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Entrevistas

Ibéria: o tão (in)esperado regresso (entrevista c/ João Sérgio)

Pedro Felix

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Incontornáveis históricos do heavy metal nacional, os Ibéria não se limitaram a apenas regressar para capitalizar o passado apoiados na reedição dos seus dois primeiros álbuns, em 2008. Após um primeiro trabalho de 2011, “Revolution”, um álbum um pouco a duas velocidades, é agora, com “Much Higher Than A Hope”, que, verdadeiramente, se dá a revolução. Os reis do heavy nacional estão de volta, e em força, com um excelente trabalho, sólido, coeso e, acima de tudo, moderno mas sem desvirtuar o passado. Para sabermos mais sobre este trabalho, e outras questões sobre este fulgurante regresso dos Ibéria, falámos com o João Sérgio, baixista e mentor da banda.

«Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.»

Antes de passarmos para o novo álbum, recuemos um pouco. Em meados dos anos 1990 a banda desaparece do mapa e regressa no final da primeira década dos anos 2000. O que vos fez parar?
O que fez os Ibéria pararem em 1996 foi o aglomerar de muitas situações. Por um lado as mudanças musicais que se fizeram sentir no início dos 1990’s, que levaram a banda a não se conseguir encontrar e integrar no panorama vigente; por outro, os músicos andavam por outros projectos e sentimos que a essência dos Ibéria se estava a esfumar naquele momento. Tínhamos ficado sem editora e houve incidentes a nível pessoal que impediram alguns elementos de prosseguir a bom ritmo na banda. Tudo isso junto levou a que a banda decidisse suspender a sua actividade e esperar por melhores dias, o que veio a acontecer.

Pouco antes de pendurarem as botas, em meados dos anos 1990, lançaram uma promo com mais de uma dúzia de temas cantados em português. Porquê essa alteração na linha lírica? O facto de não o repetirem significa que não funcionou ou será que vamos voltar a ouvir os Ibéria a cantar na língua de Camões?
É verdade. Houve uma fase, de 1993 a 1996, em que decidimos alterar a estrutura musical da banda. O grunge estava na moda, todas as bandas de heavy metal mais clássico estavam a passar por um período de indefinição e de inadaptação ao panorama, como já referi anteriormente. Nós queríamos alterar as coisas e tentar a nossa sorte num outro formato, visto que o heavy metal, como nós o conhecíamos, não estava a resultar em parte alguma. Ao alterarmos pensámos em mudar as letras para Português. Tenho particular orgulho nalguns temas dessa fase (se bem que foram completamente “passados ao lado” pela maioria das pessoas, ainda mais que não houve registo delas, a não ser – e como dizes – em demo tapes e nos concertos ao vivo que demos com essa formação e repertório). Na altura lembro-me que houve algum frisson em torno da banda, de novo, mas penso que não teve o efeito boom que esperávamos. Dado isso, decidimos parar. O facto de isso ter acontecido não significa que não venhamos a cantar nada em Português. Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.

O álbum “Revolution” parece-me ainda muito agarrado à sonoridade do passado, enquanto que “Much Higher Than A Hope” dá um passo de gigante e exala uma sonoridade mais moderna, mesmo mais pesada, sem desvirtuar a essência dos Ibéria. Como comparas os dois álbuns?
São muito diferentes. O “Revolution” é um álbum de transição. É um álbum em que revisitamos quatro temas antigos, incluindo o clássico “Hollywood”, e onde temos alguns temas novos, já com alguma energia semelhante a este novo trabalho, como o “N.I.T.R.O.”, o “Angel”, o “Tired (Leave Me Alone)”, etc., num piscar de olho às pessoas para o que poderia estar para vir. Tínhamos estado parados 12 anos e não queríamos mostrar uns Ibéria totalmente diferentes, daí essa necessidade de transformação gradual, de inovação e de fazer “o salto” para uma sonoridade mais moderna e forte como a que apresentamos no “Much Higher than a Hope”.

