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L7 “Scatter The Rats”

João Correia

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Editora: Blackheart Records
Data de lançamento: 03.05.2019
Género: rock

Senhoras de um som muito particular desde a sua criação, muito assente em coros femininos, melodias memoráveis e riffs fáceis mas cativantes, nos anos 90 as L7 conseguiram o que nenhuma outra banda feminina de rock sonhou: influenciaram os Nirvana e o álbum “Nevermind”, o que as levou em digressão com eles, foram notícia em todo o mundo muito graças à sua postura rebelde que assentava que nem uma luva no movimento grunge e, claro, devido às controvérsias que sempre rodearam a banda. Ainda assim, já passaram 25 anos desde o apogeu das L7 e 20 sobre o seu último registo, “Slap-Happy” (1999), altura em que a banda entrou em declínio, o que fez com que se separasse. Felizmente, não de forma irreversível, visto que em 2014 reformaram-se e, pouco após, perceberam que ainda tinham boa música para oferecer ao mundo. No entanto, e repetindo-nos, o que poderiam criar de relevante 20 anos passados sobre as suas últimas aparições ao vivo? Felizmente, o suficiente para voltarem aos principais palcos mundiais, tudo graças a “Scatter The Rats”.

Com a idade vem o amadurecimento e a face mais polida do rock – aconteceu com todos: Stones, Beatles, Pink Floyd, etc., e isso nota-se na nova aposta das californianas, um disco inequivocamente rock, mas mais pacífico do que qualquer anterior. Ao contrário do que acontece em “Bricks Are Heavy” (1992) ou “Hungry For Stink” (1994), Suzi, Donita, Jennifer e Demetra quase que abandonaram os temas mais agressivos mas, ao mesmo tempo, mantiveram a imagem de marca da banda e um som inconfundível. Esta toada mais suave deve-se em parte à sua nova casa, a Blackheart Records, propriedade da lendária Joan Jett, e dizemo-lo porque faixas como “Fighting The Crave” poderiam bem ter saído de um disco dela (ouçam o riff inicial e o refrão e digam-nos se não existem similaridades com “I Love Rock n’ Roll”, um dos hinos de sempre do rock e interpretado por Jett). Mas aquilo que nos consegue prender a “Scatter The Rats” é aquele jeitinho muito particular que as L7 têm de transformar um tema corriqueiro numa pequena joia. Tudo começa com “Burn Baby”, single de apresentação do novo disco que mostra as L7 que conhecemos: riff fácil, distorção q.b., o som low fuzz do costume e uns deliciosos pa pa pa pa entre as letras de um refrão também fácil e orelhudíssimo. Tudo o que é preciso para um bom tema de rock, portanto. “Fighting The Crave”, que vem a seguir, não é tão up-tempo como o anterior, ainda assim assentando no mesmo truque de riff simples / refrão fácil / coros femininos, mas que não enjoam, que não nos fazem pensar ‘outra vez isto?!’.

 

“Proto Prototype” dá continuação ao andamento do segundo tema, lento mas pesado, e apresenta-nos aquele solo de guitarra típico de Donita Sparks – vívido e colorido. A velocidade aumenta consideravelmente em “Stadium West”, uma música em que as guitarras são as rainhas, rápidas, com influências inegáveis de surf rock e mais coros femininos que dão a pincelada que costuma faltar a um grande tema de rock. Já “Murky Water Cafe” adentra por uma passada mais rock/blues/americana – ligeira mas eficaz. “Ouija Board Lies” é das faixas mais pesadas do novo registo e é capaz de ser a que mais se aproxima das L7 dos anos 90, dando-nos essa sensação com facilidade; já “Garbage Truck” leva o prémio Música Mais Rápida e Caótica do Disco. “Holding Pattern” regressa um pouco à influência (mesmo que subconsciente) de Joan Jett, com um andamento lento e um refrão avivado por mais coros femininos, desta vez com um orelhudo sha la la la la la. “Uppin’ The Ice” vem a seguir e parece o tema típico de uma banda de rock mainstream dos anos 80, com uma batida new wave clássica que depressa é cortada por mais interjeições femininas e efeitos sonoros muito inteligentes durante o refrão. Para coroar tudo isto, outro solo melódico com a assinatura L7 não tem como confundir. “Cool About Easy” regressa ao primeiro tema, ao som mais grunge e sujo do disco, também ele inconfundivelmente L7. Por fim, a faixa-título cola-se perfeitamente ao anterior, embora mais negro, talvez até um dos temas mais negros das L7, uma faixa lenta pautada por um refrão forte, lamentos e amargura, o que acaba por encerrar o disco de forma invulgar, forte e inesperada.

