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[Entrevista] Lich King: The Good, The Bad and The Lich

João Correia

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rsz_img_3193Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«A produção do novo álbum é um ponto de viragem em relação aos discos anteriores, pois queríamos algo mais cru, com uma sonoridade mais “ao vivo”.»

«Tens um telefone Microsoft! Tive um, agora tenho um Android», diz-me um inconformado Joe Nickerson, guitarrista, ao olhar para o meu smartphone. «Era um bom telefone, mas as apps…» Digo-lhe que, agora, é difícil arranjá-los, já que foram descontinuados. Assim começou uma das entrevistas mais hilariantes do meu currículo, embora pudesse ter começado com uma discussão acerca da questão da solidez entre duas marcas diferentes de gelatina – afinal, estes são os Lich King. Quem os segue nas redes sociais sabe que o que a banda mais preza é divertir-se, e isso levou-me a questionar a abordagem da entrevista: séria ou descontraída? Optei pela descontracção, e em boa hora o fiz.

Autores de um dos concertos mais insanos do XX SWR Barroselas Metalfest e que, a determinada altura, incluiu mais de 20 fãs em cima do palco a convite do vocalista Ryan Taylor, é fácil de entender o hype positivo em relação à banda de Massachusets: praticam um estilo de metal tremendamente popular, são excelentes músicos, fazem troça de tudo e de todos (principalmente deles mesmos) e, last but not least, lançaram em 2017 “The Omniclasm”, uma inovação total em termos de composição e produção na história dos Lich King e que, previsivelmente, será a solução final para acabar com a fome, com as doenças e com os impostos. É tão bom que imagino como têm sido as críticas ao álbum à parte de “visionário” e “a roçar o savantismo”.

[risos] «Têm sido péssimas!», [risos] começa Nickerson. Repito que disse “savantismo” e não “autismo” para gargalhada geral. Brian Westbrook, baterista, retoma a questão: «Têm sido óptimas. Tomámos outra direcção em relação à produção e à composição, e estamos bastante surpreendidos com todo o processo.» «Sem dúvida», continua Nickerson, «a produção do novo álbum é um ponto de viragem em relação aos discos anteriores, pois queríamos algo mais cru, com uma sonoridade mais “ao vivo”, e é engraçado porque não dizemos isto aos fãs, mas eles vêm ter connosco e dizem-nos que o novo álbum parece os concertos ao vivo, assim como que está à altura de “Born of the Bomb”, o trabalho anterior, e tipo, conseguir um álbum melhor do que esse seria… Difícil, honestamente, mas é o que nos dizem, que conseguimos.» Mike Dreher, baixista e talvez a face mais séria da banda, finaliza dizendo que «basicamente, [“The Omniclasm”] é um álbum mais rápido e furioso que o anterior, e correu bem.»

“The Omniclasm” é, de facto, uma proeza moderna que presta homenagem ao que melhor se fez nos anos 80, ainda que com uma toada obviamente moderna. Vio-lence, Overkill, DRI e Exodus são revisitados com um profissionalismo e catchiness de se lhe tirar o chapéu. Faixas como “Preschool Cesspool”, “Cut The Shit” ou “Take The Paycheck” funcionam como críticas, ao passo que “Crossover Songs Are Too Damn Short” e “Lich King VI: The Omniclasm” trazem ao de cimo o sentido de humor ridículo destes cinco miúdos norte-americanos. E como em cada álbum, os Lich King têm uma faixa intitulada “Lich King”, desta feita, e para variar, incluíram no novo registo duas faixas chamadas “Lich King” (V e VI). Melhor que uma, só duas. Será que no próximo trabalho haverá pelo menos 2 ½ faixas chamadas “Lich King”? Melhor que 2, só 2 ½, perguntem a quem quiserem.

rsz_img_3210Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

[risos] «Sabes, há um problema com a tua teoria», começa Nickerson. «Nas letras de “Lich King VI: The Omniclasm”, o Lich King descobre que já não existem mais coisas para ele destruir, por isso ele destrói a própria realidade, por isso, sei lá o que iremos fazer a seguir…» [risos]. Ou seja, adeus Lich King, adeus universo… [risos] «Eu quero fazer uma prequela», interrompe Westbrook. «Uma história por detrás da história, tipo os três primeiros filmes do Star Wars [risos], que são tão maus que acabam por ser bons.» [risos] «Procurem depois pelo nosso trabalho chamado “Jar Jar”, que vai ter riffs tão bons que me estou a cagar para que nome lhe vamos dar» [risos], acrescenta Nick Timney, o autor dos deliciosos solos dos Lich King. Ou seja, o próximo álbum pode-se chamar “Merda”, com as diversas faixas a chamarem-se “Merda”, “Merda, “Merda”, que vocês não querem saber desde que a música seja boa? «Exactamente» [risos], conclui.

