Inquisition: horrores cósmicos e infinidades insondáveis (entrevista c/ Dagon) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Inquisition: horrores cósmicos e infinidades insondáveis (entrevista c/ Dagon)

rsz_2017-04-28-235440_swr_xx_dia_1_inquisitionInquisition @ XX Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«Sou inspirado pelos contos antigos de vida extraterrestre e interpreto o que compreendo.»

«Os Melvins são da minha cidade!», diz-me Incubus (bateria) com um sorriso enorme ao olhar para a minha t-shirt. «Já tiveste oportunidade de os ver ao vivo? Tens mesmo que ver, são excelentes!» Assim começou o meu contacto cara a cara com os Inquisition. Actualmente, e se quisermos quantificar a excelência no círculo do black metal, não será descabido apontar os Inquisition como uns dos principais porta-vozes de um género que atravessa tempos bastante interessantes devido a colectivos como The Ruins of Beverast, Cobalt e Oranssi Pazuzu, que desbravaram mato para revelar novos caminhos. Alheios a muita experimentação, os Inquisition continuam a primar pelo seu black metal clássico, mas sempre exclusivo. Prova disso é o facto de, com apenas dois membros, terem conseguido lançar a proeza que é “Bloodshed Across the Empyrean Altar Beyond the Celestial Zenith”, um álbum que arremessou a banda em direcção ao infinito. As críticas não poupam louvores ao novo registo, o que muito tem satisfeito a banda durante os últimos 10 meses.

«As críticas têm sido excelentes», começa por dizer Dagon, vocalista e guitarrista. «Em termos de vendas, não há dúvida de que está a correr muito bem, embora isso não seja o que nos interessa mais. Como temos andado em digressão a promover o álbum, tenho sempre oportunidade de falar amiúde com os fãs, e depois vamos a fóruns online, a websites… Somos uma banda muito orgânica – não temos afiliações a grandes publicações, por isso gostamos de acreditar que as críticas são honestas e transparentes, pois têm sido fantásticas, mas, para mim, a grande razão das críticas deve-se ao facto de ser o álbum mais bem conseguido e negro, tanto na sua essência como musicalmente, o mais obscuro e agressivo, onde tentamos baixar um pouco mais as vocalizações e enegrecer ainda mais a música, e as críticas provam-no.»

O negrume presente em “Bloodshed Across the Empyrean Altar Beyond the Celestial Zenith” é indiscutível e uma novidade para os próprios Inquisition. Para além de terem elevado o som da guitarra a novos planos, as próprias letras parecem fazer parte de uma escuridão que se arrasta, algo que toma uma forma palpável e que, geralmente, muito deve a H. P. Lovecraft e aos seus contos malditos, que fundem divindades mais antigas do que o tempo, loucura inenarrável e uma sensação de niilismo e de indiferença cósmica perante a Humanidade. À primeira vista, tudo parece apontar para o autor e seus Mythos, mas trata-se de algo menos fictício.

«Na verdade, a inspiração não vem de Lovecraft, é apenas uma coincidência, mas entendo onde queres chegar. Comecei a ter esse tipo de opiniões em 2011, quando lançámos o “Ominous Doctrines of the Perpetual Mystical Macrocosm”. Acredites ou não, nunca li Lovecraft – sei quem foi e sei que está em todo o lado, principalmente no black metal, mas nunca me debrucei sobre Lovecraft. Então, as pessoas começaram a perguntar-me se eu me inspirava em Lovecraft, mas acho que não, nem sequer subconscientemente. Talvez a nossa fonte de inspiração seja a mesma [cosmologia suméria]. Não estou com isto a dizer que ele se tenha inspirado em Zecharia Sitchin, até porque o Sitchin começou a escrever nos anos 70, mas diria que a minha maior inspiração foi o Zecharia. Basicamente, sou inspirado pelos contos antigos de vida extraterrestre e interpreto o que compreendo. Na escola, achava que era uma seca, mas depois de crescer fiquei fascinado com o tema. É curioso porque dá para traçar um paralelo entre ambas as divindades antigas [Lovecraft e Suméria].»