Os Ibéria têm sido uma banda cuja formação tem sofrido muitas alterações, com saídas, entradas e regressos de elementos. Até que ponto esta rotatividade tem afectado a carreira da banda e, principalmente, o vosso som?
É inevitável isso acontecer se os elementos não estão de “alma e coração” nos projectos. Seja por que motivo for (pessoal, familiar, laboral, de gosto ou estética musical pessoal de cada um, etc.), basta haver algum problema com um elemento que afecta toda a orgânica duma banda, isso é universal. Afecta-te musicalmente, mas especialmente a nível estrutural, de trabalho e de estabilidade. Ninguém quer isso e durante estes 30 anos já passaram pelos Ibéria, desde o início em 1987 até hoje, 18 músicos integrantes, dos quais só eu estive em todas as formações. Se afectou a nossa carreira? Imenso. Poderíamos ter feito muito mais coisas em vez de termos estado a “perder tempo” a estabilizar a banda. É extenuante passares por esse processo de cada vez que isso acontece. Ensaios, preparar a banda, criar coesão, compor… Não é fácil. Apesar de tudo, os elementos dos Ibéria continuam amigos e somos uma grande família, é o que nos vale. A prova que conseguimos, apesar de tantas mudanças, continuar a trabalhar está neste álbum, conseguido à custa de muito trabalho e tempo perdido.

«O Hugo [voz] adaptou-se ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos”.»

Falando de mudança de elementos, todos os membros que têm passado pela banda são excelentes músicos, mas tenho que destacar a voz do Hugo, que está ao nível dos melhores dos melhores do género, algo raro nas bandas nacionais. Até que ponto esta capacidade e versatilidade influenciaram a composição dos temas deste álbum?
É óbvio que, quando tens um elemento com a voz e a capacidade de trabalho e entrosamento do Hugo, tens de obedecer a algumas regras e adaptar a banda ao seu estilo vocal. Por outro lado foi fácil, porque o Hugo adaptou-se também ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos” com a entrada do Hugo Soares para a voz e do Hugo Lopes para as guitarras. Aprendemos todos uns com os outros, com as nossas experiências, e compusemos em conjunto muita coisa. Algumas das composições já estavam feitas, mas levaram tantos arranjos que modificaram (para melhor) a sua métrica e a sua estrutura. No que concerne às letras, estas foram quase na sua totalidade feitas pelo Hugo, o que mostra a capacidade de adaptação dele e a influência que ele teve no produto final das canções deste novo álbum.

Olhando para trás concordas que este é, provavelmente, o melhor trabalho dos Ibéria, a sua verdadeira Fénix, e que a banda está numa forma que não acusa em nada a idade que tem, apenas a experiência acumulada?
Sim, ponho este álbum ao nível do primeiro, o “Ibéria”. Cada qual na sua altura, como é evidente (temos de ouvir os trabalhos e situá-los na data em que foram lançados, sempre, só assim fazem sentido). Se o “Ibéria” foi uma bomba na altura em que foi lançado e foi considerado um álbum muito à frente do que se fazia no momento em Portugal, recheado de boas canções, o que nos levou a tantos lados, temos agora, quase 30 anos depois, um digno sucessor com “Much Higher Than A Hope”, um álbum muito mais sério, mais amadurecido e mais coeso, com um som forte e actual. Penso que os Ibéria provaram com este trabalho que a idade está apenas no “BI” e acreditem que a experiência acumulada serviu e muito para conseguirmos fazer um álbum desta envergadura.

Tendo já apresentado o álbum no RCA, em Lisboa, como foi a resposta dos fãs? Como tem sido a receptividade do álbum desde o seu lançamento?
A resposta não pode ser mais positiva. De todo o lado surgem críticas excelentes ao trabalho; quando digo de todo o lado é de todo o lado mesmo! Estamos muito satisfeitos com o produto final e agora temos muito trabalho pela frente para o promover, mostrar, espalhar e para o levar às pessoas.

