Lâmina: Casa dos Horrores (entrevista c/ Sérgio Costa) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Lâmina: Casa dos Horrores (entrevista c/ Sérgio Costa)

rsz_lamina_003(Foto cedida pela banda)

Badalados desde praticamente o primeiro dia em que apareceram – já lá vão sensivelmente quatro anos – e agora ainda mais com o lançamento do álbum de estreia “Lilith”, os lisboetas Lâmina, nas palavras do guitarrista Sérgio Costa, concederam-nos uma entrevista que, sem ser extenuante, aponta aos parâmetros centrais do passado, presente e futuro. Pelo meio de variados projectos artísticos (quem não conhece estas caras da televisão, da escrita ou mesmo doutras bandas?), até parece que os Lâmina surgiram duma brincadeira e experimentação, mas o que é certo é que hoje todos falam neles – e se não são todos, deviam! Por aqui, na Ultraje, estamos a tentar que isso aconteça. Que venha a conversa…

«O que interessa é que, no fim, seja um belo chapadão nas trombas de quem ouve. »

Isto é que foi um filho (ou filha tendo em conta que o álbum se chama “Lilith”) difícil de parir, não? Estiveram à procura do resultado perfeito ou a existência de todos os vossos projectos paralelos ajudaram a esta espera?
Passaram praticamente quatro anos desde que formámos a banda e começámos a compor até chegar a este resultado e, embora houvesse uma vontade enorme de saltarmos para dentro de um estúdio e registar aquilo que já tínhamos, nunca existiu a necessidade de apressar as coisas. Na verdade, todas estas músicas já têm o seu tempo. Algumas delas foram crescendo e evoluindo nos ensaios e quando chegámos a estúdio foi tudo muito fácil, porque já sabíamos ao que íamos. Ainda assim, foi um processo demoroso, porque todos nós temos as nossas vidas paralelas a isto tudo, quer sejam com projectos artísticos, profissionais ou simplesmente porque as coisas demoram o tempo que têm que demorar.

Todos vocês são caras conhecidas – da música à escrita, passando pelo humor. Supergrupo é um termo que vos assenta bem ou preferem ser vistos como quatro amigos de Lâmina deixando o resto no seu devido lugar?
Supergrupo?!?! De maneira nenhuma. Amigos? Muito menos. [risos] Acima de tudo somos os LÂMINA. Um grupo de amigos, alguns de longa data e outros que apenas se conheceram no início do projecto, que se juntou para fazer um bocado de barulho nos seus tempos livres. Tudo o resto são histórias à parte. Pouco importa o que somos lá fora. Só interessa o que se passa na sala de ensaios e em cima do palco.

Com Lâmina tanto estamos no deserto do stoner como na casa assombrada do doom, e esses dois ambientes encontram-se facilmente na vossa música. Como ouvinte, não creio que tenha sido algo premeditado, mas aperceberam-se disso ao longo da composição ou só mesmo no fim com todas as faixas juntas?
Quando começámos, sabíamos que queríamos navegar entre um determinado espectro, mas nunca quisemos que isso fosse uma regra ou uma fronteira. Hoje podemos estar a tocar um riff mais bluesy, amanhã algo mais dissonante, psicadélico ou downtempo. A única coisa que interessa é que nos sintamos confortáveis com aquilo que fazemos. Seria hipócrita dizer que não trazemos as nossas influências para estúdio. Por vezes dás por ti a tocar aquilo que achas que é um riff do caralhão e pouco tempo depois começas a desconfiar que já ouviste aquilo em qualquer lado e lá se vai por água abaixo o grande tema que tinhas acabado de idealizar. [risos] Ou seja, as influências estão lá, e, de certa maneira, tu queres soar a algo que já existe. Àquilo que cantas no banho ou quando estás a conduzir. O desafio é fazeres o que gostas mas sempre à tua maneira, com o teu cunho pessoal. Se isto tudo estiver em sintonia entre os quatro elementos, o que interessa se é stoner ou doom?

«O mistério, o suspense, a agonia ou o horror (…) são sem dúvida razões que nos levaram [aqui].»

