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Irae: muito distante do Sol (entrevista c/ Vulturius)

João Correia

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«Para mim, o black metal é ódio, é intolerância… É algo que vem de dentro de ti e também daquilo que te rodeia.»

Os Irae confundem-se inevitavelmente com a história do black metal português muito graças à constante actividade de Vulturius, criador e mentor da banda: se não está ocupado com Irae, então faz actuações pontuais com Corpus Christii, grava com os Decayed e ainda arranja tempo para projectos como Morte Incandescente e Scum Liquor, entre outros. Em menos palavras, é o modo de vida habitual de quem leva o black metal mais a sério.

A prioridade principal da Ultraje para a XXI edição do SWR Barroselas Metal Fest foi reportar todas as bandas nacionais, quer as que lançaram álbuns recentes (caso de Axia, Theriomorphic e Filii Nigrantium Infernalium), quer as que dão que falar graças a trabalhos como “Crimes Against Humanity”. Assim, seria injusto não apontar o último trabalho de Irae como uma das novas bandeiras do metal extremo português, até porque está tão bem conseguido que foi considerado um dos melhores trabalhos de black metal a nível global em 2017. Um ano passado sobre a sua edição, teríamos de começar por perceber quão satisfeito se encontra o criador de Irae com o seu último esforço. «Estou tão feliz como quando finalizei a master final do disco. Não alteraria nada. Acho que a recepção ao “Crimes Against Humanity” foi melhor, pois o álbum ficou um pouco mais dinâmico e ficou mais bem gravado. A receptividade tem sido boa, bem como os concertos: há sempre pessoal que vem ter comigo e me compra discos, t-shirts… Não me posso queixar. Penso que este é o disco que mais vendi de todos os projectos onde entrei.»

Não é de estranhar que “Crimes Against Humanity” se trate do disco mais vendido de Irae – temas como “Beyond My Torments” ou “A Um Passo do Fim” remetem os ouvintes para o plano mais pessoal de Vulturius, o que faz com que partilhem do disco de forma mais íntima. Afinal, o black metal não tem obrigatoriamente em falar apenas sobre o fogo do inferno. «Pois não. Para mim, o black metal é ódio, é intolerância… É algo que vem de dentro de ti e também daquilo que te rodeia. Eu inspiro-me em tudo o que me acontece no dia-a-dia, não falo no inferno só por falar. Afinal, o que é o inferno? Sabemos lá o que é! Se calhar, isto é o inferno, não é? [risos] É um ponto de vista. Mas sim, é um disco muito mais íntimo, principalmente a “A Um Passo do Fim” em que falo um pouco sobre morte e ressurreição. Podes morrer, mas os teus trabalhos permanecem, como se se tratasse de um eco na eternidade. A música que crias é esse eco.»

Mesmo à escala nacional, o disco foi considerado por muitos como álbum do ano. Para não variar, Andrecadente e o J. Goat ajudaram a refiná-lo, mas Irae será sempre Vulturius e Vulturius será sempre IRAE. Assim, e embora se tratem de dois músicos importantes para o resultado final apresentado, o black metal sempre se distinguiu de outros géneros do metal pelas posições tomadas – se numa banda de outro género é vulgar que todos os elementos tenham uma voz activa, no black metal costuma ocorrer precisamente o contrário. No entanto, porquê este tipo de atitude? Será uma questão de totalitarismo/individualidade ou de puro controlo artístico? «Formei Irae exactamente por isso, por ser algo individual, é a minha cena. Claro que, se preciso de tocar ao vivo, necessito de fazer uma marcação com os músicos que tocam para a banda. Irae será sempre Vulturius. Eu e os outros que me rodeiam.»

Como referido acima, esta vertente mais clássica de black metal é sinónima de tradição e de conservadorismo. Portanto, não é estranho que a banda tenha voltado a assinar pela Altare, uma das editoras mais activas e conceituadas a operar dentro do género. Afinal de contas, o black metal (juntamente com o grindcore) é o género que mais importância dá à integridade em vários planos: pessoal, musical, artístico e até monetário. Há coisas que não se vendem por dinheiro algum. Assim, quando uma editora representa os verdadeiros interesses e forma de estar de Irae, presume-se que será uma boa aposta. «Sim. Conheço pessoalmente a pessoa por detrás da editora e sei que é uma pessoa séria, que faz o trabalho com dedicação, como se fosse dele. Isso é importante para mim.»

«O Black Circle eclipsou-se.»

