Hammerfall: glória aos heróis do heavy metal (entrevista c/ Oscar Dronjak) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Hammerfall: glória aos heróis do heavy metal (entrevista c/ Oscar Dronjak)

hammerfall-landscape-2_2016Foto: Tallee Savage

«Os Hammerfall mostraram às pessoas que é na boa gostar-se de heavy metal melódico.»

Quem é da zona de Aveiro e recebe convidados sabe que muitas conversas começam por ovos-moles ou peixe – está-nos no sangue – e, sem saber disso, foi assim que Oscar Dronjak, guitarrista dos Hammerfall, se apresentou à Ultraje: «Comemos um peixe fresco, parecia que tinha sido pescado especialmente para nós. Muito, muito bom!» «É uma especialidade nossa», retorquimos, para depois levarmos a cabo aquilo que nos fez ir ao backstage do Vagos Metal Fest: falar de Hammerfall.

Os anos 90 foram tempos estranhos para o metal. De um lado tínhamos os melhores álbuns de death e black metal, do outro havia o grunge e o hip-hop que quase desfizeram a nossa cena, portanto devemos dizer – sem queixume – que vemos Hammerfall como a banda que carregou o som e o espírito do heavy metal naquela altura, com álbuns como “Glory to the Brave” (1997) e “Legacy of Kings” (1998). Oscar agradece e refere que é algo que vai ouvindo dizer, embora «não propriamente por essas palavras», prosseguindo depois: «Os Hammerfall, e outras bandas que apareceram naquela altura, mostraram às pessoas que é na boa gostar-se de heavy metal melódico. E também há bandas novas, o que é muito importante porque assim as pessoas podem envolver-se com elas em vez de apenas com as bandas mais antigas. Mas sim, ouço isso algumas vezes. Fico muito orgulhoso.»

“Built to Last” é o álbum mais recente, lançado em Novembro de 2016 pela Napalm Records, e estava escrito em todo o lado que era destinado a recuperar os dias de “Glory to the Brave”. Sem deixar que terminássemos a pergunta, Oscar intromete-se no nosso raciocínio: «Bem, nós não nos sentamos e dizemos ‘vamos recriar isto’. Não funciona assim. Mas por outro lado tivemos aquele sentimento de que estávamos bem. E quando escrevo música, escrevo-a baseado naquilo que sinto no momento; tenho que estar em casa e relaxado para conseguir trabalhar as canções na minha cabeça, não apenas três horas por dia ou uma hora antes de subirmos ao palco… Para mim não funciona assim, a minha mente tem de estar limpa. Tivemos uma pequena quebra antes do “(r)Evolution” e do “Built to Last”, porque perdemos a paixão…» Sim, e isso foi algo perceptível, tendo a crítica apanhado os Hammerfall de ponta em álbuns como “No Sacrifice, No Victory” (2009) e “Infected” (2011). O guitarrista confirma a nossa percepção e elabora: «Sentimo-nos esgotados. Andávamos naquele círculo de gravar, lançar, tocar. Foi algures por 2011-2012… Mas quando voltámos para gravar um novo álbum, sentimo-nos muito energizados e acho que é assim nos mantemos agora.»

E se pensava que nos tínhamos esquecido daquilo que íamos dizer (sobre “Built to Last” ter muito de “Glory to the Brave”), então enganou-se porque voltámos ao tópico, ao que responde não estar em desacordo, achando mesmo que «houve muita da energia e da paixão do primeiro álbum, especialmente na produção. Foi divertido e fácil gravar, e isso mostra-se na performance». Não conseguindo explicar melhor do que isso, afiança que «se te sentires bem é mais fácil equilibrares-te na crista da onda», o que o faz sentir-se «com mais energia agora do que há seis anos», tendo isso tudo a ver com o facto de, segundo o próprio, «estar onde estou agora na minha vida». Instando o músico sobre a hipótese de “Built to Last” ser sobre legado, diz que «de certa forma» o é, porque queriam que o título reflectisse o que são enquanto banda, revelando que o teve «num bloco de notas durante anos» e que «este era o momento perfeito para o meter cá fora».