Nos últimos anos tem havido uma ascensão deste estilo com bandas italianas, muito à custa da cena de horror que por lá existe desde os anos 60. Tirando os gostos pessoais que influenciam sempre um artista, o que levou três portugueses e uma portuguesa a enveredar por aqui?
Hum… À parte dos gostos pessoais torna-se difícil responder a essa questão porque somos quatro pessoas muito distintas umas das outras. O mistério, o suspense, a agonia ou o horror que encontramos num Dario Argento, num Carpenter, num Edgar Allan Poe ou num Lovecraft são sem dúvida razões que nos levaram a ir por aí. A estética de LÂMINA poderá ser um reflexo do entusiasmo por artistas desse género; ainda assim, não acredito que o nosso universo se resuma a isso. De uma maneira mais individual, posso dizer-te que aquilo que me perturba é o que mais me seduz. Seja de uma maneira mais melancólica ou mais violenta, ter o coração aos saltos é das melhores drogas que podes experimentar. Já a parte do ocultismo é sem dúvida o elemento sedutor inerente a todos, seja ele encarado de uma maneira mais espiritual ou pelo simples gosto do tema em si.

Adoro música crua, ou não fosse adepto inveterado de black metal, e notei a ausência de plasticidade no vosso álbum – é in-your-face e, pelo meio da crueza q.b., todos os instrumentos têm o seu momento-chave aqui e ali. Foi algo que delinearam desde o início?
Acho que o que todos sabíamos é que não queríamos ter um som demasiado polido. Pelo contrário, quanto mais sujo melhor. Se, no entanto, nos apetecer ir para um lado mais arrumadinho, porque não? Sem limites e sem preconceitos. O que cada instrumento faz nasce naturalmente por quem o toca ou por sugestão de qualquer outro membro da banda. Ou ainda, por vezes, porque alguém se engana. [risos] O que interessa é que, no fim, seja um belo chapadão nas trombas de quem ouve.

 

Do stoner/doom ao blues de “Psychodevil” há uma incursão prog na longa “Maze”. Foi a canção mais complicada de criar ou deixaram-se ir numa espécie de jam?
Deixámo-nos levar completamente, sem dúvida. Começou com dois ou três riffs que o Filipe [baixo], ao longo dos ensaios, foi levando com uma intro aqui, com mais um riff ali, agora mais um arranjo pelo meio, agora não nos apetece parar e vamos ficar a curtir neste novo riff, agora porque não juntar esta nova intro à que já havia, e que tal mais este riff a abrir e voltar ao que já tínhamos? Ah, isso é fixe. ‘Bora lá tentar isso. E no fim de tentarmos, acabámos por colocar mais um riff onde podemos estar ali sem grande lei, nem ordem. No fim resultou nesse labirinto, que tem uma base mas que nos dá a liberdade de entrar no modo jam, não só ao vivo, mas também nos ensaios. Às vezes a música tem 18 minutos, outras vezes tem 23 ou 24. No álbum saiu com 20.

A região onde vivem é um centro muito grande e cheio de actividade, mas sempre me pareceu que o público de Lisboa está mais ciente da existência dos Lâmina do que os nortenhos. E isso acontece com muitas bandas; para mim, que estou mais a norte, é-me sempre mais fácil chegar a contacto e conhecimento com bandas do Porto/Braga do que de Lisboa. E é estúpido, porque há telefones e internet. Concordas ou estou a dizer uma grande asneira?
Concordo perfeitamente que é estúpido, dados os meios de comunicação que existem hoje em dia. Mais facilmente conhecemos uma banda da Suécia, Noruega ou dos Estados Unidos do que descobrimos algo novo em Portugal. A internet serve para isso mesmo. Ainda assim, por cá, é preciso ir aos concertos para darmos conta do que existe por esse país fora, até porque essa é a melhor maneira de conhecer uma banda. De saber o tipo de sangue que lhe corre na veia. Do que valem em palco e que energia transmitem. Acaba por ser legítimo que haja mais pessoal de Lisboa a ter noção que os LÂMINA existem, porque apenas tocámos uma vez no norte, no SonicBlast. Já o sul, nem vê-lo. Resta às bandas saírem da toca, ir à guerra e conhecer os guerreiros no campo de batalha.

Depois do concerto de apresentação, o que é que o resto de 2017 nos/vos reserva?
Bem, estamos a meio do ano e por agora temos mais um concerto agendado em Santarém, na associação A9, quinze dias depois do lançamento, e iremos estar no Woodrock Festival, em Quiaios, Figueira da Foz, em Julho. Planeamos ainda fazer este ano o lançamento do vinil, já que por agora apenas teremos CD. O resto virá com trabalho e vontade, mas posso assegurar que o main wish é tocar onde nos queiram a fazer barulho.

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