No meio de tanta graçola, recordo-me de que, nos anos 80, o thrash tratava de uma variedade de assuntos: guerra nuclear iminente, sociedade, religião e tudo aquilo que estivesse errado. No entanto, todas as bandas arranjavam sempre algo com o que gozar, fosse sobre álcool ou sobre mandar bocas a diversas instituições, incluindo outras bandas. Em 2017, muitas pessoas que nem ainda eram nascidas em 1989 acham que as bandas não devem ser engraçadas ou gozar com qualquer situação, como que se o metal fosse sinónimo de seriedade. Pesquisando na internet, o que não falta são essas vozes que parecem ter uma opinião formada sobre tudo, mesmo que saibam pouco ou nada sobre o movimento. Assim, se em 2017 os Alestorm lançam um álbum que é pura diversão do princípio ao fim, são excelentes, mas se os Lich King escrevem uma ou duas faixas mais a gozar, são queimados por isso. Não faz sentido.

«O metal é suposto ser divertido. O thrash metal precisava de uns Manowar, e então nós aparecemos.»

«Pois. O que acontece é que se tu dás a mão a esse pessoal, eles agarram-te logo o braço», diz Nickerson. «Bem vistas as coisas, não há assim tantas faixas engraçadas quanto isso. Tocamos mais que outras bandas, sim, mas estamos a falar de 2 ou 3 faixas por álbum, uma sobre a nossa mascote, outra sobre um filme… Não são muitas, mas as pessoas exageram. Tipo… Que se fodam, meu! [risos]. O metal é suposto ser divertido. O thrash metal precisava de uns Manowar, e então nós aparecemos. Vamos divertir-nos com o metal, pá! Não precisa de ser tudo muito sério!» Westbrook concorda: «Prefiro divertir-me todos os dias do que ir para cima do palco e fazer de conta que sou uma coisa que não sou. Somos um grupo de totós; seria, até, estranho eu ir para cima do palco e aparentar ser evil… nah!»

Com tanta banda trve kvlt por aí, é compreensível que este pessoal queira é diversão. Contudo, tanta diversão chega a ser, por vezes, mal-entendida – que o diga Spike Cassidy, membro dos lendários D.R.I., e que respondeu online aos Lich King em relação a “Do-Over”, um álbum que parodia a capa do seminal “Crossover”. Westbrook ri-se de imediato. «Isso nem sequer chegou a ser um incidente.» [risos]. Certo, mas sendo os D.R.I. uma das bandas mais divertidas dos anos 80, não estarão eles a ser hipócritas? Os elementos retraem-se um pouco, mas nada como um empurrãozinho. Vá lá, vocês conseguem. [risos] «A MetalSucks escreveu um artigo sobre a cena com os D.R.I., mas o foco era um gajo que dizia ter sido roadie dos D.R.I. e que nos ameaçou e tal, e alguém perguntou ao Spike Cassidy se tinha havido autorização e ele disse que não – pergunta e resposta, só isso. Não me parece que os D.R.I. tenham pedido autorização para fazer uma paródia do logótipo dos Slayer.» Nickerson acrescenta que é «a Internet a inventar coisas, nada de novo».

rsz_img_3223Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

Há um senão: estes putos totós, como eles próprios se denominam, são todos músicos de alta qualidade. Ou seja, ao contrário de muitas bandas que usam e abusam do humor para camuflar uma certa inaptidão, os Lich King não dizem que são bons: eles chegam e provam que são bons. Bom, o baterista é uma clara excepção à regra, mas toda a gente sabe que ele faz parte da banda por causa da sua beleza. [risos] «Sim, os meus muitos queixos ajudam» [risos], diz Westbrook. Tudo isto para dizer que parece que fazer música divertida, mas com a seriedade de um músico profissional, é compatível.

