deixe um sabor amargo. Contudo, este é um trabalho sólido que não evidencia grandes fraquezas, mostrando toda a sua versatilidade ao ir dos temas festivos já mencionados a abordagens mais direccionadas para o slow-tempo e com ares de balada, como “Diamant” ou “Was Ich Liebe”, não esquecendo o peso de “Deutschland” ou daquela que provavelmente será uma das melhores faixas do disco, “Zeig Dich”. Podemos ainda ouvir Till Lindemann a assombrar-nos em “Puppe”, numa prestação vocal repleta de dor e desespero, e, claro, a típica estrutura musical com a assinatura dos Rammstein marcada a ferro e fogo. Em suma, os Rammstein dão o passo de que precisavam para se distanciarem da reputação que construíram e para poderem ser vistos como algo mais do que uma banda que dá concertos memoráveis, entrando em 2019 com uma personalidade musical mais vincada e sem dar sinais de ceder. De referir também a arte escolhida para o disco, onde se pode apenas ver um fósforo. Talvez sejam os Rammstein a ameaçar todo o potencial e caos que esse fósforo pode trazer se se atreverem a acendê-lo.

Nota Final

 

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Full Of Hell “Weeping Choir”

João Correia

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Editora: Relapse Records
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: death metal / grindcore

O termo que melhor se adequa aos Full of Hell (FoH) terá obrigatoriamente de ser busy bees, que é como quem diz abelhinhas trabalhadoras. Ainda mal refeitos de “Trumpeting Ecstasy”, o disco anterior que foi definitivo para a consagração dos FoH a nível mundial, recebemos agora a bastonada que é “Weeping Choir”, álbum de estreia pela Relapse Records e que nos obriga a repensar todo o conceito de metal extremo. Se tivermos em conta, então, que a distância entre os dois discos é inferior a dois anos, podemos dar-nos ao luxo de problematizar o trajecto da banda que, entre outros, tem 31 (TRINTA E UM!) trabalhos realizados desde 2010, perfazendo, por excesso, uma média de quatro trabalhos por ano.

Ao contrário de “Trumpeting Ecstasy”, um disco de 23 minutos mais focado no grindcore com toques musicais de death metal e conceituais de black metal, “Weeping Choir” passa vigorosamente um apagador na fórmula do registo anterior para nos oferecer um trabalho cuja palavra de ordem é dinâmica. O grindcore continua a ser a base do novo longa-duração, mas a degeneração musical nele presente aponta para cumes mais elevados e descomprometidos, onde o black metal, o death metal, o avantgarde, o crust, o punk, o d-beat, o noise, o hardcore, a electrónica e muitos subgéneros de cada um destes subgéneros se unem uniformemente para enfrentar as cada vez maiores montanhas que os FoH teimam em escalar. Cordas de escalada?! Quais cordas de escalda? Isso é para meninos. “Weeping Choir” é um passo em frente na carreira dos FoH, mas sem com isso comprometerem a abordagem da carnificina auditiva, bem pelo contrário.

 

“Burning Myrrh”, vídeo-single de apresentação e a primeira faixa do disco, é um tema que os Portal gostariam de ter composto, tal é a mistura perfeita entre o death metal cavernoso e os gritos lancinantes de black metal tão bem representados pelos australianos. “Haunted Arches” é a continuação lógica do primeiro tema, ainda que mais orientada para o grindcore e algum experimental, tudo revestido numa capa de pouco mais de um minuto de comprimento. Segue-se-lhe “Thundering Hammers”, um tema de death metal clássico que não chega aos dois minutos, porque mais do que isso seria estragar o conceito. Por sua vez, “Rainbow Coil” é uma amálgama de noise, electrónica e música experimental bastante negra, puro avantgarde que só poderia ser um nado-morto dos FoH e onde a bateria brilha como em mais nenhum outro tema do disco. É por esta altura que “Weeping Choir” começa a ganhar contornos de prematuridade, de algo que é capaz de estar 15 anos à frente do seu tempo. Termina com o som de uma caixa de ritmos, que é como começa “Aria Of Jeweled Tears”, mais um tema que assenta arraiais no grindcore, no hardcore, na electrónica e na música experimental, que daqui em diante passa a ser uma constante.