Para além da aprestação do álbum no dia 3 de Junho no Cave 45 no Porto, já têm planos para novos concertos?
Sim, óbvio. Os concertos do RCA e da Cave 45 são concertos de lançamento do disco nas principais cidades portuguesas como o são Lisboa e Porto. Mas mais concertos virão. Temos o concerto dos 30 anos da banda no dia 8 de Julho nas Festas da Baixa da Banheira, temos o Saramaga Rocks no dia 1 de Agosto em Vila Chã de Ourique (Cartaxo), temos o Milagre Metaleiro no dia 25 de Agosto (S. Pedro do Sul – Pindelo dos Milagres), entre outros. Já estamos a marcar concertos para o ano que vem e estamos em crer que vamos tocar muito ainda com este novo trabalho. Isto é apenas o começo!

«Perguntarem [às bandas] se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo.»

Sendo uma das bandas mais veteranas da cena nacional, como vêem a evolução que o metal nacional teve desde os anos 1980? Até que ponto a evolução tecnológica tem sido benéfica para a nossa cena?
Houve de facto uma evolução no metal e em toda a música nacional. Por um lado temos a componente tecnológica que melhorou imenso a todos os níveis, por outro o know how dos técnicos, dos músicos, das empresas de som, dos estúdios, etc. No entanto penso que regredimos nalguns pontos e isso é preciso frisar: continuamos a fazer as coisas de modo pouco organizado. Vê-se a carrada de festivais (muitos feitos sem condições e à pressa), vê-se a carrada de bandas (muitas sem grande qualidade – sempre houve) a proliferarem e a canibalizarem o espaço (por tuta e meia) que tanto custou a conseguir, e penso que as mentalidades não evoluíram muito quando vemos malta bem jovem a não ter nenhum respeito por bandas que são autênticas instituições do metal nacional. Não falo pelos Ibéria, falo por mim, é uma opinião pessoal. Tenho vindo a observar isso desde 2008, quando fizemos o nosso regresso. Têm “tudo”, não souberam dar o devido valor, e agora para eles “é tudo igual”. Não vês isto em lado nenhum, por esse mundo fora. Corre os festivais lá fora e vê o respeito que os veteranos têm quando partilham o palco com as bandas mais novas. Perguntarem aos Ibéria se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo. Serve para os Ibéria como serve para a maioria das bandas que andam aí aos anos e que desbravaram caminho para os de hoje, que muito respeito. Mas acreditem, isso não é “underground”: é falta de respeito e muita falta de educação. No entanto têm-se feito muitas coisas boas e há gente muito válida a trabalhar na cena, hoje!

Parabéns pela Medalha de Mérito Artístico e Cultural atribuída pela Junta de Freguesia da Baixa da Banheira. Creio ser caso raro, uma banda de metal nacional receber uma condecoração. Achas que, apesar de toda a evolução social, neste nosso país, o metal continua e continuará a ser marginalizado e a não ser reconhecido o seu verdadeiro mérito?
Olha, no nosso caso tivemos a sorte de nascer numa vila muito ligada ao operariado e à cultura ao mesmo tempo. As gentes da Baixa da Banheira sempre tiveram origens humildes e o seu carácter industrial deu a esta região uma ligação muito grande ao rock e à música mais pesada, como foi o nosso caso, desde miúdos. Mas apesar das suas origens humildes, sempre foram atentos à cultura, com um grande movimento associativo (muito forte nos  anos 1960, 1970 e 1980), onde era normal haver vários eventos de cultura, desde a música, às artes plásticas, ao desporto, ao ensino e à difusão da cultura em geral. Foram essas gentes, e os seus descendentes, que nos homenagearam e reconheceram o esforço, a dedicação e o empenho que sempre tivemos para lutar pela nossa música, sempre defendendo o nome da nossa terra sem qualquer vergonha, levando-a aos quatro cantos do mundo.
Quanto ao metal e o seu papel na sociedade: o metal sempre foi marginalizado e, no fundo, bem disfarçado, há-de sê-lo sempre. Quem é metaleiro de raiz sabe disso. É vulgar ver hoje as “pitas” com t-shirts de AC/DC, Ramones, Iron Maiden, etc., sem saberem o que significam. É chique, é fixe e pronto. Usa-se. Com sorte até “entramos no grupo”. Quando vejo artistas de pop merdoso a fazer o sinal dos horns, como o Ronnie James Dio, dá-me volta ao estômago. Quando temos apresentadores de eventos que não percebem um chavo de metal a comentarem o Rock In Rio, por exemplo, é caso para perguntar: “WTF are they doing?” Não foi para isto que lutámos tanto ao longo destes anos. Mas temos de aceitar, é um sinal dos tempos, concordemos ou não. Resta-nos continuar a luta por existirmos condignamente.
A nível das distinções no rock mais pesado, penso que os Moonspell já tinham sido agraciados pela Câmara da Amadora, os Alcoolémia pela Câmara do Seixal e o Francisco “Ricardo” Landum (nosso guitarrista e produtor inicial) pela Câmara da Moita e pela Câmara de Cuba, onde, inclusive, tem o seu nome numa rua. Se mais distinções houver, não tenho conhecimento.

