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Ibéria: o tão (in)esperado regresso (entrevista c/ João Sérgio)

Pedro Felix

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Incontornáveis históricos do heavy metal nacional, os Ibéria não se limitaram a apenas regressar para capitalizar o passado apoiados na reedição dos seus dois primeiros álbuns, em 2008. Após um primeiro trabalho de 2011, “Revolution”, um álbum um pouco a duas velocidades, é agora, com “Much Higher Than A Hope”, que, verdadeiramente, se dá a revolução. Os reis do heavy nacional estão de volta, e em força, com um excelente trabalho, sólido, coeso e, acima de tudo, moderno mas sem desvirtuar o passado. Para sabermos mais sobre este trabalho, e outras questões sobre este fulgurante regresso dos Ibéria, falámos com o João Sérgio, baixista e mentor da banda.

«Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.»

Antes de passarmos para o novo álbum, recuemos um pouco. Em meados dos anos 1990 a banda desaparece do mapa e regressa no final da primeira década dos anos 2000. O que vos fez parar?
O que fez os Ibéria pararem em 1996 foi o aglomerar de muitas situações. Por um lado as mudanças musicais que se fizeram sentir no início dos 1990’s, que levaram a banda a não se conseguir encontrar e integrar no panorama vigente; por outro, os músicos andavam por outros projectos e sentimos que a essência dos Ibéria se estava a esfumar naquele momento. Tínhamos ficado sem editora e houve incidentes a nível pessoal que impediram alguns elementos de prosseguir a bom ritmo na banda. Tudo isso junto levou a que a banda decidisse suspender a sua actividade e esperar por melhores dias, o que veio a acontecer.

Pouco antes de pendurarem as botas, em meados dos anos 1990, lançaram uma promo com mais de uma dúzia de temas cantados em português. Porquê essa alteração na linha lírica? O facto de não o repetirem significa que não funcionou ou será que vamos voltar a ouvir os Ibéria a cantar na língua de Camões?
É verdade. Houve uma fase, de 1993 a 1996, em que decidimos alterar a estrutura musical da banda. O grunge estava na moda, todas as bandas de heavy metal mais clássico estavam a passar por um período de indefinição e de inadaptação ao panorama, como já referi anteriormente. Nós queríamos alterar as coisas e tentar a nossa sorte num outro formato, visto que o heavy metal, como nós o conhecíamos, não estava a resultar em parte alguma. Ao alterarmos pensámos em mudar as letras para Português. Tenho particular orgulho nalguns temas dessa fase (se bem que foram completamente “passados ao lado” pela maioria das pessoas, ainda mais que não houve registo delas, a não ser – e como dizes – em demo tapes e nos concertos ao vivo que demos com essa formação e repertório). Na altura lembro-me que houve algum frisson em torno da banda, de novo, mas penso que não teve o efeito boom que esperávamos. Dado isso, decidimos parar. O facto de isso ter acontecido não significa que não venhamos a cantar nada em Português. Os Ibéria fazem um pouco o que lhes dá na real gana e não sabemos se não vos surpreenderemos um dia destes.

O álbum “Revolution” parece-me ainda muito agarrado à sonoridade do passado, enquanto que “Much Higher Than A Hope” dá um passo de gigante e exala uma sonoridade mais moderna, mesmo mais pesada, sem desvirtuar a essência dos Ibéria. Como comparas os dois álbuns?
São muito diferentes. O “Revolution” é um álbum de transição. É um álbum em que revisitamos quatro temas antigos, incluindo o clássico “Hollywood”, e onde temos alguns temas novos, já com alguma energia semelhante a este novo trabalho, como o “N.I.T.R.O.”, o “Angel”, o “Tired (Leave Me Alone)”, etc., num piscar de olho às pessoas para o que poderia estar para vir. Tínhamos estado parados 12 anos e não queríamos mostrar uns Ibéria totalmente diferentes, daí essa necessidade de transformação gradual, de inovação e de fazer “o salto” para uma sonoridade mais moderna e forte como a que apresentamos no “Much Higher than a Hope”.