«Claro, tem que ser», começa Westbrook. «Viste a banda anterior, que meteu não sei quantas árvores em cima do palco?» Refere-se a Nader Sadek, um supergrupo que aposta imenso no aspecto estético sem deixar de contar com músicos de elite. «Quero dizer, imaginas a banda a transportar aquelas árvores toda num camião ao longo da tour?» [risos] Pois, ele deve ter apanhado o arvoredo todo aqui à volta; estamos rodeados por mato, mas entendo o que queres dizer. [risos] «E será que o cortou com uma motosserra?» Não faço ideia, nem estou a julgar. [risos] Westbrook retoma o assunto: «É trabalho a mais: não quero fazer isso, nem usar vestidos, nem corpse paint… Tipo…» Timney insiste: «A magia de tudo reside precisamente nesse ponto – de onde vêm as árvores?» [risos]

«Daqui [de Barroselas], vamos para casa morrer.»

A conversa começava a ganhar traços de surrealismo, mas os Lich King falam a sério quando dizem que o que mais prezam é divertir-se. Álbum novo é sempre sinal de uma digressão a promovê-lo, mas o que será dos Lich King depois da tour europeia, seguida do domínio mundial e da subsequente macroexpansão cósmica? «Daqui, vamos para casa morrer», começa Westbrook, e continua: «Vamos pendurar as luvas, já chega!» [risos] Isso é muito… alegre – se pensarmos bem, isso é puro black metal. Por esta altura, ninguém conseguia manter cara séria ou não rir à gargalhada, mas Timney meteu ordem no caos: «Talvez uma digressão pelo nosso país, os Estados Unidos, já faz 4 anos que não fazemos uma digressão lá. Depois, e em princípio, gravaremos um vídeo.» Westbrook acrescenta que «talvez o novo álbum surja mais cedo do que o previsto». «Não sabemos que caminho iremos tomar, se gravaremos um EP ou umas covers ou talvez um projecto estranho. Mas queremos fazer uma tour nos E.U.A. este Outono, estamos a trabalhar nesse sentido, bem como em países onde ainda não tocámos, tipo Japão, México, países da América do Sul…»

Seja como for, os Lich King estão aqui para durar, certamente. Todos concordam, ao passo que Westbrook volta atrás com a cara mais séria do mundo e diz: «Talvez…», para gargalhada geral. Então, Timney faz a revelação da sua carreira: «Na verdade, eu odeio de morte estes gajos, por isso talvez eles estejam aqui para durar; já eu…» [risos]

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Marduk: a morte é cega (entrevista c/ Morgan)

Diogo Ferreira

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Foi em Junho de 2018, pela Century Media Records, que saiu “Viktoria”, o mais recente álbum dos bélicos Marduk e que será formalmente apresentado em Portugal em dois concertos já marcados para 2019. O primeiro acontece a 2 de Maio no Hard Club do Porto e o segundo a 3 de Maio no RCA Club de Lisboa.

Recordando uma entrevista que o mentor Morgan concedeu à Ultraje pela altura do lançamento de “Viktoria”, o sueco considerava que «todos os álbuns [de Marduk] são uma lição de como metal extremo deve ser feito». «Fazemos aquilo em que acreditamos e o que as pessoas pensam é com elas – é assim que vejo as coisas.» Tal como o recente trabalho, Morgan é um tipo espontâneo e veloz a responder às questões que lhe são impostas, e tudo isso espelha-se na forma directa como “Viktoria” é apresentado através de faixas muitíssimo orientadas à guitarra, sendo que cada riff e cada palavra cuspida por Mortuus são como um murro na cara. Ter uma atitude in-your-face é aquilo que, segundo o nosso entrevistado, a banda almeja sempre que grava um álbum. «Ainda é mais directo do que o anterior [“Frontschwein”]», admite Morgan. «Temos uma guitarra e isto é basicamente compor de uma maneira in-your-face – curto, agressivo e pesado em músicas de três minutos. É directo. É como um álbum extremo deve ser.»

