Leprous: o peso da alma (entrevista c/ Baard Kolstad) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Leprous: o peso da alma (entrevista c/ Baard Kolstad)

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«Sinto que ainda somos a mesma banda, mas obviamente a música muda sempre um pouco.»

Se passarmos por Baard Kolstad na rua, vai parecer-nos apenas mais um miúdo nórdico a fazer Erasmus numa faculdade qualquer. Só que este miúdo não é um nórdico qualquer. Baard é baterista de uma das mais excitantes bandas do metal actual: os Leprous. O grupo, que ganhou notoriedade por ser a banda que acompanhava Ihsahn ao vivo no início da década, teve arte e inteligência para construir uma carreira musical que começou no metal progressivo e segue, neste momento, numa altura em que edita o seu sexto álbum, para um universo mais rock. «Sinto que ainda somos a mesma banda, mas obviamente a música muda sempre um pouco. Por vezes mais do que alguns fãs estariam à espera», diz-nos Baard quando lhe perguntamos se a banda que gravou “Malina” era, de alguma forma, diferente daquela que tinha editado “The Congregation” há dois anos. «Mas o novo disco continua a soar muito a Leprous, na minha opinião. A sonoridade lembra mais o rock do que propriamente metal, especialmente nas guitarras e teclados.» Não admira, portanto, que o músico não considere terem existido grandes diferenças na metodologia de composição de ambos os discos. Em ambos, a ideia foi: «Escrever 30 esboços diferentes e depois escolher e votar numa fase precoce sobre quais as músicas que devíamos continuar a desenvolver. Agora, tal como no disco anterior, o Einar [Solberg, teclista, vocalista] apareceu com cerca de 95 por cento das ideias e fez todas as estruturas das canções. Mas, do mesmo modo que eu fiz o primeiro esboço de ritmo para as músicas “The Price” e “Down” – do “The Congregation” – e depois o Einar deu o seu toque final nelas, também contribuí com uma ideia para o groove do tema “Illuminate”. Gosto de chamar-lhe “The Price 2” [risos], pelo menos do ponto de vista de bateria. O TorO, o guitarrista, também fez o seu primeiro sketch para aquilo que acabou por ser o nosso primeiro single, “From The Flame”. Esse sketch soava de forma muito diferente daquilo em que o tema se acabou por transformar. Por isso, tal como no tempo do “The Congregation”, toda a gente tinha autorização para dar qualquer ideia que pudesse ter – apesar dos tais 95 por cento de ideias do Einar – e depois o Einar compunha à volta dela.»

Uma das grandes vantagens – ou desvantagens, dependendo do ponto de vista – dos Leprous é a forma inteligente como misturam rock e metal, elementos progressivos com melodias incrivelmente apelativas. Por isso não admira que 90 por cento dos jornalistas lhes perguntem hoje em dia se se continuam a considerar uma banda de metal. Baard nem hesita: «Claro que sim!» E elabora: «Temos montes de riffs, também neste novo álbum, que fazem com que isto seja definitivamente “metal”. E todos nós vimos desse mundo. Não creio que ninguém na banda tenha pensado, no início do processo, que nos íamos transformar numa banda de rock. Não ligamos muito a géneros musicais, ou é boa música ou é música má, mas quando o disco ficou pronto sentimos que tínhamos enveredado por uma direcção mais rock do que propriamente metal E, para completar este capítulo, explica-nos que a mistura do lado mais técnico com os ganchos é perfeitamente natural para o grupo: «Nunca pensámos que agora é que vamos fazer uma coisa mais técnica. Quando o Einar programa ideias, fá-lo sempre a partir de uma ideia ou impulso musical. É disso que, pessoalmente, gosto tanto na música dos Leprous e que me dá tanto prazer tocar. Nunca sinto que os nossos ritmos ou secções mais tecnicamente avançados sejam puros show-off. Mas claro, quando temos um riff mesmo técnico ou muito difícil de tocar e de soar  bem ao mesmo tempo, temos de nos esforçar um pouco e ensaiar muito o seu aspecto mais técnico. Tentamos sempre ir para além do foco técnico quando subimos ao palco. Sentimo-nos um pouco mal se tocarmos um riff ou dois a 90 ou 99 por cento… Precisamos daquela energia extra, especialmente eu, para ser capaz de improvisar e ser tão autêntico quanto possível em ambiente de concerto. Detesto tocar exactamente os mesmos ritmos e notas todas as noites.»

