Mão Morta: de Norte a Sul, do Rock ao Metal (entrevista c/ Adolfo Luxúria Canibal) | Ultraje – Metal & Rock Online
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Mão Morta: de Norte a Sul, do Rock ao Metal (entrevista c/ Adolfo Luxúria Canibal)

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O SMSF sempre se pautou pela diversidade, a única regra é ser-se extremo independentemente de tipologias. Nesta edição, que se realiza entre 8 e 10 de Junho em Beja, tanto temos o death metal dos Krisiun, como o thrash metal dos Exodus ou o black metal dos Misþyrming, mas depois também há o rap de Fuse ou a poesia rockada dos Mão Morta. Com o instinto de se fazer uma antevisão do festival através de Mão Morta, Adolfo Luxúria Canibal ofereceu-nos um pouco do seu tempo para falar de “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” (2014), do rock português e, claro, da sua inclusão no cartaz do SMSF.

«Todos os discos e toda a música dos Mão Morta são activistas, no sentido em que questionam o mundo e o porquê das coisas.»

Consideram o álbum “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar” apenas activista ou estão abertos a considerá-lo mesmo próximo da esquerda política? Até há aquele pequeno clip “Dos comunas aos Mão Morta”…
Nem uma coisa nem outra, é apenas um álbum dos Mão Morta. Nesse disco quisemos essencialmente trabalhar o som, ver o que resultava de várias hipóteses de abrandamento do tempo. O resultado foi uma música pesada e opressiva, que desde logo sugeriu uma lírica angustiada, sufocada. Daí termos partido para uma história ficcional em que questionamos os limites do individual e do colectivo e a sua interdependência. Como ponto de partida utilizamos uma letra minha escrita originalmente em 1982 para os Auaufeiomau (“Irmão da Solidão”) e um verso do poeta surrealista português António José Forte (“Pelo meu relógio são horas de matar”), falecido em 1988. O facto de em 2014 Portugal estar sob um discurso mediático totalitário e economicamente sob os efeitos destrutivos de uma política ultraliberal austeritária criaram as condições para que a abstração lírica do disco ganhasse contornos de intervenção concreta. De facto, o único tema que tinha uma referência específica ao momento político que então se vivia, fazendo um paralelismo com a chamada ‘Primavera Marcelista’ do tempo da ditadura, era o “Os Ossos de Marcelo Caetano”, e era o menos agressivo e incomodativo de todos os temas do disco. De resto, todos os discos e toda a música dos Mão Morta são activistas, no sentido em que questionam o mundo e o porquê das coisas, e todos são próximos da esquerda política, seja lá o que isso for, porque o nosso posicionamento e o nosso ponto de vista sempre foi o do oprimido e sempre defendemos, mais do que a possibilidade, a necessidade de ultrapassagem desta organização social baseada na competição e na exploração desenfreadas. E se um dia fizemos um disco político, estritamente político, esse disco foi o “Há Já Muito Tempo Que Nesta Latrina o Ar se Tornou Irrespirável”, de 1998, em que abordamos a análise social de situacionistas e anarquistas – não este “Pelo Meu Relógio São Horas de Matar”, que é um disco de poesia, apenas poesia.

A era digital trouxe desinteresse às pessoas e o vídeo de “Horas de Matar” é muito forte e reivindicativo! Achas que haveria outro impacto se não existisse Internet e YouTube fazendo com que o vídeo se cingisse a apenas um ou dois canais de TV?
Certamente que o impacto seria outro, ou nem sequer existiria, porque o vídeo seria facilmente abafado – bastava não passar nas televisões, como aconteceu a outros clips dos Mão Morta no passado. Mas o clip também só teve o impacto que teve, independentemente da existência da internet e youtube, porque as pessoas estavam com necessidade de sentir que não estavam sós na sua ânsia de gritar «o rei vai nu!».

 

Estamos a comemorar os 25 anos do álbum “Mutantes S.21”. Tendo isso em conta, o que terá de especial o concerto no SMSF?
O concerto no SMSF não é um concerto comemorativo dos 25 anos do “Mutantes S.21”. Estes, para além de incluírem todos os temas do álbum e outros relacionados com a sua temática urbana, terão uma encenação visual particular com a projecção de ilustrações desenhadas especialmente para esses temas por alguns dos melhores ilustradores nacionais. Já o concerto no SMSF será um concerto com o alinhamento delineado para 2017, em que se incluem alguns temas do “Mutantes S.21” e muitos outros saídos de toda a discografia dos Mão Morta.

Os Mão Morta não serão estranhos a ambientes menos familiares ao som da banda, mas como vêem partilhar o dia no SMSF com grupos como Krisiun e Urfaust?
Vamos fazer o nosso concerto. Gostamos da diversidade sonora e acho que do contraste inerente às diferenças saímos todos bem mais enriquecidos. Pelo menos, nós gostamos de aprender com o que os outros fazem de diferente…

«Tocarmos num festival metal é uma honra!»

Ou coloquemos isto de outra forma: os Mão Morta são uma banda “perigosa”, portanto até será impecável ter-vos num festival maioritariamente metal, não?
Os Mão Morta não são uma banda “perigosa” – nem sei o que isso é, uma banda “perigosa”!… Existem bandas perigosas? Perigosas como? Para quem? Quanto a tocarmos num festival metal, é uma honra! Nós não somos uma banda metal, mas incorporamos na nossa música muitos elementos tidos como de metal e temos mesmo um ou outro tema que se aproxima da tipologia metal ou hard rock. Faz parte do nosso universo musical. Como disse atrás, gostamos da diversidade e achamos do mais enfadonho ouvir só bandas do mesmo género, todas iguais e que tocam músicas todas iguais, sejam de metal, psicadélicas, post-rock, urbano-depressivas ou qualquer outro género. Preferimos misturar isso tudo!

Vindos de uma época muito produtiva em relação à criação musical em Portugal, achas que o rock português perdeu a dita perigosidade e anseio pela mudança? Quero dizer, só se ouve sobre sol, céu, bairros bonitos, amores possíveis…
É verdade, mas sempre foi assim! Mesmo nos anos 80, quando as coisas ainda não estavam formatadas porque tudo era uma novidade e a criatividade e a originalidade eram valores absolutos, o rock português – e todo o rock, em qualquer parte do mundo – era maioritariamente conformista e superficial. No fundo, é olhado e tratado como entretenimento! O rock como obra de arte ou como matéria de expressão revolucionária ou de ruptura é – e sempre foi – uma excepção, não a regra.

Recorda AQUI o feature “As mentes brilhantes da nossa música – Isto não é sobre heavy metal” em que, entre outros, se inclui Adolfo Luxúria Canibal.

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