Lacuna Coil: o método da loucura (entrevista c/ Andrea Ferro) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Lacuna Coil: o método da loucura (entrevista c/ Andrea Ferro)

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«Vamos para a casa de banho e terminamos lá?», pergunta-me um Andrea Ferro já exasperado com o barulho do soundcheck dos Cellar Darling (que acabaram por dar um concerto muito interessante, com uma Anna Murphy a tocar o seu realejo envolto numa bandeira das quinas). «Há uma primeira vez para tudo», respondo-lhe. Rimo-nos com a situação de dois gajos irem juntos à casa de banho seja para o que for, mas foi realmente a melhor ideia que o vocalista poderia ter tido – mal entrámos, pareceu que o barulho tinha reduzido para mais de metade. Há muito para falar sobre os Lacuna Coil. “Delirium”, o último trabalho dos italianos, não só foi uma lufada de ar fresco na sonoridade deste supergrupo como ainda conseguiu tornar-se no álbum mais negro e pesado de toda a sua discografia. Lançado em 2016, e com 2018 quase à porta, não faria muito sentido falar do disco em si, mas o mesmo não se poderá dizer da sua força motriz, do que levou os Lacuna Coil a lançar um disco de metal gótico tão agressivo com a loucura como pano de fundo e que, passados quase dois anos, ainda obtém excelentes críticas por parte da imprensa especializada e dos fãs. A loucura sempre esteve intimamente associada ao gótico, mas, geralmente, os assuntos retratados são a morte, a tristeza, a solidão…

«Há dois aspectos distintos nesse conceito: as letras e o título “Delirium” surgiram depois de sabermos que um familiar de um dos elementos da banda esteve internado em instituições de saúde mental», começa por dizer o frontman. «Essa pessoa já não está entre nós. Graças a isso, conseguimos perceber de forma próxima o que sente uma pessoa que se ausenta da realidade devido à idade e à doença mental. É uma situação muito séria e, quando pensámos no novo disco, não encontrámos um tópico tão soturno e forte como esse. Queríamos fazê-lo à volta de algo real, de uma experiência que tivéssemos atravessado, pois não gostamos de contar histórias ou de fabricar invenções. Não faria sentido criar algo baseado num miúdo que se corta porque não só não conheço ninguém assim como nunca passei por isso; logo, não tenho autoridade para falar sobre o assunto. Todos nós [a banda] já passámos por problemas menores, como ansiedade e depressão ligeira, sentimo-lo de formas diferentes e foi por isso que achámos que era o tópico certo. Na verdade, é uma situação muito actual que é sentida por toda gente – olha para o Chester Bennington ou para o Chris Cornell, por exemplo. É um problema muito grave com que muita gente se identifica; logo, o conceito surgiu naturalmente.»

rsz_lacuna_coil_6(Andrea Ferro, dos Lacuna Coil, no Under the Doom V. Foto: João Correia)

Interrompo-o brevemente e pergunto se a música que Marco (Biazzi, ex-guitarrista da banda) andava a compor não teria também influenciado o peso anormal do disco. «Com certeza que sim. O Marco estava a enveredar por música muito mais pesada do que antes e isso levou-nos a não nos comprometermos e a fazer algo de que o público não estivesse à espera. Se determinada música necessitasse de partes de bateria mais pesadas, então decidimos que seriam mais pesadas. Se outra necessitasse de gritos mais intensos, então inseriríamos gritos mais intensos. Não nos preocupámos em soar a Lacuna Coil ou em lançar singles para a rádio – preocupámo-nos apenas com a música. Depois, e devido a essa experiência de que falámos há pouco, tínhamos a certeza de que iria ser um disco dos Lacuna Coil, ainda que mais pesado e negro. Portanto, acho que a mistura do tópico lúgubre e da música mais agressiva se complementaram lindamente, o que em parte explica o tremendo sucesso do disco – na verdade, já vendemos mais cópias deste disco do que do anterior, o que é muito difícil hoje em dia. Os discos vendem cada vez menos, é assim o mercado. Escolhemos “The House of Shame” para faixa inicial exactamente porque queríamos que as pessoas fossem apanhadas desprevenidas, e a reacção surpreendeu-nos: toda a gente ficou de boca aberta com a agressividade. Ganhámos fãs novos com isso. Andamos nisto há vinte e tal anos, mas queremos fazer coisas diferentes, tanto para nós como para os fãs.»

