[Entrevista] Lich King: The Good, The Bad and The Lich | Ultraje – Metal & Rock Online
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[Entrevista] Lich King: The Good, The Bad and The Lich

rsz_img_3193Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

«A produção do novo álbum é um ponto de viragem em relação aos discos anteriores, pois queríamos algo mais cru, com uma sonoridade mais “ao vivo”.»

«Tens um telefone Microsoft! Tive um, agora tenho um Android», diz-me um inconformado Joe Nickerson, guitarrista, ao olhar para o meu smartphone. «Era um bom telefone, mas as apps…» Digo-lhe que, agora, é difícil arranjá-los, já que foram descontinuados. Assim começou uma das entrevistas mais hilariantes do meu currículo, embora pudesse ter começado com uma discussão acerca da questão da solidez entre duas marcas diferentes de gelatina – afinal, estes são os Lich King. Quem os segue nas redes sociais sabe que o que a banda mais preza é divertir-se, e isso levou-me a questionar a abordagem da entrevista: séria ou descontraída? Optei pela descontracção, e em boa hora o fiz.

Autores de um dos concertos mais insanos do XX SWR Barroselas Metalfest e que, a determinada altura, incluiu mais de 20 fãs em cima do palco a convite do vocalista Ryan Taylor, é fácil de entender o hype positivo em relação à banda de Massachusets: praticam um estilo de metal tremendamente popular, são excelentes músicos, fazem troça de tudo e de todos (principalmente deles mesmos) e, last but not least, lançaram em 2017 “The Omniclasm”, uma inovação total em termos de composição e produção na história dos Lich King e que, previsivelmente, será a solução final para acabar com a fome, com as doenças e com os impostos. É tão bom que imagino como têm sido as críticas ao álbum à parte de “visionário” e “a roçar o savantismo”.

[risos] «Têm sido péssimas!», [risos] começa Nickerson. Repito que disse “savantismo” e não “autismo” para gargalhada geral. Brian Westbrook, baterista, retoma a questão: «Têm sido óptimas. Tomámos outra direcção em relação à produção e à composição, e estamos bastante surpreendidos com todo o processo.» «Sem dúvida», continua Nickerson, «a produção do novo álbum é um ponto de viragem em relação aos discos anteriores, pois queríamos algo mais cru, com uma sonoridade mais “ao vivo”, e é engraçado porque não dizemos isto aos fãs, mas eles vêm ter connosco e dizem-nos que o novo álbum parece os concertos ao vivo, assim como que está à altura de “Born of the Bomb”, o trabalho anterior, e tipo, conseguir um álbum melhor do que esse seria… Difícil, honestamente, mas é o que nos dizem, que conseguimos.» Mike Dreher, baixista e talvez a face mais séria da banda, finaliza dizendo que «basicamente, [“The Omniclasm”] é um álbum mais rápido e furioso que o anterior, e correu bem.»

“The Omniclasm” é, de facto, uma proeza moderna que presta homenagem ao que melhor se fez nos anos 80, ainda que com uma toada obviamente moderna. Vio-lence, Overkill, DRI e Exodus são revisitados com um profissionalismo e catchiness de se lhe tirar o chapéu. Faixas como “Preschool Cesspool”, “Cut The Shit” ou “Take The Paycheck” funcionam como críticas, ao passo que “Crossover Songs Are Too Damn Short” e “Lich King VI: The Omniclasm” trazem ao de cimo o sentido de humor ridículo destes cinco miúdos norte-americanos. E como em cada álbum, os Lich King têm uma faixa intitulada “Lich King”, desta feita, e para variar, incluíram no novo registo duas faixas chamadas “Lich King” (V e VI). Melhor que uma, só duas. Será que no próximo trabalho haverá pelo menos 2 ½ faixas chamadas “Lich King”? Melhor que 2, só 2 ½, perguntem a quem quiserem.

rsz_img_3210Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

[risos] «Sabes, há um problema com a tua teoria», começa Nickerson. «Nas letras de “Lich King VI: The Omniclasm”, o Lich King descobre que já não existem mais coisas para ele destruir, por isso ele destrói a própria realidade, por isso, sei lá o que iremos fazer a seguir…» [risos]. Ou seja, adeus Lich King, adeus universo… [risos] «Eu quero fazer uma prequela», interrompe Westbrook. «Uma história por detrás da história, tipo os três primeiros filmes do Star Wars [risos], que são tão maus que acabam por ser bons.» [risos] «Procurem depois pelo nosso trabalho chamado “Jar Jar”, que vai ter riffs tão bons que me estou a cagar para que nome lhe vamos dar» [risos], acrescenta Nick Timney, o autor dos deliciosos solos dos Lich King. Ou seja, o próximo álbum pode-se chamar “Merda”, com as diversas faixas a chamarem-se “Merda”, “Merda, “Merda”, que vocês não querem saber desde que a música seja boa? «Exactamente» [risos], conclui.

No meio de tanta graçola, recordo-me de que, nos anos 80, o thrash tratava de uma variedade de assuntos: guerra nuclear iminente, sociedade, religião e tudo aquilo que estivesse errado. No entanto, todas as bandas arranjavam sempre algo com o que gozar, fosse sobre álcool ou sobre mandar bocas a diversas instituições, incluindo outras bandas. Em 2017, muitas pessoas que nem ainda eram nascidas em 1989 acham que as bandas não devem ser engraçadas ou gozar com qualquer situação, como que se o metal fosse sinónimo de seriedade. Pesquisando na internet, o que não falta são essas vozes que parecem ter uma opinião formada sobre tudo, mesmo que saibam pouco ou nada sobre o movimento. Assim, se em 2017 os Alestorm lançam um álbum que é pura diversão do princípio ao fim, são excelentes, mas se os Lich King escrevem uma ou duas faixas mais a gozar, são queimados por isso. Não faz sentido.