A review ao álbum pode ser lida AQUI.

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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RDB: corridos à pedrada (entrevista c/ Micael Olímpio)

João Correia

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«Não julgues que te vais embora a falar mal da Covilhã», diz Micael Olímpio, baixista dos Raw Decimating Brutality (RDB), enquanto mete dois copos na mesa e abre uma garrafa de Grant’s Signature. O Micael convidou a Ultraje Magazine para dois dedos de conversa em sua casa para falarmos um pouco sobre “Era Matarruana”, o último trabalho do colectivo das antigas e profanas montanhas da Beira Interior. Ainda a entrevista não ia a meio e Micael já abria uma segunda garrafa, desta vez uma Logan de 12 anos. Tentámos recusar firmemente e educadamente a oferta, mas ele tanto insistiu que seria má educação passar. Copos puxam conversa e, entre outras coisas, falámos de Coimbra, do DJ A Boy Named Sue, de The Legendary Tigerman, do Barracuda Clube… Enfim, com uma conversa com o Micael percebemos que o país é bem mais pequeno do que se julga.

Primeiro whisky. “Era Matarruana”, sucessor de “Obra Ó Diabo!” em que os RDB passaram a pente fino a nobre arte da construção civil, é um disco que se encontra a universos de distância do seu predecessor no que toca a produção e instrumentalismo, mas é no conceito lírico que ele mais se distingue ao explorar a Proto-História portuguesa: os celtas, o paganismo, a importância da pedra no desenvolvimento da civilização, as montanhas por associação. Embora o género musical se mantivesse (grindcore), a primeira questão teria de incidir forçosamente no porquê de uma mudança lírica e conceitual tão radical e a prestar vassalagem ao misticismo dos pedregulhos. «Desde o princípio que os RDB abordam temáticas diferentes: o “Sperm To Grind Your Ears” está relacionado com esperma, o split está relacionado com estrume [risos]… Todos os temas têm uma relação pessoal connosco, ou com pelo menos um dos membros da banda, e quando debatemos essas ideias elas passam a ser transversais. No caso do “Obra Ó Diabo!”, centrámo-nos nas nossas experiências de putos nos anos 80, quando houve o boom da construção civil – íamos brincar para prédios em construção, fazer merda, e focámo-nos nesses tempos. Em relação ao “Era Matarruana”, o Daniel Gamelas [vocalista] tem uma grande proximidade com tudo o que tenha a ver com misticismo e deuses dentro da arte. Foi uma temática que ele quis explorar. No fundo, ele acabou por fazer investigação sobre esses tempos proto-históricos, achámos piada e acabámos por seguir esse conceito. O Daniel é que fez a maior parte da investigação, embora os nomes das músicas tivessem surgido nos ensaios – sempre foi assim com os RDB, desde a construção musical aos nomes dos temas, sempre em conluio uns com os outros.»

