Merrimack: Amor pelo Fim (entrevista c/ Perversifier) – Ultraje – Metal & Rock Online
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Merrimack: Amor pelo Fim (entrevista c/ Perversifier)

Merrimack-05-small-Alizee_AdamekFoto: Alizee Adamek

«A nossa intenção era regressar às raízes do black metal da segunda metade dos anos 90.»

O esquadrão francês Merrimack há muito que é tido como um dos estandartes da cena black metal do seu país, uma banda de culto no nicho do género também mais voltado para o kvlto. Perversifier, único membro restante da formação original da banda, respondeu às questões da Ultraje, começando por falar da mudança de atitude e, um pouco também, da sonoridade base dos Merrimack: «Este álbum é muito diferente do “The Acausal Mass”, pretendíamos mudar o nosso som. Queríamos algo menos denso, menos moderno, mais espontâneo e fácil de digerir.» Missão cumprida: “Omegaphilia” é exactamente isso em comparação com o que a banda sempre nos ofereceu, uma abordagem mais crua e sem pudores. «Queríamos algo que soasse natural; por exemplo, não há edição de bateria no disco», mas esta ideia tinha um propósito em mente, como Perversifier expõe: «A nossa intenção era regressar às raízes do black metal da segunda metade dos anos 90. Simplificámos a estrutura dos nossos temas e não hesitámos em usar riffs simplistas, mas altamente eficazes e inspirados. Também decidimos fazer o álbum mais curto que os anteriores, para que o ouvinte não se saturasse e o pudesse aproveitar da primeira à última nota.» Foi esta perspectiva de mudança que deu origem a temas como “The Falsified Son” e “Apophatic Weaponry”, que revelam um black metal bestialmente agressivo e minimalista, ainda assim possuidor da tenebrosa atmosfera que é parte da indumentária do grupo.

Ainda sobre o novo disco, houve lugar para um esclarecimento sobre a sua capa e nome. Nas palavras de Perversifier, «”Omegaphilia” pode ser traduzido como ‘amor pelo Fim’, o culto da morte, a veneração da Aniquilação. Que melhor pode representar o amor pelo Fim do que uma imagem exprimindo o ódio pela origem, a rejeição do nascimento com um feto/útero crucificado em sacrifício?» Uma capa muito mais visceral que o habitual, que fez o artista que a desenhou – Dehn Sora – comentar que se parecia mais com uma capa para uma banda de death metal. «É muito diferente daquilo que ele habitualmente faz», informa Perversifier, «mas essa é a parte interessante de quando fazes arte, a de sair do caminho habitual», tal como aconteceu com o novo registo da banda.

«A banda está agora muito mais profissional e experiente do que há 10 anos atrás.»

Com toda esta mudança de abordagem, até dá para questionar se também existiram mais mudanças internas nos Merrimack, uma vez que esta era uma banda cuja renovação dos seus membros entre álbuns era prática habitual; no entanto, desde 2010 que a formação é estável, conforme dito pelo guitarrista e fundador: «É a melhor formação que Merrimack alguma vez teve. A banda está agora muito mais profissional e experiente do que há 10 anos atrás. A nível pessoal damo-nos todos muito bem, cada membro participa na composição dos temas, trazendo o seu toque pessoal e influências à nossa música, por isso espero que assim continue por muitos mais anos.» Palavras do único membro original que sobra, o qual se considera um agente da coesão da banda: «Eu sei melhor como deve Merrimack soar, e em que direcção deve seguir», contudo, «sou considerado pelos outros como o líder da banda, mas dou-lhes imenso espaço para se expressarem e todos contribuem imenso para a imagem da banda». Ainda descrevendo como estão as tarefas divididas internamente: «O Vestal [vocalista] escreve as letras por si; quanto à música, é composta por Daethorn [baixista], A.K. [guitarrista] e por mim. Tenho a palavra final quando se decide se se mantém um riff ou se se abandona outro, ou se a estrutura da canção deve ser modificada. Mas quase nunca preciso de usar este privilégio. Existe coesão autêntica na banda.»

Está então comprovada a existência de uma saudável estabilidade e liderança dentro da banda, o que não implica que não existam outros obstáculos a vencer. Um deles é a própria composição musical, a qual Perversifier afirma que desde sempre foi um grande desafio devido a nem sempre ser fácil encontrar inspiração e ao grau de exigência que determinam sobre si mesmos. «É ainda mais difícil quando queres mudar de direcção. Leva tempo a assentar as novas fundações para que agradem a todos os elementos da banda», daí «um tema poder demorar mais de um ano até alcançar a sua forma final».

Em mais de vinte anos de carreira, os Merrimack já percorreram muitos palcos – o nosso SWR foi um deles –, sendo que as melhores memórias que Perversifier tem desses muitos espectáculos foram os que aconteceram na Sérvia e na Roménia em 2003, com os Krieg a seu lado: «Estes países não estão habituados a terem muitas bandas estrangeiras de black metal a tocarem, portanto foi algo em grande», comenta o líder dos Merrimack. «Também tocámos perante um pequeno, mas completamente doido, público em Padova/Itália, em 2009, com os Inquisition. Mas devo admitir que, no geral, o público de black metal é bastante frio e estático. O pessoal não faz mosh nem stage diving», confessa Perversifier, se bem que aceita e aprecia o facto do público normalmente ficar hipnotizado com as performances da banda e da atitude raivosa de Vestal.

«Todos conhecíamos pessoas que estavam neste espectáculo dos Eagles of Death Metal. Sentimo-nos magoados.»

Um outro triunfo que os Merrimack conseguiram recentemente foi a mudança de editora, tendo deixado a AFM Records – «não era a editora certa para uma banda de black metal e não tinham os melhores meios para a distribuição deste tipo de música» –, estando agora na reconhecida Season of Mist; apesar de ainda ser cedo para uma avaliação da editora, Perversifier considera-os «bastante profissionais». «Não estávamos habituados a lidar com uma editora tão bem organizada.»

Por fim, sendo franceses, os trágicos atentados terroristas que se sucederam nos últimos tempos no seu país não os deixaram incólumes, especialmente o que aconteceu no Bataclan durante o concerto de Eagles of Death Metal. «Todos conhecíamos pessoas que estavam neste espectáculo dos Eagles of Death Metal. Sentimo-nos magoados pessoalmente, mas bem, as pessoas não pararam de ir a concertos», mostrando a atitude de honra e perseverança que marca muitos dos seus compatriotas: «Não mudámos os nossos hábitos, continuamos a viver da mesma maneira que antes.»

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“Omegaphilia” será lançado a 9 de Junho pela Season Of Mist.

Links: Facebook, Season Of Mist, Shop.

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