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Lacuna Coil: o método da loucura (entrevista c/ Andrea Ferro)

João Correia

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«Vamos para a casa de banho e terminamos lá?», pergunta-me um Andrea Ferro já exasperado com o barulho do soundcheck dos Cellar Darling (que acabaram por dar um concerto muito interessante, com uma Anna Murphy a tocar o seu realejo envolto numa bandeira das quinas). «Há uma primeira vez para tudo», respondo-lhe. Rimo-nos com a situação de dois gajos irem juntos à casa de banho seja para o que for, mas foi realmente a melhor ideia que o vocalista poderia ter tido – mal entrámos, pareceu que o barulho tinha reduzido para mais de metade. Há muito para falar sobre os Lacuna Coil. “Delirium”, o último trabalho dos italianos, não só foi uma lufada de ar fresco na sonoridade deste supergrupo como ainda conseguiu tornar-se no álbum mais negro e pesado de toda a sua discografia. Lançado em 2016, e com 2018 quase à porta, não faria muito sentido falar do disco em si, mas o mesmo não se poderá dizer da sua força motriz, do que levou os Lacuna Coil a lançar um disco de metal gótico tão agressivo com a loucura como pano de fundo e que, passados quase dois anos, ainda obtém excelentes críticas por parte da imprensa especializada e dos fãs. A loucura sempre esteve intimamente associada ao gótico, mas, geralmente, os assuntos retratados são a morte, a tristeza, a solidão…

«Há dois aspectos distintos nesse conceito: as letras e o título “Delirium” surgiram depois de sabermos que um familiar de um dos elementos da banda esteve internado em instituições de saúde mental», começa por dizer o frontman. «Essa pessoa já não está entre nós. Graças a isso, conseguimos perceber de forma próxima o que sente uma pessoa que se ausenta da realidade devido à idade e à doença mental. É uma situação muito séria e, quando pensámos no novo disco, não encontrámos um tópico tão soturno e forte como esse. Queríamos fazê-lo à volta de algo real, de uma experiência que tivéssemos atravessado, pois não gostamos de contar histórias ou de fabricar invenções. Não faria sentido criar algo baseado num miúdo que se corta porque não só não conheço ninguém assim como nunca passei por isso; logo, não tenho autoridade para falar sobre o assunto. Todos nós [a banda] já passámos por problemas menores, como ansiedade e depressão ligeira, sentimo-lo de formas diferentes e foi por isso que achámos que era o tópico certo. Na verdade, é uma situação muito actual que é sentida por toda gente – olha para o Chester Bennington ou para o Chris Cornell, por exemplo. É um problema muito grave com que muita gente se identifica; logo, o conceito surgiu naturalmente.»

rsz_lacuna_coil_6(Andrea Ferro, dos Lacuna Coil, no Under the Doom V. Foto: João Correia)

Interrompo-o brevemente e pergunto se a música que Marco (Biazzi, ex-guitarrista da banda) andava a compor não teria também influenciado o peso anormal do disco. «Com certeza que sim. O Marco estava a enveredar por música muito mais pesada do que antes e isso levou-nos a não nos comprometermos e a fazer algo de que o público não estivesse à espera. Se determinada música necessitasse de partes de bateria mais pesadas, então decidimos que seriam mais pesadas. Se outra necessitasse de gritos mais intensos, então inseriríamos gritos mais intensos. Não nos preocupámos em soar a Lacuna Coil ou em lançar singles para a rádio – preocupámo-nos apenas com a música. Depois, e devido a essa experiência de que falámos há pouco, tínhamos a certeza de que iria ser um disco dos Lacuna Coil, ainda que mais pesado e negro. Portanto, acho que a mistura do tópico lúgubre e da música mais agressiva se complementaram lindamente, o que em parte explica o tremendo sucesso do disco – na verdade, já vendemos mais cópias deste disco do que do anterior, o que é muito difícil hoje em dia. Os discos vendem cada vez menos, é assim o mercado. Escolhemos “The House of Shame” para faixa inicial exactamente porque queríamos que as pessoas fossem apanhadas desprevenidas, e a reacção surpreendeu-nos: toda a gente ficou de boca aberta com a agressividade. Ganhámos fãs novos com isso. Andamos nisto há vinte e tal anos, mas queremos fazer coisas diferentes, tanto para nós como para os fãs.»