Os Inquisition sempre primaram pela falta de comprometimento. Ainda que se encontre nos píncaros da popularidade devido à sua abordagem única ao black metal, a banda descobriu o Santo Graal do metal mais extremo e obscuro: agradar simultaneamente aos fãs mais antigos e underground e à legião de novos fãs que o último trabalho lhes rendeu. Muitas bandas conseguem agradar a uma das fações; às duas, é raro. O segredo é simples: os Inquisition mantiveram-se fieis à sua identidade.

«Inquisition é metal – apenas tem um véu de black metal a cobrir a banda.»

«Absolutamente. Superficialmente, a nossa música é muito rítmica, é fácil de agradar. Adoro riffs e tocar guitarra. A minha maior inspiração desde pequeno, desde os doze, treze anos, foi AC/DC, cresci com aqueles riffs. Não me estou a colocar num patamar de deus da guitarra ou algo do género [risos], mas acho que estou a dar às pessoas exactamente o que elas querem, que é a minha forma de metal: riff após riff após riff. Mentalmente, espiritualmente e emocionalmente… [pausa] existe uma acentuação enorme no movimento, é música que te toca, que te agita, seja fisicamente ou não. É muito pessoal, mas também muito rítmica, catchy, e quando digo catchy quero dizer [que] não é música pop. [risos] A percepção das pessoas sobre o black metal é que não existe muito ritmo e tão pouco catchiness, que é exclusivamente sobre atmosfera e poucas mudanças na música. Antes de mais, Inquisition é metal – apenas tem um véu de black metal a cobrir a banda.»

Há véus de black metal mais espessos e negros do que outros. Que o diga Dagon, que, há três anos, viu os Inquisition serem associados ao movimento do black metal nacional-socialista (NSBM) através de uma fabricação na Internet, a mãe de todos os mexericos. A celeuma causada foi tão grande que a Google interveio e exigiu que outros sítios legítimos apagassem conteúdos das suas páginas por alegadamente serem fascistas. Numa era em que a informação é omnisciente, não é preciso muito para prejudicar a imagem de uma banda através de rumores, mentiras e falsidades. Dagon recorda-se bem do incidente e não tem qualquer pudor em falar dele.

«Felizmente não prejudicou a banda de forma alguma. Quanto muito trouxe-nos mais atenção indesejada. Parece-me que a maioria das pessoas mentem a elas próprias, existe muita hipocrisia, no sentido em que essa gente quer entrar no black metal porque gosta, mas não pensam um pouco mais por que é que certas bandas se envolvem ou se sentem encantadas por uma orientação nacional socialista ou ouros extremos políticos. Antes que as pessoas me entendam mal, quero que fique claro que, quando muitas bandas se envolvem nisso, não quer dizer que os seus fãs sigam essas tendências ou que acreditem ou não acreditem nisso. Acho que muitas das bandas que são julgadas hoje em dia mentirão, esconderão coisas ou não serão transparentes o suficiente com receio de serem julgadas. Muitas pessoas não perceberão as verdadeiras razões de por que é que muitas bandas continuam a envolver-se com esses temas.»

rsz_2017-04-28-235639_swr_xx_dia_1_inquisitionInquisition @ XX Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

Em vez de se sentir incomodado, Dagon toma uma abordagem racional em relação ao assunto. Na continuação da pergunta, revivem-se outros assuntos: os anos 90, editoras como a No Colours Records e o facto de, hoje em dia, muitos falarem sobre a cena do black metal como se soubessem do que falam quando, no início dos anos 90, ainda nem sequer eram nascidos. É apenas uma das muitas incongruências da actualidade, também esta incrementada pela Internet.