“Scatter The Rats” é isto tudo: um apanhado geral das L7 que conhecemos, com um humor afiado e uma naturalidade inata que não conseguem disfarçar – é como é e é como elas são. Mas também é um pouco mais do que aquilo a que estamos habituados: sente-se um rejuvenescimento nas quatro integrantes que não ouvíamos desde “Bricks Are Heavy”, o que é dizer bastante passadas duas décadas. Com o Verão mesmo ao virar da esquina, “Scatter The Rats” é o disco perfeito para longas viagens de carro, de preferência com o vento a bater-nos na cara, sem destino nenhum em particular e apenas porque nos podemos dar a esse luxo. Bem-vindas de volta, miúdas.

Nota Final

A entrevista às L7 está publicada no Ultraje #21 (Abril/Maio 2019) que podes aceder em PDF ou no ISSUU.

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Rammstein “Rammstein”

Joel Costa

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Editora: Universal Music Group
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: Neue Deutsche Härte

Dez anos volvidos após o lançamento de “Liebe ist für alle da”, os Rammstein prometiam um regresso triunfante aos discos depois do lançamento de “Deutschland”, o primeiro single de avanço deste novo e muito aguardado álbum homónimo. O vídeo, que ofereceu um conceito visualmente rico, abriu de igual forma espaço para a controvérsia, algo a que já nos têm vindo a habituar desde que a bomba germânica explodiu na cena internacional há 25 anos.

Ainda que a banda se tenha mantido activa durante este longo interregno, uma ausência de dez anos exigia um disco em que o seu conjunto de temas se demarcasse de todos aqueles factores externos à música que tornaram os Rammstein na máquina de guerra que são, encontrando assim um equilíbrio entre a qualidade musical e tudo aquilo que faz com que sejam comentados, desde os seus concertos ao vivo cheios de energia e com uma dinâmica de fazer inveja a bandas com os mesmos (ou mais) anos de estrada, aos vídeos sensacionais e pouco ou nada familiarizados com o conceito de censura que fazem notícia nos jornais.

Assim, os Rammstein presenteiam-nos com uma banda-sonora à altura da componente cinematográfica com que sempre nos deliciou, apresentando riffs musculosos e desafiantes da autoria de um Richard Kruspe musicalmente renovado, ritmos dançáveis que exploram uma nova dimensão da identidade industrial do grupo – ouça-se “Radio”, “Ausländer” ou “Tattoo”, por exemplo -, e uma forte presença global com destaque para Till Lindemann, que desperta o desejo de com ele entoarmos os refrãos como se de um dueto se tratasse, e para as incursões electrónicas e atmosféricas do génio que é Christian Lorenz, que da melodia desenfreada de “Radio” à doce e arrepiante “Hallomann” mostra-nos o porquê de ser um elemento-chave e insubstituível no colectivo alemão.

Para aqueles que esperavam um disco mais pesado e distanciado da electrónica dançável, talvez este “Rammstein” deixe um sabor amargo. Contudo, este é um trabalho sólido que não evidencia grandes fraquezas, mostrando toda a sua versatilidade ao ir dos temas festivos já mencionados a abordagens mais direccionadas para o slow-tempo e com ares de balada, como “Diamant” ou “Was Ich Liebe”, não esquecendo o peso de “Deutschland” ou daquela que provavelmente será uma das melhores faixas do disco, “Zeig Dich”. Podemos ainda ouvir Till Lindemann a assombrar-nos em “Puppe”, numa prestação vocal repleta de dor e desespero, e, claro, a típica estrutura musical com a assinatura dos Rammstein marcada a ferro e fogo. Em suma, os Rammstein dão o passo de que precisavam para se distanciarem da reputação que construíram e para poderem ser vistos como algo mais do que uma banda que dá concertos memoráveis, entrando em 2019 com uma personalidade musical mais vincada e sem dar sinais de ceder. De referir também a arte escolhida para o disco, onde se pode apenas ver um fósforo. Talvez sejam os Rammstein a ameaçar todo o potencial e caos que esse fósforo pode trazer se se atreverem a acendê-lo.