O tópico da loucura é omnipresente – rodeia-nos, abraça-nos com a força de uma jibóia e faz questão de não ir a lado nenhum. Poderá parecer exagerado, mas a carga emocional deste assunto é esmagadora: pessoalmente, a única coisa que me assusta mais do que ficar surdo ou cego é ficar louco. Não é um assunto ligeiro, portanto. «É um assunto muito delicado, concordo. Existe muita gente a sofrer com transtornos mentais de formas diferentes, mas pior do que isso é a enorme ignorância que ainda existe sobre a matéria. Ainda é um assunto muito estigmatizador, é algo que não é aceite por muita gente; voltando ao Chester e ao Chris: quando cometeram suicídio, toda a gente ficou confusa. “Como é possível?! Tinham tudo: fama, dinheiro, uma família…” Acontece que são transtornos invisíveis, tu não consegues vê-los, nunca sabes o estado da pessoa que está ao teu lado, não é um braço ou uma perna partida. É algo muito íntimo e que podes transportar contigo durante toda a vida. Na altura certa, quando a pressão atingir um cúmulo, cais. Ah cais, sim. Por fora, poderá não haver motivos para o fazer, mas é mais complicado do que apenas isso. Não funciona dessa maneira. E as pessoas não entendem porque nunca passaram por isso. Houve imensa gente que nos contactou nesse sentido a falar de experiências pessoais. Eu próprio sofri de depressão, como te disse; aprendi a lidar com ela ao longo dos anos. Toda a gente é susceptível de sofrer de um transtorno como este, é muito mais comum do que parece. No disco, passamos a mensagem de que é possível vencer esses transtornos mais ligeiros com a vida. Não há um remédio para esses problemas, mas, através de experiências e de apoio profissional, é possível contornar essas situações e levar uma vida normal.»

rsz_lacuna_coil_4(Cristina Scabbia, dos Lacuna Coil, no Under the Doom V. Foto: João Correia)

Menos normal foi um determinado exercício a que a banda se prestou e que auxiliou a obter inspiração para o novo álbum: a visita a vários sanatórios abandonados em Itália. Isto é ir muito além do que geralmente se vai para um disco. «Na verdade, pouca gente o sabe, mas visitámos sanatórios por curiosidade – isto foi três anos antes de gravarmos o álbum. Claro que a experiência acabou por se tornar valiosa quando gravámos “Delirium”. Também pesquisámos por fotografias de sanatórios do princípio do século passado e reparámos em algo muito importante: a posição dos corpos deitados nas camas. Não havia sangue nem cenas dignas de um filme de terror, mas o verdadeiro pavor residia no vazio de cada quarto. O que mais nos chamou a atenção foram as posições corporais contranatura dos corpos devido à tensão que eles suportavam; durante as sessões fotográficas do álbum tentámos imitar essas posições, para nós o verdadeiro filme de terror foi verificar essa realidade. Vi uma foto de um paciente que parecia estar a levitar sobre o colchão da sua cama – os nervos dele estavam tão tensos que parecia que flutuava sobre a cama. A força das imagens provém da própria realidade.» Toda esta nova toada foi aprovada sem relutância pela Century Media, que até permitiu que a banda gravasse o próprio álbum sem recorrer a um produtor. Isto é uma prova de confiança por parte da editora, que sabe com o que contar da parte dos Lacuna Coil, e a única coisa realmente louca seria pensar o contrário.

