Ibéria: o tão (in)esperado regresso (entrevista c/ João Sérgio) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Ibéria: o tão (in)esperado regresso (entrevista c/ João Sérgio)

 

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Incontornáveis históricos do heavy metal nacional, os Ibéria não se limitaram a apenas regressar para capitalizar o passado apoiados na reedição dos seus dois primeiros álbuns, em 2008. Após um primeiro trabalho de 2011, “Revolution”, um álbum um pouco a duas velocidades, é agora, com “Much Higher Than A Hope”, que, verdadeiramente, se dá a revolução. Os reis do heavy nacional estão de volta, e em força, com um excelente trabalho, sólido, coeso e, acima de tudo, moderno mas sem desvirtuar o passado. Para sabermos mais sobre este trabalho, e outras questões sobre este fulgurante regresso dos Ibéria, falámos com o João Sérgio, baixista e mentor da banda.

«Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.»

Antes de passarmos para o novo álbum, recuemos um pouco. Em meados dos anos 1990 a banda desaparece do mapa e regressa no final da primeira década dos anos 2000. O que vos fez parar?
O que fez os Ibéria pararem em 1996 foi o aglomerar de muitas situações. Por um lado as mudanças musicais que se fizeram sentir no início dos 1990’s, que levaram a banda a não se conseguir encontrar e integrar no panorama vigente; por outro, os músicos andavam por outros projectos e sentimos que a essência dos Ibéria se estava a esfumar naquele momento. Tínhamos ficado sem editora e houve incidentes a nível pessoal que impediram alguns elementos de prosseguir a bom ritmo na banda. Tudo isso junto levou a que a banda decidisse suspender a sua actividade e esperar por melhores dias, o que veio a acontecer.

Pouco antes de pendurarem as botas, em meados dos anos 1990, lançaram uma promo com mais de uma dúzia de temas cantados em português. Porquê essa alteração na linha lírica? O facto de não o repetirem significa que não funcionou ou será que vamos voltar a ouvir os Ibéria a cantar na língua de Camões?
É verdade. Houve uma fase, de 1993 a 1996, em que decidimos alterar a estrutura musical da banda. O grunge estava na moda, todas as bandas de heavy metal mais clássico estavam a passar por um período de indefinição e de inadaptação ao panorama, como já referi anteriormente. Nós queríamos alterar as coisas e tentar a nossa sorte num outro formato, visto que o heavy metal, como nós o conhecíamos, não estava a resultar em parte alguma. Ao alterarmos pensámos em mudar as letras para Português. Tenho particular orgulho nalguns temas dessa fase (se bem que foram completamente “passados ao lado” pela maioria das pessoas, ainda mais que não houve registo delas, a não ser – e como dizes – em demo tapes e nos concertos ao vivo que demos com essa formação e repertório). Na altura lembro-me que houve algum frisson em torno da banda, de novo, mas penso que não teve o efeito boom que esperávamos. Dado isso, decidimos parar. O facto de isso ter acontecido não significa que não venhamos a cantar nada em Português. Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.

O álbum “Revolution” parece-me ainda muito agarrado à sonoridade do passado, enquanto que “Much Higher Than A Hope” dá um passo de gigante e exala uma sonoridade mais moderna, mesmo mais pesada, sem desvirtuar a essência dos Ibéria. Como comparas os dois álbuns?
São muito diferentes. O “Revolution” é um álbum de transição. É um álbum em que revisitamos quatro temas antigos, incluindo o clássico “Hollywood”, e onde temos alguns temas novos, já com alguma energia semelhante a este novo trabalho, como o “N.I.T.R.O.”, o “Angel”, o “Tired (Leave Me Alone)”, etc., num piscar de olho às pessoas para o que poderia estar para vir. Tínhamos estado parados 12 anos e não queríamos mostrar uns Ibéria totalmente diferentes, daí essa necessidade de transformação gradual, de inovação e de fazer “o salto” para uma sonoridade mais moderna e forte como a que apresentamos no “Much Higher than a Hope”.