Segundo whisky. A pesquisa de que Micael fala é por demais profunda – por exemplo, “Reve Marandicui” é o nome de uma das principais deidades galaico-lusitanas do tempo dos celtas. Assim como esta faixa, os RDB falam amiúde sobre pedregulhos em temas como “Calhau no Quintal”, “Falos em Pedra” e “As Forças Ocultas dos Cromeleques”. Tudo isto indica um fétiche por pedras mas, embora o Daniel tivesse sido o criador do conceito, não ficou muito clara a forma como o vocalista surgiu com ele. «O Gamelas “trabalha a pedra”. [risos] Bom, não trabalha pedra, mas trabalha outros materiais. Eu não sou a pessoa mais indicada para falar de arte, mas ele é artista plástico. Parece-me que a escultura em pedra é uma das muitas facetas da escultura, pois os materiais com que geralmente trabalha não têm nada a ver com pedras. Pesquisámos sobre cromeleques e menires, que são coisas distintas, e escolhemos abordar esse temas porque ainda hoje não há uma conclusão generalizada sobre o propósito dessas esculturas, não sabemos para que serviam. Ritos funerários, fecundidade… Existem várias hipóteses, mas nenhuma é conclusiva. Derivado ao contacto que o Gamelas teve com a História da Arte, ele desenvolveu essa parte da História e, por outro lado, foi-nos explicando os períodos temporais. Ele situa o trabalho na Idade do Ferro. A cena dos cromeleques estava associada ao conceito e estivemos para ir gravar a Viseu, mas acabámos por gravar no Cromeleque dos Almendres. Sempre tivemos uma relação com tudo o que fosse de granito.»

Terceiro (talvez quarto) whisky. “Era Matarruana” apresenta nomes de faixas como “Chama Sacrifical”, “Devaneio do Homem Cabra” ou “Invocação da Serpente Colossal”. Se num álbum de black metal isto seria o prato do dia, num de grindcore é coisa mesmo muito rara, se não mesmo única. A própria capa do disco parece pertencer ao universo do black metal primitivo – um daqueles discos que, antes de o metermos a tocar, já sabemos o que vai sair dele. Imaginemos agora um fã de black metal incauto que comprasse o disco pela capa – o resultado seria o previsto, certamente. Quase que parece que os RDB decidiram gozar com a cena do black metal. «Nada, nada, nada. Muito pelo contrário, até porque o Daniel e o João [Rocha, baterista] ouvem black metal frequentemente; eu, nem por isso. Houve até acontecimentos dentro desse movimento que acabaram por ridicularizar o estilo, mas o nosso objectivo não teve nada a ver com isso. Na verdade, até é quase uma homenagem, pois sempre gostámos de música obscura, rápida e pesada. O humor dos RDB continua lá, mas existe uma seriedade à mistura que provém do nosso interesse pelo oculto.»

Pegando no ponto do humor, seria impossível não referir as letras – autênticas odes ao disparate repletas de aliterações, anáforas e onomatopeias. É basicamente impossível de entender as letras de “Era Matarruana” e, assim, ficámos sem saber de que tratam e a que se referem, se é que a alguma coisa. Embora mais sério que discos anteriores, “Era Matarruana” não é propriamente um exercício de conservadorismo. No entanto, ficámos surpreendidos pelo facto de os RDB terem ido até ao princípio da Humanidade e da tradição oral. «Falamos, por exemplo, de divindades; e acabámos por criar algumas. [risos] Em “Devaneio do Homem Cabra” estamos a falar de… de… de um Satanás que tem um devaneio [risos] e o devaneio dele é gritar, aterrorizar  as populações… E a música exprime isso – tem aqueles berros mais… Pá, só ouvindo é que irão perceber. A “Martelos de Larouco” tem a ver com uma divindade. Embora não existam muitos registos dela, trata-se de uma deidade minúscula que tinha um mangalho enorme. A “Sob a Égide do Deus Cornudo” fala por si própria – penso que toda a gente se aperceba do que estamos a falar. E depois há temas como “A Fonte de Onde Brotam as Bestas”, uma invenção nossa que fala simplesmente de uma fonte que, de onde deveria brotar água, brotam bestas. [risos] A “Ressurgimento do Indígena Serrano” está associada às gentes da serra – é quando o serrano se revolta contra os povos invasores. Pensa em Viriato, por exemplo. Em suma, interpretamos algumas lendas à nossa maneira e inventamos outras.»  