Nem só de micromúsicas subsistem os FoH.  Com os seus 6:55 minutos, “Armory Of Obsidian Glass” remete para mais uma pletora de estilos: post-metal, doom, noise e sludge dão as mãos para criarem talvez o tema mais preocupante e assustador do registo, com os seus coros que mais parecem lamúrias dos condenados e as vocalizações de black metal norueguês, Dante-style. A seguinte “Silmaril”, a beirar os 75 segundos, adentra pelo death/grind base dos FoH, sendo talvez a faixa mais conservadora de todo o disco. O noise/experimental/death metal regressam em “Angels Gather Here”, que acaba de forma inesperada e original. Mas nem tudo são espinhos: com “Ygramul The Many”, os FoH abordam o clássico “História Interminável” (Neverending Story), mas de uma forma nada adequada para crianças, tal é o flagelo sonoro a que somos sujeitos durante minuto e meio, uma espécie de vergastada sónica assente no grindcore e no death metal. E se uma vergastada é castigo ligeiro, nada como mais outra administrada pela final “Cellar of DOORS”, o grito derradeiro e moribundo de “Weeping Choir”, que também não ultrapassa os 63 segundos.

 

Produzido por Kurt Ballou (Converge), talvez o maior especialista deste género de registos, “Weeping Choir” apresenta uma pegada sonora técnica irrepreensível, bem como uma clareza de pormenores superior. É provável que as maiores complexidades de captar o verdadeiro espírito sonoro dos FoH residam na tal dinâmica, explorada amiúde por Dylan Walker (voz) e Dave Bland (bateria), mas Ballou é um extraterrestre que possui um arsenal bastante avançado e que, assim, consegue dar conta do recado – pormenores nítidos como o som dos pratos e da tarola de Bland são o melhor exemplo disso. Assim como no disco anterior, a capa de “Weeping Choir” é uma ode à prosopagnosia, o que intensifica a experiência logo à partida. Não façamos confusões – na opinião deste escriba, “Weeping Choir” é, actualmente, o melhor disco do ano. Poder-se-ia referir uma panóplia de causas influenciadas pela música extrema do disco para isso, mas porque não abrir as portas da ousadia, da coragem, da insatisfação e até da abnegação voluntária em detrimento do todo? Porque “Weeping Choir” é tudo isto e mais; talvez a forma mais simples de o avaliar seja sugerir que o ouçam atentamente, dando atenção aos pormenores, às tramas muito complexas, digerindo-o lentamente. Dêem-lhe uma oportunidade. Afinal, é para vosso bem.

Nota Final

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October Tide “In Splendor Below”

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Editora: Agonia Records
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: death/doom metal

Uma referência do doom metal mundial, sempre com a presença do death metal na sua música, os October Tide lançam este ano o seu sexto álbum de originais, após o regresso ao activo no ano de 2009. É impossível negar a influência dos Katatonia na sonoridade da banda, já que o vocalista Jonas Renkse e o guitarrista Fred Norrman – ambos ligados à banda referida – se tornaram membros cruciais destes October Tide, ao longo da sua história, com uma forte influência no passado e presente do grupo.

Apesar das constantes mudanças de formação, essas foram determinantes para ir definindo um estilo muito próprio que vai buscar muito dos primeiros anos dos Katatonia, sobretudo na vertente mais death com um instrumental pungente e agressivo – sempre alicerçado com grande emotividade. O regresso do hiato, em 2009, sempre com novas formações, não comprometeu a sonoridade. Em “In Splendor Below”, novamente com um novo line-up, denota-se a crescente importância de Alexander Högbom (Demonical, Moondark), e as substituições verificadas na guitarra, bateria e baixo evidenciaram uma mudança para uma sonoridade mais death.

Apesar de um som mais agressivo e claramente influenciado pelo death metal, “In Splendor Below” continua a apresentar a emotividade de sempre, característica de uma banda de death/doom metal de excelente qualidade. No entanto, este disco é, em comparação com lançamentos anteriores, muito mais poderoso, onde o death é o traço mais evidente e presente ao longo das oito músicas e cerca de 45 minutos de pura pungência e agressividade. Mantendo elementos melódicos e atmosféricos em boa parte, sobretudo em “Winged Waltz”, “I, The Polluter” e “Seconds”, não se deixem enganar, pois apesar de muitas faixas conterem elementos melódicos e rítmicos, existe sempre uma transição para um lado mais agressivo e intenso como é o caso da incrível “We Died in October”, uma das melhores músicas do álbum. De ter em conta a presença de elementos de metal progressivo, com uma guitarra mais rítmica e mais complexa, tornando-se, em determinados momentos, no principal instrumento.

“In Splendor Below” pode tornar-se num sério candidato a um dos melhores discos de death/doom meral deste ano 2019. A produção do álbum é muito similar à produção de álbuns anteriores, mantendo uma componente muito sombria e depressiva, apesar da melodia presente em muitos dos riffs. Högbom é cada vez mais importante e o baixo de Johan Jönsegård revela uma maior inclinação pela complexidade instrumental, o que é sempre óptimo de ouvir num álbum de doom metal. Pode não ser o melhor álbum da sua discografia, mas é decerto um dos mais originais e mais complexos, com mais elementos de metal progressivo e de death apoiados pela emotividade sombria e depressiva de sempre.

Nota Final

 

 

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