[Entrevista] Krisiun: portais para a aniquilação | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Krisiun: portais para a aniquilação

rsz_dsc_0591Krisiun @ SMSF 2017 (Foto: João Correia)

«Estamos muito satisfeitos com o novo disco, e já andamos a pensar no próximo. Será um álbum mais rápido e brutal que este, terá mais variação, mas continuará a ser Krisiun.»

«É bom poder, finalmente, falar a língua de Camões de novo!» Foi assim que Alex Camargo, baixista e vocalista dos brasileiros Krisiun, se dirigiu ao público durante o Santa Maria Summer Fest aquando da sua última passagem por terras lusas. «Vocês são fixes!», acrescentou entre temas. Vindos de uma digressão pela Ásia e com 10 álbuns de originais na bagagem, é impossível não reconhecer o talento do colectivo de Rio Grande do Sul e que é justamente o grupo mais extremo da América do Sul (se não mesmo de todo o continente americano). «Suffocation na capa, hein? Foda!», disse Alex Camargo ao olhar para a capa da Ultraje n.º 10, que agradeceu em receber. Por seu lado, Moyses acrescentou: «Percebemos 95% dos que vocês escrevem; a parte falada é outra coisa…» [risos]

Longe vão os tempos de “Black Force Domain”, uma ode intemporal a mestres como Morbid Angel, Sodom ou Kreator e que catapultou a banda para o estrelato mundial dentro do género. Porém, e ainda que irrepreensível em termos de qualidade, “Forged in Fury”, o mais recente trabalho e décimo longa-duração da banda, tem recebido críticas mistas um pouco por todo o mundo, quiçá devido às relativas limitações que o death metal brutal apresenta em termos de variedade, mas também porque se trata de um dos álbuns mais distintos da já longa carreira da banda. Entre fãs satisfeitos e insatisfeitos, resta saber o grau de satisfação dos Krisiun com o seu último registo. Alex Camargo sorri, informado que está sobre a recepção ao álbum: «Como disseste, o disco é dos mais diferentes que já lançámos, tivemos a necessidade de diferenciar o som para não continuar a repetir a fórmula dos outros discos. Compreendo que os fãs mais acérrimos prefiram os Krisiun mais brutais e intensos, mas, por exemplo, nalguns meios de comunicação alemães, como na Legacy Magazine, o disco foi o mais votado quando saiu. São muitos álbuns ao longo da carreira, e achámos que foi o momento certo. Continuamos a ser os mesmos Krisiun de sempre, sempre representámos aquilo que somos desde o início, mas é complicado agradar a todos. Acho que, com este álbum, conseguimos uma maior expansão, abrir mais portas; viemos de uma tour na Ásia e a recepção ao disco tem sido excelente. Estamos muito satisfeitos com o novo disco, e já andamos a pensar no próximo. Será um álbum mais rápido e brutal que este, terá mais variação, mas continuará a ser Krisiun.»

Nota-se que, com o novo álbum, os Krisiun têm feito muito mais digressões do que anteriormente, o que não só prova a popularidade do trio como muito trabalho e esforço por detrás de cada disco. A digressão asiática, em que visitaram países como a Coreia do Sul e Japão, e que, pelos vistos, correu muito acima das expectativas da banda, é um bom exemplo disso: «Sim, trabalhámos imenso para chegar a este ponto. Assinámos um contrato com a Continental, a agência alemã, que nos tem aberto novas portas para outros destinos e que nos tem permitido tocar bastante ao vivo. Fizemos digressões pela América Latina, América Central, Ásia, e tocámos em países onde ainda não tínhamos entrado, como Singapura e Indonésia. Estamos muito satisfeitos com as tours. É claro que, com o metal extremo, é tudo mais difícil e temos que rejeitar muitas limitações que nos tentam impor. Mesmo na América do Sul, a discriminação é enorme, olham para nós com muita discriminação. Nós fizemos do metal extremo brasileiro uma realidade. Ainda existe muita lenha para queimar no Brasil, mas estamos muito satisfeitos com os resultados ao vivo, e temos mais é que agradecer aos fãs, como os de hoje [no SMSF], que foram maravilhosos, bem como aos meios de comunicação que nos têm apoiado.»

