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Manes “Slow Motion Death Sequence”

Diogo Ferreira

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Editora: Debemur Morti Productions
Data de lançamento: 24 Agosto 2018
Género: avant-garde / rock / electro

Com 25 anos de carreira, os noruegueses Manes têm a cartada ideal para comemorar este aniversário – é um álbum e chama-se “Slow Motion Death Sequence”.

Com 25 anos de carreira – e este início de frase repetido é propositado –, os Manes não só não têm nada a provar como ainda se mostram artisticamente maturados e humildes ao ponto de apontarem influências contemporâneas, como In The Woods…, Solefald e Ulver.

Assim, e com muito avant-garde, à medida que o álbum cresce em nós, é imensamente evidente que a inclinação à pop faz parte dos nórdicos. Mas num muito bom sentido! Isto é, a bateria aliada aos loops electrónicos funcionam como uma dança síncrona entre dois pares muitíssimo bem treinados que sabem que o resultado final tem de ser emotivo e negro. Por outro lado, o grupo adiciona rock e algum metal com malhas de guitarra bem eléctricas e presentes em momentos críticos que desse instrumento necessitam.

Se a inaugural “Endetidstegn” pode ser indicada para fãs do som actual e mais amigável de uns Leprous, a seguinte “Scion” é como ouvir Karin Dreijer (The Knife, Fever Ray) em masculino, sendo que até o fundo sonoro cheio de loops repetitivos e melodias melancólicas se encaixam na personalidade vocal de Karin Dreijer, mas não esqueçamos que falamos de Manes.

Com base musical idêntica à dos mais recentes Árstíðir, mas ao contrário do que esses islandeses andam a fazer com composições quentes e aconchegantes, os veteranos Manes atiram-se para territórios mais inóspitos que carecem de calor amoroso e alimentam-se do queixume doente originado de algo que muitas vezes não nos quer deixar viver em paz – como por exemplo ataques de ansiedade e experiências de quase-morte. “Last Resort” é, assim, um tema indicado para quem já conhece Árstíðir, mas “Poison Enough For Everyone” já tem muito mais a ver com uns Manes inquietados e obscurecidos, enquanto “Building The Ship Of Theseus” nos entristece com um sentido de partida. Entretanto, a penúltima “Night Vision” é um casamento ménage à trois em que vão para a cama a dissonância, a veia experimental que percorre todo o disco e um jogo de vozes.

Com uma boa dose de música própria a destoar do mainstream, “Slow Motion Death Sequence” é um alinhamento ecléctico por vezes epiléptico, por outras eléctrico, mas sempre contagiante, mesmo na loucura da combinação de sons que se constrói ao longo de nove faixas. Os Manes estão garantidos para noites tardias em que seis horas sem dormir fazem crescer em nós o receio de andarmos zombies em mais um dia que se aproxima.

Nota Final

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Ancst “Abolitionist”

Diogo Ferreira

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Editora: Lifeforce Records / Yenohala Tapes
Data de lançamento: 16 Novembro 2018
Género: black metal / hardcore / crust

Mesmo a tempo de partirem para uma digressão norte-americana em Novembro com os Dawn Ray’d, os proeminentes alemães Ancst voltam à carga com o EP “Abolitionist”. Por esta altura do campeonato, e tendo em conta que a banda de Berlim existe desde 2011, os mais atentos adeptos de sonoridades extremas já devem estar a par do que esta banda é capaz.

Produtivos e eficazes no que fazem, esta proposta, que estará disponível em CD e vinil, não traz nada de novo ao som da banda, mas continua com a fasquia elevada naquela que é uma mistura sedutora e cativante de black metal moderno e hardcore/crust metalizado.

Motivados pelo sucesso underground que têm obtido, os Ancst mostram-se neste EP um pouco mais crus a nível de produção, mas em nada isso lhes retrai as capacidades criativas que têm para oferecer músicas ultravelozes repletas de riffs orelhudos e vocais raivosos que, como tem sido desde sempre, se debruçam nos problemas sociopolíticos mundiais.

“Abolitionist” acaba por ser uma combinação entre o passado não muito longínquo da banda e o presente que lhes proporcionou um enorme salto na carreira com o álbum “Ghosts of the Timeless Void” (Março, 2018). A máquina é jovem e não pode parar. Os Ancst sabem disso e estão a puxar por si próprios – os fãs agradecem.

Nota Final

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Unleashed “The Hunt For White Christ”

João Correia

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Editora: Century Media Records
Data de lançamento: 26 Outubro 2018
Género: death metal

É louvável que, ao fim de 29 anos de actividade, uma banda de death metal continue a surpreender como quando o fazia nos idos de 90. É o caso dos eternos Unleashed, banda pioneira do viking
death metal que lançou de rajada três álbuns fundamentais (“Where No Life Dwells”, “Shadows In The Deep” e “Across The Open Sea”) e que, com eles, ajudou a alicerçar o futuro do death metal sueco puro: inicialmente básico, mas pleno de originalidade/vitalidade, e porque os solos técnicos estavam quase sempre ausentes, os Unleashed tinham a capacidade de criarem riffs simples, mas imortais (quem não se recorda de temas como “Before The Creation Of Time” ou “To Asgaard We Fly”?). Eram tempos mais simples, tempos em que conseguíamos identificar uma banda pela produção e afinação de apenas uma guitarra, tempos em que cada logótipo era completamente distinto de banda para banda, em contraste com a actualidade.

