Irae: muito distante do Sol (entrevista c/ Vulturius) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Irae: muito distante do Sol (entrevista c/ Vulturius)

«Para mim, o black metal é ódio, é intolerância… É algo que vem de dentro de ti e também daquilo que te rodeia.»

Os Irae confundem-se inevitavelmente com a história do black metal português muito graças à constante actividade de Vulturius, criador e mentor da banda: se não está ocupado com Irae, então faz actuações pontuais com Corpus Christii, grava com os Decayed e ainda arranja tempo para projectos como Morte Incandescente e Scum Liquor, entre outros. Em menos palavras, é o modo de vida habitual de quem leva o black metal mais a sério.

A prioridade principal da Ultraje para a XXI edição do SWR Barroselas Metal Fest foi reportar todas as bandas nacionais, quer as que lançaram álbuns recentes (caso de Axia, Theriomorphic e Filii Nigrantium Infernalium), quer as que dão que falar graças a trabalhos como “Crimes Against Humanity”. Assim, seria injusto não apontar o último trabalho de Irae como uma das novas bandeiras do metal extremo português, até porque está tão bem conseguido que foi considerado um dos melhores trabalhos de black metal a nível global em 2017. Um ano passado sobre a sua edição, teríamos de começar por perceber quão satisfeito se encontra o criador de Irae com o seu último esforço. «Estou tão feliz como quando finalizei a master final do disco. Não alteraria nada. Acho que a recepção ao “Crimes Against Humanity” foi melhor, pois o álbum ficou um pouco mais dinâmico e ficou mais bem gravado. A receptividade tem sido boa, bem como os concertos: há sempre pessoal que vem ter comigo e me compra discos, t-shirts… Não me posso queixar. Penso que este é o disco que mais vendi de todos os projectos onde entrei.»

Não é de estranhar que “Crimes Against Humanity” se trate do disco mais vendido de Irae – temas como “Beyond My Torments” ou “A Um Passo do Fim” remetem os ouvintes para o plano mais pessoal de Vulturius, o que faz com que partilhem do disco de forma mais íntima. Afinal, o black metal não tem obrigatoriamente em falar apenas sobre o fogo do inferno. «Pois não. Para mim, o black metal é ódio, é intolerância… É algo que vem de dentro de ti e também daquilo que te rodeia. Eu inspiro-me em tudo o que me acontece no dia-a-dia, não falo no inferno só por falar. Afinal, o que é o inferno? Sabemos lá o que é! Se calhar, isto é o inferno, não é? [risos] É um ponto de vista. Mas sim, é um disco muito mais íntimo, principalmente a “A Um Passo do Fim” em que falo um pouco sobre morte e ressurreição. Podes morrer, mas os teus trabalhos permanecem, como se se tratasse de um eco na eternidade. A música que crias é esse eco.»

Mesmo à escala nacional, o disco foi considerado por muitos como álbum do ano. Para não variar, Andrecadente e o J. Goat ajudaram a refiná-lo, mas Irae será sempre Vulturius e Vulturius será sempre IRAE. Assim, e embora se tratem de dois músicos importantes para o resultado final apresentado, o black metal sempre se distinguiu de outros géneros do metal pelas posições tomadas – se numa banda de outro género é vulgar que todos os elementos tenham uma voz activa, no black metal costuma ocorrer precisamente o contrário. No entanto, porquê este tipo de atitude? Será uma questão de totalitarismo/individualidade ou de puro controlo artístico? «Formei Irae exactamente por isso, por ser algo individual, é a minha cena. Claro que, se preciso de tocar ao vivo, necessito de fazer uma marcação com os músicos que tocam para a banda. Irae será sempre Vulturius. Eu e os outros que me rodeiam.»

Como referido acima, esta vertente mais clássica de black metal é sinónima de tradição e de conservadorismo. Portanto, não é estranho que a banda tenha voltado a assinar pela Altare, uma das editoras mais activas e conceituadas a operar dentro do género. Afinal de contas, o black metal (juntamente com o grindcore) é o género que mais importância dá à integridade em vários planos: pessoal, musical, artístico e até monetário. Há coisas que não se vendem por dinheiro algum. Assim, quando uma editora representa os verdadeiros interesses e forma de estar de Irae, presume-se que será uma boa aposta. «Sim. Conheço pessoalmente a pessoa por detrás da editora e sei que é uma pessoa séria, que faz o trabalho com dedicação, como se fosse dele. Isso é importante para mim.»