 

Passando pela ideia de que o álbum soa a Judas Priest como nunca antes em Hammerfall (Oscar admite ser fã e concorda se dissermos isto desta forma), avançamos para as baladas. Há sempre uma nos discos dos suecos, sendo “Twilight Princess” o caso mais recente. Sobre a importância de tal abordagem num trabalho de Hammerfall, ou no heavy metal em geral, Dronjak assume a evidência: «Adoramos baladas e adoramos baladas heavy metal, por isso foi fácil. Ter uma balada é óptimo para manter a dinâmica de um álbum em vez de se terem dez faixas que soam mais ou menos ao mesmo. É esse o papel da balada. Acontece porque tenho ideias para baladas e acho que isso é muito importante para mim enquanto pessoa ou músico. Não sabia se conseguia fazer uma balada como essa, porque não sabia como tocar as melodias, mas é muito fácil compor baladas para a voz do Joacim. Ele canta-as tão bem… Ele canta bem em qualquer situação.»

Ainda bem que relembrou o colega e vocalista Joacim Cans, pois foi com ele e com o próprio Oscar Dronjak (afinal é o fundador da banda) que os Hammerfall cresceram em muitos de nós, mas também com Magnus Rosén (baixo), Stefan Elmgren (guitarra) e Anders Johansson (bateria). Já que foram três membros carismáticos e que já não fazem parte da formação de Hector (a mascote), quisemos saber como é que o mentor do grupo lidou com isto – de diferentes formas, claro. «Com o Magnus foi muito fácil, [porque] o Fredrik [Larsson, na banda desde 2007] tocou baixo no primeiro álbum. Quando o Magnus saiu [em 2007] tínhamos muitos festivais de Verão e tínhamos de continuar a rolar, por isso foi fácil de muitas maneiras. Com o Stefan foi mais difícil, porque… Baixo é baixo, não adiciona tanto a uma música como um solo. Foi mais difícil, mas o Pontus [Norgren, na banda desde 2008] é um guitarrista completamente diferente, o que tanto é bom como mau. Ele [o Pontus] é muito melhor em termos de musicalidade – é mais amplo –, mas o Stefan tinha a sua maneira especial de tocar e que encaixava muito bem nas canções.» Sublinhando que não se fizeram inimigos – até se encontraram com Magnus dias antes em Espanha –, o guitarrista confirma que com Stefan e Anders era tudo muito diferente, para melhor: «Saíamos com o Stefan depois das digressões, éramos amigos, fazíamos coisas em conjunto. Com o Magnus não tanto. Quanto ao Anders… Pensava que ia ser muito complicado. Era com ele que saía mais e fazíamos coisas em conjunto, era muito divertido estar com ele em digressão, mas depois encontrámos o David [Wallin, na banda entre 2014-2016] que, em muitas maneiras, era o oposto do Anders. O Anders era muito fluído, era muito… [esbraceja] Era um grande baterista, mas era muito espontâneo, enquanto o David tocava precisamente como queríamos, o que se enquadra melhor na nossa música. E acho que o Anders concordaria connosco. Infelizmente, o David não pôde continuar, porque tinha assuntos de família para tratar, mas agora temos o Johan [Kullberg, na banda desde 2016] e é a mesma coisa, [porque] toca da mesma forma [que o David] e isso ajuda nas canções.»

Já perto do final – os 20 minutos concedidos escasseavam –, chegou a vez de uma pergunta cliché e de remate final. Se há 15 anos se perguntava como estava o metal no geral, agora – com a popularidade do death metal, deathcore e até do black metal –, pergunta-se como está a saúde do heavy metal tradicional. Afirmando que a chama está viva e que as pessoas ainda querem ouvir e cantar heavy metal, Oscar Dronjak diz que «é diferente de há cinco anos, porque [as pessoas] estavam lá mesmo que não gostassem – não todos, mas uma parte da audiência». E continua: «Desde a digressão do “(r)Evolution” que o público tem mostrado que sabe por que é vai, para ter um bom momento, e adoram a banda. Já ninguém vai a um concerto de Hammerfall se não gostar, o que cria uma atmosfera muito melhor. Pelo menos 95% das pessoas sabem todas as letras, cantam connosco e têm um grande momento. Há muito dar e receber num concerto de Hammerfall e isso significa que o espectáculo é muito melhor. Para nós, em palco, agora é muito mais fácil tocar e muito mais divertido.»

Por tudo o que foi dito, previmos que o músico está mais feliz do que nunca. E é verdade: «Sim, diria que sim. Agora estou numa posição muito melhor na minha vida e carreira do que alguma vez estive.» A flama de Hector está viva e recomenda-se!

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