“Frontschwein” data de 2015 e ainda está muito fresco por ser um álbum tão bom em vários anos de carreira, por ser imensamente atmosférico e por ter uma temática tão eficaz como a confrontação perante os horrores da guerra. Se fizermos uma ligação ao título, muitos podem achar que os Marduk viraram-se agora para o lado vitorioso da guerra com “Viktoria”. Nada mais errado. «Toda a gente tenta ver a vitória à sua maneira e acho que, no fim, só há uma personagem que sai vitoriosa: a morte. Queríamos um título frio, que funciona muito bem com o simbolismo da capa: simplista, gelado, duro. Queríamos um título simples e directo que fosse o reflexo da temática do álbum.» A capa de “Viktoria” pode parecer imediatamente descomplicada, mas podemos fazer tantas analogias: da cegueira da justiça ao tiro certeiro da morte, a lista de exemplos pode ser longa. Morgan mostra-se, mais uma vez, instantâneo: «Queríamos algo frio e com um estilo de propaganda. Ficámos presos à imagem e acho que funciona muito bem com o simbolismo do álbum. Acho que as pessoas se vão lembrar [de Marduk] quando virem a capa. Às vezes põe-se muita coisa no artwork, mas desta vez fizemos algo mais relaxado e velha-guarda.»

Se antes falou o artista, agora fala o crítico, o old-schooler, o mentor de uma das bandas mais importantes do black metal – mas uma coisa é certa: papas na língua é coisa que nunca demonstra ter. «Nunca quisemos saber de cenas e do que as outras bandas fazem. Não nos sentamos a discutir o que é popular – sabemos o que queremos fazer, deixamos a energia fluir. As pessoas têm medo de dizer o que pensam porque querem manter-se em grupos específicos. Para nós é sobre ter a liberdade total de se fazer o que se quer – que é o que sempre fizemos. Os limites das outras pessoas não são os meus limites, e não quero saber o que os outros fazem. Fazemos as coisas à nossa maneira.»

Quão longe irá Morgan para defender a sua arte? Não muito longe. Ou melhor, a lado nenhum. «Nunca a defendi, não tenho que a defender. Tenho orgulho no que faço, e se as pessoas têm um problema com isso, por mim tudo bem, estou-me nas tintas para quem tenta boicotar ou censurar. Prefiro passar por cima disso e continuar a fazer aquilo em que acredito. Nunca deixaria alguém dizer o que podemos e não podemos fazer. Se as pessoas têm um problema, está tudo bem – farei sempre aquilo que quero. É assim mesmo: ser verdadeiro e leal comigo mesmo.»

(Entrevista integral e original aqui.)

Os primeiros 50 bilhetes têm um preço especial de 18€. Depois de esgotados passarão a custar 20€ em venda antecipada e 23€ na semana do evento. Mais informações estão disponibilizadas nas páginas da Larvae e da Notredame.

 

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Mayhem: o novo “Grand Declaration Of War” (entrevista c/ Jaime Gomez Arellano)

Diogo Ferreira

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A 1 de Maio de 2000 era lançado “Grand Declaration Of War”. Era, naquele momento, a prova de fogo para os noruegueses Mayhem. Ainda que em 1997 já tivesse sido lançado o EP “Wolf’s Lair Abyss”, com Blasphemer na guitarra (que substituía assim o assassinado Euronymous) e com o regresso de Maniac à voz, “Grand Declaration Of War” tinha de marcar um novo rumo seis anos depois do histórico “De Mysteriis Dom Sathanas”.  E marcou! Marcou uma nova direcção da banda, mas também de todo o black metal – com este disco de 2000, os Mayhem foram além dos riffs obscuros corridos e transpuseram a barreira daquilo que seria um dogma dentro do estilo ao utilizarem arranjos próximos da electrónica e ao executarem uma estética vocal que ia para além do berro demoníaco, tendo nós um Maniac com cariz de homem que discursa.

“Grand Declaration Of War” – que segundo fonte da Season Of Mist é o álbum mais vendido da história da editora – atingiu a maioridade há poucos meses e com isso veio a intenção de lhe dar uma nova roupagem sonora. Para tal, os Mayhem recrutaram Jaime Gomez Arellano, conhecido produtor de origens colombianas, que tem no seu currículo bandas como Ghost, Paradise Lost, Sólstafir, Primordial ou Ulver. Sobre  o processo para o qual foi convidado, o homem por detrás de tantos álbuns que se tornaram um sucesso concedeu um breve momento da sua atribulada agenda para responder a três perguntas feitas pela Ultraje.

«Acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo.»

Quanto consideras “Grand Declaration of War” um marco icónico e quão orgulhosos estás por fazer parte desta nova edição?
Acho que o álbum mudou muitas coisas no black metal, e, sim, acho que é uma jóia. Sou fã de Mayhem desde a minha adolescência quando estava na Colômbia, por isso, para mim, foi uma honra trabalhar nisto.