«O Black Circle eclipsou-se.»

A seriedade não se aplica apenas à editora – no final de 2017, Irae foi uma das atrações principais do Invicta Requiem Mass, juntamente com Mons Veneris (que acabaram por não actuar). As duas bandas fazem parte do Black Circle Português e os seus membros colaboram constantemente uns com os outros. Nenhum outro subgénero dentro do metal leva o movimento tão a sério e cultiva o elitismo como o black metal. Assim, parte-se do princípio que entrar num círculo tão restrito como este exige diversos pré-requisitos da parte dos interessados. Se até aqui Vulturius tinha dado respostas concisas, tudo mudou quando começámos a falar sobre situações mais sérias dentro do movimento. «Dissolvemos o Black Circle em finais de 2017», começa por revelar Vulturius. «Continuamos a tocar juntos em alguns projectos e há outros projectos para além desses, mas o Black Circle eclipsou-se. Ao princípio era algo só nosso, um círculo restrito a 4-5 pessoas. De repente, apareceram pessoas de fora do círculo a quererem fazer parte dele e gajos a pedirem para fazerem t-shirts e bonés e não sei mais quê. Nunca concordámos com isso. Nunca autorizámos isso. Assim, achamos que foi algo que marcou um tempo. Iniciámo-lo em 2007 em acabámo-lo em 2017. As bandas continuam, o círculo não.»

Não era só o Black Circle que era uma coisa muito portuguesa, uma coisa muito nossa – bandas como Irae, Black Cilice, Filii Nigrantium Infernalium e Corpus Christii são nomes que granjeiam enorme respeito dentro da comunidade black metal em todo o mundo. No entanto – e para não variar – são nomes praticamente desprezados em Portugal, seguindo a velha lógica da apresentação primária no estrangeiro e da secundária em terras lusas. Não há dúvida que o black metal é o subgénero mais complexo e oculto dentro do heavy metal, o que por si só desmotiva os ouvintes a tentarem perceber um pouco mais sobre ele, mas será só por isso que se sente um alheamento quase exclusivo em relação às bandas de black metal em Portugal? «Nas bandas em que toco, principalmente Corpus Christii, vejo que há pessoas interessadas: perguntam sobre concertos, lançamentos e outros. Em Portugal, parece que o pessoal está mais interessado noutro tipo de coisas. Quando queres fazer um evento de black metal em Portugal, tens de o fazer de forma muito própria – exemplo do Invicta Requiem Mass. Em Barroselas tens sempre umas bandas. Volta e meia, o Moita tem uma banda. Vagos vai tendo uma banda ou duas também. No entanto, num festival têm de agradar a toda a gente, têm de incluir um pouco de tudo. Quanto a concertos de black metal… Bom, também fizemos uma vez o Cerco da Noite em Lisboa e correu muito bem. Não concordo que seja um estilo ignorado quando tivemos um público de 200 pessoas, todas a pagar para ver as bandas. Para um concerto de black metal é um número muito bom. Tocou Irae, Corpus Christii, Decayed e Morte Incandescente. Foi bom, foi um cartaz muito forte. Não consegues fazer muito melhor do que isto ou do que o Invicta Requiem Mass, até porque este está mais direcionado a um underground mais… underground. [risos]

Mesmo contando com estas duas vitórias, é impossível de não reparar que países como França ou Alemanha têm uma cultura de black metal que dá mil a zero a Portugal. No caso concreto da Alemanha, então, existe um movimento forte ao ponto de ter um dos principais festivais (se não mesmo o principal) do género – o Under The Black Sun. Sim, a população alemã é muito mais numerosa do que a portuguesa, mas poderíamos pegar por outros pontos, como as diferenças gritantes entre a mentalidade e cultura germânica e a nossa. «Não vou por aí. O mais provável é que me interpretem mal e depois ainda começam a mandar vir. Já me deixei de dizer cenas como “Myrkur é uma grande merda”. Havia muita gente a caracterizar Myrkur como black metal e depois ficam todos ofendidos quando alguém diz alguma coisa. Acho que quem ouve black metal é que deveria sentir-se ofendido com a imprensa por dizerem que bandas como Myrkur é black metal. Não é. Mas deixei-me disso, quero que se foda – quem gosta, gosta; quem não gosta, não gosta. Quando era mais novo, a minha banda preferida era Sepultura. Ouvia todos os dias o “Beneath The Remains”, o “Arise” e o “Schizophrenia”. Continuam a ser três álbuns excelentes. Mas não são black metal. Se as pessoas preferem viver na ignorância dizendo que Myrkur é black metal, deixá-las, não quero saber. Segui o meu caminho e fiz a minha cena. Quem gostar, que apareça, que veja, que fale, que cumprimente… Quem não gostar, que não veja, que não oriente, que não organize, que não faça nada. Passa-me ao lado. Quando vou a um festival, vou para ver também outros estilos: gosto de heavy metal, thrash metal… De algum death metal… Enfim, tenho o direito de gostar ou desgostar daquilo que gosto ou desgosto.»