Os Ibéria têm sido uma banda cuja formação tem sofrido muitas alterações, com saídas, entradas e regressos de elementos. Até que ponto esta rotatividade tem afectado a carreira da banda e, principalmente, o vosso som?
É inevitável isso acontecer se os elementos não estão de “alma e coração” nos projectos. Seja por que motivo for (pessoal, familiar, laboral, de gosto ou estética musical pessoal de cada um, etc.), basta haver algum problema com um elemento que afecta toda a orgânica duma banda, isso é universal. Afecta-te musicalmente, mas especialmente a nível estrutural, de trabalho e de estabilidade. Ninguém quer isso e durante estes 30 anos já passaram pelos Ibéria, desde o início em 1987 até hoje, 18 músicos integrantes, dos quais só eu estive em todas as formações. Se afectou a nossa carreira? Imenso. Poderíamos ter feito muito mais coisas em vez de termos estado a “perder tempo” a estabilizar a banda. É extenuante passares por esse processo de cada vez que isso acontece. Ensaios, preparar a banda, criar coesão, compor… Não é fácil. Apesar de tudo, os elementos dos Ibéria continuam amigos e somos uma grande família, é o que nos vale. A prova que conseguimos, apesar de tantas mudanças, continuar a trabalhar está neste álbum, conseguido à custa de muito trabalho e tempo perdido.

«O Hugo [voz] adaptou-se ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos”.»

Falando de mudança de elementos, todos os membros que têm passado pela banda são excelentes músicos, mas tenho que destacar a voz do Hugo, que está ao nível dos melhores dos melhores do género, algo raro nas bandas nacionais. Até que ponto esta capacidade e versatilidade influenciaram a composição dos temas deste álbum?
É óbvio que, quando tens um elemento com a voz e a capacidade de trabalho e entrosamento do Hugo, tens de obedecer a algumas regras e adaptar a banda ao seu estilo vocal. Por outro lado foi fácil, porque o Hugo adaptou-se também ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos” com a entrada do Hugo Soares para a voz e do Hugo Lopes para as guitarras. Aprendemos todos uns com os outros, com as nossas experiências, e compusemos em conjunto muita coisa. Algumas das composições já estavam feitas, mas levaram tantos arranjos que modificaram (para melhor) a sua métrica e a sua estrutura. No que concerne às letras, estas foram quase na sua totalidade feitas pelo Hugo, o que mostra a capacidade de adaptação dele e a influência que ele teve no produto final das canções deste novo álbum.

Olhando para trás concordas que este é, provavelmente, o melhor trabalho dos Ibéria, a sua verdadeira Fénix, e que a banda está numa forma que não acusa em nada a idade que tem, apenas a experiência acumulada?
Sim, ponho este álbum ao nível do primeiro, o “Ibéria”. Cada qual na sua altura, como é evidente (temos de ouvir os trabalhos e situá-los na data em que foram lançados, sempre, só assim fazem sentido). Se o “Ibéria” foi uma bomba na altura em que foi lançado e foi considerado um álbum muito à frente do que se fazia no momento em Portugal, recheado de boas canções, o que nos levou a tantos lados, temos agora, quase 30 anos depois, um digno sucessor com “Much Higher Than A Hope”, um álbum muito mais sério, mais amadurecido e mais coeso, com um som forte e actual. Penso que os Ibéria provaram com este trabalho que a idade está apenas no “BI” e acreditem que a experiência acumulada serviu e muito para conseguirmos fazer um álbum desta envergadura.

Tendo já apresentado o álbum no RCA, em Lisboa, como foi a resposta dos fãs? Como tem sido a receptividade do álbum desde o seu lançamento?
A resposta não pode ser mais positiva. De todo o lado surgem críticas excelentes ao trabalho; quando digo de todo o lado é de todo o lado mesmo! Estamos muito satisfeitos com o produto final e agora temos muito trabalho pela frente para o promover, mostrar, espalhar e para o levar às pessoas.

Para além da aprestação do álbum no dia 3 de Junho no Cave 45 no Porto, já têm planos para novos concertos?
Sim, óbvio. Os concertos do RCA e da Cave 45 são concertos de lançamento do disco nas principais cidades portuguesas como o são Lisboa e Porto. Mas mais concertos virão. Temos o concerto dos 30 anos da banda no dia 8 de Julho nas Festas da Baixa da Banheira, temos o Saramaga Rocks no dia 1 de Agosto em Vila Chã de Ourique (Cartaxo), temos o Milagre Metaleiro no dia 25 de Agosto (S. Pedro do Sul – Pindelo dos Milagres), entre outros. Já estamos a marcar concertos para o ano que vem e estamos em crer que vamos tocar muito ainda com este novo trabalho. Isto é apenas o começo!

«Perguntarem [às bandas] se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo.»