«O metal é suposto ser divertido. O thrash metal precisava de uns Manowar, e então nós aparecemos.»

«Pois. O que acontece é que se tu dás a mão a esse pessoal, eles agarram-te logo o braço», diz Nickerson. «Bem vistas as coisas, não há assim tantas faixas engraçadas quanto isso. Tocamos mais que outras bandas, sim, mas estamos a falar de 2 ou 3 faixas por álbum, uma sobre a nossa mascote, outra sobre um filme… Não são muitas, mas as pessoas exageram. Tipo… Que se fodam, meu! [risos]. O metal é suposto ser divertido. O thrash metal precisava de uns Manowar, e então nós aparecemos. Vamos divertir-nos com o metal, pá! Não precisa de ser tudo muito sério!» Westbrook concorda: «Prefiro divertir-me todos os dias do que ir para cima do palco e fazer de conta que sou uma coisa que não sou. Somos um grupo de totós; seria, até, estranho eu ir para cima do palco e aparentar ser evil… nah!»

Com tanta banda trve kvlt por aí, é compreensível que este pessoal queira é diversão. Contudo, tanta diversão chega a ser, por vezes, mal-entendida – que o diga Spike Cassidy, membro dos lendários D.R.I., e que respondeu online aos Lich King em relação a “Do-Over”, um álbum que parodia a capa do seminal “Crossover”. Westbrook ri-se de imediato. «Isso nem sequer chegou a ser um incidente.» [risos]. Certo, mas sendo os D.R.I. uma das bandas mais divertidas dos anos 80, não estarão eles a ser hipócritas? Os elementos retraem-se um pouco, mas nada como um empurrãozinho. Vá lá, vocês conseguem. [risos] «A MetalSucks escreveu um artigo sobre a cena com os D.R.I., mas o foco era um gajo que dizia ter sido roadie dos D.R.I. e que nos ameaçou e tal, e alguém perguntou ao Spike Cassidy se tinha havido autorização e ele disse que não – pergunta e resposta, só isso. Não me parece que os D.R.I. tenham pedido autorização para fazer uma paródia do logótipo dos Slayer.» Nickerson acrescenta que é «a Internet a inventar coisas, nada de novo».

rsz_img_3223Lich King @ XX SWR Barroselas Metalfest (Foto: José Félix da Costa)

Há um senão: estes putos totós, como eles próprios se denominam, são todos músicos de alta qualidade. Ou seja, ao contrário de muitas bandas que usam e abusam do humor para camuflar uma certa inaptidão, os Lich King não dizem que são bons: eles chegam e provam que são bons. Bom, o baterista é uma clara excepção à regra, mas toda a gente sabe que ele faz parte da banda por causa da sua beleza. [risos] «Sim, os meus muitos queixos ajudam» [risos], diz Westbrook. Tudo isto para dizer que parece que fazer música divertida, mas com a seriedade de um músico profissional, é compatível.

«Claro, tem que ser», começa Westbrook. «Viste a banda anterior, que meteu não sei quantas árvores em cima do palco?» Refere-se a Nader Sadek, um supergrupo que aposta imenso no aspecto estético sem deixar de contar com músicos de elite. «Quero dizer, imaginas a banda a transportar aquelas árvores toda num camião ao longo da tour?» [risos] Pois, ele deve ter apanhado o arvoredo todo aqui à volta; estamos rodeados por mato, mas entendo o que queres dizer. [risos] «E será que o cortou com uma motosserra?» Não faço ideia, nem estou a julgar. [risos] Westbrook retoma o assunto: «É trabalho a mais: não quero fazer isso, nem usar vestidos, nem corpse paint… Tipo…» Timney insiste: «A magia de tudo reside precisamente nesse ponto – de onde vêm as árvores?» [risos]

«Daqui [de Barroselas], vamos para casa morrer.»

A conversa começava a ganhar traços de surrealismo, mas os Lich King falam a sério quando dizem que o que mais prezam é divertir-se. Álbum novo é sempre sinal de uma digressão a promovê-lo, mas o que será dos Lich King depois da tour europeia, seguida do domínio mundial e da subsequente macroexpansão cósmica? «Daqui, vamos para casa morrer», começa Westbrook, e continua: «Vamos pendurar as luvas, já chega!» [risos] Isso é muito… alegre – se pensarmos bem, isso é puro black metal. Por esta altura, ninguém conseguia manter cara séria ou não rir à gargalhada, mas Timney meteu ordem no caos: «Talvez uma digressão pelo nosso país, os Estados Unidos, já faz 4 anos que não fazemos uma digressão lá. Depois, e em princípio, gravaremos um vídeo.» Westbrook acrescenta que «talvez o novo álbum surja mais cedo do que o previsto». «Não sabemos que caminho iremos tomar, se gravaremos um EP ou umas covers ou talvez um projecto estranho. Mas queremos fazer uma tour nos E.U.A. este Outono, estamos a trabalhar nesse sentido, bem como em países onde ainda não tocámos, tipo Japão, México, países da América do Sul…»

Seja como for, os Lich King estão aqui para durar, certamente. Todos concordam, ao passo que Westbrook volta atrás com a cara mais séria do mundo e diz: «Talvez…», para gargalhada geral. Então, Timney faz a revelação da sua carreira: «Na verdade, eu odeio de morte estes gajos, por isso talvez eles estejam aqui para durar; já eu…» [risos]

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