Junius: desenvolvimento espiritual (entrevista c/ Joseph Martinez) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Junius: desenvolvimento espiritual (entrevista c/ Joseph Martinez)

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“Eternal Rituals For The Accretion Of Light” é o encerramento de uma trilogia repleta de post-metal e shoegaze levada a cabo por Joseph Martinez. As linhas que se seguem mostram um artista que gosta de separar a criação musical dos assuntos turbulentos do mundano, mas no final acaba por unir tal divisão em algo que concilia muitos de nós: a música.

«Todo o álbum é sobre despir o ego e controlar as emoções humanas para que não interfiram com a tua transcendência.»

Chegando ao fim de uma trilogia, é “Eternal Rituals For The Accretion Of Light” aquilo que sempre imaginaste?
Estou muito satisfeito com o resultado. Por vezes nunca sabes se conseguirás atingir a visão que tens em mente, portanto quando acontece é muito gratificante. Tenho medo que um dia acorde e toda a minha visão artística e habilidade de composição desapareçam e tudo o que passe a escrever soe a música de elevador.

Vivemos todos num mundo demente – tenho muitas preocupações e acho que nisso estamos os dois na mesma página. Portanto, quão catártico é criar música?
É muito catártico… Também me limpa a cabeça de todos os problemas do mundo e consigo abordar cada novo dia com uma perspectiva fresca. Não penso em mais nada enquanto componho, apenas existe o momento. Isto ajuda a preocupar-me menos, porque é tempo que se consome e mantém-me em alerta. Quando saio deste lugar de pura criatividade e vejo as notícias tenho imediatamente uma reacção visceral e isso mantém-me muito humano. Não fico assim tão dormente com o ódio e o sofrimento. Até posso ficar um bocado chateado, portanto afasto-me das notícias e da TV o mais possível.

A promoção refere que a faixa “Clean The Beast” é uma carta de amor, mas assistindo ao vídeo também podemos encontrar uma mensagem antiguerra, anarquista e ecologista. É assim?
[A canção] foi feita para a minha esposa, ela adora-a e, combinado com a imagem catártica de um neonazi a levar um murro, decidi criar um vídeo para ela. Tornou-se uma espécie de chamada de reunião para o meu espírito… Penso que, quanto à minha geração nos EUA, nunca tivemos que lidar com algo como Trump. Está tudo com medo de protestar e se alguém parte a janela de um Starbucks já pensam que é demasiado ‘violento’. Não creio que as pessoas percebam que vão ter que fazer algo mais do que apenas ficarem furiosos e partilhar qualquer coisa no Facebook. Tens de sair e protestar. Evitar violência se possível, mas se o Trump conseguir ultrapassar os seus limites e se as suas políticas perseguirem a tua família, então os cidadãos dos EUA precisam de tomar o país. Obviamente que isto é o pior cenário, mas precisamos de manter a violência no nosso bolso traseiro e esperançosamente nunca usá-la.

Ligando a música com Elisabeth Haich, podemos sentir o álbum como uma espécie de ego-death [morte de ego]? E faço esta conexão devido ao sentido muito atmosférico do disco.
Absolutamente. Todo o álbum é sobre despir o ego e controlar as emoções humanas para que não interfiram com a tua transcendência. De certa forma é um guia para que nos tornemos na mais pura forma de amor enquanto humanos. Se pegares nisso apenas através da atmosfera do álbum, então atingi o meu objectivo.

Lidar com assuntos como karma, reincarnação e desenvolvimento espiritual pode ser uma faca de dois gumes. Quero dizer, acho que há sempre um lado positivo e um negativo nisso. Abordaste esses assuntos de uma perspectiva apocalíptica?
Mais ou menos isso… Penso que a vida é uma luta e um exercício de humildade. Se viveres intensamente, então não será fácil. Todos encontramos dor e sofrimento, e este álbum é sobre conquistar a necessidade humana de se querer saber dessas experiências ao focarmo-nos no amor e na pureza do espírito. Na jornada do disco há um despir da personalidade que é apocalíptico, doloroso e infernal, mas uma vez passado esse teste consegues lançar-te à descoberta de um novo desafio que te prepara para o estágio final da transcendência, e dentro do álbum isso é um ritual específico. Se não conseguires passar por este ritual, então falhas e morres… Ficas destinado a permanecer em Samsara. O lado positivo é a consolidação do karma, o negativo é que talvez não consigas escapar da órbita de Samsara.

A review ao álbum será publicada no #9 da Ultraje com pré-encomendas AQUI.

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