Quão desafiador foi trabalhar com as fitas obsoletas para recriar o som para algo moderno?
Há um equívoco aqui. A ideia NUNCA foi fazer com que [o álbum] soasse mais moderno! A gravação foi feita para um formato digital antigo que nunca soou bem, sempre foi ténue e áspero. Mesmo que o original soasse bem, tinha aquele som fino e crocante. Fiz a remistura com equipamento analógico para fita analógica de modo a dar mais corpo e profundidade, além de dar o meu ‘toque’. A parte principal do trabalho foi tentar fazer com que a bateria soasse mais realista, porque a gravação foi feita com um kit electrónico com pratos reais. Eu e o Hellhammer [baterista] passámos muito tempo a fazer novos samples da bateria e a ajustar tudo manualmente para que soasse mais realista. O Maniac [vocalista] pediu para que a sua voz permanecesse igual à da versão original, por isso, cuidadosamente, combinei todos os efeitos e níveis o mais próximo que pude.

Quais foram os melhores elementos musicais que descobriste ao dar ao álbum um novo som?
O baixo! É quase inaudível no original. Algumas das partes do baixo são muito boas e destaquei-as, assim como reformular o seu som geral. Também foi divertido ouvir as faixas individuais da guitarra; acho que o Rune [Eriksen aka Blasphemer] é provavelmente o melhor guitarrista de metal extremo, tanto em termos de performance como de composição.

O disco será lançado a 7 de Dezembro pela Season Of Mist.

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Um metaleiro também chora (entrevista c/ Pedro Cova)

Pedro Felix

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«O meu nome é Pedro Cova, tenho 28 anos e sou natural da Mealhada. Neste momento estou a terminar o mestrado em gestão», começa assim a apresentação, estilo Casa dos Segredos, do jovem sossegado e simpático que conhecemos em Abril passado na excursão para o Moita Metal Fest. Desde que nos cruzámos com a página do Facebook “Um metaleiro também chora” que tivemos curiosidade em conhecer quem estava por trás dela. Muitas são as iniciativas que têm como base o metal e que não se consubstanciam na criação ou divulgação directa da música. Neste caso estávamos perante algo que nos é bastante querido – o humor. Mas a carreira do Pedro no mundo da divulgação metálica não começou aqui. «Experimentei tocar bateria e guitarra, mas fazer musica não é a minha praia», relembra antes de referir que a génese da página, que se dá em Novembro de 2014, passou por um desafio entre ele e um colega de licenciatura. Perante o surgimento de páginas como “Um beto também chora” ou um “Dread também chora” decidem criar uma também na mesma linha, e o Pedro, com o metal a correr no sangue, contrapõe a proposta de nome “Uma prostituta também chora” com o agora conhecido “Um metaleiro também chora”. «Fiz logo quatro ou cinco memes, do tipo “Quando estas vestido de preto e está um calor do caralho” ou “Quando estás em frente ao palco e queres ir mijar”», recorda. «No final do mesmo dia já tínhamos 100 likes. Após uma semana alcançámos os 1000 likes. Este número redondo deixou-me a pensar que isto tinha público interessado e comecei a publicar memes de forma regular.» Neste recuar à origem do nome, é peremptório quando refere logo de imediato: «E outra coisa, para mim é metaleiro que se diz, não gosto nada da expressão metálico.»

«Quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?»

O humor no metal tem sido debatido ao longo dos anos, com defensores e detractores a opinarem sobre se tudo o que é metal pode incorporar humor. «Para mim, o humor deve existir em todos os estilos de metal, sem excepções», refere-nos relativamente a esta questão, «mas não vou negar que existem estilos mais ricos em conteúdos, e há alguns estilos/bandas que me dão mais gozo fazer memes», reforçando que «uma boa dose de humor nunca fez mal a ninguém – temos músicos extremamente cómicos, até mesmo de géneros mais extremos. Por exemplo, quem nunca viu o Abbath a fazer “abbathices”?».