«Temos mais é que agradecer aos fãs, como os de hoje [no SMSF], que foram maravilhosos.»

Limitações – eis um termo alheio ao léxico dos Krisiun. A banda é reconhecida mundialmente pelo death metal complexo e furioso que debita, logo, pensar em limitações soa a contradição. Contudo, quando as limitações vêm de fora da banda, tudo se torna mais complicado. A banda que o diga, face ao recente imbróglio vivido no Bangladeche, onde foram detidos no Aeroporto Internacional Hazrat Shahjala devido a uma lei sobre… blasfémia. Alex recorda-se bem do incidente. «Bom, o que aconteceu foi o seguinte: nós já tínhamos tudo preparado, tínhamos a papelada toda certa, vistos incluídos, e esse seria o show mais forte da tour, os bilhetes estavam esgotados. Assim, e porque os polícias que se encontravam ao serviço na altura não foram com a nossa cara, ficámos retidos durante 15 horas numa sala do aeroporto. Foi uma situação complicadíssima, nunca tínhamos passado por isto, e cheguei mesmo a temer o pior: vi polícia com metralhadoras a passar de um lado para o outro, sempre a olhar para nós, e ficámos com receio. Entrámos em contacto com a embaixada brasileira e, depois disso, tudo mudou: o cônsul brasileiro foi até ao aeroporto e, como o Brasil tem acordos comerciais com o Bangladeche, a partir do momento em que ele entrou no jogo, começaram a tratar-nos bem, a oferecer cafés, etc. Foram 15 horas sentado, meu!»

Moyses Kolesne, guitarrista, fala pela primeira vez em toda a entrevista. «Assim que o cônsul chegou, ele disse-nos que eles estavam prestes a dar-nos voz de prisão, mas nunca nos explicaram por quê. Se não fosse a intervenção da embaixada brasileira, teríamos sido presos por um motivo que ainda hoje desconhecemos. Cancelámos o concerto e, após a intervenção do cônsul, lá conseguimos regressar ao hotel para dormir de um dia para o outro e sair no dia seguinte, após marcar voo. Foi uma situação muito complicada assim como disse o Alex e, para que não houvesse um incidente diplomático internacional, o consulado do Bangladeche informou a embaixada de que a banda não tinha sido aprovada pelo estilo de arte que pratica. É um país 100% muçulmano, mas nem isso é desculpa: nós tocámos no dia anterior no Hammersonic, na Indonésia, onde também existem muitos muçulmanos, e não tivemos qualquer problema. Tudo devido a preconceito.»

rsz_dsc_0880Krisiun @ SMSF 2017 (Foto: João Correia)

Dá para imaginar a cara dos três irmãos durante esse dilema, bem como tudo pelo que já terão passado. Afinal, Alex, Moyses e Max estão juntos desde o início dos Krisiun. Se, por um lado, tudo fica mais fácil em relação a resolver assuntos, pois está tudo em família, certamente que também brigam, discordam e fazem disparates uns com os outros. Alex retoma a palavra: «Como com qualquer família, o ponto bom é que, quando temos alguma coisa a resolver, não viramos as costas uns aos outros. Muitas bandas têm problemas com a formação, e nós aguentamo-nos e toleramo-nos uns aos outros. [risos] Como disse anteriormente, amamos o que fazemos, e tenho imenso respeito pelos meus irmãos. Às vezes, o ambiente é pesado, porque todos os irmãos brigam. Torna-se mais fácil depois, mas ao princípio a discussão pode ser acalorada, por vezes com coisas que não têm a ver com a banda, por causa de situações pessoais. Porque somos irmãos, temos a mesma intimidade para poder falar bem, como temos para falar mal, mas resolvemos as coisas no momento. Às vezes, é complicado, mas o facto de sermos irmãos fez com que singrássemos até hoje.»