A seriedade não se aplica apenas à editora – no final de 2017, Irae foi uma das atrações principais do Invicta Requiem Mass, juntamente com Mons Veneris (que acabaram por não actuar). As duas bandas fazem parte do Black Circle Português e os seus membros colaboram constantemente uns com os outros. Nenhum outro subgénero dentro do metal leva o movimento tão a sério e cultiva o elitismo como o black metal. Assim, parte-se do princípio que entrar num círculo tão restrito como este exige diversos pré-requisitos da parte dos interessados. Se até aqui Vulturius tinha dado respostas concisas, tudo mudou quando começámos a falar sobre situações mais sérias dentro do movimento. «Dissolvemos o Black Circle em finais de 2017», começa por revelar Vulturius. «Continuamos a tocar juntos em alguns projectos e há outros projectos para além desses, mas o Black Circle eclipsou-se. Ao princípio era algo só nosso, um círculo restrito a 4-5 pessoas. De repente, apareceram pessoas de fora do círculo a quererem fazer parte dele e gajos a pedirem para fazerem t-shirts e bonés e não sei mais quê. Nunca concordámos com isso. Nunca autorizámos isso. Assim, achamos que foi algo que marcou um tempo. Iniciámo-lo em 2007 em acabámo-lo em 2017. As bandas continuam, o círculo não.»

Não era só o Black Circle que era uma coisa muito portuguesa, uma coisa muito nossa – bandas como Irae, Black Cilice, Filii Nigrantium Infernalium e Corpus Christii são nomes que granjeiam enorme respeito dentro da comunidade black metal em todo o mundo. No entanto – e para não variar – são nomes praticamente desprezados em Portugal, seguindo a velha lógica da apresentação primária no estrangeiro e da secundária em terras lusas. Não há dúvida que o black metal é o subgénero mais complexo e oculto dentro do heavy metal, o que por si só desmotiva os ouvintes a tentarem perceber um pouco mais sobre ele, mas será só por isso que se sente um alheamento quase exclusivo em relação às bandas de black metal em Portugal? «Nas bandas em que toco, principalmente Corpus Christii, vejo que há pessoas interessadas: perguntam sobre concertos, lançamentos e outros. Em Portugal, parece que o pessoal está mais interessado noutro tipo de coisas. Quando queres fazer um evento de black metal em Portugal, tens de o fazer de forma muito própria – exemplo do Invicta Requiem Mass. Em Barroselas tens sempre umas bandas. Volta e meia, o Moita tem uma banda. Vagos vai tendo uma banda ou duas também. No entanto, num festival têm de agradar a toda a gente, têm de incluir um pouco de tudo. Quanto a concertos de black metal… Bom, também fizemos uma vez o Cerco da Noite em Lisboa e correu muito bem. Não concordo que seja um estilo ignorado quando tivemos um público de 200 pessoas, todas a pagar para ver as bandas. Para um concerto de black metal é um número muito bom. Tocou Irae, Corpus Christii, Decayed e Morte Incandescente. Foi bom, foi um cartaz muito forte. Não consegues fazer muito melhor do que isto ou do que o Invicta Requiem Mass, até porque este está mais direcionado a um underground mais… underground. [risos]

Mesmo contando com estas duas vitórias, é impossível de não reparar que países como França ou Alemanha têm uma cultura de black metal que dá mil a zero a Portugal. No caso concreto da Alemanha, então, existe um movimento forte ao ponto de ter um dos principais festivais (se não mesmo o principal) do género – o Under The Black Sun. Sim, a população alemã é muito mais numerosa do que a portuguesa, mas poderíamos pegar por outros pontos, como as diferenças gritantes entre a mentalidade e cultura germânica e a nossa. «Não vou por aí. O mais provável é que me interpretem mal e depois ainda começam a mandar vir. Já me deixei de dizer cenas como “Myrkur é uma grande merda”. Havia muita gente a caracterizar Myrkur como black metal e depois ficam todos ofendidos quando alguém diz alguma coisa. Acho que quem ouve black metal é que deveria sentir-se ofendido com a imprensa por dizerem que bandas como Myrkur é black metal. Não é. Mas deixei-me disso, quero que se foda – quem gosta, gosta; quem não gosta, não gosta. Quando era mais novo, a minha banda preferida era Sepultura. Ouvia todos os dias o “Beneath The Remains”, o “Arise” e o “Schizophrenia”. Continuam a ser três álbuns excelentes. Mas não são black metal. Se as pessoas preferem viver na ignorância dizendo que Myrkur é black metal, deixá-las, não quero saber. Segui o meu caminho e fiz a minha cena. Quem gostar, que apareça, que veja, que fale, que cumprimente… Quem não gostar, que não veja, que não oriente, que não organize, que não faça nada. Passa-me ao lado. Quando vou a um festival, vou para ver também outros estilos: gosto de heavy metal, thrash metal… De algum death metal… Enfim, tenho o direito de gostar ou desgostar daquilo que gosto ou desgosto.»