Sendo uma das bandas mais veteranas da cena nacional, como vêem a evolução que o metal nacional teve desde os anos 1980? Até que ponto a evolução tecnológica tem sido benéfica para a nossa cena?
Houve de facto uma evolução no metal e em toda a música nacional. Por um lado temos a componente tecnológica que melhorou imenso a todos os níveis, por outro o know how dos técnicos, dos músicos, das empresas de som, dos estúdios, etc. No entanto penso que regredimos nalguns pontos e isso é preciso frisar: continuamos a fazer as coisas de modo pouco organizado. Vê-se a carrada de festivais (muitos feitos sem condições e à pressa), vê-se a carrada de bandas (muitas sem grande qualidade – sempre houve) a proliferarem e a canibalizarem o espaço (por tuta e meia) que tanto custou a conseguir, e penso que as mentalidades não evoluíram muito quando vemos malta bem jovem a não ter nenhum respeito por bandas que são autênticas instituições do metal nacional. Não falo pelos Ibéria, falo por mim, é uma opinião pessoal. Tenho vindo a observar isso desde 2008, quando fizemos o nosso regresso. Têm “tudo”, não souberam dar o devido valor, e agora para eles “é tudo igual”. Não vês isto em lado nenhum, por esse mundo fora. Corre os festivais lá fora e vê o respeito que os veteranos têm quando partilham o palco com as bandas mais novas. Perguntarem aos Ibéria se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo. Serve para os Ibéria como serve para a maioria das bandas que andam aí aos anos e que desbravaram caminho para os de hoje, que muito respeito. Mas acreditem, isso não é “underground”: é falta de respeito e muita falta de educação. No entanto têm-se feito muitas coisas boas e há gente muito válida a trabalhar na cena, hoje!

Parabéns pela Medalha de Mérito Artístico e Cultural atribuída pela Junta de Freguesia da Baixa da Banheira. Creio ser caso raro, uma banda de metal nacional receber uma condecoração. Achas que, apesar de toda a evolução social, neste nosso país, o metal continua e continuará a ser marginalizado e a não ser reconhecido o seu verdadeiro mérito?
Olha, no nosso caso tivemos a sorte de nascer numa vila muito ligada ao operariado e à cultura ao mesmo tempo. As gentes da Baixa da Banheira sempre tiveram origens humildes e o seu carácter industrial deu a esta região uma ligação muito grande ao rock e à música mais pesada, como foi o nosso caso, desde miúdos. Mas apesar das suas origens humildes, sempre foram atentos à cultura, com um grande movimento associativo (muito forte nos  anos 1960, 1970 e 1980), onde era normal haver vários eventos de cultura, desde a música, às artes plásticas, ao desporto, ao ensino e à difusão da cultura em geral. Foram essas gentes, e os seus descendentes, que nos homenagearam e reconheceram o esforço, a dedicação e o empenho que sempre tivemos para lutar pela nossa música, sempre defendendo o nome da nossa terra sem qualquer vergonha, levando-a aos quatro cantos do mundo.
Quanto ao metal e o seu papel na sociedade: o metal sempre foi marginalizado e, no fundo, bem disfarçado, há-de sê-lo sempre. Quem é metaleiro de raiz sabe disso. É vulgar ver hoje as “pitas” com t-shirts de AC/DC, Ramones, Iron Maiden, etc., sem saberem o que significam. É chique, é fixe e pronto. Usa-se. Com sorte até “entramos no grupo”. Quando vejo artistas de pop merdoso a fazer o sinal dos horns, como o Ronnie James Dio, dá-me volta ao estômago. Quando temos apresentadores de eventos que não percebem um chavo de metal a comentarem o Rock In Rio, por exemplo, é caso para perguntar: “WTF are they doing?” Não foi para isto que lutámos tanto ao longo destes anos. Mas temos de aceitar, é um sinal dos tempos, concordemos ou não. Resta-nos continuar a luta por existirmos condignamente.
A nível das distinções no rock mais pesado, penso que os Moonspell já tinham sido agraciados pela Câmara da Amadora, os Alcoolémia pela Câmara do Seixal e o Francisco “Ricardo” Landum (nosso guitarrista e produtor inicial) pela Câmara da Moita e pela Câmara de Cuba, onde, inclusive, tem o seu nome numa rua. Se mais distinções houver, não tenho conhecimento.

A review ao álbum pode ser lida AQUI.

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