Alguma imprensa nacional especializada e essencialmente toda a generalista também não ajuda quando não só não apoia o black metal, como prefere apoiar outros géneros mais na berra, caso do thrash ou do death metal ou dos nomes mais consagrados dentro do metal nacional. A televisão, então (e exceptuando situações muito pontuais e específicas, como foi o caso dos Agonizing Terror), ignora totalmente o metal mais amigável, quanto mais o black metal. Assim não é fácil. «Penso que mesmo o pessoal das organizações de concertos não divulga muito o estilo. Claro que se metes 20 bandas num fest, metes uma ou duas de black metal. Com as revistas é igual. Não sei se é por pensarem que não tem aceitação, se por acharem que vende ou não vende. Eu cresci a ler fanzines só de black metal, por exemplo.  Voltamos à questão anterior do interesse: quem está, está; quem não está, não está. Não me parece que as pessoas pensam que somos bichos ou atrasados mentais. A Ultraje veio falar comigo e estamos a fazer a entrevista, certo? [risos]»

«Cresci a ler fanzines só de black metal.»

Para o final ficou uma constatação óbvia: de forma mais ou menos positiva, o black metal em Portugal atravessa tempos bastante interessantes e é curioso verificar que há várias vertentes de black metal. Se olharmos para Filii Nigrantium Infernalium, Irae e Decayed, encontramos três bandas a tocar black metal de forma distinta, cada uma à sua maneira. Vulturius concorda com a afirmação, principalmente no que toca à escalada de quantidade e de qualidade. «Acho que cada vez se fazem mais coisas por cá, a julgar pela quantidade de discos e outras edições em constante lançamento.  Cada banda toca à sua maneira e tem a sua cena: olha para os Decayed e para os Filii, que têm um estilo muito próprio de tocar e que nunca abandonaram esse estilo específico de black metal. Irae também tem o seu, na verdade. Em termos de trabalhos que as bandas têm vindo a apresentar, têm sido mais e mais fortes. Acho que há qualidade e diversidade, basta procurar um pouco para perceber isso. Claro que nunca vais gostar de tudo, mas alguma coisa irás encontrar. De menos positivo, penso que não haja nada, não me posso queixar… Há mais discos, mais concertos… Outra coisa que acho boa é que há cada vez mais editoras interessadas em black metal: a Signal Rex, a Helldprod, a Caverna Abismal… Não só não estás limitado a apenas um ou duas editoras, como o pessoal por detrás delas se esforça e faz cenas, divulgam muito e mandam muita coisa para fora. O pessoal lá fora interessa-se muito pelo que se faz em Portugal. Quem não está dentro deste género poderá não saber, mas a receptividade é maior lá fora do que cá dentro. Cá, parece-me que há muitas bandas mas pouco público. O black metal é um estilo marginal dentro de um género já por si marginal, mas acredita que não é só cá – ainda há uns tempos vi um documentário finlandês no qual um gajo disse que são raras as pessoas dentro do movimento que não tiveram problemas com a polícia. Em termos gerais, sempre achei o metal um estilo fora-da-lei, marginal, sem aquela cena do politicamente correcto, que é uma praga. Hoje em dia parece que não podes dizer nada sem ofender ninguém. Lembro-me que tinha 10 anos e, um dia, a caminho da escola, vi um drogado com um back patch de Slayer. [risos] Acho que o metal deve continuar assim, marginal. Não precisamos de ser bêbedos ou drogados, hoje ainda nem uma cerveja bebi. [risos] Mas o que não gosto mesmo é do politicamente correcto, de coisas ditas à força por outras entidades – é uma grande praga. Não quer dizer que o que certas bandas fazem está correcto ou incorrecto – certo e errado são dois conceitos abstractos, o que é errado para ti pode ser certo para mim e vice-versa. Mas sou levado a pensar que há muitas bandas e gente por aí com um bocado de falta de noção das coisas que dizem e fazem.»

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