«Deixa-me ser bastante claro: houve uma altura em que a coisa mais importante no black metal era seres considerado satânico. Falo por mim, e ninguém o poderá contradizer exactamente por isso. Um satânico tinha uma mente absolutamente aberta em relação a tudo. Não existia noção de bem e de mal, e não me refiro à corrente satânica de LaVey, pois essa é apenas uma extensão de algo que existiu desde sempre. Num mundo dominado pela lógica e pela razão, as únicas coisas que te podem incomodar pertencem ao campo das emoções, coisas que te afectam e ofendem os teus sentimentos. Nos anos 90, não existiam assuntos que, quando trazidos à luz do black metal, fossem uma ameaça. À época, o nacional-socialismo não era uma ameaça para o black metal. Caso tivesse sido, talvez não existisse o black metal como o conhecemos hoje em dia.»

É compreensível: afinal trata-se de um assunto que polariza opiniões e que perturba o bom funcionamento de um tipo de música cuja filosofia de vida se encontra alicerçada na honestidade. Contudo, desengane-se quem pensa que o black metal é o braço direito do diabo e a personificação do mal na Terra – a verdade não poderia ser mais distinta, com a política a ocupar esse lugar com uma clara vantagem.

«O nacional-socialismo na sua vertente alemã ou italiana, e vejas por que ângulo vires, foi algo que representou o mal através da mão humana, bem como o desejo de supremacia sobre os outros; em suma, algo que representou uma coisa maior do que o próprio Homem. Assim, podemos dizer que as bandas que, nos anos 90, começaram a envolver-se na onda do nacional-socialismo, e cujos membros eram, quanto muito, miúdos de 18-19 anos, brincavam com a situação como se se tratasse dos seus ídolos, como se fosse o Lemmy ou o Jeff Hanneman e, então, acharam que era divertido. Não há dúvida de que existe um fétiche com isto. Se pensares bem, o niilismo do black metal e o genocídio cometido na Alemanha estão interligados, pois é tudo destruição – existe uma ligação errada.»

«Não há lugar para o NSBM em lado nenhum.»

Se é verdade que o NSBM originou da mente de adolescentes que procuravam, essencialmente, novas formas de chocar, o género evoluiu consideravelmente e, o que antes era apenas uma minoria extremamente marginal de bandas, tornou-se num movimento global que tem representantes em pontos tão díspares do globo como Argentina e Austrália e que, até, já conta com obras impressas. Assim como o género, também os tempos e as mentalidades mudaram.

«Sim – na minha opinião, muita coisa mudou desde essa altura. Crescemos enquanto pessoas, o mundo tornou-se muito mais sensível a estes tópicos, há um seguimento muito maior do black metal e as pessoas começaram a aperceber-se de que o black metal não é apenas o que elas pensam que ele é. Na verdade, cada banda que começou a lidar como nacional-socialismo teve a sua razão para o fazer. Talvez tivessem pensado que era o que o satanismo significava, mas de forma histórica, verosímil. Actualmente, não há lugar para o NSBM em lado nenhum; quero dizer, principalmente agora que o black metal se abriu às massas, não há meios termos quanto a isto, não há áreas cinzentas.»

“Ominous Doctrines of the Perpetual Mystical Macrocosm” permitiu à banda uma agenda muito mais cheia nos principais palcos mundiais: os festivais Party.San e Bloodstock receberão as últimas datas da banda no Velho Continente. Certamente que, depois da digressão europeia e de alguns dias de descanso, as engrenagens da máquina continuarão a girar, desta vez como cabeças-de-cartaz e com convidados de peso que falam… português. «Sim, seremos cabeças-de-cartaz na digressão americana entre Setembro e Outubro e teremos os Mystifier, do Brasil, como banda de apoio. Depois teremos uma semana de descanso, e no começo de Outubro iniciaremos a nossa digressão Sul-Americana, onde voltaremos a estar com os Mystifier no espectáculo no Brasil. Terá lugar na América Central e na América do Sul.»

Se, para alguns, o céu é o limite, para os Inquisition o macrocosmo é apenas o princípio.

Links: Facebook, Season Of Mist, Shop.
Os Inquisition já tinham sido anteriormente entrevistados pela Ultraje aquando do #6. Recorda um preview dessa edição AQUI.

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