«Sim.», retoma o vocalista. «O pessoal da Century Media só ouvia o nosso trabalho quando achássemos que era altura de o mostrar, nunca tivemos problemas com isso; de vez em quando apareciam no estúdio para ver como estavam as coisas a correr, mas era isso, nunca houve pressão. Acontece que, até ao “Delirium”, não tínhamos a certeza de que poderíamos gravar e produzir um álbum sem a mão de um produtor. Quando trabalhas com um produtor aprendes sempre qualquer coisa – pode ser boa ou pode ser má, mas aprendes sempre algo. Desta vez, e até porque o álbum é tão mais agressivo e intenso, pensámos que seríamos capazes de fazer tudo sem um mediador. O mais provável é que, no futuro, voltemos a trabalhar com um produtor; logo veremos.» Quererá isto dizer que o vocalista acha que, por a banda ter realizado o trabalho integralmente, o registo é mais verdadeiro? «Mais verdadeiro, mais nós mesmos, sim. Quando pagas a um produtor, obviamente vais ter que ouvir o que ele tem para te dizer. Quero dizer, trata-se de um profissional com muita experiência. Neste caso sentimos que não era necessário; devido ao trabalho que já fizemos com diversos produtores, acreditámos que seríamos capazes de o fazer nós mesmos. Eu e a Cristina concentrámo-nos nas letras de forma a que pudéssemos arrastar o ouvinte para dentro da música. Aprendemos imenso com o Don Gilmore sobre como escrever letras, por exemplo – devemos-lhe imenso. Ao princípio escrevíamos muitas palavras caras em inglês e, embora toda a gente soubesse o que queriam dizer, pensavam: “Mas qual é o significado disto?” Com o Don aprendemos a contar uma história através das letras, de como elas ganham vida, de como emergem o ouvinte nelas. Com o Waldemar [Sorychta], o nosso produtor anterior, aprendemos a estruturar as músicas e a variar de disco para disco, de forma a não fazermos sempre a mesma coisa. Aprendemos sempre qualquer coisa com os produtores com quem trabalhámos e decidimos que, agora, era altura de testar os nossos conhecimentos. Foi uma experiência e gostámos do resultado final. No próximo logo veremos o que vamos fazer.»

 

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Dream Theater: chamada de cortina (entrevista c/ Jordan Rudess)

João Correia

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«Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater.»

“The Astonishing” foi um registou que confirmou o vívido cansaço em que uma banda de topo pode assentar passados alguns anos a repetir a mesma fórmula. Não podemos culpar uma banda por lançar um mau disco, ainda por cima quando, ao longo de três décadas, essa banda lançou marco incontornável após marco incontornável do heavy metal. Todos temos maus dias, mas, quando temos um conjunto seguido de dias em cheio, então estes serão recordados durante muito tempo. É o que se pode dizer dos Dream Theater e de “The Astonishing”, um trabalho insípido que desapontou muita gente do meio devido ao historial prodigioso destes nova-iorquinos. A pseudocrise parece ter chegado ao fim com “Distance Over Time”. O novo trabalho dos Dream Theater viaja para o passado, para uma época em que pouco mais havia do que uma mão-cheia de bandas virtuosas o suficiente para conquistarem território virgem – os anos 90. As primeiras audições de “Distance Over Time”, as mais superficiais, remetem para as épocas de “Images and Words” e “Awake”. Sim, parece exagerado (e acaba por sê-lo), mas tal é a diferença do trabalho anterior para este.

 

Jordan Rudess, o lendário teclista dos Dream Theater, dedicou quinze minutos da sua restrita agenda à Ultraje para discutir mais pormenorizadamente o novo trabalho. A reacção inicial do homem por trás dos momentos épicos dos Dream Theater foi de concordância. «Bom, quisemos regressar ao nosso som de raiz, quisemos gravar um vídeo todos juntos e passar mais tempo juntos, sempre com muita diversão à mistura. Apostámos em fazer um trabalho mais pesado, mas também sem perder a essência progressiva e o espírito metal dos Dream Theater. Essa união reforçada fez com que nos inspirássemos em compor este novo trabalho.» ‘União reforçada’ é o termo perfeito para descrever o que os Dream Theater fizeram – durante três meses isolaram-se numa propriedade transformada em estúdio de última geração em Nova Iorque para compor o novo registo. «É verdade. Ao princípio estávamos um pouco nervosos com essa situação; quero dizer, somos todos homens adultos e, de repente, parecia que tínhamos acabado de ir para uma colónia de férias. No entanto, quando lá chegámos, gostámos muito do sítio – aquilo é muito porreiro. Imagina um celeiro antigo dividido em duas partes – uma para ensaiares, outra para gravares. E tem quartos enormes! Depois, as nossas instalações em geral foram fantásticas. Então, isso fez com que recuperássemos juntos as nossas energias, sempre a criar música. Entre o trabalho, fazíamos churrascadas, bebíamos bourbon, ríamos imenso… E isso sente-se no disco novo. Acabou por ser um retiro espiritual. Não é que eu não goste do “The Astonishing” – tenho imenso orgulho nesse trabalho, mas o novo álbum está mais à frente. Acho que é importante para nós, enquanto banda, podermos reunir-nos e passar um bom bocado enquanto trabalhamos. Em suma, o processo de composição de “Distance Over Time” foi uma mistura de muito trabalho e muita diversão.»