Os Ibéria têm sido uma banda cuja formação tem sofrido muitas alterações, com saídas, entradas e regressos de elementos. Até que ponto esta rotatividade tem afectado a carreira da banda e, principalmente, o vosso som?
É inevitável isso acontecer se os elementos não estão de “alma e coração” nos projectos. Seja por que motivo for (pessoal, familiar, laboral, de gosto ou estética musical pessoal de cada um, etc.), basta haver algum problema com um elemento que afecta toda a orgânica duma banda, isso é universal. Afecta-te musicalmente, mas especialmente a nível estrutural, de trabalho e de estabilidade. Ninguém quer isso e durante estes 30 anos já passaram pelos Ibéria, desde o início em 1987 até hoje, 18 músicos integrantes, dos quais só eu estive em todas as formações. Se afectou a nossa carreira? Imenso. Poderíamos ter feito muito mais coisas em vez de termos estado a “perder tempo” a estabilizar a banda. É extenuante passares por esse processo de cada vez que isso acontece. Ensaios, preparar a banda, criar coesão, compor… Não é fácil. Apesar de tudo, os elementos dos Ibéria continuam amigos e somos uma grande família, é o que nos vale. A prova que conseguimos, apesar de tantas mudanças, continuar a trabalhar está neste álbum, conseguido à custa de muito trabalho e tempo perdido.

«O Hugo [voz] adaptou-se ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos”.»

Falando de mudança de elementos, todos os membros que têm passado pela banda são excelentes músicos, mas tenho que destacar a voz do Hugo, que está ao nível dos melhores dos melhores do género, algo raro nas bandas nacionais. Até que ponto esta capacidade e versatilidade influenciaram a composição dos temas deste álbum?
É óbvio que, quando tens um elemento com a voz e a capacidade de trabalho e entrosamento do Hugo, tens de obedecer a algumas regras e adaptar a banda ao seu estilo vocal. Por outro lado foi fácil, porque o Hugo adaptou-se também ao estilo dos Ibéria e, ao fim e ao cabo, o que resultou mesmo foi esta simbiose entre os “velhos” Ibéria e os “novos” com a entrada do Hugo Soares para a voz e do Hugo Lopes para as guitarras. Aprendemos todos uns com os outros, com as nossas experiências, e compusemos em conjunto muita coisa. Algumas das composições já estavam feitas, mas levaram tantos arranjos que modificaram (para melhor) a sua métrica e a sua estrutura. No que concerne às letras, estas foram quase na sua totalidade feitas pelo Hugo, o que mostra a capacidade de adaptação dele e a influência que ele teve no produto final das canções deste novo álbum.

Olhando para trás concordas que este é, provavelmente, o melhor trabalho dos Ibéria, a sua verdadeira Fénix, e que a banda está numa forma que não acusa em nada a idade que tem, apenas a experiência acumulada?
Sim, ponho este álbum ao nível do primeiro, o “Ibéria”. Cada qual na sua altura, como é evidente (temos de ouvir os trabalhos e situá-los na data em que foram lançados, sempre, só assim fazem sentido). Se o “Ibéria” foi uma bomba na altura em que foi lançado e foi considerado um álbum muito à frente do que se fazia no momento em Portugal, recheado de boas canções, o que nos levou a tantos lados, temos agora, quase 30 anos depois, um digno sucessor com “Much Higher Than A Hope”, um álbum muito mais sério, mais amadurecido e mais coeso, com um som forte e actual. Penso que os Ibéria provaram com este trabalho que a idade está apenas no “BI” e acreditem que a experiência acumulada serviu e muito para conseguirmos fazer um álbum desta envergadura.

Tendo já apresentado o álbum no RCA, em Lisboa, como foi a resposta dos fãs? Como tem sido a receptividade do álbum desde o seu lançamento?
A resposta não pode ser mais positiva. De todo o lado surgem críticas excelentes ao trabalho; quando digo de todo o lado é de todo o lado mesmo! Estamos muito satisfeitos com o produto final e agora temos muito trabalho pela frente para o promover, mostrar, espalhar e para o levar às pessoas.

Para além da aprestação do álbum no dia 3 de Junho no Cave 45 no Porto, já têm planos para novos concertos?
Sim, óbvio. Os concertos do RCA e da Cave 45 são concertos de lançamento do disco nas principais cidades portuguesas como o são Lisboa e Porto. Mas mais concertos virão. Temos o concerto dos 30 anos da banda no dia 8 de Julho nas Festas da Baixa da Banheira, temos o Saramaga Rocks no dia 1 de Agosto em Vila Chã de Ourique (Cartaxo), temos o Milagre Metaleiro no dia 25 de Agosto (S. Pedro do Sul – Pindelo dos Milagres), entre outros. Já estamos a marcar concertos para o ano que vem e estamos em crer que vamos tocar muito ainda com este novo trabalho. Isto é apenas o começo!

«Perguntarem [às bandas] se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo.»

