#ChooseUltraje

Features

[Reportagem] Laibach: uma balada cínica (20.09.2018 – Graz)

Publicado há

-

-/-

Laibach
20.09.2018 – Kasematten, Graz (Aústria)

-/-

Os eslovenos Laibach estenderam o seu mote provocatório ao sistema político austríaco. Para tal, realizaram a premiere do seu próximo álbum: “The Sound of Music” (23 Novembro, Mute), como abertura do festival Steirischerherbst, em Graz.

Conhecidos pela citação “somos tão fascistas quanto o Hitler foi pintor”, sempre foram motivados pelas acusações às suas reinterpretações da iconografia fascista e militarista. Ironicamente, isto levou-os a serem a primeira banda estrangeira a tocar no solo da doutrina propagandista da Coreia do Norte, em 2015. Convidados pelo líder supremo, a condição foi de tocarem somente temas do filme “ The Sound of Music ”, usado para ensinar inglês nas escolas daquele país.

Agora, 2018, numa época em que a extrema-direita procura imperar na Áustria, os Laibach trouxeram o seu cinismo ao ódio muito particular que os austríacos têm sobre o musical da Broadway de 1959 e o filme de Robert Wise (1965). Mas que chegou a ser idolatrado de um modo pós-fascista, por figuras como Jörg Haider, candidato a chanceler austríaco em 1999.

Num festival subordinado ao tema “Volksfronten” – (Frentes Populares) -, o concerto começou com uma declaração de missão e valores projectada no palco, enquadrando o porquê da escolha de Laibach como evento de abertura, levando o público austríaco ao rubro, com o seu humor mordaz e cáustico contra a soberania do Partido da Liberdade da Áustria nas pastas dos Ministérios da Defesa, do Interior e dos Negócios Estrangeiros.

Um sexteto de cordas, piano de cauda, coro de crianças, os Silence – Boris Benko na voz e Primoz Hladnik nos arranjos e teclados – e a vocalista Marina Martensson, compuseram o palco depois de um sermão de Peter Mlakar, do Departamento de Filosofia Aplicada do Neue Slowenische Kunst.

Com uma toada de embalo, as músicas foram desfilando como uma parada lenta, enganando algum público da sua malícia escondida, para ser revelada de tempos a tempos pela voz cavernosa de Milan Fras, profeta do escárnio.

A idealização da felicidade, a cantoria nos Alpes e os uniformes que formam a família perfeita foram temas desconstruídos com novas roupagens melancólicas em músicas como “My Favorite Things”, “Climb Every Mountain” vocalizada como uma ordem de Nietzsche, “Do-Re-Mi” numa versão industrial com vocoder ou “Edelweiss” como uma balada power-rock – tudo assimilado por um público dividido por êxtase e gozo, e desconforto e dedos nos ouvidos.

Vinte minutos volvidos e já parte da audiência abandonava o Kasematten, a romântica fortificação militar adaptada a palco de espectáculos em 1930 no topo do Schlossberg. O ar de enfadado ou revoltado preenchia alguns rostos enganados, incrédulos com a abordagem estilística, enquanto outros tomavam o seu lugar com sorrisos sarcásticos ao som de “Sixteen going Seventeen” transformada em “Sixty going Seventy” ou “Maria”, com a letra a ser alterada para “How do you solve a problem like Korea?”.

O concerto caminhou para o seu final com “So Long Farewell” e “Arirang”, interpretação de uma música tradicional considerada o hino não-oficial da unificação das Coreias, terminando em encore com “The Lonely Goatherd”, em que o “ Lay ee odl lay ee odl-oo” tipicamente austríaco trouxe gáudio aos presentes e resistentes, sendo representado no grande ecrã com um clamor de identidade: “You-Who”.

Fantasia hollywoodesca, “The Sound of Music” foi subvertido e manipulado de forma sublime pelos Laibach, transformando uma suposta crítica antitotalitária e antifascista numa nova cabeça para a Hydra que varre agora a Europa.

Features

[Reportagem] Alestorm + Skálmöld (12.12.2018, Lisboa)

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Alestorm (Foto: João “Speedy” Santos)

-/-

Alestorm + Skálmöld
12.12.2018 – Lisboa Ao Vivo, Lisboa

-/-

A atracar pela segunda vez na costa portuguesa, os islandeses Skálmöld fizeram bom uso de todo o traquejo que as constantes digressões lhes deram e souberam tornear com mestria os problemas sonoros que marcaram o início da actuação. Ainda assim, o som meio embrulhado não os impediu de montarem uma festa viking ao som do folk metal escandinavo que praticam, com boa aderência do público e um espectáculo mexido – para os parâmetros islandeses, note-se. Montados em “Sorgir”, o mais recente dos seus cinco trabalhos de originais, desfilaram um conjunto de temas interessantes, que fazem deles um dos mais sérios casos do viking metal actual.