O tópico da loucura é omnipresente – rodeia-nos, abraça-nos com a força de uma jibóia e faz questão de não ir a lado nenhum. Poderá parecer exagerado, mas a carga emocional deste assunto é esmagadora: pessoalmente, a única coisa que me assusta mais do que ficar surdo ou cego é ficar louco. Não é um assunto ligeiro, portanto. «É um assunto muito delicado, concordo. Existe muita gente a sofrer com transtornos mentais de formas diferentes, mas pior do que isso é a enorme ignorância que ainda existe sobre a matéria. Ainda é um assunto muito estigmatizador, é algo que não é aceite por muita gente; voltando ao Chester e ao Chris: quando cometeram suicídio, toda a gente ficou confusa. “Como é possível?! Tinham tudo: fama, dinheiro, uma família…” Acontece que são transtornos invisíveis, tu não consegues vê-los, nunca sabes o estado da pessoa que está ao teu lado, não é um braço ou uma perna partida. É algo muito íntimo e que podes transportar contigo durante toda a vida. Na altura certa, quando a pressão atingir um cúmulo, cais. Ah cais, sim. Por fora, poderá não haver motivos para o fazer, mas é mais complicado do que apenas isso. Não funciona dessa maneira. E as pessoas não entendem porque nunca passaram por isso. Houve imensa gente que nos contactou nesse sentido a falar de experiências pessoais. Eu próprio sofri de depressão, como te disse; aprendi a lidar com ela ao longo dos anos. Toda a gente é susceptível de sofrer de um transtorno como este, é muito mais comum do que parece. No disco, passamos a mensagem de que é possível vencer esses transtornos mais ligeiros com a vida. Não há um remédio para esses problemas, mas, através de experiências e de apoio profissional, é possível contornar essas situações e levar uma vida normal.»

rsz_lacuna_coil_4(Cristina Scabbia, dos Lacuna Coil, no Under the Doom V. Foto: João Correia)

Menos normal foi um determinado exercício a que a banda se prestou e que auxiliou a obter inspiração para o novo álbum: a visita a vários sanatórios abandonados em Itália. Isto é ir muito além do que geralmente se vai para um disco. «Na verdade, pouca gente o sabe, mas visitámos sanatórios por curiosidade – isto foi três anos antes de gravarmos o álbum. Claro que a experiência acabou por se tornar valiosa quando gravámos “Delirium”. Também pesquisámos por fotografias de sanatórios do princípio do século passado e reparámos em algo muito importante: a posição dos corpos deitados nas camas. Não havia sangue nem cenas dignas de um filme de terror, mas o verdadeiro pavor residia no vazio de cada quarto. O que mais nos chamou a atenção foram as posições corporais contranatura dos corpos devido à tensão que eles suportavam; durante as sessões fotográficas do álbum tentámos imitar essas posições, para nós o verdadeiro filme de terror foi verificar essa realidade. Vi uma foto de um paciente que parecia estar a levitar sobre o colchão da sua cama – os nervos dele estavam tão tensos que parecia que flutuava sobre a cama. A força das imagens provém da própria realidade.» Toda esta nova toada foi aprovada sem relutância pela Century Media, que até permitiu que a banda gravasse o próprio álbum sem recorrer a um produtor. Isto é uma prova de confiança por parte da editora, que sabe com o que contar da parte dos Lacuna Coil, e a única coisa realmente louca seria pensar o contrário.

«Sim.», retoma o vocalista. «O pessoal da Century Media só ouvia o nosso trabalho quando achássemos que era altura de o mostrar, nunca tivemos problemas com isso; de vez em quando apareciam no estúdio para ver como estavam as coisas a correr, mas era isso, nunca houve pressão. Acontece que, até ao “Delirium”, não tínhamos a certeza de que poderíamos gravar e produzir um álbum sem a mão de um produtor. Quando trabalhas com um produtor aprendes sempre qualquer coisa – pode ser boa ou pode ser má, mas aprendes sempre algo. Desta vez, e até porque o álbum é tão mais agressivo e intenso, pensámos que seríamos capazes de fazer tudo sem um mediador. O mais provável é que, no futuro, voltemos a trabalhar com um produtor; logo veremos.» Quererá isto dizer que o vocalista acha que, por a banda ter realizado o trabalho integralmente, o registo é mais verdadeiro? «Mais verdadeiro, mais nós mesmos, sim. Quando pagas a um produtor, obviamente vais ter que ouvir o que ele tem para te dizer. Quero dizer, trata-se de um profissional com muita experiência. Neste caso sentimos que não era necessário; devido ao trabalho que já fizemos com diversos produtores, acreditámos que seríamos capazes de o fazer nós mesmos. Eu e a Cristina concentrámo-nos nas letras de forma a que pudéssemos arrastar o ouvinte para dentro da música. Aprendemos imenso com o Don Gilmore sobre como escrever letras, por exemplo – devemos-lhe imenso. Ao princípio escrevíamos muitas palavras caras em inglês e, embora toda a gente soubesse o que queriam dizer, pensavam: “Mas qual é o significado disto?” Com o Don aprendemos a contar uma história através das letras, de como elas ganham vida, de como emergem o ouvinte nelas. Com o Waldemar [Sorychta], o nosso produtor anterior, aprendemos a estruturar as músicas e a variar de disco para disco, de forma a não fazermos sempre a mesma coisa. Aprendemos sempre qualquer coisa com os produtores com quem trabalhámos e decidimos que, agora, era altura de testar os nossos conhecimentos. Foi uma experiência e gostámos do resultado final. No próximo logo veremos o que vamos fazer.»

 

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