Mas o objectivo do autor com a página não passa apenas por criar humor tendo por base o mundo do metal. «A missão da página é fazer o movimento do metal crescer em Portugal», explica para depois dizer que acredita que não há publicidade negativa e, como tal, usa o humor para se falar no metal. Assim, começou a tirar partido da dimensão que a página tinha atingido para ajudar a dinamizar o som eterno. «Ultimamente tenho colaborado com bastantes festivais nacionais, tenho oferecido entradas para os eventos, t-shirts e descontos em bilhetes.» As próximas iniciativas passam por oferecer entradas para o Lord Metal Fest, Bairrada Metal Fest, Mosher Fest, entre outros. «Também promovo bandas e eventos na minha página», e em contrapartida cobra um preço simbólico. «Como normalmente as organizações têm orçamentos reduzidos, e como eu gosto de fazer parcerias win-win, costumo pedir sempre uma t-shirt. Como devem imaginar, tenho uma colecção gigante de t-shirts.»

Por falar em t-shirts, a oficial da página foi lançada recentemente e, segundo nos conta, tem sido bem acolhida. «O pessoal gosta da t-shirt», acrescentando: «Para além de comprarem ainda me dão os parabéns e dizem para continuar com isto. São estas coisas que me enchem o coração e me fazem continuar a fazer crescer a página.» E aproveita para fazer um pouco de publicidade: «Na compra da t-shirt tenho oferecido um sticker para colar no carro a dizer “Metaleiro a bordo”.» Para o futuro tem previsto novos desenhos e cores, para além de patches.

Manter uma página sempre a apresentar material novo não é tarefa fácil. Por esse motivo, o Pedro recorre a várias fontes. «Muitos [memes] são de autoria minha», explica-nos, «alguns são publicações de amigos no Facebook, do 9GAG, páginas de humor estrageiras e também os memes que me enviam por mensagem privada para a página». Relativamente a estes últimos, sublinha: «Costumo meter sempre o nome da pessoa que enviou.» Curiosamente, há mesmo situações em que os próprios memes geram memes: «Já tive bastantes comentários que viraram meme; recentemente fiz um a gozar com o Lars e nos comentários alguém disse “um relógio parado acerta mais vezes que o Lars nos tempos”. Fico contente por isso, vejo que seguem a mesma linha de pensamento da página.»

Mesmo assim, não é só reunir ou criar material que satisfaz o Pedro quando procura novos conteúdos para a página. Uma das grandes dificuldades, como ele nos explica, é «provavelmente encontrar bandas que todos conheçam. Gosto de fazer memes em que toda a gente perceba a piada, mas para perceber algumas é preciso conhecer a banda; não quero criar um nicho dentro do nicho, por isso é que se calhar os Metallica são os mais castigados na minha página». Outra dificuldade é a falta de tempo. A terminar o mestrado em gestão, ao ainda estudante sobra pouco tempo livre para se dedicar à página como gostaria, e antevê que, quando se lançar no mundo do trabalho, as dificuldades ainda sejam maiores, mas promete que «a página vai continuar a ter bons conteúdos».

«Ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer.»

Apesar de todas estas dificuldades, o promotor não pára na sua vontade de fazer crescer a página: «Neste momento estou a desenvolver um website, já tenho o domínio registado – ummetaleiro.com –, mas ainda não está activo», explica-nos em relação ao futuro. «Irá ter uma agenda de concertos de metal em Portugal e passatempos; estou a ampliar a minha rede de parceiros e também um local para vender o meu merch. Criei recentemente conta no Instagram, mas o meu core-business é o Facebook para já.» Contudo, o “Metaleiro” não se fica apenas pelo on-line. «Também ando para realizar um festival de metal na Mealhada, talvez para Junho 2019 o consiga fazer, pois ainda estou a reunir apoios», deixando o desafio: «Quem quiser juntar-se à equipa, o mercado de transferências está aberto!»

Depois do trabalho que tem sido feito, e com o alinhavar do que está para vir, Pedro Cova acha que os nativos da tribo metaleira «ainda são olhados com um pouco de preconceito, apesar de as mentalidades terem mudado de há uns anos para cá – para melhor, claro –, mas ainda falta algum caminho a percorrer». Sobre a cena em si, nota que «ultimamente têm surgido novos festivais de metal». «Acho que o metal está vivo e recomenda-se, e penso que a minha página ajuda o público a descobrir novos locais e a criar interacção entre os seus seguidores», concluindo: «Procuro convencer as pessoas a irem aos festivais e aos concertos. Ouvir só em casa não chega, é preciso estar lá presente!»

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