Nota Final

 

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Full Of Hell “Weeping Choir”

João Correia

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Editora: Relapse Records
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: death metal / grindcore

O termo que melhor se adequa aos Full of Hell (FoH) terá obrigatoriamente de ser busy bees, que é como quem diz abelhinhas trabalhadoras. Ainda mal refeitos de “Trumpeting Ecstasy”, o disco anterior que foi definitivo para a consagração dos FoH a nível mundial, recebemos agora a bastonada que é “Weeping Choir”, álbum de estreia pela Relapse Records e que nos obriga a repensar todo o conceito de metal extremo. Se tivermos em conta, então, que a distância entre os dois discos é inferior a dois anos, podemos dar-nos ao luxo de problematizar o trajecto da banda que, entre outros, tem 31 (TRINTA E UM!) trabalhos realizados desde 2010, perfazendo, por excesso, uma média de quatro trabalhos por ano.

Ao contrário de “Trumpeting Ecstasy”, um disco de 23 minutos mais focado no grindcore com toques musicais de death metal e conceituais de black metal, “Weeping Choir” passa vigorosamente um apagador na fórmula do registo anterior para nos oferecer um trabalho cuja palavra de ordem é dinâmica. O grindcore continua a ser a base do novo longa-duração, mas a degeneração musical nele presente aponta para cumes mais elevados e descomprometidos, onde o black metal, o death metal, o avantgarde, o crust, o punk, o d-beat, o noise, o hardcore, a electrónica e muitos subgéneros de cada um destes subgéneros se unem uniformemente para enfrentar as cada vez maiores montanhas que os FoH teimam em escalar. Cordas de escalada?! Quais cordas de escalda? Isso é para meninos. “Weeping Choir” é um passo em frente na carreira dos FoH, mas sem com isso comprometerem a abordagem da carnificina auditiva, bem pelo contrário.

 

“Burning Myrrh”, vídeo-single de apresentação e a primeira faixa do disco, é um tema que os Portal gostariam de ter composto, tal é a mistura perfeita entre o death metal cavernoso e os gritos lancinantes de black metal tão bem representados pelos australianos. “Haunted Arches” é a continuação lógica do primeiro tema, ainda que mais orientada para o grindcore e algum experimental, tudo revestido numa capa de pouco mais de um minuto de comprimento. Segue-se-lhe “Thundering Hammers”, um tema de death metal clássico que não chega aos dois minutos, porque mais do que isso seria estragar o conceito. Por sua vez, “Rainbow Coil” é uma amálgama de noise, electrónica e música experimental bastante negra, puro avantgarde que só poderia ser um nado-morto dos FoH e onde a bateria brilha como em mais nenhum outro tema do disco. É por esta altura que “Weeping Choir” começa a ganhar contornos de prematuridade, de algo que é capaz de estar 15 anos à frente do seu tempo. Termina com o som de uma caixa de ritmos, que é como começa “Aria Of Jeweled Tears”, mais um tema que assenta arraiais no grindcore, no hardcore, na electrónica e na música experimental, que daqui em diante passa a ser uma constante.

Nem só de micromúsicas subsistem os FoH.  Com os seus 6:55 minutos, “Armory Of Obsidian Glass” remete para mais uma pletora de estilos: post-metal, doom, noise e sludge dão as mãos para criarem talvez o tema mais preocupante e assustador do registo, com os seus coros que mais parecem lamúrias dos condenados e as vocalizações de black metal norueguês, Dante-style. A seguinte “Silmaril”, a beirar os 75 segundos, adentra pelo death/grind base dos FoH, sendo talvez a faixa mais conservadora de todo o disco. O noise/experimental/death metal regressam em “Angels Gather Here”, que acaba de forma inesperada e original. Mas nem tudo são espinhos: com “Ygramul The Many”, os FoH abordam o clássico “História Interminável” (Neverending Story), mas de uma forma nada adequada para crianças, tal é o flagelo sonoro a que somos sujeitos durante minuto e meio, uma espécie de vergastada sónica assente no grindcore e no death metal. E se uma vergastada é castigo ligeiro, nada como mais outra administrada pela final “Cellar of DOORS”, o grito derradeiro e moribundo de “Weeping Choir”, que também não ultrapassa os 63 segundos.