É fácil de entender o que Rudess quer dizer quando afirma que o novo trabalho está um passo à frente do anterior, principalmente quando atentamos ao trabalho dos dois instrumentos mais notáveis nele: a guitarra e os teclados. De facto, os despiques e batalhas de solos entre Rudess e Petrucci fazem-nos recordar pináculos do rock como “Highway Star”, com todo aquele massacre que bem conhecemos entre Richie Blackmore e John Lord. Depois, “Distance Over Time” aponta para caminhos pouco percorridos quando nos dá a ouvir uma miscelânea de estilos completamente desassociados do metal, como funk, rock progressivo, cock rock, blues… Parte-se do princípio que nada disto terá sido premeditado… Ou terá? «Absolutamente, sim. Queríamos voltar a domar aquela energia clássica dos Dream Theater e trabalhámos muito nesse sentido. Para isso, utilizei um Hammond XK-5, o que fez com que o disco ganhasse um feeling de rock clássico em conjunto com a guitarra do John. Experimentei utilizar um dispositivo chamado Motion Sound para amplificar os teclados e o resultado está à vista – um som bastante forte e claramente rock. Logo, não existem normas e conceitos nos Dream Theater, fazemos aquilo que gostamos.»

 

No entanto, até certo ponto, “Distance Over Time” parece ter um elemento conceitual bem definido e que começa com uma capa futurista. Junte-se a ela o tema “Pale Blue Dot” (talvez a citação de Carl Sagan mais repetida de todos os tempos) e assuntos mundanos – como abuso, frustração e limitações – e a conclusão antecipada a que chegamos é que se trata de um disco que fala sobre a Humanidade. «Não é um disco conceitual, de todo. Mas sim, existe uma história em cada tema; logo, talvez se possa dar a entender que existe um conceito. Como, por exemplo, em “Pale Blue Dot”, sim, com todo aquele discurso icónico do Carl Sagan. Mas existe sempre algo mais pesado do que apenas um conceito, existem tópicos mais profundos como o barulho que fazem as novas gerações, pessoas que vivem a vida através de um computador, a vastidão do espaço, o nosso mundo no futuro devido a toda a poluição… OK, não são canções de amor, nitidamente! [risos] As próprias letras são inorgânicas, matemáticas, físicas; o que ajudou a regressar aos nossos velhos tempos.»

Essa ausência de orgânica também se sente na música, que é, de longe, da mais pesada alguma vez composta pelo quinteto norte-americano. O filão progressivo continua lá, mas não tanto como em trabalhos anteriores, o que indica que talvez os Dream Theater quisessem fazer algo mais in-your-face, um trabalho mais directo mas sem perder o virtuosismo pelo qual são bem conhecidos. «Procurámos obter um som muito mais pesado, daí ter dito que houve necessidade de regressar às nossas raízes. Isso criou uma dinâmica emocional muito maior do que anteriormente. Temos noção de que muitos fãs dos Dream Theater adoram os nossos registos mais pesados e, desta vez, encontrámo-nos em sintonia com eles. Toda a banda sentiu que havia essa necessidade de carregar mais no acelerador. Contudo, também é verdade que não descurámos o nosso lado progressivo, mas quisemos fazer um disco mais pesado e que apelasse aos nossos fãs da mesma maneira que nos apela a nós.»

 

Para o fim ficou a discussão sobre a digressão Distance Over Time coincidir com o vigésimo aniversário do clássico “Metropolis Pt.2: Scenes From a Memory”. Geralmente, há sempre preparativos especiais quando se trata de comemorar um trabalho tão importante e, tendo em conta que as duas ocasiões se fundem numa, quisemos saber o que estava em marcha para a celebração do disco. «O que é realmente especial em relação a esse disco é que fizemos uma celebração dele na sua totalidade na segunda parte do nosso set há algum tempo. Claro que tocaremos faixas dele, ainda que não na sua totalidade – será uma revisitação mais curta. Além disso, teremos elementos visuais lindíssimos nesta nova tournée. Só mesmo vendo para acreditar – são espectaculares, com integrações de media e áudio em simultâneo. Trata-se do primeiro disco em que participei, por isso é óbvio que tem um significado muito especial para mim. Antes de ser um momento assinalável para os Dream Theater, é um momento assinalável para mim! Vai ser muito emocionante, certamente. Adicionalmente, também vou lançar um disco novo este ano chamado “Wired For Madness”, previsto para 19 de Abril.»