A partir de 1995, os suecos extinguiram um pouco a sua chama inicial e caíram num limbo de incertezas. Mesmo no princípio dos 2000, os mestres pagãos poucos concertos davam fora da Suécia, excepção feita a concertos de grande dimensão (como o Wacken, em 2002). Ademais, o género de death metal praticado pouco evoluiu, o que quase fez da banda uma glória antiga com pouco ou nada mais a acrescentar. Porém, mais recentemente os Unleashed voltaram a provar de que massa são feitos quando lançaram o muito bem conseguido “Odalheim” (2012), um registo mais violento do que anteriormente e orientado para o death metal com toques de black sueco muito discretos, com uma produção e uma sensação de actualidade sempre com o death metal sueco clássico de fundo e, pasme-se, com solos de alta categoria, oscilando entre o caos e a melodia e, finalmente, os riffs de marca dos Unleashed. Desaceleraram para uma toada mais épica e lenta no álbum seguinte, “Dawn Of The Nine” (2015), mas continuaram a convencer com a crescente qualidade das composições. Tudo isto apontava para um sucessor à altura das lendas escandinavas.

Chegados a 2018, “The Hunt For White Christ” é uma rodela que apresenta todo o potencial de uma banda que fez do death metal o seu ganha-pão. “Lead Us Into War” – a primeira de 11 faixas cuja duração média é quatro minutos e que assenta arraiais na clássica declaração veni, vidi, vice – é um tema extremamente rápido que grita “UNLEASHED!” com todas as letras, principalmente graças aos riffs inconfundíveis de Tomas Olsson e aos solos de classe de Fredrik Folkare, que são caóticos, complexos e perfeitos. Esta fórmula repete-se a cada tema do novo registo, com a particularidade de não aborrecer ou de dar a impressão de dejá vu – “Stand Your Ground” (com a sua afinação de guitarras nitidamente sueca), “The City Of Jorsala Shall Fall” (com o seu compasso mais lento, o que permite a Fredrik demonstrar o quanto evoluiu, que aliás é uma constante em cada tema) ou a final “Open To All The World” (que coroa uma vez mais a cabeça dos verdadeiros reis do deah metal sueco) são temas que marcam e que nos apresentam ainda uma influência de death metal mais técnico extraído de outras paragens que a Escandinávia, com toques de Gojira e até de bandas norte-americanas aqui e ali. O contexto, esse, não varia – anticristianismo, paganismo, os feitos dos vikings e a eterna necessidade dos einherjar em tombarem honrosamente em combate para ascender gloriosamente a Valhalla.

Gravado e produzido nos Chrome Studios por Fredrik Folkare, “The Hunt For White Christ” é um trabalho algo improvável e que nos prova que os Unleashed não são apenas mais uma banda relevante da época de platina do metal extremo, mas sim um trabalho em progresso que logra surpreender mais e mais a cada nova audição e a cada novo registo. Feitas as contas, “The Hunt For The White Christ” vale pelo seu todo e pelos factores novidade (tendo em conta a banda de que se trata) e qualidade, sempre presentes em doses muito generosas e que fazem com que este seja um dos álbuns a ter em atenção dentro do género em 2018.

Nota Final

 

 

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The Casualties “Written in Blood”

Diogo Ferreira

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Editora: Cleopatra Records
Data de lançamento: 26 Outubro 2018
Género: punk rock

Fundados em 1990, chegamos a 2018 e nenhum dos membros actuais de The Casualties pode contar a história desde o início, ainda que o primeiro álbum “For the Punx” date apenas de 1997. O único original até há bem pouco tempo era o vocalista Jorge Herrera que abandonou a lendária banda de punk rock em 2017. A substituí-lo temos David Rodriguez que até empresta o seu conhecimento em línguas hispânicas ao longo do álbum, aqui e ali. Posto isto, Jake Kolatis é o elemento mais antigo, a tocar guitarra no grupo desde 1993, seguindo-se-lhe Marc Eggers na bateria desde 1995 e Rick Lopez no baixo desde 1998. E pegando neste último, refira-se desde já que o seu instrumento está muito bem representado ao ponto de se ouvir incessantemente e de forma preponderante em relação ao rumo que o ritmo e melodia dos temas ganham – o que é tão necessário e bonito de se ter no punk rock. Conceptualmente, a banda de Nova Iorque continua a desafiar as normas sociais e a querer derrubar a injustiça sociopolítica; já as riffalhadas mantêm-se coesas e corridas como a malta deseja no género e na banda, mas também podemos encontrar uma ou outra malha mais thrashy e leads mais rock n’ roll, o que não é de estranhar e até salpica o som dos The Casualties com as influências que ainda hoje Kolatis & Cia. têm dentro de si.

“Written in Blood” é um disco que pode não trazer nada de novo ao punk – salvo, porventura, um arranjo ao piano na faixa “Feed Off Fear” –, mas a essência honesta da música que tocam é intocável ao fim de 11 álbuns. Com uma produção limpa – os punks também merecem –, é impossível estar-se quieto a ouvir The Casualties, por isso não te assustes se as tuas pernas começarem a querer dar coices.

Nota Final

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