Passámos para o esforço da produção, também ele com uma qualidade cinco estrelas. “Era Matarruana” atinge um som moderno mas grave, podre mas bom. Este passo em frente significativo foi confiado a ninguém menos do que Miguel Tereso, que já dispensa apresentações nestas lides. É natural que, ao fim de tantos anos na cena, as pessoas cresçam, amadureçam e procurem um profissionalismo superior a todos os trabalhos anteriores. «Queríamos que as pessoas sentissem a rapidez, mas também o peso da cena com uma boa produção. Actualmente, o Miguel é a pessoa que está a fazer o melhor trabalho de produção em Portugal. Queríamos um som… [pausa] podre, mas o que mais queríamos era que fosse grave. Queríamos um som mais old-school por um lado, focado principalmente nas guitarras. Inicialmente, as faixas não eram tocadas assim, mas, se as tocássemos mais rápido, não se iria perceber. A solução foi dar também destaque ao baixo, que é um factor determinante no “Era Matarruana”. Ao fim e ao cabo, está uma produção muito mais limpa do que aquela a que os RDB estão habituados, mas é natural, pois também evoluímos. Por isso mesmo é que procurámos um gajo como o Miguel. Ficámos muito contentes com a produção final, sem dúvida. Depois, o Miguel é uma pessoa com quem é bastante fácil de trabalhar. Ele tem uma sensibilidade musical brutal, percebe de teoria da musicalidade e, se acha que não está bem, sugere que façamos de outra maneira. Assim, passou a ser mais um elemento da banda neste disco. Como já somos amigos há algum tempo, isso também facilitou a coisa em termos de relacionamento.»

Por esta altura parámos de beber e passámos a falar da responsabilidade de cada membro no que toca à continuidade da banda. Por exemplo, o Gamelas não vive na Covilhã. Ainda que os RDB sejam um passatempo, há que fazer a cena funcionar para que lancem um disco de tempos a tempos, pois é nítido que os elementos gostam da cena e que se divertem em palco. No entanto, com cada membro em seu lado, imaginamos que por vezes seja difícil conciliarem a vida pessoal/profissional com as obrigações da banda. «Na altura da composição marcamos ensaios mais intensivos, tipo um fim-de-semana, a cada 15 dias ou mês a mês, dependendo das nossas vidas particulares, e o mesmo acontece com as gravações. No caso dos concertos, normalmente fazemos um ensaio geral e cada um faz o seu trabalho de casa, tudo à distância. Tem de ser assim. Mesmo a nível de composição, por vezes trocamos música e juntamos tudo. Cada um tem a sua vida profissional. Por exemplo, o João está sempre a viajar, principalmente hoje em dia. Eu e o Daniel conseguimos flexibilizar as coisas, mas no caso dele é mais difícil. Isto cria-nos obstáculos – uma coisa é praticares as coisas em casa, outra completamente diferente é estarmos todos juntos a ensaiar. Há alturas em concertos que não vamos tão ensaiados como gostaríamos. Isto só se consegue com vontade e disponibilidade. Até aqui temos conseguido, de forma mais ou menos limitada. Os RDB nunca se intrometeram na nossa vida pessoal, isto é o nosso escape, porque nem sequer podemos pensar na banda como uma profissão. É um grupo de amigos que se junta quando pode para descarregar.»

Voltámos ao whisky e à última questão da entrevista. Depois da já lendária apresentação de “Era Matarruana” no XXI SWR Barroselas Metalfest, onde não faltou um menir de cartão com dois metros de altura em palco, faltava-nos saber qual o futuro próximo dos RDB em relação à promoção de “Era Matarruana”. «Tocámos em Junho no Noise Murder Ensemble Fest. Em Outubro há um acertado no Sublime Torture Fest, em Castelo Branco. Há possibilidade de irmos tocar ao Porto em meados de Setembro e, ainda nesse mês, tocaremos em Palencia, Espanha, num concerto de suporte aos Abbadon Incarnate. Para o Verão já está quase tudo acordado e combinado e as cenas mais pequenas param por causa dos grandes fests; logo, não temos nada programado para essa estação.»

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