Os Alestorm são um fenómeno de popularidade entre os frequentadores de salas de espectáculos e festivais e, se fosse necessária algum tipo de confirmação disto, os escoceses encarregaram-se de fazer uma demonstração cabal na noite lisboeta da digressão. Com um pato de borracha gigante em palco e o vocalista a usar o habitual outfit de kilt e keytar, a festa ficou montada a partir do momento em que os piratas pisaram o palco e foi sempre a enrijecer até à interpretação de “Fucked With An Anchor”, sensivelmente uma hora e meia depois. O pirate metal dos Alestorm é uma mistura perfeita de refrãos cantáveis, “Eis” e “Oh-oh-ohs” estrategicamente colocados e melodias orelhudas, com ocasionais espaços para bons solos de guitarra. Temas simples e milhões de visualizações no YouTube é uma combinação que não falha, e canções como “Mexico”, “The Sunk’n Norwegian”, “Hangover” (versão de um tema de Taio Cruz), “Shipwrecked” e “Drink” contam-se entre as favoritas do público português que cantou, bebeu cerveja, abriu um moshpit considerável e até brindou a banda com uma wall of death. Em palco, os Alestorm nunca falharam na arte de interpretar os seus temas da forma mais entusiasta possível, puxar pelo público e mantê-lo efectivamente entretido, seja com um solo de keytar de Bowes enquanto bebia uma Super Bock de penalti ou a usar o típico humor britânico quando apresentava as músicas. Lisboa não resistiu ao ataque pirata do quinteto escocês e capitulou, numa noite chuvosa em que a fila se mudou para a casa de banho dos homens e em que andar à chapada no meio do mosh com um fato de elefante era uma coisa perfeitamente normal.

Texto: Fernando Reis
Fotos: João “Speedy” Santos
Edição de fotos: Rute Gonçalves

Continuar a ler

Features

Coisas estúpidas que a Ultraje vai tentar difundir em 2019

Diogo Ferreira

Publicado há

-

Cave 45 (Porto) reabre portas

Público português pára de insistir na vinda dos Blind Guardian

 

Portugal classifica King Diamond como persona non grata

 

“Curto Circuito” (Sic Radical) reabre telefonemas para se pedirem video-clips de bandas nu-metal

 

Metallica interpretam “Ai Destino” no Olympia de França

 

Mosher passa a vender também na Zara

Ted Nugent diz não às armas

Varg Vikernes acolhe refugiados em casa

Euronymous visto em Cuba

Continuar a ler

Features

[Reportagem] Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence (09.12.2018 – Lisboa)

Publicado há

-

Brujeria (Foto: Solange Bonifácio)

-/-

Brujeria + Simbiose + Systemik Viølence
09.12.2018 – RCA Club, Lisboa

-/-

A noite começou em literal “anarquia violência” musical – nome que se associa por diversas razões aos Systemik Viølence que nos fizeram viajar até ao underground d-beat japonês, onde manifestaram a sua prática musical e atitude punk de desobediência, agressividade e sujidade, onde o frontman Iggy Musashi conseguiu cativar o público de formas variadas. E como já é costume, misturou-se dentro da multidão, com uma performance absolutamente incansável, cativante e esmagadora.

De seguida, os Simbiose – com toda a eficiência a que já nos habituaram também – descarrilaram a sua energia característica. Com o vocalista Jonhie comunicativo e a cumprimentar o público como usual, ecoaram desdém e repulsão de manifesto com o seu punk / crust / grindcore, reforçando mais uma vez que são a grande instituição musical dentro do género a nível nacional.

Não é usual ter a oportunidade de ver ao vivo superbandas e, ainda para mais, uma tão peculiar como Brujeria o é. Poder assistir, no mesmo palco, a artistas gigantes e de culto, como Shane Embury dos Napalm Death ou o Nicholas Barker – um dos bateristas mais rápidos da história do metal, com uma técnica musical absolutamente explosiva – é um grande privilégio, e assim o foi.  Juan Brujo e El Sangron abriram as hostilidades de uma celebração ao death grind em que se revistaram temas clássicos. Os Brujeria são uma força musical absolutamente bruta, divertida, barulhenta e politicamente carregada – elementos que tornaram este concerto memorável. Finalizou-se a noite com parte do público – que foi incansável e envolvente desde o início do concerto – em palco e em ambiente de festa no tema “Marijuana”, que encerrou este grande concerto.

Texto e fotos: Solange Bonifácio

Continuar a ler

Facebook

#UltrajeRadar

Ultraje #19