Alex fala das coisas como elas são, sem o politicamente correcto e sem açúcar, uma qualidade típica dos brasileiros. De facto, e em comparação com os seus vizinhos da América do Norte, os brasileiros vão directos ao assunto, e isso nota-se muito na sua música pesada: ao contrário do death metal praticado em qualquer outra parte do mundo, o do Brasil tem uma sonoridade rústica, agressiva, animalesca. Embora Krisiun seja o nome que surge sempre quando se fala em metal brasileiro extremo, juntamente com os Rebaelliun, poucas outras bandas chegam aos ouvidos do públicos português e de outros países. «Por ser um país do terceiro mundo, o som é mais agressivo», começa Alex. «Por vezes, existem grandes dificuldades para comprar instrumentos, e isso reflecte-se na música, que já vem da época dos Sepultura e dos Sarcófago. Escolhemos este género por ser o que mais nos agrada desde o princípio. Poderia falar-te dos Exterminate, outra banda muito boa do Brasil, ou dos Arum, dos Claustrofobia… São muitas bandas boas, de facto. A cena no Brasil está boa. Como é um país muito diversificado e grande, tem de tudo: heavy, power, thrash, melódico… No caso do death metal brutal, tivemos que procurar coisas diferentes dentro do estilo para sobreviver enquanto banda, porque ainda é difícil a aceitação desse estilo dentro do Brasil. O death metal no Brasil está a passar por uma boa fase, e temos orgulho do que representamos e de onde viemos, das dificuldades por que passámos, e hoje tocamos em todo o mundo. Tudo isso nos motiva. Espero que as novas bandas se dediquem da mesma forma.»

«Convidamos toda a gente a vir a um concerto nosso e presenciar primeiro e julgar depois.»

É curioso ouvir Alex dizer que com o death metal brutal as coisas são mais difíceis no Brasil, devido a preconceito – afinal, os Krisiun esgotaram várias salas na digressão brasileira, algo de muito raro para uma banda de metal extremo, mesmo quando está a jogar em casa. Será que, não obstante o preconceito, apostar na qualidade e na diferença ajuda o death metal brutal a ter uma maior expressão? «Claro que sim!», responde o vocalista de imediato. «Mesmos nos nossos concertos, o público é diversificado: há punks, há pessoal do hardcore, do thrash, e vêm para nos ver exactamente porque trabalhamos no duro, tentamos fazer música interessante e dar concertos interessantes, e acho que isso ajuda a conquistar diversos tipos de público. Mas é verdade, é um estilo difícil, o preconceito é muito grande, e há pessoal que julga sem sequer tentar perceber o que fazemos. Convidamos toda a gente a vir a um concerto nosso e presenciar primeiro e julgar depois.»

Quem não julga as coisas sem mais nem menos é Bill Ward, o lendário baterista dos não menos lendários Black Sabbath, que não só é fã como incluiu os Krisiun na playlist do seu programa de rádio em Fevereiro de 2017. Se uns criticam, quem realmente importa louva os esforços de bandas comos os Krisiun. Alex sorri de orelha a orelha, visivelmente honrado. «Meu, vou-te dizer uma coisa: essa foi a coisa mais… louca… que mais me motivou… Às vezes, a vida corre mal e pensamos em desistir e, de repente, aparece o Bill Ward a falar de nós e faz com que continuemos o nosso caminho. Foi a coisa mais incrível que nos aconteceu até agora, e nem foi só o programa de rádio dele – numa entrevista no ano passado, ao perguntarem-lhe por novas bandas, ele falou dos Krisiun. Nós pensámos que era mentira, mas quando fomos pesquisar, estava lá. O Bill Ward, dos Black Sabbath… meu… foi o maior presente, a maior conquista. Claro que valorizamos tudo, mas o Bill Ward falar dos Krisiun… Pronto…» [risos]

Ad Victorem Spolias. Depois da data no Santa Maria Summer Fest, que marcou o início da digressão europeia, perfazem quase dois anos sobre o lançamento de “Forged in Fury”, e os Krisiun são conhecidos por lançar novos álbuns a cada dois ou três anos. A espera é cruel, e qualquer tipo de informação sobre o próximo registo é sempre devorada pela comunidade. Será que o novo trabalho dos Krisiun será, uma vez mais, diferente dos trabalhos anteriores? «Sim, digressão europeia e, depois, cabeça a 100% no novo disco. Ainda não gravámos nada, estamos apenas a jogar com ideias que tivemos, a brincar para ver como saem as coisas, mas vamos continuar a lutar.» Apostamos que sim, sempre ferozes, sempre furiosos.

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