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Entrevistas

[Exclusivo] Atrocity revisitam covers pop dos álbuns “Werk” (entrevista c/ Alex Krull e Thorsten Bauer)

Diogo Ferreira

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Os Atrocity são conhecidos por cruzarem estilos como ninguém – do death ao gothic metal, passando pelo industrial. Em 1997 lançavam “Werk 80” e em 2008 era a vez de “Werk 80 II”, dois discos compostos por covers metal de êxitos pop da década de 1980. Claro que o metal moldou estes homens, senão não estariam em bandas do género, mas, e tendo esses dois trabalhos na discografia, temos de saber até que ponto é que a pop também os formou como homens e artistas. «Crescemos com a magia dos 80s – com músicas de Depeche Mode, OMD, Tears For Fears, que eram pop mas que continham uma onda negra», conta Thorsten Bauer, recordando seguidamente a origem de “Werk 80”: «Quando fomos a um festival na Suécia, em 1996, tocar com os Das Ich, ouvíamos muitas dessas canções e tivemos a ideia de que isto podia funcionar muito bem de uma maneira metal. Tenho saudades disso – pelo menos aqui na Alemanha, a pop soa toda igual, está cheia de autotune, não há carácter. O início dos 80s estava cheio de cruzamentos – wave, new wave, punk, pop, synthpop. Foi muito excitante para a música pop. Vivemos nos 80s, por isso temos boas memórias e ao mesmo tempo a música tinha substância, o que a pop moderna não tem.» Antes de tomar palavra, Alex Krull já se estava a rir: «Agora tenho de falar por mim. [risos] Não ouvia nada disso! [risos]Sentia sempre falta das guitarras, mas lembro-me que havia grandes canções, como a “Shout” dos Tears For Fears.» Contudo, o vocalista teve de fazer a sua parte para dar vida aos empreendimentos de 1997 e 2008 ao explicar que «a ideia era temperar tudo e tornar essas músicas em metal».

Estávamos num momento mais saudosista da conversa e Alex prosseguia: «As pessoas dizem que os 80s foram os melhores tempos da pop, mas eu ouvia metal! [risos] Tinha uma amiga do universo punk e new wave. Ela tinha amigos da cena gótica e eu era da malta do metal. Fazíamos festas em casas, e numa sala estava o pessoal do metal e na outra estavam os góticos, que ouviam synthpop e Depeche Mode – nem nos falávamos! [risos] Mais tarde chegou o momento de fazer um crossover enquanto músico, quando tive uma banda. Encontrei essa amiga muitos anos mais tarde, quando ela estava a trabalhar num musical em Estugarda, e perguntei-lhe se ela se lembrava das festas e se tinha ouvido o crossover que tínhamos feito com o “Werk I” e “Werk II”… Ela ficou ‘what the fuck?’. [risos] Não acreditava.» Já na fase derradeira desta entrevista reafirmou-se que as músicas escolhidas para esses dois discos eram já por si negras, ficando ainda mais com o toque metal dos Atrocity. Porém, perguntámos se se imaginavam a fazer covers da pop actual, com temas de Katy Perry ou Lady Gaga, o que provocou risada geral! «Tipo… Não… [risos]», assegura Krull. «Como o Thorsten disse, há uma parte nostálgica e era algo revolucionário na música. Havia a Neu Deutsche Welle, que também abordámos nos álbuns “Werk” – era muito fixe para aquela altura. Mesmo enquanto miúdo do metal, gostava dessas canções em alemão – era uma estranha combinação musical que teve muito sucesso. Tem que haver algum tipo de ligação para se fazer um projecto assim. Não vamos pegar em qualquer música pop e torná-la metal só porque foi um êxito – não era essa a ideia.» [A entrevista integral foi originalmente publicada no #17 da Ultraje (Ago/Set 2018)]

O álbum mais recente dos Atrocity intitula-se “Okkult II” e foi lançado em Julho de 2018 pela Massacre Records. A banda passará pelo Lisboa Ao Vivo a 12 de Maio numa noite partilhada com I Am Morbid, Vital Remains e Saddist.

 

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa e o segundo a 4 de Maio no Hard Club do Porto.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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