 

Produzido por Kurt Ballou (Converge), talvez o maior especialista deste género de registos, “Weeping Choir” apresenta uma pegada sonora técnica irrepreensível, bem como uma clareza de pormenores superior. É provável que as maiores complexidades de captar o verdadeiro espírito sonoro dos FoH residam na tal dinâmica, explorada amiúde por Dylan Walker (voz) e Dave Bland (bateria), mas Ballou é um extraterrestre que possui um arsenal bastante avançado e que, assim, consegue dar conta do recado – pormenores nítidos como o som dos pratos e da tarola de Bland são o melhor exemplo disso. Assim como no disco anterior, a capa de “Weeping Choir” é uma ode à prosopagnosia, o que intensifica a experiência logo à partida. Não façamos confusões – na opinião deste escriba, “Weeping Choir” é, actualmente, o melhor disco do ano. Poder-se-ia referir uma panóplia de causas influenciadas pela música extrema do disco para isso, mas porque não abrir as portas da ousadia, da coragem, da insatisfação e até da abnegação voluntária em detrimento do todo? Porque “Weeping Choir” é tudo isto e mais; talvez a forma mais simples de o avaliar seja sugerir que o ouçam atentamente, dando atenção aos pormenores, às tramas muito complexas, digerindo-o lentamente. Dêem-lhe uma oportunidade. Afinal, é para vosso bem.

Nota Final

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October Tide “In Splendor Below”

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Editora: Agonia Records
Data de lançamento: 17.05.2019
Género: death/doom metal

Uma referência do doom metal mundial, sempre com a presença do death metal na sua música, os October Tide lançam este ano o seu sexto álbum de originais, após o regresso ao activo no ano de 2009. É impossível negar a influência dos Katatonia na sonoridade da banda, já que o vocalista Jonas Renkse e o guitarrista Fred Norrman – ambos ligados à banda referida – se tornaram membros cruciais destes October Tide, ao longo da sua história, com uma forte influência no passado e presente do grupo.

Apesar das constantes mudanças de formação, essas foram determinantes para ir definindo um estilo muito próprio que vai buscar muito dos primeiros anos dos Katatonia, sobretudo na vertente mais death com um instrumental pungente e agressivo – sempre alicerçado com grande emotividade. O regresso do hiato, em 2009, sempre com novas formações, não comprometeu a sonoridade. Em “In Splendor Below”, novamente com um novo line-up, denota-se a crescente importância de Alexander Högbom (Demonical, Moondark), e as substituições verificadas na guitarra, bateria e baixo evidenciaram uma mudança para uma sonoridade mais death.

Apesar de um som mais agressivo e claramente influenciado pelo death metal, “In Splendor Below” continua a apresentar a emotividade de sempre, característica de uma banda de death/doom metal de excelente qualidade. No entanto, este disco é, em comparação com lançamentos anteriores, muito mais poderoso, onde o death é o traço mais evidente e presente ao longo das oito músicas e cerca de 45 minutos de pura pungência e agressividade. Mantendo elementos melódicos e atmosféricos em boa parte, sobretudo em “Winged Waltz”, “I, The Polluter” e “Seconds”, não se deixem enganar, pois apesar de muitas faixas conterem elementos melódicos e rítmicos, existe sempre uma transição para um lado mais agressivo e intenso como é o caso da incrível “We Died in October”, uma das melhores músicas do álbum. De ter em conta a presença de elementos de metal progressivo, com uma guitarra mais rítmica e mais complexa, tornando-se, em determinados momentos, no principal instrumento.

“In Splendor Below” pode tornar-se num sério candidato a um dos melhores discos de death/doom meral deste ano 2019. A produção do álbum é muito similar à produção de álbuns anteriores, mantendo uma componente muito sombria e depressiva, apesar da melodia presente em muitos dos riffs. Högbom é cada vez mais importante e o baixo de Johan Jönsegård revela uma maior inclinação pela complexidade instrumental, o que é sempre óptimo de ouvir num álbum de doom metal. Pode não ser o melhor álbum da sua discografia, mas é decerto um dos mais originais e mais complexos, com mais elementos de metal progressivo e de death apoiados pela emotividade sombria e depressiva de sempre.

Nota Final

 

 

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