«Ainda recordo esse dia como um dos mais especiais da minha vida», sobre o campeonato mundial de bateria

Este tipo de abordagem é muito comum em bateristas de metal, mas se olharmos para o currículo – e patrocínios oficiais – de Kolstad, facilmente constatamos que se trata de um músico tudo menos comum. A sua carreira começou a tocar na rua e, daí, tornou-se um fenómeno no YouTube e ganhou um campeonato mundial de V-Drum da Roland. Tudo isto antes de ingressar nos Leprous. «A minha carreira de baterista de rua – algo que nunca pensei que se pudesse transformar numa carreira quando comecei – começou como um projecto com um amigo que tocava saxofone. Isto foi em 2006», explica-nos. «Eu e o meu pai andávamos a falar de um belo emprego de Verão que eu pudesse ter e que estivesse relacionado com música e, passadas poucas semanas, eu e o meu amigo do saxofone vimos um vídeo de bateria de rua nos E.U.A. em que um tipo tocava em baldes. Era muito fixe e decidimos começar a fazer algo assim. Mais tarde tentei incluir outro amigo meu que tocasse bateria enquanto eu tocava nos baldes… E depois a coisa desenrolou-se naturalmente até eu estar a fazer solos inteiros num kit normal de bateria – de qualquer modo, era disso que gostava mesmo. No período de 2007 a 2011 a coisa começou a tornar-se um fenómeno no YouTube também. Valeu-me uma grande atenção na cena de bateria e deve ter sido o principal motivo para a Pearl Drums e as baquetas Vic Firth Drum me terem oferecido patrocínios tão generosos.» Quanto ao campeonato mundial, o foco era obviamente as portas que isso lhe poderia abrir, mas o músico revela que a porta da música electrónica também fazia parte do pack: «Ainda recordo esse dia como um dos mais especiais da minha vida», diz-nos. «Foi definitivamente o último grande passo para conseguir os acordos de patrocínio. Também me permitiu tocar solos na maiores estações de televisão da Noruega. Isto pode soar um pouco irónico, mas infelizmente não gostava muito de bateria electrónica, por isso foquei-me mais em bandas depois disso, mas obviamente deu-me um boost imenso no PR e na atenção que recebia. Também me permitiu viajar para os E.U.A. para fazer grandes espectáculos de EDM duas vezes!»

Com este tipo de background ninguém fica verdadeiramente espantado quando vê, na lista de trabalhos paralelos de Baard fora do metal (sim, porque no metal ele é o homem por detrás do kit de bateria também dos Borknagar e ICS Vortex), um projecto de um espectro completamente diferente e ainda outra banda de metal progressivo. No entanto, assegura que os Leprous lhe dão «um equilíbrio perfeito de liberdade» e que o mesmo se passa no outro grupo verdadeiramente seu, Rendezvous Point. «No DJ&Drums estou obviamente um pouco bloqueado porque corre tudo em back tracks», ri-se. Considerando todas estas mulas que tem de tocar para a frente, não podíamos deixar de perguntar ao músico se os Leprous são a prioridade quando tem de gerir a agenda: «Era fã da banda e do Tobias, o ex-baterista dos Leprous, quando fui convidado para tocar uns concertos com o grupo em 2013. Depois as coisas aconteceram naturalmente a partir daí. Quiseram-me como elemento permanente, o Tobias decidiu focar-se exclusivamente nos Shining e foi uma escolha natural para todos nós… Desde então, os Leprous sempre foram muito organizados e precoces a marcar as datas de concertos, o que fez com que fosse ficando normal eu organizar os meus outros projectos musicais à volta disso. E o mais importante de tudo é que quero ter uma banda que aposte a 110 por cento e os Leprous sempre foram esse tipo de banda. Sem cedências, eles trabalham e tocam ao vivo tanto quanto é melhor para a banda e o meu objectivo na bateria, desde os 12 anos, sempre foi trabalhar o mais seriamente possível. E depois, claro, adoro a música de Leprous.»


A review a “Malina” pode ser acedida AQUI.

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