Sendo uma das bandas mais veteranas da cena nacional, como vêem a evolução que o metal nacional teve desde os anos 1980? Até que ponto a evolução tecnológica tem sido benéfica para a nossa cena?
Houve de facto uma evolução no metal e em toda a música nacional. Por um lado temos a componente tecnológica que melhorou imenso a todos os níveis, por outro o know how dos técnicos, dos músicos, das empresas de som, dos estúdios, etc. No entanto penso que regredimos nalguns pontos e isso é preciso frisar: continuamos a fazer as coisas de modo pouco organizado. Vê-se a carrada de festivais (muitos feitos sem condições e à pressa), vê-se a carrada de bandas (muitas sem grande qualidade – sempre houve) a proliferarem e a canibalizarem o espaço (por tuta e meia) que tanto custou a conseguir, e penso que as mentalidades não evoluíram muito quando vemos malta bem jovem a não ter nenhum respeito por bandas que são autênticas instituições do metal nacional. Não falo pelos Ibéria, falo por mim, é uma opinião pessoal. Tenho vindo a observar isso desde 2008, quando fizemos o nosso regresso. Têm “tudo”, não souberam dar o devido valor, e agora para eles “é tudo igual”. Não vês isto em lado nenhum, por esse mundo fora. Corre os festivais lá fora e vê o respeito que os veteranos têm quando partilham o palco com as bandas mais novas. Perguntarem aos Ibéria se estão disponíveis para irem tocar num fest numa vila qualquer em troca de uma sandes para cada um e uma grade de cervejas, é, no mínimo, absurdo e ofensivo. Serve para os Ibéria como serve para a maioria das bandas que andam aí aos anos e que desbravaram caminho para os de hoje, que muito respeito. Mas acreditem, isso não é “underground”: é falta de respeito e muita falta de educação. No entanto têm-se feito muitas coisas boas e há gente muito válida a trabalhar na cena, hoje!

Parabéns pela Medalha de Mérito Artístico e Cultural atribuída pela Junta de Freguesia da Baixa da Banheira. Creio ser caso raro, uma banda de metal nacional receber uma condecoração. Achas que, apesar de toda a evolução social, neste nosso país, o metal continua e continuará a ser marginalizado e a não ser reconhecido o seu verdadeiro mérito?
Olha, no nosso caso tivemos a sorte de nascer numa vila muito ligada ao operariado e à cultura ao mesmo tempo. As gentes da Baixa da Banheira sempre tiveram origens humildes e o seu carácter industrial deu a esta região uma ligação muito grande ao rock e à música mais pesada, como foi o nosso caso, desde miúdos. Mas apesar das suas origens humildes, sempre foram atentos à cultura, com um grande movimento associativo (muito forte nos  anos 1960, 1970 e 1980), onde era normal haver vários eventos de cultura, desde a música, às artes plásticas, ao desporto, ao ensino e à difusão da cultura em geral. Foram essas gentes, e os seus descendentes, que nos homenagearam e reconheceram o esforço, a dedicação e o empenho que sempre tivemos para lutar pela nossa música, sempre defendendo o nome da nossa terra sem qualquer vergonha, levando-a aos quatro cantos do mundo.
Quanto ao metal e o seu papel na sociedade: o metal sempre foi marginalizado e, no fundo, bem disfarçado, há-de sê-lo sempre. Quem é metaleiro de raiz sabe disso. É vulgar ver hoje as “pitas” com t-shirts de AC/DC, Ramones, Iron Maiden, etc., sem saberem o que significam. É chique, é fixe e pronto. Usa-se. Com sorte até “entramos no grupo”. Quando vejo artistas de pop merdoso a fazer o sinal dos horns, como o Ronnie James Dio, dá-me volta ao estômago. Quando temos apresentadores de eventos que não percebem um chavo de metal a comentarem o Rock In Rio, por exemplo, é caso para perguntar: “WTF are they doing?” Não foi para isto que lutámos tanto ao longo destes anos. Mas temos de aceitar, é um sinal dos tempos, concordemos ou não. Resta-nos continuar a luta por existirmos condignamente.
A nível das distinções no rock mais pesado, penso que os Moonspell já tinham sido agraciados pela Câmara da Amadora, os Alcoolémia pela Câmara do Seixal e o Francisco “Ricardo” Landum (nosso guitarrista e produtor inicial) pela Câmara da Moita e pela Câmara de Cuba, onde, inclusive, tem o seu nome numa rua. Se mais distinções houver, não tenho conhecimento.

A review ao álbum pode ser lida AQUI.

Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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