Alguma imprensa nacional especializada e essencialmente toda a generalista também não ajuda quando não só não apoia o black metal, como prefere apoiar outros géneros mais na berra, caso do thrash ou do death metal ou dos nomes mais consagrados dentro do metal nacional. A televisão, então (e exceptuando situações muito pontuais e específicas, como foi o caso dos Agonizing Terror), ignora totalmente o metal mais amigável, quanto mais o black metal. Assim não é fácil. «Penso que mesmo o pessoal das organizações de concertos não divulga muito o estilo. Claro que se metes 20 bandas num fest, metes uma ou duas de black metal. Com as revistas é igual. Não sei se é por pensarem que não tem aceitação, se por acharem que vende ou não vende. Eu cresci a ler fanzines só de black metal, por exemplo.  Voltamos à questão anterior do interesse: quem está, está; quem não está, não está. Não me parece que as pessoas pensam que somos bichos ou atrasados mentais. A Ultraje veio falar comigo e estamos a fazer a entrevista, certo? [risos]»

«Cresci a ler fanzines só de black metal.»

Para o final ficou uma constatação óbvia: de forma mais ou menos positiva, o black metal em Portugal atravessa tempos bastante interessantes e é curioso verificar que há várias vertentes de black metal. Se olharmos para Filii Nigrantium Infernalium, Irae e Decayed, encontramos três bandas a tocar black metal de forma distinta, cada uma à sua maneira. Vulturius concorda com a afirmação, principalmente no que toca à escalada de quantidade e de qualidade. «Acho que cada vez se fazem mais coisas por cá, a julgar pela quantidade de discos e outras edições em constante lançamento.  Cada banda toca à sua maneira e tem a sua cena: olha para os Decayed e para os Filii, que têm um estilo muito próprio de tocar e que nunca abandonaram esse estilo específico de black metal. Irae também tem o seu, na verdade. Em termos de trabalhos que as bandas têm vindo a apresentar, têm sido mais e mais fortes. Acho que há qualidade e diversidade, basta procurar um pouco para perceber isso. Claro que nunca vais gostar de tudo, mas alguma coisa irás encontrar. De menos positivo, penso que não haja nada, não me posso queixar… Há mais discos, mais concertos… Outra coisa que acho boa é que há cada vez mais editoras interessadas em black metal: a Signal Rex, a Helldprod, a Caverna Abismal… Não só não estás limitado a apenas um ou duas editoras, como o pessoal por detrás delas se esforça e faz cenas, divulgam muito e mandam muita coisa para fora. O pessoal lá fora interessa-se muito pelo que se faz em Portugal. Quem não está dentro deste género poderá não saber, mas a receptividade é maior lá fora do que cá dentro. Cá, parece-me que há muitas bandas mas pouco público. O black metal é um estilo marginal dentro de um género já por si marginal, mas acredita que não é só cá – ainda há uns tempos vi um documentário finlandês no qual um gajo disse que são raras as pessoas dentro do movimento que não tiveram problemas com a polícia. Em termos gerais, sempre achei o metal um estilo fora-da-lei, marginal, sem aquela cena do politicamente correcto, que é uma praga. Hoje em dia parece que não podes dizer nada sem ofender ninguém. Lembro-me que tinha 10 anos e, um dia, a caminho da escola, vi um drogado com um back patch de Slayer. [risos] Acho que o metal deve continuar assim, marginal. Não precisamos de ser bêbedos ou drogados, hoje ainda nem uma cerveja bebi. [risos] Mas o que não gosto mesmo é do politicamente correcto, de coisas ditas à força por outras entidades – é uma grande praga. Não quer dizer que o que certas bandas fazem está correcto ou incorrecto – certo e errado são dois conceitos abstractos, o que é errado para ti pode ser certo para mim e vice-versa. Mas sou levado a pensar que há muitas bandas e gente por aí com um bocado de falta de noção das coisas que dizem e fazem.»

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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